VIOLÊNCIA CONJUGAL CONTRA AS MULHERES
1 Individualização e conjugalidade
3.3 Contributos da perspectiva individual
3.3.2 Quando é que elas pedem ajuda?
A partir da reflexão sobre as formas de lidar com a violência conjugal, a tendência nos anos 1990 passou de uma perspectiva dominante da interpretação da mulher como vítima para a sua definição como sobrevivente. Esta mudança deveu-se sobretudo à necessidade de contestar a ideia de que a mulher seria inactiva ou passiva face à situação de violência em que se encontrava.
Assim, as mulheres passaram a ser interpretadas como utilizadoras dos recursos disponíveis no sentido em que lhes parecia ser mais favorecedor das suas próprias decisões. Johnson e Ferraro (2000) citam o estudo de Campbell (1998), em que o autor acompanhou o percurso de mulheres agredidas durante dois anos e meio, concluindo que nesse período elas mobilizaram diversos recursos manifestando resistência ao padrão de violência em que se encontravam. As estratégias mais usadas pelas mulheres incluíram a resolução de problemas específicos, entendidos pelas mulheres como parte integrante do abuso que sofriam, e a negociação da sua saída com o companheiro. Dois terços das mulheres saíram do relacionamento violento por abandono e um terço depois de negociarem a saída com o agressor.
O controlo exercido pelo agressor como estratégia de violência limita os movimentos da mulher de modo insinuante, a ponto de não ser uma situação da qual a mulher está sempre consciente. As tácticas de controlo usadas pelos agressores têm sido interpretadas como estando interligadas, dando lugar a imagens como espirais ou redes que sugerem uma armadilha que prende a mulher ao relacionamento, deixando-a sem escapatória (Bacchi, 1999; Johnson, 2005).
Dos factores que constituem a armadilha, os mais estudados são de ordem individual mas a estes teremos que acrescentar factores de ordem estrutural. Considerando a falta de cobertura de serviços de apoio no território nacional e a dificuldade em concretizar uma efectiva protecção das vítimas e sanção dos agressores, conforme estão definidas na lei, torna-se paradoxal questionar quando é que as mulheres pedem ajuda. Tal como
referimos em relação à forma como é formulada a questão da permanência da mulher no relacionamento conjugal violento, também agora se ‘cria, antes de mais (...) uma quase responsabilização das vítimas’ (Cardoso et al., 1999:55).
Nas situações em que existe violência conjugal ocorre uma ‘inversão da culpa’, estimulada por razões culturais, com os familiares a consentirem no abuso por parte dos maridos identificando-o como algo de natural, que faz parte da vida conjugal, mesmo que o reconheçam como algo errado e problemático.
Em termos gerais, o momento da trajectória do ciclo de vida familiar e a estrutura interna da família são factores condicionantes das respostas que as famílias dão a situações de crise (Garcês e Baptista, 2001) uma vez que ambos interferem nos modos como os membros da família reagem. Nas situações de violência conjugal, o processo de mudança encetado por um pedido de ajuda externo para a sua concretização, está associado a um ‘estado de revolta latente’ (Silva, 1983:44). Este ‘estado’ muitas vezes apenas está organizado de forma embrionária (Costa, 2005) mas permite dar início a um processo que envolve que a mulher reúna argumentos para que ela própria se convença da insustentabilidade da situação. É neste sentido que Silva (1983) descreve que ‘tudo se passa como se interiormente elas lutassem para justificar as agressões, convencendo- se das acusações do seu cônjuge. Mas, no fundo de si mesmas, elas constroem uma argumentação que atribui culpas ao homem, ainda que com a circunstância atenuante de serem homens e poderem bater nas suas mulheres’ (p.45). A interpretação da mulher em relação a este tipo de violência diverge da forma como elabora a violência por parte de um estranho, uma vez que aquele agressor é ‘o seu homem’. Do ponto de vista da representação cultural é como se o ‘seu’ homem tivesse direito a usar a violência contra ela e o casamento legitimasse esse comportamento, conferindo-lhe esse direito (Dias, 2004). Sendo assim, a consciência de culpa do homem está presente mas a mulher não vai (ousar) lutar contra uma instituição fundamental como o matrimónio.
O estudo ‘Violência em meios socioeconomicamente desfavorecidos: qual o papel da mulher?’ (Baptista, 2003) contribui para compreender a importância de factores de
contexto sobre as decisões individuais. O estudo teve por objectivo compreender o papel da mulher na quebra do ciclo da violência. Em todos os casos estudados, a partir de seis histórias de vida de mulheres vítimas de violência familiar, o enlace ocorreu a seguir a um curto período de inter-conhecimento. As mulheres justificaram a sua permanência no relacionamento com o argumento de que faltava um ajuste entre os dois no relacionamento conjugal e com a família alargada. A autora identifica uma ‘adaptação natural à situação’, reforçada pelo contexto de pobreza destas famílias. A tese apresentada é a de que a ‘habituação às dificuldades’ aumenta a ‘capacidade de tolerância à adversidade’ por um lado. Por outro lado, a pobreza diminui a expectativa pessoal face à vida, sendo frequente uma dissipação de exigência de uma vida melhor. O efeito perverso disto é que se naturaliza a violência e é difícil para as mulheres reclamarem os seus direitos (idem).
O estudo sobre os processos de construção da identidade da mulher maltratada no contexto da conjugalidade realizado por Matos e Gonçalves (2000) demonstrou que a interiorização de representações e discursos externos, produzidos pelo agressor e pela comunidade, levam à elaboração pela mulher de significações opressivas e desqualificadoras da sua identidade. Este facto limita a capacidade para identificar alternativas para a situação em que se encontra e reforça nelas um discurso de irresolução. A interiorização de discursos externos, com efeitos sobre a identidade das mulheres, também foi encontrada por Neves (2008) nos discursos das mulheres em casa-abrigo. Esta autora refere que as mulheres elaboravam uma narrativa de desidentificação pessoal com o problema e, racionalmente, pareciam separar-se da situação de violência em que viviam - por a mesma ser intolerável, incompreensível e contraditória com a representação social de matrimónio e família na modernidade.
A categoria social das mulheres maltratadas está afectada por estereótipos que têm consequências sobre a imagem que as mulheres têm acerca de si próprias e a imagem que consideram que os outros têm de si. As mulheres quando falam ‘de’ mulheres maltratadas tendencialmente não falam acerca do seu problema mas ‘das outras’, identificando uma categoria social diferente daquela em que se incluem. As
‘maltratadas’ são despedidas do emprego ou têm empregos precários, têm filhos que não protegem, não contam com ninguém para as ajudar, por isso são ‘coitadinhas’, enfim, integram um grupo do qual ninguém quer fazer parte (Frade e Madeira, 2007).
Almeida (1986) assumindo o discurso enquanto elemento de construção das identidades femininas, propôs-se descodificar a divergência entre o dizer e o fazer encontrada no discurso feminino13. Verificou que a ‘um discurso vitimizado e fatalista se contrapõe um fazer feminino protagonista, activo, desempoeirado e despachado’ (idem: 140). Na mesma narrativa, as mulheres afirmavam que não podiam fazer nada em relação ao seu destino, revelando um discurso fatalista e de aceitação/ resignação, e relatavam várias situações em que lançavam mãos à obra, revelando empenho em concretizar objectivos mesmo entendidos como quase intransponíveis (como por exemplo manter um emprego, frequentar a escola e manter a família, ao mesmo tempo). Torres (2002) colocou a questão definindo se as mulheres serão ‘criaturas dependentes e passivas’, assim definidas no discurso que produzem sobre si mesmas, ou se serão ‘mágicas da acção’. Do seu estudo extraímos que a mudança, saindo da passividade para a acção, envolve reconhecimento (cognitivo) da necessidade de mudar, implicando capacidade para projectar um contexto de vida diferente do que é o seu.
A literatura diz-nos que o factor desencadeador de uma situação de crise corresponde ao problema que tende a ser apresentado pela vítima de violência conjugal como a ‘necessidade’ premente quando formula um pedido de ajuda (Payne, 1997). Porém, este ‘acontecimento’ normalmente corresponde a uma sequência acumulada de acontecimentos em interacção que, no seu conjunto, formam a crise. O que é apresentado como ‘a’ necessidade corresponde ao que a mulher identifica como incapacidade sua para lidar com a situação recorrendo aos padrões habituais de resolução de problemas quotidianos (Silva, 2001a). Daqui que a mudança tenha que ser entendida como um processo, adaptativo, gradual e assente na experiência de vida das pessoas.
13 O estudo de Almeida foi realizado com mulheres que migraram para Lisboa nos anos 1960 ficando a
Na realidade, a mulher vítima de violência conjugal e as sociedades têm que lidar com um conjunto de contradições uma vez que as representações modernas sobre a conjugalidade, as relações familiares e os papéis sociais de género, coexistem com representações tradicionalistas (Dias, 2004). A contradição estabelece-se na forma como a sociedade representa a família e os seus lados sombrios (Giddens, 1997), identificando-os como sinal de atraso social e manifestação de reminiscências de atraso, por enquadrarem um padrão cultural tradicional - oposto a um padrão moderno.
Em sociedades reflexivas (Beck, Giddens e Lash, 2000), que se representam a si próprias como sociedades modernas, manifesta-se uma tendência para que as relações entre sujeitos-adultos sejam estruturalmente frágeis (Lipovetsky, 1989) e assentes na sentimentalização dos vínculos (Giddens, 1998). A partir desta noção de vulnerabilidade da relação conjugal renasce uma intenção de ‘remoralizar o corpo social’ (Almeida, 2009). A ideia de pureza da ligação entre adultos que se unem com base num sentimento genuíno (o amor puro) e com uma intenção comprometida com a partilha de um projecto é uma ideia de modernidade, que vai ao encontro da recuperação de um ideal de família. De acordo com esta leitura, a vulnerabilidade das relações conjugais sustenta a família enquanto valor social essencial (Wall, 2007) e reforça a sua privacidade (Kelly, 2003) colocando sobre a sociedade o ónus de cuidar ‘da família’ como bem colectivo porque esta representa o reduto de autenticidade das relações sociais (Giddens, 1998).
Deste subcapítulo salientamos que a mulher que pede ajuda a um sistema institucionalizado está limitada pela sua capacidade para o fazer (no domínio individual) mas também pelas oportunidades existentes na comunidade (no domínio contextual), incluindo a disponibilidade do sistema para ajudar. Num estudo realizado por Sousa, Ribeiro e Rodrigues (2006 in Sousa et al., 2007) identificou-se uma tendência dos profissionais de ajuda para focarem mais a dimensão material do que a dimensão relacional do apoio. Os profissionais justificaram-no dizendo que as famílias se conformam com a sua vida e descrêem das suas capacidades para a mudança. Assim, os profissionais sentem que não vale a pena definir objectivos de ordem relacional, por
anteciparem o seu insucesso. Sob este pressuposto, as estratégias de intervenção delineadas para as famílias tendem a não apelar às suas competências relacionais e a ignorar o potencial de ajuda da rede primária de apoio. Na prática, os processos de intervenção são dominados por uma prescrição de tarefas em que o envolvimento dos sujeitos se limita ao consentimento informado, ainda que os propósitos dos profissionais sejam bem-intencionados (Sousa et al., 2007). White (1999) definiu que a intervenção social que enfatiza a resolução dos problemas diagnosticados em detrimento de uma acção de capacitação tem como objectivo uma ‘família saudável’, isto é, ajustada ao funcionamento da sociedade. A questão normativa e da regulação do comportamento é a que está aqui em causa.