PARTE II – A obra setecentista na Sé
3. A edificação da nova capela-mor
3.2. Sebastião Soares, o arquitecto da obra
Para além de ter sido o autor do risco da capela-mor, Sebastião Soares - ou Sebastião Soares Pinto, como assina numa despesa relacionada com pedraria destinada à ao novo presbitério (doc. 22) - aparece-nos também a rubricar recibos e relações semanais de trabalhadores como mestre-da-obra, por vezes conjuntamente com João Fernandes Cordeiro, um facto já assinalado no ponto anterior. Ambos tinham, no entanto, habilitações, funções e salários visivelmente distintos, como denuncia uma “declarasão dos presos dos officiaes que trabalharão na obra…”, em que se esclarece o seguinte: “Ao architeto Sebastião Soares se constituio 20000 por mes cazas para morar em todo o tempo que durou a obra” e “ao mestre João Fernandez Cordeiro que servio de apontador da obra e tinha a seu cargo vigiar officiaes que trabalharão nella 400 reis pellos dias que asistia somente” (doc. 37).360
Sebastião Soares foi, assim, não só o autor do projecto da edificação mas também o responsável pela sua execução, acompanhando de perto o evoluir da obra, escolhendo os materiais pétreos e certamente gizando os desenhos dos elementos arquitectónicos que depois seriam talhados na pedra pelos canteiros. Neste caso, fica bem em dizer-se que projecto e construção andaram de mãos dadas.
Quanto a João Fernandes Cordeiro é de lembrar que este mestre já participara em empreendimentos importantes na cidade de Elvas como desenvolvemos no ponto referente ao ambiente artístico da cidade no período de Setecentos.
Recordemos que Sebastião Soares viera da vizinha vila de Campo Maior, onde até então estaria ocupado com as obras da igreja de São João Baptista (figs. 213-215). Não sendo, portanto, oriundo e morador de Elvas, habitou, durante o tempo em que duraram as obras da Catedral elvense, em casas arrendadas ao cabido, pertencentes a André Vaz e a Ana Maria, como se depreende de um recibo, de 21 de Janeiro de 1737,
359
ACP, Bispado de Elvas, Maço 11, Documento 17, Relasão das despezas que se fizerão com as obras
da cappela mor athe que se suspenderão por ordem de Sua Magestade participada pello Sacratario de Estado que forão carregadas no mapa e se individuão na forma seguinte, 25 de Maio de 1741, fl. não
numerado.
por estes assinado, em que declaram ter recebido “…ceis mil reis do aluguer das nosas cazas em que vive Cebastião Soares mestre da hobra da Se e este coartel de seis mil reis se vemçe em S. João Bautista de 1737...”361
Muito pouco se conhece acerca da formação e actividade de Sebastião Soares. Sabe-se que em Campo Maior foi mestre-da-obra da nova igreja paroquial de São João Baptista, mandada fazer pelo monarca D. João V, depois do anterior templo ter sido arruinado por um bombardeamento em 1712. A 18 de Outubro de 1734,
“…havendo-se previamente demolido a antiga egreja, se esboçaram os alicerces da egreja actual, com assistência do engenheiro-mór do reino Manuel de Azevedo Fortes e outros officiaes da mesma arma, a quem el-rei D. João V tinha encarregado da redificação da praça, e do mestre da obra Sebastião Soares…” 362
A 28 do mesmo mês e ano, assentou-se a primeira pedra “…a qual era quadrada, e tinha no centro esculpida uma cruz da ordem de Malta…”, tendo sido lançada sobre a dita pedra ”…toda a espécie de moeda de ouro e prata na importancia de 15$050 réis, cuja quantia foi recolhida pelo mestre da obra, por assim ser do estylo…”363
O edifício foi terminado em 1747.364
Estamos pois em crer que Sebastião Soares não deve ter sido apenas um mero executante dos planos de Azevedo Fortes. Porém, os novos dados que agora apresentamos colocam um problema acerca da relação daquela personalidade com a edificação do edifício campomaiorense. O período de construção desse imóvel coincide, em parte, com o período em que Sebastião Soares veio para Elvas para se ocupar das obras da capela-mor da Sé, pelo que o arquitecto poderá muito bem ter projectado a obra (em co-autoria com Azevedo Fortes) mas não acompanhado o seu desenvolvimento, pelo menos até 1738. Há, no entanto, um dado curioso e que se refere a um recibo relacionado com as obras da capela-mor elvense, o qual é assinado por Sebastião Soares na localidade de Campo Maior (doc. 22), o que poderá indicar que de quando em vez este se deslocava à vila alentejana, mantendo, desse modo, alguma ligação com a construção da igreja de São João Baptista.
Vítor Serrão adianta importantes informações sobre o nosso arquitecto:
361
ACP, Bispado de Elvas, Maço 11, Processo 19, Despesas com a obra da capela-mor da Sé, Recibo de
21 de Janeiro de 1737.
362 Luiz Couceiro da COSTA, op. cit., p. 31. 363
Ibidem, p. 31.
“Quanto ao pedreiro (ou arquitecto, como o designam outras fontes coevas) Sebastião Soares, um mestre lisboeta também activo no Alentejo e que foi autor (com Azevedo Fortes) da bela Igreja octogonal de São João Baptista em Campo Maior (de 1734-1737, considerada ainda uma versão raiana do Menino de Deus), encontramo-lo, antes dessa data, a intervir nas obras de Santa Engrácia (1732) e a «modernizar» em estilo joanino a Capela de São João Evangelista no Convento da Conceição de Beja (1723), com esbeltos anjos-atlantes berniniescos e outros elementos de forte dinamização barroca.”365
Como se vê, uma futura pesquisa sobre a figura do lisboeta Sebastião Soares trará, seguramente, aspectos importantes para a historiografia da arte, revelando um dos vários responsáveis pela difusão da arte do Barroco no período joanino, nomeadamente no Alentejo.