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3. Revisão da literatura

3.1. Problemáticas emergentes

Segue-se uma caracterização de cada uma das categorias e uma apresentação das questões em foco nos textos que lhes foram associados.

A. A reconfiguração do ensino superior sob os efeitos da globalização e do pensamento neoliberal

Nesta categoria integra-se um conjunto de textos que abordam os efeitos da globalização económica e do pensamento neoliberal e a relação destes com o PB. Nestes textos é possível distinguir duas perspetivas: a primeira encara o PB como fator de globalização e influência política no mundo global; a segunda vê o PB como instrumento de um novo referencial que coloca o ensino superior ao serviço da economia com a consequente perda de autonomia da universidade.

8 A estes textos adicionou-se 8 publicações (Nóvoa & Lawn, 2002; Lawn & Nóvoa, 2005;

Antunes, 2006b, 2007, 2008; Lima, 2010; Lima & Guimarães, 2011; Lawn & Grek, 2012; Sin, 2012a) que, não estando incluídas nas bases de dados consultadas, foram consideradas relevantes para o objetivo da revisão.

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As questões surgem muitas vezes associadas e acopladas nos vários textos, pelo que as listas dos autores associados às diferentes problemáticas contêm por vezes inevitáveis repetições.

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No âmbito da primeira perspetiva, é possível incluir textos que abordam os processos políticos decorrentes da globalização e os seus efeitos na política e no governo das instituições, tais como: a Nova Gestão Pública e o gerencialismo (Amaral, 2009); as interações entre internacional, regional, local (Watson, 2009; Garben, 2010; Moutsios, 2013); os efeitos, na UE, da economia do conhecimento na criação de instâncias de governação setoriais (Gornitzka, 2010) e na diversificação de atividades e de funções do ensino superior enquanto setor (Dale, 2010); a agenda globalmente

estruturada para a educação (Dale, 2000; Antunes, 2005, 2006a, 2006b).

Especificamente ao nível das universidades, é focado a introdução do mercado como instrumento de política pública e a estratificação das instituições motivada pela competição (Amaral, 2009; Teelken & Wihlborg, 2010); o PB e a competição internacional do ensino superior (Charlier & Croché, 2007; Palfreyman, 2008); a garantia da qualidade levada a cabo por agências de acreditação (Amaral & Magalhães, 2004).

No âmbito da segunda perspetiva, pode incluir-se textos que abordam questões relacionadas com a influência do novo referencial na sociedade e na educação: o PB como parte da estratégia da globalização económica e do pensamento neoliberal (Robertson, 2009; Doh, 2008); a desresponsabilização do Estado em áreas sociais, designadamente no emprego, na educação e no ensino superior; a mudança da ênfase do emprego para a empregabilidade e a aprendizagem ao longo da vida como uma necessidade e responsabilidade individuais (Amaral & Magalhães, 2004; Lima & Guimarães, 2011; Puhakka, Rautopuro & Tuominen, 2010; Moutsios, 2013).

Paralelamente, surgem textos que abordam mais específicamente questões do ensino superior, tais como, as alterações que o PB, sob a influência da globalização e das políticas neoliberais, provocou no conceito de autonomia académica, transformando as universidades em empresas ou unidades de negócio competitivas (Lima, Azevedo & Catani, 2008; Moutsios, 2013); a “modernização” da universidade e o novo papel do ensino superior na oferta de uma formação orientada para o desenvolvimento económico, transferência de conhecimento e promoção de inovação empresarial (Dale, 2008; Moutsios, 2013); a teoria neoliberal e a introdução do epistema da

22 eficiência (Croché, 2008); o desafio da globalização económica e a preservação dos valores académicos tradicionais (Habti, 2010).

B. Análise dos processos de europeização do ensino superior

Esta problemática incide sobre as políticas europeias para a educação e o ensino superior tendo em vista a convergência dos sistemas. Os textos são enquadrados pelas abordagens cognitivas e construtivistas, neoinstitucionalistas e da sociologia cultural e levantam questões relativas aos processos postos em marcha: os atores que participaram e porquê, como decorreram os processos, que métodos e instrumentos foram usados e os efeitos identificados.

São abordadass as novas relações de poder no seio da UE, em razão da consolidação da Europa como região política e, novamente, da influência de um novo referencial.

Incluem questões como:

1) O domínio progressivo das políticas supranacionais da educação sobre as políticas nacionais (Nóvoa, 2005; Antunes, 2008; Grek, 2008; Lima, Azevedo & Catani, 2008; Lawn & Grek, 2012); os novos desígnios e as novas regras que se impõem num plano supranacional aos estados nação através do discurso e de novas imagens (Lawn, 2002; Nóvoa, 2002, 2005; Grek, 2008, 2014);

2) Questões relacionadas com a criação de um espaço político novo, como a construção da Europa em termos de uma nova “entidade política” regional (Robertson, 2010); a governança multinível do PB e a emergência de um novo espaço de ação pública, em que é focado: as razões que levaram os Estados membros a anuirem à política supranacional do PB (Croché, 2008, 2009a; Gaston, 2013); a interferência da UE e o papel da CE numa área de responsabilidade nacional (Huisman & Wende, 2004; Martens, Balzer, Sackmann & Weymann, 2004; Litjens, 2005; Keeling, 2006; Tomusk, 2006, 2011; Veiga & Amaral, 2012; Antunes, 2005, 2006a, 2006b, 2007; Pechar, 2007; Dale, 2008); a criação de um novo espaço europeu de ação pública e de decisão política (Muller & Ravinet, 2008; Croché, 2009b; Huisman, Stensaker & Kehm, 2009);

23 3) Os novos modos instrumentos de governança e a criação de redes e “espaços” de governança como método de governo multinível (Lawn & Normand, 2015); os conceitos de europeização, internacionalização e globalização (Teichler, 2004); os novos instrumentos de governança soft que levaram ao conceito do “European learning space” (Lawn, 2006) e a padronização que dá forma ao sistema sem sistema que atravessa a educação e a aprendizagem (Lawn, 2011).

C. Modos e instrumentos de governação e coordenação do PB

No âmbito desta categoria surge um conjunto de questões centradas na governança do PB, consonante com os modos de governação postos em prática a partir da Estratégia de Lisboa. É salientado que a Estratégia de Lisboa inaugurou um novo tipo de governança regional multinível, com novos métodos e novos instrumentos. São especialmente usadas perspetivas do neoinstitucionalismo sociológico, evidenciando que os processos de governança transnacional facilitam a comunicação, a tradução e a transferência de práticas.

São evidenciadas as seguintes questões: a emergência de instâncias de governação supranacional, regionais e internacionais (Robertson, 2009); o surgimento de uma nova arquitetura governativa a partir da Estratégia de Lisboa (Capano & Piattoni, 2011); os jogos de interesse e de poder entre os governos nacionais e a CE (Huisman & Wende, 2004); estratégias e instrumentos de governação e de coordenação de políticas numa era de governança soft, em que as estruturas e os órgãos de representação democrática dão lugar a redes, círculos de peritos, benchmarking, avaliação por pares, prestação de contas e acreditação internacional (Saarinen, 2005; Gornitzka, 2006, 2007, 2010; Keeling, 2006; Lima, Azevedo & Catani, 2008; Neave & Amaral, 2008; Ravinet, 2008; Veiga & Amaral, 2012; Brøgger, 2016), a adoção do MAC e as limitações do mesmo (Gornitzka, 2006; Veiga & Amaral, 2006; Rodin, 2009; Amaral & Veiga, 2012); a governança do PB como ontologia política (Brøgger, 2016); o caráter antidemocrático da governança do PB, fora dos órgãos da UE (Garben, 2010); o papel da CE e as razões da sua importância crescente no conjunto dos atores. (Martens et al., 2004; Croché, 2006, 2008, 2009a; Corbett, 2011); o PB como um processo de comunicação transnacional (Heinzel & Knill, 2008; Saarinen, 2005, 2008; Vögtle, Knill & Dobbins, 2010; Vögtle & Martens, 2014).

24 D. O referencial subjacente ao PB

Os textos sobre o referencial do PB partem de abordagens cognitivas e analisam o quadro cognitivo do PB quer a partir de conceitos que circulam nos documentos relativos ao mesmo quer a partir de conceitos que os questionam.

Os conceitos são analisados enquanto portadores de valores, mobilizando imagens, novos desígnios e novas regras que se impõem num plano supranacional aos estados nação com uma sensação de inevitabilidade e definindo o que é estabelecido como:

lifelong learning em articulação com a empregabilidade; mobilidade como uma nova

forma de cidadania europeia (Lawn, 2002; Nóvoa, 2002, 2005), comparabilidade, que inclui indicadores, padrões, resultados, dados e conhecimento, que se institui como regulação e uma nova forma de governação.

É claramente identificado um novo referencial de economia competitiva baseada no conhecimento que implica mudanças sociais e novas formas de exercício de poder político sobre os cidadãos. Este referencial global, que define o referencial setorial do ensino superior, é referido como atribuindo a este um papel utilitário ao serviço da eonomia (Ravinet, 2008; Muller & Ravinet, 2008; Moutsios, 2013). São igualmente referidas tensões entre o referencial de mercado da UE e a autonomia universitária, na base dos desenvolvimentos do PB (Gornitzka, 2010).

Na justificação da ampla aceitação do PB é ainda mobilizado o conceito de

governamentalidade, enquanto forma de levar os indivíduos a implementar decisões

com as quais muitas vezes não concordam, mas às quais não conseguem opor-se (Kupfer, 2008; Fejes, 2005, 2008; Croché, 2008; Tuschling & Engemann, 2006).

E. Os vários atores e as diferentes interpretações do PB

Trata-se de um conjunto de textos que, sobretudo a partir de abordagens neoinstitucionalistas e teorias da implementação, analisam os diferentes atores que atuam aos diferentes níveis políticos do PB - supranacional, nacional e local - e a sua ação. Os textos dão conta das diferentes interpretações e de como essas interpretações e os interesses dos vários atores envolvidos dão azo a diferentes traduções dos objetivos do PB nos vários contextos.

25 É especialmente focado, ao nível dos processos que ocoreram, os papéis e as ações dos vários atores nacionais e supranacionais (Zgaga, 2013; Dale, 2009; Lažetić, 2010); a diferença entre as alterações ao nível da estrutura, impostas por legislação, e a implementação de novas práticas resultantes das interpretações dos atores institucionais (Veiga, 2010, 2012; Veiga, Amaral & Mendes, 2008; Veiga & Amaral 2009; Neave & Veiga, 2013; Sin, 2012b, 2014b); o desfasamento entre os relatórios do BFUG sobre o desenvolvimento do PB e as realidades nacionais (Neave & Amaral, 2008; Teelken & Wihlborg, 2010).

Ao nível das representações e interpretações, é focado os diferentes objetivos nacionais para a implementação do PB que provocaram alterações nos respetivos sistemas de ensino superior e que se traduziram em níveis diferentes de implementação (Pusztai & Szabó, 2008; Sin & Saunders, 2014); a importância das diferentes interpretações e objetivos dos atores aos vários níveis de responsabilidade pela implementação do PB (Witte, 2006; Kehm, 2010); as interpretações diversas e a recontextualização do PB no plano nacional de vários Estados membros (Huisman & Wende, 2004; Ursin, Zamorski, Stiwne, Teelken & Wihlborg, 2010; Sin, 2012b, 2014b; Sin & Saunders, 2014; Karseth & Solbrekke, 2010).