Ordenamento e Gestão do Território Costeiro
OBJETIVOS ETAPAS METODOLÓGICAS
2. RISCO E PERCEÇÃO SOCIAL
2.2 R ISCO E S OCIEDADE
“Em todas as sociedades está de algum modo presente a consciência das ameaças que, de forma mais
ou menos continuada, pesam, sobre a vida social e individual.” (Mela, et al., 2001, p.155).
Os riscos foram acompanhando o desenvolvimento da sociedade, tendo começado por serem apenas identificados os de origem natural. Posteriormente, com o desenvolvimento das atividades humanas, os riscos aumentaram e expandiram-se quanto à sua origem (Rebelo, 2003). “Os nossos
antepassados só tiveram de enfrentar as variações sazonais do clima, os desastres naturais e as variações climáticas a longo prazo. No entanto, as pessoas, à medida que foram limpando terras para as suas culturas, desviando cursos de água para a irrigação e, posteriormente, construindo vilas e cidades, começaram a produzir um impacto crescente no mundo que as rodeia.” (Amaro, 2003, p.113-
114).
Segundo Mela, et al., (2001), o conceito de risco “…difunde-se sobretudo a partir de 1500.” (p.159), com aplicações na navegação e no comércio marítimo, sendo que nesta época
“…acontecimentos como terramotos, pestes ou incêndios continuam a ser interpretados […] como
«fatalidades», ou como punições divinas…” (p.159). Com a industrialização (meados do século
XVIII), e segundo os mesmos autores (2001), “…a ideia da possibilidade de aplicar o engenho
humano à transformação da natureza alarga-se, e, com ela, também a convicção de poder de algum modo controlar acontecimentos futuros negativos, através de uma avaliação das probabilidades de que elas se realizem.” (p.160). Para Smith (2001), “During the 1970s extreme natural events became more prominent.” (p.4). A partir desta década “…começa a surgir a preocupação […] de que as ameaças ambientais […] possam subtrair-se ao controlo da ciência e aos efeitos neutralizadores do cálculo de risco.” (p.160), devido a um aumento da consciencialização das consequências negativas da
evolução científica e tecnológica, bem como da importância dos recursos naturais associada à dificuldade da ciência conseguir resolver todos os problemas ambientais decorrentes de alterações causadas (Mela, et al., 2001). “Quando parecia que o homem havia alcançado condições para uma
vida aprazível e condigna, é que as angústias mais o assediam.” (Fernandes, 2002, p.194). Como
refere Giddens (1990), a modernidade é “…a double-edged phenomenon. The development of
modern social institutions and their worldwide spread have created vastly greater opportunities for human beings to enjoy a secure and rewarding existence than any type of pre-modern system. But modernity also has a somber side, which has become very apparent in the present century.” (p.7).
Para Beck (1992), “In advanced modernity the social production of wealth is systematically
accompanied by the social production of risks.” (p.19). Efetivamente, na sociedade atual, o risco é um
conceito muito presente em diversas áreas, pois a “Modernity is inherently globalising, and the
unsettling consequences of this phenomenon combine with the circularity of its reflexive character to form a universe of events in which risk and hazard take on a novel character.” (Giddens, 1990,
p.177).
Neste contexto, “O mundo actual é considerado de risco, porque do ponto de vista social, económico,
político ou da própria natureza, tende a ficar fora do alcance humano e a escapar à sua monitorização e protecção.” (Fernandes, 2002, p.191).
O risco surge, portanto, quer pela presença de situações perigosas, quer pelas inerentes incertezas na tomada de decisões, variando em função das características da sociedade e da sua informação acerca do risco (Almeida, 2004[b]). Este aumento de incertezas e a diminuição de confiança na capacidade técnico-científica trouxeram para a discussão a temática do risco, que acabou por se estender às ciências sociais nos anos oitenta. A consciencialização de vulnerabilidade face às ameaças caracteriza aquilo a que se designa «sociedade de risco».
O conceito de sociedade de risco foi introduzido por Beck em meados da década de 1980, conceito este que o autor (1992) utiliza relativamente à sociedade atual, exposta aos riscos decorrentes do desenvolvimento científico e tecnológico, os quais considera graves e de âmbito global. “As transformações em curso em diferentes recantos do planeta, que os meios de informação e
de comunicação social vão reduzindo, cada vez mais, a uma grande praça pública de uma pequena cidade […] vêm produzindo efeitos, fastos uns e nefastos outros, de alcance de geometria variável. […] A globalização […] é apontada como um grande factor, ora dinamizador do desenvolvimento, ora causador das maiores perturbações…” (Fernandes, 2002, p.185). Neste sentido, o conceito de
sociedade de risco, é hoje utilizado como sociedade global de risco, pois “O contexto em que
actuam as sociedades actuais permite que tudo o que nelas ocorre apresente características de universalidade.” (Fernandes, 2002, p.186).
De acordo com Giddens (1990), importa definir o perfil do risco da modernidade, que se caracteriza por componentes que se relacionam com a distribuição objetiva dos riscos e componentes associadas à vivência do risco. Fazem parte do primeiro conjunto: a globalização do risco no sentido da intensidade (ameaça global), a globalização do risco no sentido da expansão do número de eventos que afetam grande número de pessoas no planeta (fora de controlo); riscos decorrentes do ambiente criado, pela introdução de conhecimento humano no ambiente (transformações induzidas); e desenvolvimento de ambientes de risco institucionalizado, afetando as oportunidades de vida de muita gente (incerteza nas decisões). No segundo grupo inclui-se: a consciência do risco como risco; a boa distribuição da consciência do risco por públicos alargados acerca de perigos que a população enfrenta coletivamente; e a consciência das limitações do conhecimento perito, nomeadamente em termos das consequências da adoção dos seus princípios. As pessoas estão expostas a múltiplos perigos ao longo da sua vida, quer individual, quer coletiva, os quais tentam entender, no sentido de encontrar formas para se protegerem dos mesmos. De acordo com Flynn & Slovic (2000), “Os seres humanos inventaram o conceito de risco para os ajudar a
compreender e a lidar com os perigos e as incertezas da vida.” (p.109). A atitude presente nas
sociedades modernas é a de “…limitar os perigos através de mecanismos de prevenção ou de
mitigação das consequências.” e de avaliar a aplicação desse mecanismos (Mela, et al., 2001,
p.156).
Importa aqui ter conhecimento da distinção que os mesmos autores (2001) fazem entre perigo e risco. O conceito de perigo está “…ligado à ideia de possíveis prejuízos, mas que – no caso de se
tratar de perigos derivados das relações com o ambiente – são genericamente atribuídos a factores exteriores ao sistema social.” (p.158), enquanto risco “…é um possível prejuízo ligado a uma decisão e pode ocorrer em circunstâncias que podem ser previstas, embora o seu grau de probabilidade não possa ser determinado a priori com exactidão.” (p.158). Na mesma linha de pensamento, mas de
forma mais objetiva, Lima (1997) define perigo (ou desastre ou acidente) como “…qualquer
acontecimento que constitua um dano para as pessoas ou para aquilo que valorizam.” (p.2). E define
risco como “…a probabilidade de ocorrência de um determinado desastre num dado intervalo
Face à multiplicidade de riscos existentes, vários autores criaram classificações que permitem o seu agrupamento, em particular quanto à sua origem. São classificações discutíveis, uma vez que dada a complexa inter-relação entre o Homem e a Natureza, torna-se difícil uma distribuição exata dos riscos em categorias. Contudo, apesar de algumas variações, estas classificações são em grande parte muito semelhantes.
Apesar da classificação mais comum dos desastres, que distingue desastres naturais e desastres tecnológicos ou provocados pelo homem, não permitir a integração de alguns exemplos de desastres mais ambíguos quanto às suas causas (como os associados aos impactos das alterações climáticas), a classificação dos perigos é importante na medida em que pode permitir desenvolver diferentes abordagens nas decisões políticas pré e pós-acidente (Lima, 1997).
Neste contexto e a título exemplificativo, apresenta-se a classificação adotada por Lourenço (2003), que divide os riscos em naturais, antrópicos e mistos.
Relativamente aos riscos de origem natural, estes podem ser subdivididos em riscos geofísicos, riscos climático-meteorológicos, riscos geomorfológicos e riscos hidrológicos.
Os riscos antrópicos incluem os riscos tecnológicos, tais como risco nuclear e radioativo biológico e químico, risco de radioatividade, risco de poluição e incluem, também, os riscos sociais (dificuldade de convivência em harmonia com o seu próximo) e os riscos biológicos (desequilíbrios entre o Homem e os outros seres vivos, nomeadamente epidemias e pragas).
Os riscos mistos - para alguns autores designados por riscos ambientais, pela sua incidência sobre o ambiente - são os riscos de incêndio florestal, os riscos de erosão e os riscos de desertificação. “In
reality, most environmental hazards have both natural and human components.” (Smith, 2001, p.11).
Outras classificações existem, mais detalhadas, como por exemplo as que distribuem os riscos por riscos naturais, riscos tecnológicos, riscos sociais e riscos ambientais.
Dimensão espacial e temporal dos riscos
A noção de risco, no contexto em que está aqui a ser estudado, está intimamente relacionada com a sociedade e com o território. Naturalmente que o risco está sempre confinado a um determinado território, quer mais localizado, quer mais global, havendo uma maior concentração de riscos em áreas mais povoadas. “…a apropriação e uso dos recursos naturais através de processos produtivos e
a própria dinâmica dos processos da natureza e dos processos sociais tendem a gerar riscos à sociedade, relacionando-se à sua dinâmica socio-espacial.” (Castro, et al., 2005, p.27).
Esta dimensão espacial confere aos riscos diferentes níveis de intensidade e de exposição da sociedade, que variam então consoante as características físicas e sociais do território, pois “…se o
extenso rol de riscos expressa uma diversidade de processos, estes operam e assumem significados variados segundo as diferentes escalas geográficas de análise.” (Castro, et al., 2005, p.28). Neste
sentido, surgem diferentes padrões de risco em função das diferentes escalas espaciais, o que vem salientar a necessidade da identificação de áreas de risco a diferentes escalas geográficas, tendo em conta a vulnerabilidade e o processo de urbanização, entre outros fatores.
Existe, também, uma dimensão temporal dos riscos. Os riscos referem-se a um horizonte temporal futuro, comum ao da probabilidade de ocorrência, o que é uma fonte de incertezas e de variabilidades. Note-se, no entanto, que muitos dos riscos surgem de processos que se desenvolvem ao longo dos tempos e não de eventos pontuais (riscos difusos). “A construção do risco, tomada como
um somatório de processos em diferentes intervalos temporais, está vinculada ao modo de vida moderno e à vida cotidiana nas cidades.” (Castro, et al., 2005, p.28), sendo também muito
importante ter em conta a escala temporal subjacente à origem dos riscos.
No contexto das escalas espacial e temporal, apresenta-se na figura 2.1 o número de grandes catástrofes1 naturais ocorridas no mundo, no período de 1950 a 2008.
Fig. 2.1 – Grandes catástrofes naturais ocorridas no mundo entre 1950 e 2005 (Fonte: adaptado de Munich, 2008)
A figura ilustra as grandes catástrofes distinguindo eventos geofísicos, eventos meteorológicos, eventos hidrológicos e eventos climatológicos. Ao longo do tempo tem-se verificado uma tendência de aumento do número de ocorrência de grandes catástrofes, passando de cerca de três em 1950 para cerca de oito nos dias de hoje, destacando-se um aumento significativo do número de eventos meteorológicos.
Segundo Munich (2008), desde 1950 ocorreram no mundo cento e quinze eventos meteorológicos (40%), oitenta eventos geofísicos (30%), setenta e dois eventos hidrológicos (25%) e quinze eventos
1Muniche (2008) considera grandes catástrofes sempre que se verifiquem as seguintes condições: “Region’s ability to help itself clearly overstretched; supraregional/international assistance required; thousands of fatalities and/or hundreds of thousands of people left homeless; overall losses and/or insured losses of exceptional proportions.”.
Número de eventos
Tendência evolutiva
Eventos geofísicos
Terramoto, erupção vulcânica
Eventos meteorológicos Tempestade tropical, tempestade de inverno, evento climático extremo, granizo, tornado, tempestade local
Eventos hidrológicos
Sobre-elevação do nível do mar, cheia fluvial, cheia rápida, movimento de terras
Eventos climatológicos
climatológicos (5%), tendo perdido a vida cerca de dois milhões de pessoas nestas grandes catástrofes. A terceira maior catástrofe ocorrida desde 1950, em termos de fatalidades, foi o
tsunami de 26 de Dezembro de 2004 no sul da Ásia. No que respeita à distribuição espacial, a
grande maioria das fatalidades (80%) ocorreu na Ásia, destacando-se também o continente americano com cerca de 12%.
Como referem Renn, et al., (1992), “The risk field is a patchwork of many different schools and perspectives.” (p.138) e envolve duas perspetivas – risco objetivo e risco subjetivo.