CAPÍTULO III – IDENTIDADE E REABILITAÇÃO
3.5 O Processo de Reabilitação na Perspectiva dos Sujeitos
3.5.1 Reabilitação profissional: Sentidos e significados do trabalho
Quando eu vim para a reabilitação, eu me lembro das minhas falas, conversando com a assistente social e com a psicóloga. Quando me perguntavam: Com o que você se identifica? O que você gosta de fazer? Eu respondia: Nada. Nada. Eu não quero fazer nada. Eu não gosto de nada. Eu não tinha ideia que eu pudesse desenvolver esse trabalho. Aí surgiu essa oportunidade (...), então, eu vejo que eu posso colaborar. (Professora – 10, depoimento colhido em outubro de 2012)
A partir da nova função, a pesquisa qualitativa procurou esclarecer como a mudança de função afeta as relações sociais construídas no cotidiano dos trabalhadores e qual a condição necessária para atender a essa nova função e manter-se como trabalhador.
Observa-se que a função que passou a ser exercida após a reabilitação é apontada, em sua maioria, como função de atendente, como indica o Gráfico 7, que contém os dados quantitativos do universo maior. Apesar de alguns cargos e escolaridades serem diferentes, os sujeitos foram designados a exercer a mesma função. A escolha de função durante a reabilitação parte de questões específicas, como habilidades, competências e restrições médicas funcionais. Outro fator primordial que define a função a ser exercida é a disponibilidade de vagas nos setores municipais ofertadas pelos gestores, que não necessariamente atende à necessidade do trabalhador.
Gráfico 7 – Funções dos funcionários após a conclusão da reabilitação, no período de 2006 a 2011
No Gráfico 7, observa-se que as funções de atendente, escriturária, serviços auxiliares e orientadores de alunos são as funções prevalecentes após a reabilitação. Essas funções são as principais demandas apresentadas pelos gestores municipais para a equipe de reabilitação para buscar a reinserção de trabalhadores que concluíram o programa.
O Quadro 15 evidencia os relatos mais significativos colhidos durante a história oral tendo como marco de análise dois períodos: anterior à reabilitação e posterior à reabilitação. Os períodos descritos por meio das narrativas de cada sujeito expressam qual é a memória que guardam de determinado momento.
Quadro 15 – Cruzamento de frases significativas dos sujeitos da história oral Experiência de Cada Sujeito -
Divisão por Cargo de Origem Período Anterior ao Processo de Reabilitação Período Posterior ao Processo de Reabilitação
Merendeiras
Funções exercidas após o processo de reabilitação: atendentes e copeira
Gostava muito, sempre gostei de ser merendeira
Eu sempre gostei da minha função
Gostava, adorava trabalhar com mais gente
Daí, você é rebelde, malvista e nada está bom
Minha alternativa, to nem aí Eu sinto que poderia ser útil, mas fui desperdiçada
Professoras
Funções exercidas após o processo de reabilitação: escriturária, assistente pedagógica e auxiliar de coordenadora pedagógica
Eu gostava muito de ser professora
Identificava muito em ser professora
Importante exercer um trabalho na área de educação
Eu, no meu caso, sinto que ainda não fui aceita
Hoje eu estou empurrando com a barriga
É preciso viver um dia de cada vez
Eu não quero ficar doente novamente
Monitores de CEC Funções exercidas após o processo de reabilitação: atendente, escriturária de escola e monitora de educação especial
Amava, sempre gostei Eu me identificava muito com aquela pessoa, função, que eu exercia, além de gostar muito, eu me envolvia
Então, antes, eu realizava com muita vontade o trabalho
A gente é assim um tipo tapa- buraco
Você não faz parte da equipe A gente se diminui
Fonte: Elaborado pela pesquisadora, conforme narrativas da história oral.
Os relatos expressam a falta de reconhecimento do trabalho. Segundo Rosenfield (2009, p. 174), “o reconhecimento do trabalho é a própria expressão da retribuição simbólica em termos da realização em si mesmo (...)”.
Rosenfield (2009, p. 174) explica que a retribuição simbólica,
(...) é, assim, uma contribuição à realização pessoal, seja por meio do reconhecimento do trabalho pela hierarquia (através da escuta, do apoio, do encorajamento, do acesso a respostas, da transmissão da informação) que confirma a contribuição aportada por aquele trabalho, seja pelos pares colegas (com a estima, a cooperação, a troca igualitária, o reconhecimento do trabalho bem-feito) que colabora na construção da identidade coletiva e serve de defesa identitária.
A partir do Quadro 15, verifica-se que os sujeitos referem que no período anterior à reabilitação, ou seja, quando estavam exercendo a função inerente ao cargo de origem, identificavam-se com o trabalho e no período após a reabilitação, quando passaram a exercer outra função, apresentaram dificuldades em suas relações sociais, devido à não aceitação da equipe de trabalho da nova condição laboral.
Os sujeitos da pesquisa reconheciam que o trabalho anterior tinha um papel central em suas vidas, exerciam a função não apenas por subsistência, existindo um significado maior, representando o serviço público como de utilidade para a sociedade e como sentir-se útil enquanto ser social, havia uma contribuição para a realização pessoal por meio do reconhecimento do trabalho.
Uma vez que ocorre o afastamento do trabalho para reabilitação, inicia-se um processo de ressignificação da antiga função e as perspectivas funcionais ligadas a ela, inicia-se uma nova condição e o processo de reconstrução da identidade profissional.
A partir do momento em que as competências e habilidades desses sujeitos não são respeitadas para a reabilitação em uma nova função, verifica-se que ocorrem mais dificuldades nesse processo de reconstrução da identidade profissional, partindo da reflexão de que toda a trajetória profissional do sujeito não será mais importante, nem respeitada, prevalecendo o interesse e a necessidade do empregador. Não se sentem reconhecimentos pela hierarquia e nem por seus colegas de trabalho, assim, não ocorre a retribuição simbólica (ROSENFIELD, 2009). As falas condizem com essa reflexão. A gente é assim um tipo tapa-
buraco (Monitora – 19, depoimento colhido em novembro de 2012). Continua a Professora – 6: Eu sinto que poderia ser útil, mas fui desperdiçada. (Professora – 6, depoimento colhido em novembro de 2012). Como as falas demonstram, não se sentem reconhecidas no trabalho desenvolvido no serviço público.
As Figuras 8 e 9 revelam exemplos de mudanças relativas ao ambiente profissional no serviço público e ilustram as características dos ambientes de trabalho no serviço público. Os locais apresentados não estão vinculados aos ambientes de trabalho dos sujeitos da pesquisa.
Figura 8 – Local de trabalho anterior ao processo de reabilitação (Ambiente de trabalho: cozinha. Função: Merendeira. Instrumentos de trabalho: fogão, panelas, garrafa de café entre outros. Cargo de origem: merendeira)
Fonte: Arquivo da Equipe de Reabilitação Profissional, novembro de 2012.
Figura 9 – Local de trabalho após o processo de reabilitação (Ambiente de trabalho: balcão de atendimentos. Função: atendente. Instrumentos de trabalho: telefone, caneta, papel, entre outros. Função após a reabilitação: atendente.)
Como exemplo de possibilidade de reconstrução das identidades profissionais, destaca-se a história de um guarda civil que passou pelo processo de reabilitação. Ele deixou a função de guarda civil para exercer a função de monitor de artes. Em seu trabalho ensina artesanato para pacientes de serviços da Saúde Mental. A reportagem do jornal Gazeta de
Piracicaba, de 4 de agosto de 2013, intitulada: Arte de Produzir Vida19, apresenta aspectos de sua história e como foi importante a sua identificação com a sua nova função. Diz a reportagem:
O guarda civil (...), que um dia viveu uma situação desesperadora – era alcoólatra e acabou ficando sem a família – hoje, readaptado ao serviço, deixa a farda de lado e vai para a oficina ajudar a ensinar os alunos. “Para quem passou pelo hospital Bezerra de Menezes, como paciente, ao lembrar do meu passado, vejo que tudo é possível”, afirma.
Para ele, qualquer pessoa que tenha vícios da bebida alcoólica, dependência química, se tiver vontade e for perseverante, pode melhorar de vida. “É só a pessoa admitir que precisa de tratamento, dar um basta na situação ruim e dizer: vou me dar uma nova chance.” (JORNAL GAZETA DE PIRACICABA, 2013, p. 8).