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CAPÍTULO 2 O MERCADO: PERSPECTIVAS DE VALORIZAÇÃO DE PRODUTOS E PRODUTORES LOCAIS.

2.2 RENDA MONOPOLISTA: DAVID HARVEY

No contexto de valorização de produtos com qualidades específicas, como os da Amazônia e as possibilidades de geração de valor monetário em algum elo, ou durante a cadeia produtiva do produto, torna-se bem vinda a contribuição do conceito de “renda monopolista” de David Harvey. Para o autor, toda renda está baseada no poder monopolista dos proprietários privados de qualquer lugar do planeta, seja produto, paisagem ou serviço. Esta surge em virtude de um controle exclusivo sob algum item único, irreparável, insubstituível ou crucial, que seja direta ou indiretamente comercializável. O exemplo clássico trazido à luz é o vinhedo que produz vinho de elevada qualidade e, desta forma, pode ser vendido por um preço monopolista, alimentando o ciclo “preço monopolista que cria a renda monopolista” (2005, p. 222)

A categoria de renda monopolista, segundo Harvey, está vinculada a duas contradições:

“Em primeiro lugar, embora a singularidade e a particularidade sejam cruciais para a definição de ‘qualidades especiais’, o requisito relativo à negociabilidade significa que item algum pode ser tão único ou tão especial, que não possa ser calculado monetariamente. Um Picasso tem de ter um valor monetário, assim

como um Monet, uma Manet, a arte aborígene, os objetos arqueológicos, os edifícios históricos, os monumentos antigos, os templos budistas, assim como as experiências de descer as corredeiras do rio Colorado, de estar em Istambul ou no topo do Everest. Como se evidencia a partir dessa lista, há, nesse caso, uma certa dificuldade de criação de mercado. Embora mercados tenham se criado em torno de obras de arte e, até certo ponto, de objetos arqueológicos (...) há evidentemente, muitos itens da lista difíceis de ser incorporados diretamente(...)Diversos itens até talvez não sejam fáceis de ser negociados indiretamente. A contradição, nesse caso, é que, quanto mais facilmente negociáveis se tornem os itens, menos únicos e especiais eles se afiguram. Em alguns casos, o próprio marketing tende a destruir as qualidades exclusivas (em especial, se essas dependem de qualidades como vastidão selvagem, grande distância, pureza de alguma experiência estética etc.). Geralmente, quanto mais facilmente negociáveis são tais itens ou eventos (e sujeitos à replicação por falsificações, fraudes, imitações ou simulacros), menos eles proporcionam a base para a renda monopolista” (Ibid, p. 223) (Grifos meus)

A dificuldade em atribuir valor a bens singulares sem que esse processo engendre para o monopólio e conseqüente exclusão de atores, sistemas de produção, escolhas e racionalidades. “O poder monopolista da propriedade privada é, portanto, tanto o ponto de partida como o ponto final de toda a atividade capitalista” (Ibid, 224). A razão de trazer à luz este conceito é delimitar campos possíveis da valorização dentro de consumos que alimentam mercados, inclusive mercados de renda monopolista.

A dinâmica do mundo globalizado reduziu de alguma forma proteções monopolistas, que no passado eram facilmente oferecidas por custos elevados no transporte e comunicação. Assim, “monopólios naturais” ligados à localização de determinados espaços de produção foram reduzidos. Algumas barreiras institucionais ao comércio também foram removidas, apesar de existirem algumas que ainda se mantém sob o protecionismo comercial. Mas, o poder monopolista de renda ainda reivindica fortemente seu espaço, e exemplo claro são as patentes e os supostos ‘direitos de propriedade intelectual’, que acendem conflitos por todo o mundo globalizado frente a localidades na ânsia de manter poderes monopolistas de direito. Para Harvey (Ibid), a noção de ‘cultura’ está cada vez mais envolvida com as tentativas de assegurar tal poder, pois as alegações de singularidade e autenticidade são melhores articuladas enquanto alegações culturais irreplicáveis e distintas. Desta forma, até que ponto atribuir valores únicos a produtos únicos da Amazônia não será mais uma mesma maneira de alimentar ciclos viciosos do capitalismo? Ademais, o sistema de produção para quase todos os produtos da Amazônia goza da característica de ser produzido por inúmeros produtores, dispersos e não-organizados coletivamente.

Um parâmetro que tem sido utilizado para advogar a idéia de valorização de produtos da Amazônia é a proteção e a valorização tal qual empreendida na França e

outros países europeus para alguns produtos, dentre eles vinho, queijos e azeites. É um movimento que cresce no Brasil62, inclusive com a participação de europeus, alguns franceses ou acadêmicos com formação naquele país, para se fortalecer e pensar como tal instrumento de proteção a produtos de características singulares pode ser adaptado e chegar a beneficiar produtos e produtores da Amazônia. Mais sobre este tema será discutido neste capítulo e nos capítulos que seguem. Por ora pretende-se aprofundar a relação entre singularidades de produtos e oportunidades de mercado.

O vinho e seu negócio tem se beneficiado com a competição internacional, gerando efeitos e contradições. Segundo Harvey, a indústria européia do vinho, liderada principalmente pela França, tem procurando preservar rendas monopolistas às custas de virtudes exclusivas da terra, clima e tradição. Tais virtudes que compõe o termo terroir63 distinguem produtos e se validam ou certificam por nomes de origem. Controles institucionais como Appellation d’Origine Contrôlée reforçam o negócio do vinho francês, que se sustenta sobre a autenticidade e originalidade, estabelecendo assim a singularidade que embasa a renda monopolista. Com esse cenário posto vale ressaltar uma contradição que emerge neste negócio:

Todos os vinhos são negociáveis, e, portanto, em algum sentido, são comparáveis, não importa sua origem. Entra Robert Parker, e o seu guia Wine advocate(...)Parker avalia os vinhos pelo seu sabor, não dedicando atenção particular ao ‘terroir’ ou a quaisquer outras alegações histórico- culturais. Ele é notoriamente independente (a maior parte dos outros guias são patrocinados por setores influentes da indústria do vinho)(...)Se ele dá nota 65 a um vinho Bordeaux e 95 a um vinho australiano, os preços são afetados. Os produtores de vinho Bordeaux estão apavorados com ele. Eles processaram, denegriram e insultaram Parker, até o agrediram fisicamente. Ele desafia a base das rendas monopolistas desses produtores.(...)No entanto, se for abandonada a linguagem relativa ao ‘terroir’ e à tradição, que tipo de discurso pode ser posto em seu lugar? Nos últimos anos, Parker e muitos outros envolvidos no negócio do vinho inventaram uma linguagem em que os vinhos são descritos em termos de ‘sabor de pêssego e ameixa, com um toque de tomilho e groselha’. A linguagem parece bizarra, mas essa mudança discursiva, correspondente à ascensão da competição e globalização internacional no negócio do vinho, assumiu um papel distintivo, refletindo a transformação em commodities do consumo do vinho dentro de linhas padronizadas.(Ibid, 228)

É claro que o negócio do vinho, como acima descrito, está interessado em dinheiro e lucro, mesmo considerando os aspectos culturais que cercam sua produção e consumo. Neste sentido o alerta de Harvey é de grande pertinência ao que efetivamente

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Em novembro de 2008 realiza-se o I Seminário Internacional de Indicações Geográficas no Brasil, em Florianópolis.

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Termo francês utilizado para qualificar produtos. A noção de “produtos de terroir” assegura aos consumidores a qualidade desses, tipicidade, modo de produção, respeito às tradições e ao meio ambiente.

está proposto com busca por alternativas viáveis para valorização de produtos da Amazônia. Esses têm em seu bojo, singularidade, originalidade, tipicidade, tradição e elementos preservação de bens e serviços ambientais.

A incessante busca por rendas monopolistas impõe a procura de critérios de especialidade, singularidade, originalidade e autenticidade em cada um desses domínios. Se não puder se estabelecer a singularidade pelo apelo ao ‘terroir’ e à tradição, ou pela descrição direta do sabor, outros modos de distinção deverão ser invocados para estabelecer alegações e discursos monopolistas, idealizados para garantir a veracidade dessas alegações. (...)todas essas mudanças e vaivéns discursivos, assim como muitas das mudanças e reviravoltas ocorridas nas estratégias para controlar o mercado internacional do vinho, possuem, em sua raiz, não apenas a busca do lucro, mas também a busca das rendas monopolistas. Nisso, a linguagem de autenticidade, originalidade, singularidade e qualidades irreplicáveis especiais avulta em abundância. A generalidade do mercado globalizado gera, de modo compatível(...)uma força poderosa, que procura garantir não apenas a continuidade dos privilégios monopolistas da propriedade privada, mas também as rendas monopolistas que resultam da descrição de mercadorias como sendo mercadorias incomparáveis (Ibid, 229).

O que se pretende com a valorização monetária de produtos da Amazônia? A possibilidade de geração de renda e alternativas para habitantes da floresta são objetivos comuns e desejados por muitos produtores que querem continuar em seus locais de origem. O modo desta valorização é que necessita ser cuidadosamente pensado para não cair em abismos do mercado que poucas chances oferecem para efetivamente melhorar renda individual-coletiva e qualidade de vida no sentido mais amplo do termo. Já existem exemplos de intenções monopolistas de renda com produtos, princípios e conhecimento coletivo de povos e comunidades tradicionais da Amazônia. Esses dão conta de registros de utilização do conhecimento tradicional sem devidos consentimentos e conseqüente não repartição de benefícios. O desafio de beneficiar coletivamente conhecimentos ou produtos permanece campo fértil tanto de batalhas quanto de idéias para superá-lo64.

Como foi destacado no início, a dinâmica produtiva dispersa possibilitou a disseminação do conhecimento tradicional de cultivo, manejo e produção o que favorece a coletividade dos benefícios. A dispersão, por exemplo, de conhecimentos relativos a algumas plantas medicinais, facilita o acesso à saúde de muitas pessoas que, por outras vias, institucionais ou governamentais, não o teriam. Os riscos de empreendimentos que visem o mopólio ou controle de marcas por poucos produtores, ainda que na coletividade,

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Ver Socioambientalismo jurídico (SANTILLI, 2005); Multiculturalismo jurídico e direitos coletivo (MARÉS, 2005); Direitos intelectuais coletivos, proteção do conhecimento tradicional e patrimônio imaterial (CUNHA, 2005).

ameaçam a própria dinâmica produtiva inerente a sistemas extrativistas e da agricultura familiar na Amazônia.