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Sobre os conceitos de comunidade e comunidade indígena

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CAPÍTULO I – A comunicação das minorias

2 Reflexões sobre a comunicação popular-alternativa e comunitária

2.2 Sobre os conceitos de comunidade e comunidade indígena

Comunidade é diferente de favela, lugar desorganizado, onde as pessoas sobrevivem. Comunidade é o espaço onde as pessoas se encontram dentro da cidade, lugar onde a gente se acha, acha nossas raízes. Viver em comunidade é apostar que é possível viver no encontro, na partilha, ao contrário do que nos remete a globalização, onde cada um vive no seu canto, em solidão (TAVARES, [s/d], p. 1).

Questionando a citação da autora, não é apenas dentro das cidades que se encontram as comunidades. Buscamos id entificar se as aldeias do Jaguapiru e Bororó caracterizam-se como comunidades, sendo que, embora localizadas apenas a oito quilômetros da cidade de Dourados, não fazem parte dela.

O termo que parece ser de fácil definição, tem sofrido alterações rápidas, constantes e profundas devido às transformações decorrentes da sociedade pós- moderna.

É nas revoluções Industrial e Francesa e na independência dos Estados Unidos da América do Norte que se dá a consolidação da sociedade capitalista, rompendo com as instit uições e paradigmas feudais. Pensadores como Ferdinand Tönnies, Emile Durkhein e Max Weber colocaram em análise a partir de então os conceitos de comunidade.

Para discutirmos o termo comunidade, partimos da diferenciação clássica proposta por Tönnies8 em que comunidade (Gemeinschaft) se opõe à sociedade (Gesellschaft), sendo a primeira um local idealizado, puro, afetivo, com interação entre seus membros constitutivos. Já a sociedade moderna para o autor se configurava como a corrupção desse ambiente, com a ausência dos laços afetivos e da interação social. “Sua motivação [da sociedade] era objetiva, era mecânica, observava relações supra- locais e complexas. As normas e o controle davam-se através de convenção, lei e opinião pública. Seu círculo abrangia metrópole, nação, Estado e Mundo” (RECUERO, 2001, p.2).

Opor comunidade à sociedade, dando à primeira um toque de idealismo, garantiu a Tönnies críticas como a desenvolvida por Georg Lukács e Ralf Dahrendorf, exemplos de pensadores que atribuíam ao sociólogo o rótulo de irracionalista romântico, segundo Perti Töttö (1995, p. 47) e que

argumentavam em termos análogos que Tönnies era um antimodernista que criticava a dura e fria Gesellschaft do capitalismo, contrastando-a com a idílica Gemeinschaft agrária, contribuindo dessa forma para a ascensão do irracionalismo e a vitória dos nacional-socialistas (TÖTTÖ, 1995, p. 41).

Para o autor, atribuir à Gemeinschaft uma visão nostálgica das comunidades agrárias, “de alguma antiga vida rústica” (TÖTTÖ, 1995, p.50) que existiu anteriormente à sociedade, descrita como algo real, é uma interpretação totalmente equivocada dos conceitos de Tönnies, que em sua obra original, deixa claro que os conceitos “não pretendem ser descrições da realidade empírica, mas sim ‘freie und willkürliche

Gedankenprodukte’ (produtos livres e arbitrários do pensamento) [...] para os quais não há

qualquer equivalente empírico direto ” (TÖNNIES apud TÖTTÖ, 1995, p. 49-50).

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A discussão da dicotomia não se esgota em Tönnies e vem sendo delineada até os dias atuais.

Em um de seus trabalhos, Marcos Palácios afirma que a Sociologia das Comunidades e a Comunicação Comunitária têm sido trabalhadas em dois pontos de vista. Por volta dos anos 1950 e 1960 foram colocadas “a serviço de uma espécie de engenharia social que tinha por fim último justamente dinamizar as comunidades tradicionais, com o intuito de modernizá- las e integrá-las à sociedade complexa (AMMANN apud PALÁCIOS, 1995, p.3)”.

A partir do final dos 60, segundo o autor, “superando esse momento modernizante” a comunidade passa a ser vista como “aquela forma de organização que reúne as pessoas e resgata a sociedade perdida (MARCONDES apud PALÁCIOS, 2995, p.3)”.

Importante delinearmos, portanto, a existência de uma nova realidade e com ela a reconfiguração das características de comunidade. Nos tempos modernos, baseados em PALÁCIOS (1995, p.12), seriam estas as características das comunidades:

a) O sentimento de pertencimento;

b) Uma territorialidade (geográfica e/ou simbólica) definida; c) A permanência;

d) A ligação entre sentimento de comunidade, caráter cooperativo e emergência de um projeto comum;

e) A existência de formas próprias de comunicação; f) A tendência à institucionalização.

De acordo com Tötö (1995, p.49), Tönnies trabalhou com o conceito puro e idealizado das comunidades antigas, pois inspirava-se no método galilaico. “O método consistia em escolher somente um caso e livrá-lo das impurezas do mundo observável, a fim de encontrar o princípio de acordo com o qual o caso em questão ‘funcionaria’ em circuns tâncias ideais”. Porém o próprio autor dissera que não conhecia “nenhum estado de cultura ou sociedade em que elementos de Gemeinschaft e de Gesellschaft não estejam simultaneamente presentes, isto é, misturados” (TÖNNIES apud TÖTÖ, 1995, p. 50).

Martin Buber ao debater o socialismo utópico, retoma a decadência das comunidades no contexto da sociedade capitalista, atribuindo, como Tönnies o fez, uma aura idealizada à comunidade em detrimento da sociedade.

A sociedade, por sua própria natureza, não é constituída de indivíduos isolados, mas de unidades societárias e seus agrupamentos. Pela coação da economia e do Estado capitalista, essa essência foi se alterando progressivamente, de sorte que o moderno processo de individualização se efetuou em forma de desintegração. As antigas formas orgânicas continuaram a existir em seu aspecto exterior, mas perderam seu sentido e sua alma: converteram-se em tessitura decadente (BUBER, 1986, p. 25).

Mais adiante, o autor (1986, p. 25) fala sobre as novas organizações sociais, que segundo ele se unem não de maneira natural, orgânica, mas de maneira interessada e para compensar a perda das genuínas relações comunitárias.

Não só o que se chama as massas, mas toda a sociedade é amorfa, invertebrada, pobre de estrutura. Não é por meio das associações resultantes da união de interesses econômicos ou espirituais – das quais é o partido o mais forte – que esse mal poderá ser sanado. Se os homens se unem nessas associações não é mais por similitude de existência, e em todas ela s se busca inutilmente a compensação para as formas de comunidades perdidas (BUBER, 1986, p. 25).

A dificuldade em se delimitar o conceito de comunidade, passa certamente pela sensação de uma realidade distante e, talvez, até mesmo utópica. SILVERSTONE (2002, p. 183) diz:

Essa incerteza é o produto de um sentimento de perda, mas também de desconforto: porque o mundo em que agora vivemos, um mundo de experiência fraturada, cultura fragmentária e mobilidade social e geográfica, minou e continuará a minar nossa capacidade de sustentar uma vida social de maneira significativa, segura e, talvez, sobretudo moral – em outras palavras, sustentar uma vida social em algo que queremos chamar de comunidade.

Max Weber, em Conceitos Básicos de Sociologia (2002), contribui para a construção do conceito de comunidade. “Chamamos de comunidade a uma relação social na medida em que a orientação da ação social – seja no caso individual, na média ou no

tipo ideal – baseia-se em um sentido de solidariedade: o resultado de ligações emocionais ou tradicionais dos participantes” (WEBER, 2002, p. 77).

Para retomarmos o contexto das comunidades em que surgem os veículos comunitários, faz-se muito importante essas definições que enfocam a necessidade do sentir-se parte e da ação por parte dos membros constitutivos da comunidade. O sentimento de exclusão, de marginalidade, de abandono social não seria, portanto, segundo Weber, suficiente para o sentimento comunitário, mas sim, sua ação e identificação com a comunidade. Reitera Roger Silverstone (2002, p. 182-183)

A comunidade sempre implica uma reivindicação. Não é apenas uma questão de estrutura: de instituições que permitem a participação e a organização dos membros. É também uma questão de fé, de um conjunto de reivindicações de ser parte de algo partilhável e particular, um conjunto de reivindicações cuja eficácia é percebida precisamente e apenas em nossa aceitação delas.

Além do sentido de pertencimento, de ligação àquela comunidade e da ação organizada, outras características são apontadas por Palácios como sendo um “modelo - ideal”. “A permanência (em contraposição à efemeridade), a territorialidade (sejam tais territórios reais ou simbólicos) e a existência de uma forma própria de comunicação entre seus membros através de veículos específicos (murais, boletins, jornais, serviço de alto- falantes, rádios, etc.)” (PALÁCIOS, 1995, p.4).

Dada a existência dos primeiros quesitos – permanência, ação organizada e existência de um projeto comum – a comunidade teria a tendência a institucionalizar-se., segundo o autor, “tomando uma forma mais consolidada, com uma organização visível, hierarquia formal, delegação de responsabilidades e poderes, personalidade jurídica etc” (PALÁCIOS, 1995, p.4).

Essas características que se pressupõe necessárias para a existência de uma comunidade, também serão verificadas nas comunidades indígenas estudadas neste trabalho, pois o envolvimento dos indígenas com a comunicação popular-alternativa produzida é preponderante para a caracterização e função social- transformadora desse tipo de meio de comunicação.

Antes de pensarmos na convergência das características de comunidade definidas por Marcos Palácios à comunidade indígena, passemos por algumas considerações específicas.

De acordo com a lei 6.001, de 19/12/1973, denominada Estatuto do Índio, comunidade indígena se define de uma maneira menos complexa. Considera-se pelo Estatuto, a relação entre um conjunto de famílias de origem e ascendência pré-colombiana pertencente a um grupo étnico cujas características se distinguem da sociedade nacional.

Assim reza o artigo 3º:

I – Índio ou Silvícola - é todo indivíduo de origem e ascendência pré-colombiana que se identifica e é identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade nacional;

II – Comunidade Indígena ou Grupo Tribal – É um conjunto de famílias ou comunidades índias, quer vivendo em estado de completo isolamento em relação aos outros setores da comunhão nacional, quer em contatos intermitentes ou permanentes, sem, contudo estarem neles integrados.

Para Manuela Carneiro da Cunha9 (apud BARRETO, 2003, p.37) comunidades indígenas são aquelas “que se consideram segmentos distintos da sociedade nacional em virtude de uma consciência de sua continuidade histórica com sociedades pré- colombianas”.

Essas definições “burocráticas” não consideram o termo comunidade como uma relação de identificação, proximidade, interesses em comum e pertencimento, mas buscam basicamente delimitar ante a sociedade os que estão integrados à nação, acompanhando o estágio evolutivo, e os que estão em fase de integração ou completamente desintegrados à sociedade.

Devido ao simplismo do conceito burocrático que designa uma comunidade indígena, apoiaremo-nos nas considerações desenvolvidas sobre comunidade.

WEBER (2002, p. 79-80) destaca que não é verdadeiro que modos comuns de comportamento implicam na existência de uma comunidade. E exemplifica:

9 Antropóloga fundadora do Núcleo de História Indígena e do Indigenismo da USP, é especialista em história

A posse de características biológicas comuns herdadas e adequadas ao estabelecimento de distinções raciais para certas pessoas não implica de qualquer maneira em uma comunidade entre elas. Por restrições sobre seu direito ao comércio ou casamento, tais pessoas podem encontrar-se na mesma situação, ou seja, isoladas do seu ambiente costumeiro que impõe tais restrições. Porém mesmo se todos reagirem da mesma maneira, isto não constitui uma comunidade criada por um “sentimento” meramente comum a respeito da situação e de suas conseqüências. É apenas quando este sentimento leva à orientação mútua de sua ação reciprocamente referida, que a comunidade surge entre eles (WEBER, 2002, p. 79-80).

Uma das ações organizadas entre os indígenas de Dourados é o desenvolvimento de formas de comunicação popular-alternativas. Marcos Palácios retrata que além da ação organizada, o fato de sentir-se parte é característica fundamental para diferenciar, por exemplo, comunidades de grupos étnicos. “Esse sentimento de pertencer diferencia, por exemplo, um grupo identificado por fator puramente étnico (a cor da pele) de um outro constituído enquanto movimento negro organizado”. E prossegue: “A negritude seria o laço de união, a característica básica comum, mas somente em havendo o sentido de ligação, de pertencimento, poderíamos falar de uma Comunidade e não simplesmente de um grupo étnico” (PALÁCIOS, 1995, p.4).

No caso dos indígenas de Dourados, embora haja em cada aldeia interesses em comum, sentimento de pertencimento, permanência, mobilizações e cumplicidade, existe nas aldeias do Jaguapiru e Bororó, disputas por liderança, por terras, por melhores condições de vida. Dentre os problemas encontrados nas aldeias, Vanderléia Mussi (2006, p. 276) contextualiza alguns que afetam principalmente os jovens indígenas. “Convém considerar que tal conseqüência também é reflexo da incorporação destes novos elementos culturais – como shampoo, cremes, calçados, e até bebida alcoólica - que muitas vezes não estando ao alcance de todos acabam resultando em conflitos de ordem interna dentro da própria comunidade”.

O que deve ficar claro, conqua nto, é que o termo comunidade também não nos deve remeter a um local onde se vive em total e constante harmonia. Os conflitos existem como parte da dinâmica comunitária .

Para Houaiss (apud LACERDA, 2003, p.9), comunidade “é o conjunto de população que vive num dado lugar ou região, geralmente ligados por interesses comuns” e nas aldeias, prossegue “é verificável quando reúnem a família em volta do tereré para falar

de interesses comuns, quando vão as igrejas comungar com Deus, quando lutam pelas demarcações de terras”. Para Tange; Delespesse (apud LACERDA, 2003, p.9) “a comunidade também é aquela que contesta a sociedade moderna, impessoal e funcional, famílias desintegradas ou fechadas sobre si mesma”.

No que toca a discussão sobre comunidade, Munier Lacerda chama a atenção a questões referentes à perda do sentimento comunal, também já retratada por PALÁCIOS (1995).

Mas no entanto assim como nós não-nativos estamos perdemos o sentido do comum e devido ao sistema político e econômico adotado ser uma proposta de competição nos moldes do neoliberalismo, os nativos também aos poucos estão se adaptando ao sistema; outros ainda estão confusos sem saber o que fazer, e uma grande quantidade esperando que se faça por eles, pois aceitaram as condições do antigo colon izador que o fez se acostumar com o assistencialismo, para manter a dominação. Assim, muitos dos problemas poderiam ser resolvidos enquanto comunidade, mas ficam na dependência da ação do Estado (LACERDA, 2003, p.9).

Discutiremos baseados nesses conceitos, como se configura a participação nos produtos de comunicação desenvolvidos pela AJI. Considerando que estes meios de comunicação são produzidos – e diretamente lidos – pelos jovens indígenas, buscamos identificar como se dá a participação de outros grupos etários na produção e recepção do jornal, blog, vídeos e fotografias, além de analisarmos como o grupo dos jovens como um todo também participa, pois são poucos deles (cerca de 15 indígenas) que publicam suas matérias no jornal e site e que participam das oficinas promovidas pela GAPK (Grupo de Apoio aos Povos Kaiowá).

CAPÍTULO II – A realidade social vivida pelos indígenas em

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