4. INVADINDO A TORRE
4.6 TRANSFORMA‚ÌO DE PARADIGMAS
A mudan•a na forma de editar reflete uma mudan•a ainda mais profunda que ocorre no papel dos pr—prios jornais impressos diante desse cen‡rio de cacofonia noticiosa. E Ž a’ que a crise de paradigmas desses ve’culos se manifesta de maneira mais aguda. A angœstia dos editores hoje Ž: para que serve um jornal impresso, se a maior parte das informa•›es est‡ na internet horas antes e de gra•a? E, claro, a pergunta —bvia diante da reestrutura•‹o dos modelos de neg—cio das empresas de comunica•‹o: os jornais impressos v‹o acabar?
Enquanto a segunda pergunta j‡ n‹o parece assustar muito os jornalistas de impressos, que aparentemente perceberam que, se um dia os jornais de papel acabarem, n‹o ser‡ o fim do jornalismo Ð plataformas podem mudar sem preju’zo da ess•ncia da atividade Ð, a primeira pergunta realmente assombra.
Afinal, mesmo que os jornais impressos acabem, os jornalistas prosseguir‹o em plena atividade, pondera Pablo Pereira, ex-editor executivo do Estad‹o. Ele detecta mais uma crise de modelo de neg—cios do que uma crise no jornalismo propriamente dito. A sociedade ainda precisa de jornalistas, diz, e precisar‡ cada vez mais, n‹o obstante a multiplica•‹o de fontes de informa•‹o na internet e, especialmente, nas redes sociais. A amea•a ao futuro dos jornais, argumenta, Òest‡ mais ligada ˆ quest‹o do modelo de neg—cios, como se financiam essas m‡quinas, como se paga uma Reda•‹o, de onde vem o dinheiro para sustentar custos de produ•‹o, do que propriamente pela qualidade dos ve’culosÓ:
Ð A quest‹o Ž mais na ‡rea da publicidade, de como fazer o rateio do bolo publicit‡rio, que antes era jogado inteiro no jornal de papel; come•a a ser questionado de um tempo pra c‡ que tambŽm existe a web, outro tipo de leitor e interesse. A
quest‹o me parece mais nesta ‡rea do que na credibilidade do jornalista, do que no produto e na informa•‹o em si. As pessoas continuam precisando que um editor organize para elas um rol de informa•›es. As pessoas continuam confiando que um corpo de jornalistas vai fazer isso bem-feito. Seja no papel, seja no celular, tablet, computador. A figura do jornalista organizador das coisas, isso vai permanecer, n‹o tenho dœvida de que isso vai permanecer. E se esse jornalista consegue organizar [a informa•‹o] de forma que fa•a sentido, com conteœdo de qualidade, essa publica•‹o sobrevive. O modelo que est‡ em cheque n‹o Ž o modelo do jornalismo. Voc• pega uma cobertura de guerra, por exemplo: como vai saber o que est‡ acontecendo na S’ria? S— mandando jornalista pra l‡.
Para ele, Òa maneira de apresentar o jornalismo est‡ mudando, mas Òa ess•ncia n‹o mudaÓ.
Ð O que Ž a ess•ncia? A qualidade da apura•‹o e a maneira de entregar isso. O portugu•s correto, o que Ž mais importante em cima, o menos importante embaixo, ou seja, o conteœdo vai sobreviver a toda essa discuss‹o de modelo de neg—cio e a essas coisas que vivemos hoje. O conteœdo vai sobreviver, porque Ž preciso que ele exista. N‹o tenho preocupa•‹o com rela•‹o ao futuro do jornalismo, a minha preocupa•‹o, se Ž que existe, Ž mais voltada ˆ quest‹o das empresas. Como elas v‹o financiar a exist•ncia desse conteœdo? O modelo do jornalismo como neg—cio Ž uma quest‹o que preocupa. Do ponto de vista do trabalhador, do produtor de conteœdo, acho que n‹o existe essa quest‹o de Òo jornalismo vai acabarÓ. O conteœdo de qualidade continua sendo necess‡rio para que as pessoas entendam o que est‡ acontecendo no mundo. E a fun•‹o do jornalista Ž apurar e editar, essas s‹o quest›es importantes. Na quest‹o do jornalismo em si, a apura•‹o continua sendo importante, o editor continua sendo figura important’ssima, seja no papel, seja em web, seja no r‡dio, seja na TV, que cada vez mais tem se aproximado dessa tend•ncia de informa•‹o online.
Ð Voc• tem as redes sociais em que as pessoas publicam not’cias que jornalistas n‹o conseguem. Sim, mas isso voc• tinha antes, em outras realidades; as pessoas telefonavam, mandavam cartas, se comunicavam tambŽm. Vamos pegar a Žpoca da ditadura no Brasil: como se sabia o que estava acontecendo? No boca a boca. Hoje o boca a boca est‡ global. Voc• posta o v’deo aqui e todos sabem, mas o que voc• faz com o v’deo Ž s— dar a pauta, voc• abre o caminho para a informa•‹o. Ela vai chegar ao final do dia muito mais completa se ali houver um jornalista profissional atuando, e o pœblico leitor ainda identifica isso como um valor.
Logo, para os jornalistas entrevistados o problema n‹o Ž mais Òser‡ que os jornais impressos v‹o desaparecer?Ó. O problema, que parece agora muito mais instigante, Ž: como fazer um jornal impresso melhor, agora? Sai de foco a futurologia, t‹o em voga nas mesas de bar, e entra em cena o presente Ð a atualidade, matŽria- prima do jornalismo, s— recentemente parece ter sido reintegrada a essa discuss‹o. Como fazer um jornal impresso relevante e bem-feito, hoje, Ž foco de discuss‹o e fonte de uma angœstia leg’tima diante da crescente concorr•ncia de novas m’dias.
E como fazer um jornal melhor se as not’cias est‹o sendo irradiadas o tempo inteiro por tantas m’dias ao redor do leitor? Suzana Singer reflete:
Ð O jornal em geral vive um dilema que Ž assim: n‹o Ž verdade que voc• n‹o precisa dar as not’cias porque todo mundo j‡ sabe de tudo. Eu estou convencida disso, porque o leitor, quando a gente faz pesquisa, [afirma que] quer que o jornal conte o principal para inclusive ele saber que Ž verdade, porque ele n‹o confia totalmente na internet. S— que por outro lado s— contar o que aconteceu ontem n‹o basta mais, porque realmente a internet est‡ dando muita informa•‹o. Ent‹o ele tem que tentar dar conta do trivial e pensar em um diferencial, pelo menos nos assuntos principais. ƒ uma coisa bem desafiadora.
Pablo Pereira lembra que a crise de paradigmas Ð e de modelos de neg—cio Ð abalou fortemente as reda•›es de jornais impressos no mundo inteiro nos œltimos anos.
Ð Parecia, em um determinado momento, a atŽ dois ou tr•s anos atr‡s, que os jornais iam perder completamente as suas influ•ncias, n‹o s— no Brasil, como l‡ fora tambŽm. Muito jornal foi fechado nos Estados Unidos, na Europa, por conta dessas novas maneiras de divulga•‹o de informa•‹o.
O Òeditor dos editoresÓ da Folha, SŽrgio D‡vila, n‹o hesita em dizer que Òo papel do jornal impresso mudou muitoÓ. E Ž essa mudan•a, essa crise (a morte de algumas velhas cren•as e h‡bitos sem a consolida•‹o de novos, na conhecida asser•‹o de Gramsci), que desperta um temor Ð que talvez seja atŽ mesmo saud‡vel Ð na categoria. Ou seja, um temor em rela•‹o ao novo papel dessa m’dia, e n‹o de um eventual desaparecimento da profiss‹o jornalista. Temor talvez normal e que j‡ h‡ de ter sido vivenciado em inœmeras Žpocas; jornalismo, afinal, nunca foi o melhor reduto para os que se apegam a sistemas r’gidos de valores e de vis›es de mundo e neles se acomodam. Relembramos aqui a cita•‹o de D‡vila (cap. 3): ÒO jornal impresso foi por muitas dŽcadas o jornal do registro, tudo o que acontecia de relevante tinha de entrar naquele jornal. (...) Hoje em dia eu acho que ele Ž muito mais uma curadoria dessa cacofonia que bombardeou o leitor nas œltimas 24 horas. Ele Ž menos Ôolha, leitor, isso Ž tudo o que aconteceu nas œltimas 24 horasÕ. E mais Ôisso Ž tudo que n—s, jornalistas da Folha de S.Paulo, no meu caso, achamos importante voc• saber que aconteceu nas œltimas 24 horasÕ.Ó
Suzana Singer tambŽm diz que o papel do jornal impresso est‡ em processo de transforma•‹o:
Ð [O jornal hoje] tem um peso menor, est‡ em crise financeira, o que o enfraquece, mas ainda tem uma influ•ncia pol’tica muito grande, tanto aqui quanto no exterior. Ainda Ž o lugar onde as pessoas procuram credibilidade. N‹o Ž uma hist—ria em descenso, mas Ž uma coisa que precisa se reinventar e descobrir qual vai ser o modelo de neg—cio que vai sustentar isso. ƒ dif’cil dizer.
Segundo D‡vila, o leitor hoje pede que o jornal lhe aponte o que Ž mais importante dentre todas as not’cias com que tomou contato na vŽspera Ð n‹o h‡, necessariamente, a descoberta de uma novidade, mas sim o contexto que lhe permite entender melhor o mundo que o cerca. O jornal aponta, mas tambŽm deve aprofundar, analisar, com mais •nfase do que no passado.
Ð O leitor diz muito isto: eu n‹o tenho tempo para gastar com not’cia, me diz o que eu devo ler; o m’nimo, o b‡sico, o principal. Porque ele est‡ sendo cada vez mais
acionado. H‡ 20 anos ele tinha o jornal, TV e r‡dio. A’ come•ou a entrar a TV paga com seus dez, depois vinte, cem, mil canais. Depois entraram a internet, as m’dias sociais, os smartphones com seus torpedos, SMS, instant messengers. Ele [o leitor] est‡ sendo constantemente requerido. No per’odo que ele para e se dedica para ler, ou seja, de dez minutos a uma hora, ele n‹o quer saber de bl‡bl‡bl‡, ele quer ir direto ao ponto.
Essa mudan•a no papel do jornal impresso, que Ž consensual entre os gestores dos ve’culos, acarretou numa mudan•a de papel para os pr—prios editores. Ricardo Gandour, diretor de conteœdo do Grupo Estado, v• um ambiente de mais competi•‹o em que h‡, tambŽm, oportunidade de fazer um trabalho mais rico nos jornais.
Ð Acho que ele [o papel do jornalista] mudou de formato. Minha an‡lise Ž positiva. Acho que era mais c™modo. A gente era um intermediador entre a informa•‹o e a sociedade. As pessoas quase n‹o tinham acesso ˆ informa•‹o. Ent‹o o que eu escolhesse, o que eu dissesse, as pessoas iam valorizar. Hoje, para o meu trabalho como editor ser valorizado, eu preciso trabalhar muito mais. Ent‹o acho que isso Ž uma oportunidade para eu me destacar.
Outro fen™meno enfatizado por Gandour Ž o efeito da converg•ncia de m’dias sobre o trabalho do editor:
Ð Hoje estamos caminhando aqui [no Estado de S.Paulo] para que o editor seja editor de um tema, e n‹o de uma m’dia. O cara que edita economia edita na web, no smartphone, no tablet e no papel. Ele pode gerenciar. Dar o breaking news nessa m’dia e produzir para o papel no dia seguinte todo o contexto dessa coisa, reunindo opini›es, trazendo engajamento. Hoje o editor moderno tem que saber planejar de forma muito integrada. E [fazer a] edi•‹o final, com todos os elementos da edi•‹o. No papel voc• j‡ tem que dominar a narrativa, infografia, foto, constru•‹o da p‡gina... mas a’ chegou v’deo, ‡udio, posts. Tem muita coisa para dominar.
Em outras palavras, Gandour diz que o editor Ð todos os jornalistas, e n‹o s— o editor, em realidade Ð hoje precisam ter uma compet•ncia n‹o apenas de texto, mas de narrativa. Ou seja, saber definir o suporte mais adequado para contar uma hist—ria, e manej‡-lo com compet•ncia.
Ð Acho que est‡ exigindo mais da forma•‹o pessoal, do treinamento. O treinamento hoje envolve outras habilidades; desde manipular um sistema de pesquisa, um sistema de produ•‹o editorial, atŽ uma publica•‹o na web e entender
mais o mundo: e o mundo est‡ mais multifacetado. E a complexidade da informa•‹o faz parte disso. N‹o tem mais aquela coisa manique’sta do lado e do outro lado. Muitos assuntos t•m muitos lados. Voc• precisa dominar uma narrativa que d• conta desse multifacetado Ð, declara Gandour, consciente da necessidade de se olhar para o jornalismo Ð e para a sociedade Ð aberto ˆ complexidade do mundo, na acep•‹o que citamos no cap. 2, apoiados em Maffesoli e KŸnsch: como um tecido de muitas tramas.
TambŽm contr‡rio ˆ ideia de usar o papel apenas para registrar not’cias, resumindo o pr—prio notici‡rio da internet, Gandour diz que a reforma gr‡fica e editorial do Estado de S.Paulo em 2010 teve com objetivo definir melhor os contornos da experi•ncia de leitura de cada uma dessas m’dias.
Ð Quando a gente redesenhou o Estad‹o em 2010 a nossa ideia foi propiciar a melhor experi•ncia em cada m’dia. N‹o fa•a uma m’dia imitar outra. ƒ bobagem fazer um jornal de papel resumido para imitar a internet porque as pessoas est‹o sem tempo. N‹o, vamos fazer a melhor experi•ncia que o papel pode dar. Ent‹o n—s fizemos um jornal para quem gosta de ler. ƒ um jornal com mais aprofundamento, mais pe•as anal’ticas e mais entorno da not’cia Ð sem perder o gancho noticioso. Mas mais bastidores, mais coment‡rio e mais prospec•‹o. Eu brinco que hoje mais da metade do Estad‹o ainda Ž leg’vel ˆs 21h. Porque ele tem muita an‡lise, muito coment‡rio, muito entendimento da not’cia.
Mas o progressivo avan•o rumo a uma edi•‹o de temas, em vez de editar um tema dentro de uma m’dia espec’fica, tornou o trabalho do editor mais complexo. As habilidades gerenciais tambŽm s‹o mais importantes hoje, diz Jo‹o Caminoto, da Ag•ncia Estado.
Ð Voc• tem v‡rios tipos de editor, mas antigamente existia um comprometimento com o editorial muito maior do que hoje. Houve uma sofistica•‹o da posi•‹o do editor, ele precisou se adaptar a esse mundo novo, inclusive da crise na m’dia, a digitaliza•‹o, a concorr•ncia. O editor deixou de ser um mero administrador de talentos e de conteœdo para virar tambŽm um cara em posi•‹o de neg—cios. Os jornalistas t•m preconceito em ver uma empresa jornal’stica como neg—cio, mas Ž um neg—cio, e Ž preciso se adaptar a isso.
Noelly Russo, que dirigiu as reda•›es dos gratuitos Metro e MTV Na Rua, diz que, embora a fun•‹o primordial do editor n‹o tenha mudado (Òperceber onde est‡ o
ouro da not’ciaÓ e organiz‡-la e apresent‡-la da melhor maneira poss’vel), as novas tecnologias alteraram a maneira como trabalha.
Ð Antes o editor estava mais exposto, nunca sabia se tinha tomado um furo atŽ o dia seguinte. Hoje tem coisa que voc• olha na internet e sabe. O que Ž furo hoje? Voc• n‹o dar que choveu granizo? Ð, pergunta Noelly.
Ð A informa•‹o bruta j‡ est‡ chegando, eu preciso agregar valor a isso. Ent‹o acho que o papel est‡ valorizado, mas est‡ mais dif’cil [editar]. Mais complexo, n‹o sei se mais dif’cil Ð, completa Gandour.
A mudan•a no modo de trabalhar vai alŽm de uma acelera•‹o exponencial em processos produtivos. As ramifica•›es da internet sobre o trabalho do editor de jornal impresso s‹o muitas. Filosoficamente, o editor passa a se questionar com mais frequ•ncia do que antes.
Ð O editor precisa ser infinitamente mais criativo hoje, tem um trabalho de desconstruir o fato. Antes ele constru’a o fato, os m’nimos detalhes daquela not’cia. Isso era excel•ncia. Hoje, n‹o. Dizer que a Dilma Ž a primeira mulher presidente Ž construir o fato. O a mais, ou desconstruir, Ž importante hoje. ƒ importante partir do pressuposto que o leitor conhece o nœcleo da noticia, que a Dilma foi eleita, e partir para desdobramentos mais interessantes Ð, pondera Noelly Russo.
A editora concorda, assim, com SŽrgio D‡vila, que enfatiza a morte do Ònewspaper of the recordÓ.