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III. DOIS ENLACES: DISSOLVER O ATO, DISSOLVER O PLANO

3. VERTER-SE EM PALAVRAS

Figura 18. Imagem do livro “Manual de Afogamento”27

25 Oficina de Butoh Ma, com o mestre Tadashi Endo, realizada em 2011, pelo Festival Vivadança, em

Salvador.

26 Ideia inspirada na fala de Gilsamara Moura, durante a etapa de qualificação desta pesquisa. Gilsamara

disse algo como, “você verbou o nada”.

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Parceria desta autora com o artista gráfico Lucas Moreira, e que compõe o escopo de criações do “Projeto Ofélia”.

Não sei dizer ao certo quando esta pesquisa começa. Em 2011, dou as primeiras rascunhadas em textos e imagens que surgem do meu encontro com Ofélia e, só algum tempo depois, dou início aos preâmbulos de um transbordamento da prática criativa para uma pesquisa de mestrado. Demoro de entender como compor-me nesse espaço, ainda que me sinta de certa forma familiarizada ao ambiente acadêmico. Costumo escolher poucos livros que leio devagar e repetidamente, detenho-me por muito tempo em certos trechos, esqueço as páginas abertas enquanto, estirada no chão, divago no eco de meia dúzia de palavras que escolhi lembrar. Dou longas pausas, distraio-me, saio andando pelas ruas para colher nas formas do dia o complemento das pequenas epifanias que a leitura me traz, busco amigos para confabulações inúteis sobre frases soltas, leio a teoria buscando nela o poema e vice-versa. Por isso, guardo a impressão de que meu ritmo e minha prosódia são difíceis de harmonizar com as prerrogativas desse lugar. Preciso de muitos saltos e grandes quedas para compreender que estes aspectos que pareciam empecilhos são, na verdade, o farol desta embarcação fantasma28.

Essa adesão ao invisível, eis a poesia primordial, eis a poesia que nos permite tomar gosto por nosso destino íntimo. Ela nos dá a impressão de juventude ou de rejuvenescimento ao nos restituir ininterruptamente a faculdade de nos maravilharmos. A verdadeira poesia é uma função de despertar. (BACHELARD, 2013, p. 18)

Entro no mestrado em 2015, quase ao mesmo tempo em que estreio o solo “OFÉLIA: sete saltos para se afogar”. Engravido pouco tempo depois e tenho toda minha rotina e planos desmontados. Embaraço os propósitos desta empreitada frente à vivência devastadora que é ser mãe, ainda mais na cidade contemporânea, com sua urdidura de isolamentos e pressas. Tenho pouquíssimas chances de preparar um espaço de concentração, silêncio e tranquilidade que a leitura e escrita dissertativa parecem exigir.

Começamos, eu, Camilla, Felipe, Laís, Liz, Mônica, Olga e Uerla29, os encontros de Loucas do Riacho com José, meu filho, pendurado em meu peito. Transcorro num longo processo criativo que me alimenta e desafia. Ao chegar em cada ensaio, proponho que primeiro deitemos no chão, para descansar da vida lá fora. “Mas o que é o lá fora”,

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No tópico 10, “O fantasma é uma dor que se repete”, esse entendimento de Ofélia enquanto fantasma será retomado.

29 Camilla Sarno, Felipe Benevides, Laís Machado, Liz Novais, Mônica Santana, Olga Lamas, Uerla

Cardoso. Laís sairá pouco depois do início do processo, e, em seguida, Camilla Sarno, que terá se ausentado por um período, voltará a integrar o grupo.

pergunto-me, “se a vida é isto que escorre por toda parte?”. Visito a sensação de que qualquer lugar onde não se possa parar para respirar um pouco e deitar os pesos à terra desaloja a vida enquanto pulsão afirmativa.

Paralelamente aos ensaios, recebo indicações de leituras que não consigo cumprir. Sinto-me cada vez menos propícia ao desenvolvimento da dissertação, inculcando angústias e pudores. Esqueço que a pesquisa é, mais do que qualquer coisa, o curso da criação de “Loucas do Riacho” e que é enquanto artista que construo meu saber.

Às vésperas da estreia de “Loucas do Riacho”, perco minha primeira orientadora pelos atrasos na entrega de capítulos e sinto novamente a vertigem de subir ao salgueiro e abandonar-me nas correntezas do não. Era a tromba d’água que faltava para me entregar de vez ao sabor do devir. Refaço as missões que me competem: fazer-me caber assim, materna, consumida, experimentada, cheia das marcas de minhas criações e dos murmúrios de suas repercussões, neste texto. E insuflar aqui a presença dos corpos que compuseram esse processo, com seus ecos poderosos. Nada que me obrigue a renegar o que produzo de mais sincero, presente e vivo poderá fazer sentido. Deixo-me afogar mais uma vez enquanto canto minha ruína e dádiva.

A quem interessa o trabalho feito em detrimento de si, o trabalho que adoece, que insistentemente nos tira as forças e apenas mortifica pelo pressuposto de que não somos bons o suficiente e que o nosso saber vale pouco ou nada? Como modos de trabalhar e pensar assim podem persistir até mesmo no campo das artes, onde o fluxo criativo evoca uma afirmação imensurável da vida e das forças que a admitem? Na inquietação destas perguntas, encontro novos comparsas, nova orientação, nova vitalidade e novos paradigmas, e respondo com um novo sim para este corpo que sou. Aos poucos, no enfrentamento dos estresses variados e colapsantes, consigo entrever uma grande saúde30. Deixo que a teoria ressume de cada experiência, das mais criativas às mais banais.

Escrevo as filosofias que fustigam meus dedos e atrevo-me a dançar e resfolegar por estas páginas. Paro, levanto, percorro o corredor da casa, giro, vou à varanda,

30 “Eu espero ainda que um médico filosófico, no sentido excepcional do termo - alguém que persiga o

problema da saúde geral de um povo, uma época, de uma raça, da humanidade -, tenha futuramente a coragem de levar ao cúmulo a minha suspeita e de arriscar a seguinte afirmação: em todo o filosofar, até o momento, a questão não foi absolutamente a “verdade”, mas algo diferente, como saúde, futuro, poder, crescimento, vida”. (NIETZSCHE, 2004, p.10-12)

fantasio os movimentos de um novo espetáculo, sento, escrevo mais, coloco o bebê no colo, paro antes que ele destrua as teclas, vou brincar com ele, esquentar a comida, arrumar a casa, enquanto desvio os olhos do relógio, das contas e tento inventar rituais de transfiguração de prazos. É assim, reconhecendo a riqueza volumosa e os saberes engendrados na prática da vida, que inclui e ultrapassa as salas de ensaio, que o devir- Ofélia-cartógrafa vai desabando sobre o texto e esboçando uma escrita-corpo.

Para azucrinar o ego e seu pegajoso cortejo de arrogâncias. Para desaprender a reprovar a vida, essa nossa insistente mania de desqualificá-la. Para se desvencilhar da idéia de que a vida nos reserva um propósito, e cabe a cada um de nós desvendá-la. Para aprender a rugir para o que é pesado e instituído. Para desatolar a subjetividade das formas acabadas. Para ser pega em “flagrante delito de fabular”. (PRECIOSA, 2010, p 21)

Quebra-se aqui a hierarquia entre pensar e sentir, buscando exaustivamente alternativas de “como passar do sensível ao pensado e do pensado ao sensível sem que haja domínio de um sobre o outro?” (NOVAES, 1988, p 13). Alinho-me, desta maneira, com uma epistemologia do corpo31, que tensiona as epistemes mais conservadoras, pelas quais o pensamento e o saber teórico separam-se, sobrepõem e antecipam à experimentação prática e que rejeitam sistematicamente as obscuridades, vulgaridades e todo tipo de dejeto que o corpo físico produz e que a vida, em seu cotidiano ordinário, abarca. Admito, por fim, que “O que em mim sente está pensando” (PESSOA apud NOVAES, 1988, p 13).

Escrever é um fluxo entre outros, sem nenhum privilégio em relação aos demais, e que entra em relações de corrente, contracorrente, de redemoinhos com outros fluxos, fluxos de merda, de esperma, de fala, de ação, de erotismo, de dinheiro, de política, etc. (DELEUZE, 1992, p 17)

Cultivo gretas no texto, por onde ele se misture às coisas de que fala, que roce as bordas do campo da pesquisa científica, misturando-se à arte de que brota, de modo a reunir forma e conteúdo. Ocorre-me que esta dissertação seja, na verdade, um ato de manifestar: de tecer um manifesto, declarando os princípios e intenções de uma arte do sim; ou fazer uma manifestação que articula políticas em prol de criações que inspirem

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Ecos de uma conversa com o amigo, performer e professor Saulo Moreira, reverberando suas leituras de Espinoza.

a vida, acolhendo seu veemente cortejo de mortes e desastres; ou ser o cavalo pelo qual manifestam-se as forças que me rondam. Manifesto-me aqui, numa busca sincera e obstinada pela encarnação de forças vivas, no percurso complementar ao dos rituais de incorporação. Aqui é o corpo que ateia seus espíritos nas palavras, uma palavra-babá- xamã-anarquista-baderneira.

Nessa busca, encontro muitas vozes consonantes. Há uma variedade enorme de artistas pesquisadores fazendo de seu descompasso com o modos operandi da academia o motor para a expansão dos limites da pesquisa em artes.

Tem ocorrido um impulso radical para não somente colocar a prática no âmbito do processo de pesquisa, mas para guiar a pesquisa através da prática. Originalmente propostas por artistas/pesquisadores e pesquisadores na comunidade criativa, essas novas estratégias são conhecidas como prática criativa como pesquisa, perfomance como pesquisa, pesquisa através da prática, pesquisa de estúdio, prática como pesquisa ou pesquisa guiada-pela-prática. (HASEMAN, 2015, p 43)

Escuto as palavras que brotam de minha pele, em minha potência de auto- ficcionalizar-se e produzir memória, linguagem e coletividade. A partir daí, é que vou alinhavando frases e parágrafos, entre tensões, magnetismos, dispersões, insurgências e dissoluções repetidas. Jorro neste texto aquilo que colhi nos redemunhos.

Estou-sendo enquanto me esparramo pelo vir-a-ser destas páginas. Dou passagem à subjetividade, produzo-me, transvaso no corpo do texto. Enfrento embates, engasgos, boicotes e, a cada vez, digo um novo sim.

Um corpo, uma engrenagem de sensações que intrigam textos o tempo todo. E esses textos que vão sendo produzidos são muito ruidosos, exatamente porque operam vozes que discordam entre si. (PRECIOSA, 2010, p 25)

No lugar reservado para uma hipótese, trago um inquietante encantamento por Ofélia e pelas revelações criativas operadas através dela. E vou me guiando pelos ecos de suas materializações na prática de criação.

(...) muitos pesquisadores guiados-pela-prática não iniciam o projeto de pesquisa com a consciência de “um problema”. Na verdade, eles podem ser levados por aquilo que é melhor descrito como “um entusiasmo da prática”: algo que é emocionante, algo que pode ser

desregrado, ou, de fato, algo que somente pode tornar-se possível conforme novas tecnologias ou redes permitam (mas das quais eles não podem estar certos). Pesquisadores guiados-pela-prática constroem pontos de partida empíricos a partir dos quais a prática segue. Eles tendem a “mergulhar”, começar a praticar para ver o que emerge. (HASEMAN, 2015, p 44)

Adauto Novaes diz, no capítulo de abertura de seu livro intitulado “O olhar”, que “apenas uma visão despojada dos sentidos e do corpo pode levar à evidência, à essência, à certeza.”32

Escrever com os olhos abertos em Ofélia e nos corpos movidos por sua imagem é deixar que o corpo criativo, o corpo vívido e errático da cena jorre na palavra escrita. Que o fluxo poético se infiltre na teoria e escorra por estas linhas. É permitir-se transcorrer pela efemeridade das descobertas, por entre o leito das perguntas. É festejar o movimento enquanto estratégia de sobrevivência, reivindicando exaustivamente a vida. É não se deixar coisificar, tampouco embotar. É não sucumbir à linguagem e fazer o contrário: animá-la de múltiplas possibilidades, erotizá-la. Recebo assim os sussurros de Ofélia neste corpo e neste corpus de criação e pesquisa.