O próprio conceito de design inclusivo incorpora a noção da necessidade de par- ticipação dos utilizadores no processo de projeto desde o seu início. Isto signifi ca que a inclusão articula semelhança e diferença, do ponto de vista de que as pes- soas, como indivíduos diferentes entre si, têm direito ao acesso à informação e à participação (igualitária) na sociedade.
Entre as várias características distintivas, encontram-se as diferenças percetuais, cognitivas e motoras, que podem ser permanentes ou temporárias e que, por ou- tro lado, também podem variar com o contexto.
A constituição dos vários cenários inclusivos de design dependerá, pois, da utiliza- ção de objetos (E.U., como exemplo) que viabilizem a comunicação e a interação num grupo diverso de participantes. Este conceito deve ainda ser tido em conta por todos os profi ssionais que interajam no meio urbano e que atuem pela igual- dade social dos cidadãos.
O design inclusivo visa o benefício do máximo número de pessoas, ao desenvolver soluções físicas que englobem pessoas de todas as idades, estaturas, capacidades e precisões, considerando ainda também a sua diversidade cultural e religiosa, sendo o seu princípio mais básico a compreensão das necessidades reais do utilizador do produto. Para isto acontecer, há que se perceber na prática o que signifi ca trabalhar com utilizadores durante todas as fases de desenvolvimento de um produto ou ambiente.
Um grupo de profi ssionais de diferentes áreas - arquitetos, designers de equipa- mento, engenheiros e investigadores de design ambiental - do Center of Universal Design da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos da América, apre- senta uma proposta dos Sete Princípios que devem presidir ao desenvolvimento de qualquer projeto de design de carácter inclusivo – na sua terminologia e conceito abrangente, Universal Design:
1. Uso Equitativo
2. Flexibilidade no Uso
3. Uso Intuitivo e Simplifi cado
4. Informação Percetiva
5. Tolerância a Erros
6. Mínimo Esforço
7. Tamanho e Espaço para Uso e Aproximação Adequados
Sendo assim, o Design Inclusivo não pode ser tomado como um ajuste à funcio- nalidade de um produto ou ambiente dentro de uma sociedade, sendo necessária a existência de um compromisso profundo com o uso da inclusividade por parte dos designers, fabricantes dos produtos e serviços, arquitetos, urbanistas e outros profi ssionais, que direta ou indiretamente, exercem atividades cruciais no desen- volvimento da sociedade onde se inserem.
Neste sentido, poderemos designar como design inclusivo o design que prevê a criação de produtos e ambientes que permitam a utilização por todas as pessoas, independentemente das suas capacidades. Tendo como principal objetivo contri- buir, através da construção do meio, para a não descriminação e para a inclusão social de todas as pessoas.
Ao mesmo tempo, o Design Inclusivo apresenta-se como uma prática projetual de cariz democrático, pela defesa de condições de igualdade de oportunidades. Torna-
-se necessário que o designer se coloque questões acerca da adequação ao uso dos espaços ou produtos que está a projetar. Desta maneira, é imperativo que se tenha um conhecimento o mais aprofundado possível das características físicas, senso- riais e cognitivas de todos os que não correspondem ao homem médio.
A participação dos utilizadores no processo de projeto, apresenta-se como a meto- dologia de eleição de praticamente todos os profi ssionais e investigadores ligados ao desenvolvimento de estratégias de implementação dos pricípios do Design In- clusivo.
Segundo Francisco Providência, “uma cidade em guerra consigo própria é uma cidade em crise” pelo que, segundo o autor “todos os meios de inclusividade são necessários à sobrevivência da cidade”.94
A intervenção do design é, na verdade, crucial no desenvolvimento e crescimento da cidade. Esta intervenção nunca é, porém, neutra, pois conjuga valores estético- -formais que simbolizam a construção e defi nição da identidade.
Aparece assim o Design de Interacção pelas mãos de Vasco Branco, Francisco Pro- vidência, et al. Este tipo de Design é defi nido pelos autores como “uma melhor relação entre pessoas e coisas”.
Os novos levantamentos das reais necessidades do cidadão exigindo, por sua vez, adaptações mais ou menos profundas dos espaços e equipamentos utilizados no dia-a-dia, ao alterar a perspetiva de desenvolvimento de um Design que inclua as necessidades dos vários grupos que existem na sociedade, podemsignifi car, tam-
94 Providência, Francisco, Design inclusivo, Uma Experiência de projecto em Marvila “Fragmentos e Nexos”, 2004, p. 43.
bém, uma oportunidade comercial. Segundo Francisco Rebelo,95 esta ideia de
inclusividade dos equipamentos, vista do ponto de vista comercial, é muito inte- ressante, pois, segundo o autor, o consumo das pessoas com mais de 50 anos tem vindo a aumentar, o que representa, em termos estatísticos, uma grande parte da população consumidora.
Projetar o espaço público, como nos indica o arquiteto Pedro Brandão no seu tra- balho O Chão da Cidade, já atrás referido, deverá ajudar à criação e consolidação da rede urbana; como tal dever-se-á perceber o contexto e identifi car as caracte- rísticas de cada local e a maneira como estes se agrupam para a formação do todo que a urbe é.
A criação de mobilidade e condições de acessibilidade que englobem a coesão entre os diferentes espaços urbanos, ligando-os, torna possível o fácil acesso à po-
pulação. Desta forma a cidade transforma-se, como Jordi Borja96 nos refere, “num
lugar de encontros” e, como tal num espaço público, palco (de exercício) de cidadania e de uma urbanidade mais inclusiva.
O E.U. desempenha, como já vimos, um papel importante no projetar o espaço público de forma inclusiva, na medida em que pode ajudar o utente a utilizar os espaços de uma forma mais efi caz, seja através das suas funções associadas à con- templação, ao relaxamento e ao lazer, seja nas funções implícitas relacionadas com a identidade e a compreensão do local (onde está inserido) através do simbolismo representado nestes elementos. Como produto de uso público, esse produto deverá ter implícitas as necessidades dos seus utilizadores, integrando-se no ambiente ou espaço onde será inserido, como objeto articulador e de ligação entre o uso e as
95 Rebelo, Francisco, Ergonomia no dia a dia, 2004, p. 140. 96 Borja, Jordi, La Ciudad del Deseo, in Quadems, nº 235, 2002.
actividades que decorrem nesse local.
O E.U. abrange a evolução urbana, quer através da adequação do seu uso, quer pela introdução de novas funções, sejam elas na alteração da confi guração, estrutura, ou no uso de materiais e tecnologias inovadoras na sua fabricação. Também Keates
e Clarkson97 e Keates et. al.98 procuram criar uma maior consciência da exclusão
que determinadas propostas de design podem provocar conforme as decisões que se tomam durante o desenvolvimento de um produto, dentro das suas capacidades percetuais, cognitivas e motoras.
O E.U. como elemento da cidade não deve ser um obstáculo à livre circulação dos indivíduos, nem pode ser inacessível ou inadequado ao uso. Se o E.U. não for ade- quadamente projectado e implantado, poderá tornar-se um elemento obstrutivo
para as pessoas com mobilidade reduzida.99
“Almost all of us become adolescent, middle-age, and old. We all need the
services and help of teachers, doctors, dentists, and hospitals. We all belong
to special need groups. … If we then lump together all the seemingly little
minorities of the last few pages, if we combine all these “special” needs, we
97 Keates, Simeon, Clarkson, P. John, Countering design exclusion through inclusive design. Proceedings of the ACM na conferên- cia sobre Universal Usability (CUU’00), Vancouver, 2003, pp. 69-76.
98 Keates et al. Towards a practical inclusive design approach. Proceedings of the ACM na conferência sobre Universal Usability (CUU’00), Arlington, 2000, pp. 45-52.
99 Montenegro, Glielson, A produção do mobiliário urbano em espaços públicos: o desenho do mobiliário urbano nos projetos de reordenamen- to das orlas do RN. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, Universi- dade Federal do Rio Grande do Nor- te, Natal), 2005. Disponível em: <http://bdtd.ibict.br/> Visualizado a: 29 Julho 2011; Ribeiro, Gabriela Sousa; Martins, Laura; Monteiro, Circe Gama, Acessibilidade em Olinda – PE: és para quem Oh linda cidade? In: ENTAC - Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído, XII, Fortaleza. Anais do ENTAC 2008.