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3. Playboy, o “xis” da questão

3.7. Preconceito, representação e representatividade

Parte desta pesquisa foi escrita, não por acaso, em terras baianas. Durante alguns dias na capital Salvador, foi possível constatar a presença significativa de modelos negros em peças publicitárias espalhadas pela cidade. Ao representarem a grande maioria do povo soteropolitano, não geram apenas representação, mas, também, representatividade, tendo em vista que praticamente todas as peças publicitárias são compostas de modelos negros. A curiosidade fica no questionamento: por que isso acontece na Bahia? Por que no Rio de Janeiro e em São Paulo a grande maioria dos modelos e das modelos é branca?

A resposta está novamente na pesquisa de Sodré, que argumenta queo capital não atinge o vínculo, ou seja, o comum produz um espelho comum para fingir produzir representatividade, quando, na verdade, busca garantir a representação, mas de uma forma distorcida e perigosa. Ao fingir incluir o negro entre modelos ou repórteres, faz com que o sujeito de cor negra se imagine na condição daquele que, nos minutos em que está na tela, o representa. Mas ao terminar a gravação ou a participação ao vivo em um veículo de imprensa ou uma peça publicitária, a rua, no cotidiano, vai domesticá-lo, já que o lembra silenciosamente, sem que ele se dê conta, muitas vezes, qual é seu lugar de fato na sociedade. Esse discurso enganoso de possibilidades é limitado pela impossibilidade de reflexão de que o cenário exterior é estático e imutável.

O que fazem os veículos de comunicação diante da cobertura das ações e da vida de Celso Pinheiro Pimenta senão mostrar que o estranho está dentro da normalidade e esse entendimento é a única forma de manter as coisas – símbolos –em seu devido lugar? A imprensa parece ter decidido elaborar uma quantidade significativa de matérias – no caso de Playboy – para tratar da vida pessoal de um criminoso, por meio de um contexto de normalidade diante de coberturas policiais, mas que, na verdade, procuraram, sem alarde, destacar a incoerência do fato de Playboy ser um criminoso. Não por acaso pode-se questionar esse ponto de vista, ao analisar um movimento de

154 excepcionalidade não em Celso Pimenta ou em Playboy, mas na passagem de um para o outro, o que parece se destacar das narrativas sobre Beira-Mar e Luciano Pezão.

Assim, esta pesquisa discute a construção simbólica proposta pela imprensa diante da crença de que o sujeito branco, rico e morador do asfalto não pode ser tratado como criminoso. É possível, com base na comprensãode que muitas pessoas, ao reproduzirem o discurso de que bandido bom é bandido morto, provavelmente não o façam, mesmo que intuitivamente, diante da condenação em transitado e julgado de políticos e empresários, mas, sim, para o traficante, compreendido ainda e apenas como o todo de parte de um processo de tráfico, parte esta oriunda da favela, de cor negra e de família pobre. No entanto, torna-se igualmente importante deixar claro que esta pesquisa não defende a pena de morte para o criminoso condenado em transitado e julgado, independentementede cor de pele ou condição social e econômica, entretanto, é fundamental produzir debate sobre as percepções oriundas do caso, ante o interesse deste pesquisador.

O que chamou a atenção dos veículos de comunicação do Brasil, sobretudo do Rio de Janeiro, pela infância de Celso Pinheiro Pimenta antes de ele se tornar Playboy não parece ter sido obra do acaso. A perspectiva de Sodré (2014) em A ciência do

comum deve, mais uma vez, ser considerada de forma relacional com esta análise.

Quando o autor destaca que mesmo onde a representação não se traduza em representatividade o capital cumpre seu papel e, apesar de não chegar ao vínculo, cria a relação, a narrativa midiática procura cumprir essa função propondo ao sujeito acreditar na representatividade da criminalidade, como se ela pudesse ser personificada.

A ideia aqui é, mais uma vez, considerar os conceitos de representação e representatividade, sob a ótica de que o discurso hegemônico procura criar no sujeito uma identificação, produzida sob uma falaciosa sensação de representatividade. Estamos em um processo em que muitos de nossos negros favelados não se veem fora da perspectiva limitadora indicada por essas narrativas, deixando confortavelmente os brancos de classe média e classe alta na posição simbólica fora desses limitadores sociais.

Parece inegável a influência dos meios de comunicação, sobretudo nos dias atuais, em nossa sociedade. Tal atuação Sodré (2009) já questionara ao analisar a apreensão das sensações dos sujeitos,por meio das narrativas produzidas pelos veículos

155 de comunicação. A apreensão de sua consciência, em determinados momentos, traz reflexos em seu comportamento, o que, em última análise, impactaem sua interação social. É a materialização do discurso hegemônico, cuja função é a orientação da realidade, que, por mais que nem sempre se confirme – e quase nunca se confirma –, produz êxito ao se manter inabalada na visão de mundo que o sujeito acredita realmente ter.

Ainda que a história mostre essa impossibilidade, as relações podem continuar alimentando – sob forte influência midiática – essa realidade falaciosa, contribuindo, assim, para a perpetuação do preconceito, conforme nos lembrou Heller (2004),que, posteriormente, se torna quase que imbricado no processo de estereotipia, como analisou Allport (1973).Não estamos tão longe assim do estigma de Goffman(1988),em que a produção discursiva atua como perpetuação da ideologia da classe hegemônica.A relação parece estar estabelecida diante das matérias jornalísticas produzidas sobre Playboy, em comparação com as narrativas midiáticas sobre Fernandinho Beira-Mar e Luciano Pezão.

Compreender a visão de jornalistas fora de seu ambiente de trabalho, quando não estão submetidos à rotina estressante em que a capacidade reflexiva está limitada às condições de velocidade tecnológicas, somadas à disputa da concorrência, parte-se do pressuposto de que tais discursos, ao permanecerem no senso comum, também encontram conformismo. Essa análise pode estar atravessada pela tímida representatividade de negros favelados nas redações jornalísticas, no entanto, parece encontrar sinais de evidência de acordo com o conceito de Hellerde conformismo, ao considerar a perda das concepções individuais diante das características do grupo social no qual o sujeito está inserido, materializado nas interações com outros sujeitos e na reprodutibilidade da eficácia da ideologia conceituada por Althusser (1985).

Logo no momento em que jornalistas se valem da condição de influenciadores sociais – vale lembrar aqui mais uma vez o capital simbólico de Bourdieu(1989) – e agem como reprodutores de uma lógica de dominação, estão a serviço da classe hegemônica e, ao não se darem conta dessa situação, mostram a fragilidade com que ficam submersos pelo poder simbólico, novamente recorrendo a Bourdieu.

Assim como os jornalistas aqui analisados localizam o medo pela personificação da criminalidade, as matérias dos veículos de comunicação também o fazem quando

156 destacam a infância de classe média de um criminoso que, a despeito de ter estudado em escola particular na zona sul do Rio de Janeiro, tornou-se bandido. A reportagem de Henrique Coelho para o G1 talvez seja a mais emblemática para esta pesquisa.

O título da matéria já demonstra a realidade que se deseja produzir:“Antes do crime, Playboy tinha notas baixas e perfil normal na escola.”.É interessante perceber o uso da conjunção coordenada aditiva e, que dá uma conotação lógica sequencial. Essa proposta mostra-se incoerente do ponto de vista morfológico, mas pode estabelecer certa lógica semântica, já que a ideia é considerar que Celso Pinheiro Pimenta não possuía nenhum atributo que o condicionasse ao ingresso no crime organizado,pois, diferente de Beira-Mar e Luciano Pezão, cujo desempenho escolar é visto como determinante nesse processo, como Playboy, essa característica pode ser ignorada, tendo em vista que a principal qualidade destacada de Celso Pimenta está em sua condição social.

Por isso, acredita-se que há um não dito, conforme análise de Orlandi (2015): o fato de Celso Pinheiro Pimenta possuir notas baixas não deve se relacionar com a possibilidade de ele se tornar um criminoso. Afinal, diferente de Luiz Fernando da Costa, em que a única saída para um preto, pobre e favelado está no bom desempenho escolar, no caso do aluno branco, de classe média e que estuda em uma escola particular de Laranjeiras, a performance escolar ruim se configura, no máximo, um aborrecimento para os pais, que vão buscar uma solução para o impasse, como encontrar outra escola para o filho. Esse movimento – que também atende a uma ordem mercadológica – foi feito pelos pais do menino Celso Pimenta, e este pesquisador tomou conhecimento dele por conta das matérias jornalísticas dedicadas a Playboy, cuja informação é sonegada em relação a Beira-Mar e Luciano Pezão.

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Fonte: G1.64

Imagem 30:Matéria sobre a trajetória de Playboy.

61Matéria de11/08/2015. Disponível emhttp://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/08/antes-do-

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Fonte: G1.65

Imagem 31:Matéria sobre a trajetória de Playboy.