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1 ENCAMINHAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS: ETNICIDADE, CULTURA, NAÇÃO E NACIONALISMO.

1.1 ENCAMINHAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

1.1.1 Procedimentos de pesquisa – entre manás e discursos

A partir da definição e da delimitação da temática, pensamos os aspectos teórico- metodológicos. Nosso caminho de pesquisa é perpassado e caracterizado pelo diálogo interdisciplinar. Entendemos, desse modo, que a pesquisa acadêmico-científica em história se

enriquece cada vez mais e desvela possibilidades mais amplas de uma aproximação ao objeto de estudo e no olhar para as fontes, tanto no processo de seleção destas, quanto durante seu manuseio, análise e crítica, contemplando um diálogo assim definido. Para tanto, a antropologia, a literatura, a geografia, a sociologia, a filosofia, entre outras, são nossas parceiras nesta construção historiográfica.

Nesse sentido, a construção de dados/contato com arquivos e fontes, para além desta questão objetiva imediata, desvelou significados importantes. No entanto, para chegarmos até eles, inspiramo-nos um pouco na narrativa da experiência de pesquisa da historiadora Arlette Farge, nos arquivos policiais do século18, na França. A autora, no livro “O Sabor do

Arquivo”, traz os dimensionamentos de algumas destas significações por ela sensivelmente

percebidas no processo. O texto desta obra acompanha-nos, nesta construção, buscando despertar para o enigmático, para o estranhamento daquilo com que nos deparamos como verdade e concretude. A autora destaca:

O arquivo é uma brecha no tecido dos dias, a visão retraída de um fato inesperado. Nele, tudo se focaliza em alguns instantes de vida de personagens comuns, raramente visitados pela história, a não ser que um dia decidam se unir em massa e construir aquilo que mais tarde se chamará de história. O arquivo não escreve páginas de história. Descreve com as palavras do dia-a- dia, e no mesmo tom, o irrisório e o trágico [...]. Fragmentos de verdade até então retidos saltam à vista: ofuscantes de nitidez e de credibilidade. Sem dúvida, a descoberta do arquivo é um maná que se oferece, justificando plenamente seu nome: fonte (FARGE, 2009, p. 14-15).

Partimos de uma visão ampla de fonte, considerando as representações. Conforme Aróstegui (2006, p. 491), “fonte histórica seria, em princípio, todo aquele material, instrumento ou ferramenta, símbolo e discurso intelectual, que procede da criatividade humana, através do qual se pode inferir algo acerca de uma determinada situação social no tempo”. Assim, as possibilidades de fonte e de pesquisa do historiador estão em tudo aquilo que tem significados, experiências objetivas e subjetivas, construções culturais, materiais e imateriais. Nosso acesso às fontes foi, em grande medida, nos arquivos que serão identificados a seguir, tomados como “Conjunto de documentos, quaisquer que sejam suas formas e seu suporte material, cujo crescimento se deu de maneira orgânica, automática, no exercício das atividades de uma pessoa física ou jurídica, privada ou pública” (FARGE, 2009, p. 12).

Com tais anúncios, afirmamos nossa abordagem de pesquisa como qualitativa, embasados em Robert k. Yin (2016), em relação ao objeto de estudo. Partindo desse princípio, destacamos que a escolha liga-se aos destaques feitos pelo autor, que, de forma sintética, estaria preocupado com características como o estudo do “significado das vidas das pessoas

nas condições em que realmente vivem”, abranger as “condições contextuais” que permeiam a vida das pessoas e suas influências nos eventos, buscando explicar estes “por meio de conceitos existentes ou emergentes” – que possam vir a ser desenvolvidos pelo pesquisador, além de “coletar, integrar e apresentar dados de diversas fontes de evidência”, estes submetidos a uma posterior triangulação.

Tomamos esta abordagem, aliada aos preceitos da Nova História Cultural, onde importam as significações. Destarte o enquadramento, a temática e o objeto, na construção de dados, visamos, como principais fontes para análise, aquilo que foi produzido durante o período já delimitado pela pesquisa, no contexto da União das Sociedades Kultura e Oswiata e nas relações sociais, públicas e oficiais, nacionais e internacionais estabelecidas, sejam estes: documentos oficiais, documentos públicos e privados, cartas, memoriais, livros e jornais, fotografias, fontes autobiográficas e escrituras ordinárias de ex-professores, intelectuais e agentes étnicos10, políticos e religiosos.

Para Daniel Fabre (1993), as escritas ordinárias são aquelas feitas por sujeitos comuns, os quais não se preocupam com a qualidade daqueles escritos com intencionalidade de “virar obra”. Podem ser bilhetes, diários, anotações, entre outros. Para Cunha (2007, p. 45), “Mergulhar nos papéis ‘ordinários/miúdos’ guardados por pessoas comuns/anônimas, permite apreender saberes, crenças, valores e práticas”. Já as fontes (Auto)biográficas são constituídas por “histórias de vida, relatos orais, fotos, diários, autobiografias, biografias, cartas, memoriais, entrevistas, escritas escolares e videográficas” (DELORY-MOMBERGER, 2008, p.5).

A seleção e a utilização das fontes não destitui a crítica, a contextualização, além da compreensão de lugares de memória de Pierre Nora (1993, p. 27) tomamos a concepção de que não existe memória espontânea, então, os “lugares de memória” são resquícios de passado que alimentam a história, “os lugares de memória não tem referentes na realidade. Ou melhor, eles são, eles mesmos, seu próprio referente, sinais que devolvem a si mesmos, sinais em estado puro”. Ainda, “um lugar de excesso, fechado sobre si mesmo, fechado sobre sua identidade, e recolhido sob seu nome, mas constantemente aberto sobre a expressão de suas significações”. Compreendemos as memórias como conexões e representações do coletivo, as quais “tem caráter coletivo e social” (HALBWACHS, 2003).

Dessa forma, “Concebidos como um espaço aberto a múltiplas leituras, os textos e também todas as categorias de imagens não podem, então, ser apreendidos nem como objetos

cuja distribuição bastaria identificar nem com entidades cujo significado se colocaria em termos universais”, precisando contar com um olhar atento e aberto, que possa considerar que tais constructos estão “presos na rede contraditória das utilizações que os constituíram historicamente” (CHARTIER, 1990, p. 61).

Dentre as fontes selecionadas e coletadas podemos destacar:

1) documentos públicos e privados (regimentos, registros, correspondências policiais /telegramas e correspondências), cartas, memoriais, livros, fotografias, fontes autobiográficas e escrituras ordinárias da União das Sociedades Oswiata (Pasta

“Oswiata”), alguns destes referentes à União das Sociedades Kultura, no Arquivo dos

Padres da Congregação da Missão de São Vicente de Paulo, sediado na Paróquia São Vicente de Paulo em Curitiba – PR, no Arquivo Público do Paraná e no Arquivo da

Sociedade Polônia em Porto Alegre - RS11;

2) documentos públicos online das representações consulares polonesas de Curitiba (Consulado Geral) - PR e Porto Alegre (Consulado Honorário), além da República Polonesa e do Ministério das Relações Exteriores da Polônia – RS;

3) publicações das Sociedades Escolares (imprensa pedagógica, jornais, folhetos e revistas) da União das Sociedades Kultura e Oswiata (o jornal Polak w Brazylii e o periódico

semanal Swit12, jornal Lud 13

- clerical), das Escolas de Formação de Professores Rurais14

e do acervo Edmundo Gardolinski/UFRGS15.

4) documentos públicos e privados da Nacionalização - (correspondências policiais, telegramas, correspondências e cartas em geral) – Pasta “Nacionalização” - Arquivo dos Padres da Congregação da Missão de São Vicente de Paulo;

5) documentos públicos online da Fundação Alexandre de Gusmão – FUNAG (Biblioteca Digital), publicação II Conferência da Paz - Haia, 1907;

Também são importantes fontes de pesquisa o Acervo digital do Museu da Imigração do Estado de São Paulo16 e os Anais da Comunidade Brasileiro-Polonesa17– publicação

periódica composta de textos de escritores da comunidade polonesa, editados principalmente por Ruy Wachowicz, entre 1971 e 1984 em Curitiba - PR no Comitê das festividades do

11Neste arquivo, fomos atendidos e acompanhados pela Gabriela e pela Leda, ambas muito prestativas e

empenhadas na colaboração, fazendo com que a pesquisa ficasse ainda mais prática e objetiva.

12Polak w Brazylii – O Polonês no Brasil, Swit – Amanhecer: Publicações político-progressistas e anti-clericais; 13

Lud – Povo: Jornal Clerical;

14 Duas escolas de formação: em Guarani das Missões - RS e em General Mallet – PR.

15Disponível em: <http://www.ufrgs.br/nph/arquivos/Arquivo%20Gardolinski.pdf>. Acesso em: 23 dez. 2016. 16 Disponível em: http://www.inci.org.br/acervodigital/sobre.php. Acesso em: 04 mai. 2017.

17 Disponível em: <http://www.arquivopublico.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=19> Acesso

Centenário da Imigração polonesa no Paraná, os quais estão disponibilizados online e no acervo Ruy Wachowicz do Arquivo Público do Paraná, em Curitiba – PR. Dentre eles, o volume II do ano de 1970, intitulado “As escolas da Colonização Polonesa no Brasil”.

As cartas traduzidas e os relatos trazem abordagens sobre a imigração, sobre as condições econômicas e sócio-culturais, e foram divulgados na Polônia e no Brasil. Tomacheski (2014) destaca que as cartas trazem versões diferentes dos estudos clássicos e do senso comum sobre o tema da imigração, “deixam de serem produções individuais e factuais e evidenciam a interpenetração entre sujeito e história bem como entre os acontecimentos e sua reconfiguração na tessitura de vidas narradas” (CARVALHO, 2002). Alguns destes escritos são veiculados através da Revista Polonicus,18 uma revista de reflexão Brasil-Polônia.

Entre as cartas, encontram-se as de imigrantes de várias colônias brasileiras, como os relatos traduzidos de Antônio Hempel, “um homem letrado, complexo, intelectual, visionário, com algumas leituras e posições avançadas”, e de Zygmunt Chelmicki, intelectual que trabalhava em um jornal em Varsóvia, andava com pessoas da elite (diferente da maioria dos demais emigrantes), conhecia vários países e falava várias línguas (TOMACHESKI, 2014, p. 30). Também, a carta de João Stawinski, traduzida e publicada pelo Frei Victor Stawinski (1976) no livro: Primórdios da imigração polonesa no Rio Grande do Sul, e a carta do imigrante Jan Wietrzykowski, traduzida e publicada no livro Cartas de Imigrantes de Roger Stoltz (1997).

Realizamos a nossa pesquisa nos arquivos da Sociedade Polônia e no Arquivo São Vicente de Paula durante o mês de dezembro de 2016 e março de 2017. No mesmo período, visitamos a Sociedade Polono-Brasileira Tadeusz Kosciuszko – Curitiba -PR, o Grupo

Folclórico Polonês do Paraná Wisla - Curitiba –PR, o Museu Polonês Bosque do Papa -

Curitiba –PR e o Consulado Polonês - Curitiba -PR, porém, o acervo do mesmo estava impossibilitado de visita. Isso se relaciona ao fato de que, por ter sido fechado o consulado de São Paulo, havia, naquele momento, muito material trazido de lá, interditando o acesso ao acervo.

No Arquivo São Vicente de Paula, fomos recepcionados e acompanhados pelo Pe. Lourenço Bienarski, que não hesitou em nos auxiliar na otimização de nossos propósitos naquele espaço. Como principal organizador do acervo do arquivo, possui conhecimento amplo da documentação e do conteúdo intelectual das obras ali existentes (registra-se a existência de uma grande quantidade de livros com edições datadas a partir do século 17, em

idioma polonês, português, alemão, francês, entre outros). Para Farge (2009, p. 11), “quem trabalha em arquivos se surpreende muitas vezes falando dessa viagem em termos de mergulho, de imersão, e até de afogamento...”.

Além de tomar conta do arquivo, Pe. Lourenço também esteve acompanhando, durante alguns anos, juntamente com outros colegas da Missão, a produção do Jornal clerical Lud. Atualmente, mantém-se a par das pesquisas acadêmicas e de memorialistas em relação à comunidade polono-brasileira.

Para o padre, o arquivo trata-se de uma questão pessoal, beira o biográfico, uma extensão de si, de sua memória; ele conhece o que pode ser encontrando em cada prateleira, como interfaces da memória. Encontramos ressonância naquilo que destaca Zanini (2006, p. 32), para ela, “Esses arquivos podem ser interpretados também como formas de resistência”. E, neste caso, assim como na pesquisa por ela realizada, trata-se de uma “resistência étnica”.

Durante seus anos de trabalho no espaço, Pe. Lourenço também já realizou o trabalho de tradução para o português em documentos e manuscritos em polonês, um trabalho desenvolvido unicamente a partir de sua vontade de ampliar o acesso ao conteúdo a um maior número de pessoas. Entendemos que “O sabor do arquivo passa por esse gesto artesão, lento e pouco rentável, em que se copiam textos, pedaço por pedaço, sem transformar sua forma, sua ortografia, ou mesmo sua pontuação (FARGE, 2009, p. 23)”.

Para facilitar este processo e não descontextualizar os documentos de suas rasuras, censuras e rabiscos, utilizamos o aplicativo para celular CamScanner, um recurso tecnológico prático para digitalizá-los e arquivá-los em pastas, permitindo o arquivamento por tema e tipo de documento e posterior organização de Banco de Dados (somam-se mais de 900 documentos); alguns deles com necessidade de tradução por estarem em outros idiomas, principalmente em polonês. Em relação às fotografias e às imagens, fizemos este mesmo processo de digitalização, tomando cuidado de não prejudicar o contexto e a narrativa visual.

A nossa seleção dos documentos se dá embasada na leitura crítica do documento, nos critérios de conteúdo, nos possíveis usos, nas peculiaridades, na contextualização histórica, nos filtros do presente, no universo simbólico (SAMARA & TUPY, 2010), assim, pensamos o processo de produção do documento e “utilizamos os nossos próprios entendimentos culturais, para “engajar-nos” com “significados” que estão embutidos no próprio documento” (MAY, 2004, p. 213). Nisso consistiu nossa seleção em relação àqueles que foram utilizados nesta tese.

Para May (2004, p. 205), “Os documentos, lidos como a sedimentação das práticas sociais, têm o potencial de informar e estruturar as decisões que as pessoas tomam

diariamente e à longo prazo; eles também constituem leituras particulares dos eventos sociais. Ainda, “nos falam das aspirações e intenções”. Neste processo, as maneiras como são utilizados e as respostas que conseguimos estão ligadas ao uso do documento como algo não autoevidente, mas implicados aos tipos de perguntas e às opções teórico-metodológicas que fazemos, podendo um pesquisador encontrar diferentes observações e aspectos em relação a questões já emergidas sobre uma mesma temática. “Com esse propósito, podemos utilizar a análise de conteúdo que inclui três estágios: estabelecer o problema de pesquisa, recuperar o texto e empregar métodos de amostragem, interpretação e análise” (MAY, 2004, p. 222).

Assim como os documentos, em relação às fotografias, desenvolvemos uma interpretação visual, considerando os contextos sociais, culturais e políticos, através da minunciosa análise de seus conteúdos subjetivos (BURKE, 2004, p.11).

Os grãos ensolarados e as cartas de baralho são ao mesmo tempo tudo e nada. Tudo, porque surpreendem e desafiam o sentido; nada, porque são meros vestígios brutos que remetem apenas a eles mesmos, caso se atenha só a eles. Sua história existe apenas no momento em que são confrontados com certo tipo de indagações, e não no momento em que são recolhidos, por mais que isso cause alegria (FARGE, 2009, p. 19).

Jorn Rusen (2001, p. 77), em a “Razão Histórica”, destaca que “O passado só se torna história quando expressamente interpretado como tal, abstraindo-se dessa interpretação ele não passa de material bruto, um fragmento de fatos mortos, que só nasce como história mediante o trabalho interpretativo dos que se debruçam, reflexivamente, sobre ele”. Sendo assim, procedemos a análise que frutifica na narrativa escrita atribuidora de sentidos, perpassada pelo exercício de entrecruzamentos, diálogos e interpretações. Derivada desse processo, a narrativa escrita das representações culturais ‘trará à vida’ uma historiografia inovadora de versões possíveis, definida pelo direcionamento teórico que permeia as reflexões em relação ao objeto de pesquisa. No entendimento de que,

A análise cultural conserva, atualmente, toda a sua pertinência e se revela sempre apta a dar conta das lógicas simbólicas em jogo no mundo contemporâneo, desde que não se negligenciem os ensinamentos das ciências sociais. Não basta tomar emprestado destas ciências a palavra “cultura” para uma leitura da realidade, que esconde frequentemente uma tentativa de imposição simbólica. Seja no campo político ou religioso, na empresa ou em relação aos imigrantes, a cultura não se decreta; ela não pode ser manipulada como um instrumento vulgar, pois ela está relacionada a processos extremamente complexos e, na maior parte das vezes, inconscientes” (CUCHE, 2002, p. 15).

Peter Burke (2013, p.16) destaca seu entendimento de cultura “em um sentido razoavelmente amplo, de forma a incluir atitudes, mentalidades e valores e suas expressões,

concretizações ou simbolizações em artefatos, práticas e representações”. Dessa forma, para além da mera abstração, a cultura está implicada de forma ampla, efetiva e presente em todas as interfaces das relações sociais humanas e propicia um feixe de significações, cuja potencialidade reside em dar sentido às questões ontológicas e as suas possibilidades de respostas.

Imbricada aos processos identitários, ela “abrange os elementos distintivos pelos quais cada indivíduo refere sua identidade pessoal ao conjunto de fatores que a definem: língua, espaço, época, religião, parentesco, sexo, liames particulares, enfim, o feixe de intersecções historicamente dado que é processado e incorporado subjetivamente por cada pessoa” (MARTINS, 2007, p. 30). No entanto, nem sempre a cultura teve tal eminência nos processos sociais e históricos, trata-se de uma longa trajetória de reordenamento epistemológico para que se pudesse compreendê-la como conceito e como possibilidade teórico-metodológica, um debate interdisciplinar que a potencializa.

1.1.2 O conceito de cultura, sua construção, atualização e imbricações nos processos

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