3 ASPECTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA
3.4 INSTRUMENTOS DE PESQUISA
3.4.13 Teste das matrizes progressivas coloridas de Raven
As matrizes progressivas coloridas de Raven constituem-se um teste de inteligência não verbal e são consideradas a melhor medida do chamado fator g. (ANASTASI, 1988; ANGELINI et al., 1999a; RAVEN, 1983).
De acordo com a teoria de Spearman (1927), ao medir diferentes fatores, que, por sua vez, são distribuídos em diferentes proporções em testes de inteligência, um único fator consegue explicar grande parte da totalidade do que o teste se propõe medir, ainda que ele seja composto por diferentes itens. Spearman denominou este fator de fator g (geral) e identificou dois componentes de g, denominados por ele de capacidade edutiva e capacidade reprodutiva.
De acordo com Angelini et al. (1999a),
A atividade mental edutiva envolve a capacidade de extrair um significado de uma situação confusa; de desenvolver novas compreensões; de ir além do que é dado para perceber o que não é imediatamente óbvio; de estabelecer constructos (em grande parte não verbais), que facilitam lidar com problemas complexos, envolvendo muitas variáveis mutuamente dependentes. (ANGELINI et al., 1999a, p. 3, grifo dos autores).
A atividade mental reprodutiva, por sua vez, de acordo com os autores, “inclui o domínio, a lembrança e a reprodução de materiais (em grande parte verbais) que constituem uma base cultural de conhecimentos explícitos, normalmente verbalizados”. (ANGELINI et al., 1999a, p. 3).
Assim, as matrizes progressivas coloridas de Raven (Colored Progressive Matrices, doravante denominadas CPM) avaliam a capacidade edutiva, ou seja, a “inteligência” não verbal. Uma vez que o fator g muitas vezes é considerado sinônimo de capacidade acadêmica geral e configura-se na soma de múltiplas capacidades, não parece adequado definir as CPM como teste de medida do fator g, mas sim à capacidade de resolver problemas que independe da capacidade e reprodução verbal, ou seja, à capacidade edutiva. Como apontam Angelini et al. (1999a, p. 6, grifos dos autores), “Uma formulação apropriada é a que as Matrizes avaliam a capacidade de desenvolver constructos de nível superior, que tornam mais fácil pensar sobre situações e eventos complexos”.
Angelini et al. (1999a) alertam para a inadequação de rotular as CPM como um teste de inteligência ou de quociente de inteligência (QI), uma vez que o que
comumente é atribuído a “inteligência” costuma ser um conjunto complexo de habilidades e capacidades dificilmente avaliadas num único teste, e QI costuma ser associado a uma crença e em um poder explicativo equivocados de inteligência. Caracterizadas como um teste culture fair, as CPM são amplamente utilizadas em estudos transculturais para fins diversos de pesquisa. Na presente investigação, as CPM servem de parâmetro para a equiparação dos três grupos de pesquisa.
Os testes das matrizes progressivas de Raven constituem três escalas, das quais as CPM fazem parte: a chamada escala Standard, a Colorida e a Avançada. A versão Standard, conhecida no Brasil como Escala Geral, destina-se a pessoas de 12 a 65 anos, sendo dividida em cinco séries (A, B, C, D e E), cada qual com 12 problemas a serem resolvidos. A escala foi projetada de modo a cada série apresentar um problema inicial de evidente resolução, tanto quanto possível, de modo a que cada problema subsequente seja gradativamente mais complexo. As matrizes avançadas, por sua vez, são destinadas a um público com idade superior a 11 anos e inteligência superior à média e sendo adotada comumente para testagem em universitários, sendo constituídas por duas séries (a série I, com 12 problemas, e a série II, com 36 problemas).
As CPM, também conhecidas como Escala Especial, foram elaboradas para avaliar os processos intelectuais de crianças de 5 a 11 anos de idade, de deficientes mentais e de pessoas idosas. Elas são compostas pelas duas primeiras séries da Escala Geral (A e B) e mais uma escala intermediária, denominada Ab, cada qual com 12 problemas. São chamadas de coloridas por serem produzidas em fundo colorido vivo, a fim de se tornarem atrativas ao público infantil. Embora adultos não alfabetizados sem comprometimentos cognitivos não sejam oficialmente apontados como público-alvo das CPM, a escala costuma ser adotada também com esse público devido aos níveis de complexidade das outras duas escalas, conforme se pode constatar em estudos realizados por Ombredane, Robaye e Robaye (1957) e Verhaeghe e Kolinsky (2006).
A escala colorida foi publicada em 1947 na Inglaterra, sendo revista em 1956. A revisão alterou a ordem dos itens A11 e A12 e a posição e o desenho de algumas alternativas para permitir uma distribuição mais uniforme da gradação de dificuldades do teste. Conforme Angelini et al. (1999a, p. 50), as alterações feitas em 1956 não implicaram mudanças na alternativa correta ou no tipo de problema a ser resolvido.O teste existe em duas modalidades: em forma de tabuleiro com peças móveis e
encaixáveis e em forma de caderno. Na presente pesquisa, foi adotado o teste em forma de caderno, dada a facilidade em seu manuseio e o fato de os resultados não apresentarem mudanças relevantes em relação ao formato do teste.
Os 36 problemas a serem resolvidos nas CPM estão organizados em dois diferentes leiautes. Na série A, os 12 problemas estão dispostos de modo a cada um apresentar uma figura que contém um fragmento a ser preenchido no canto inferior direito. Abaixo da figura encontram-se seis padrões de resposta e o teste consiste na escolha do padrão que completa adequadamente a figura, conforme é possível visualizar a seguir:
Figura 15 – Problema A11 da série A das CPM Fonte: Angelini et al. (1999b).
Nas séries Ab e B, há um retângulo com três figuras cada, sendo que o canto direito inferior está vazio e deve ser completado com um dos seis padrões que se encontram abaixo do retângulo, conforme se pode ver a seguir:
Figura 16 – Problema Ab6 da série Ab das CPM Fonte: Angelini et al. (1999b).
O sucesso na Série A depende da capacidade da pessoa para completar padrões contínuos que, próximo ao final da Série, mudam primeiro em uma e depois em duas direções ao mesmo tempo. O sucesso na Série Ab depende da capacidade da pessoa para perceber figuras discretas como um todo relacionado espacialmente
e de escolher figuras que completem o desenho. A Série B contém problemas envolvendo analogias suficientes apenas para mostrar se a pessoa é capaz ou não de raciocinar daquela maneira. Os últimos problemas da Série B são do mesmo nível de dificuldade dos primeiros problemas das Séries C, D e E da Escala Standard. [...] As três séries em conjunto oferecem três oportunidades para que uma pessoa desenvolva uma forma consistente de pensamento. E a escala de trinta e seis itens como um todo é planejada para avaliar tão precisamente quanto possível o desenvolvimento mental até a maturidade intelectual. (ANGELINI et al., 1999a, p. 38- 49).
O teste foi organizado de forma tal a viabilizar não apenas a análise dos índices de acerto, mas também dos tipos de erros cometidos pelos sujeitos. As respostas foram definidas por Raven (1983) como sendo de dez tipos e de cinco naturezas distintas, conforme se pode constatar no quadro a seguir:
Quadro 11: Tipo e natureza das figuras das seis alternativas de resposta das CPM
Diferença
a O pedaço não tem qualquer tipo de figura nele b A figura apresentada é totalmente irrelevante
Individuação inadequada
c A figura é contaminada por irrelevâncias ou distorções d Combina figuras irrelevantemente
e É o todo ou metade do padrão a ser completado
Repetição do padrão
f Acima e à esquerda do espaço a ser preenchido g Imediatamente acima do espaço a ser preenchido h Imediatamente à esquerda do espaço a ser preenchido
Correlato incompleto
i A figura está orientada incorretamente j Está incompleta, mas correta até esse ponto
Pedaço correto
x Completa o padrão tanto horizontal como verticalmente Fonte: Angelini et al. (1999, p. 51).
Os comandos do teste podem ser vistos no apêndice O.
As CPM foram aplicadas individualmente, sem estipulação do tempo de resposta, e tiveram, em média, dez minutos de duração.