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O transhumanismo e a inversão de paradigma

No documento DIREITOS HUMANOS E DEMOCRACIA (páginas 65-69)

DO POPULISMO DIANTE DA CRISE DA DEMOCRACIA LIBERAL

1.3 O transhumanismo e a inversão de paradigma

Conceituando de forma breve por Maia (2017), na visão europeísta, o humanismo, sempre foi correlacionado a ideia e a pretensão da transcendência das capacidades humanas traduzidas na procura da perfectibilidade, tanto individual como coletiva. Já, o Pós-humanismo, colocado como o período posterior ao humanismo, tem-se o intuito de ultrapassar aquele sujeito que é universalista, assim como segregador do humanismo europeísta, trazendo a ideia de um ser humano ampliado pelas

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tecnologias, como um sistema de troca de informações e armazenamento de memórias. Seria também, considerado como uma “mutação dos corpos como fruto das simbioses do ser humano com as próteses tecnológicas”. (SANTAELLA, 2007, p. 130). Em outros termos, um corpo tecnologizado, uma vez que

“ao mesmo tempo em que os humanos se aproximam da tecnologia e do artificial para alterarem seus corpos, robôs humanóides estão sendo desenvolvidos”. (MARQUES; KRÜGER, 2019, p. 33).

Cabe ressaltar ainda, a concepção de transhumanismo, visto que traz como ideia o melhoramento do ser humano, a partir do desenvolvimento das tecnologias e eliminando o envelhecimento. Em consequência, propicia o melhoramento de todas as capacidades intelectuais, psicológicas e físicas do ser humano. (MAIA, 2017). Todas, são categorias de movimentos sociais e ideológicos atuantes e emergentes na sociedade atual. Portanto, o pós-humanismo, assim como o transhumanismo, que é o melhoramento humano, está inserido em uma complexa relação ética, política e jurídica. (PEPPERELL, 2003).

Essa visão pós-humana, representa novos modos de vida, de relacionamento e de exploração do meio ambiente, de relação com os animais e com outros seres humanos, e o

transhumanismo é um movimento vagamente definido que se desenvolveu gradualmente nas últimas duas décadas, e pode ser visto como uma consequência do humanismo secular e do Iluminismo. Ele afirma que a natureza humana atual é melhorável por meio do uso de ciência aplicada e outros métodos racionais, os quais tornam possível aumentar a extensão da saúde humana, ampliar nossas capacidades intelectuais e físicas, e nos dar controle aumentado sobre nossos próprios estados mentais e disposições. Tecnologias de interesse incluem não apenas as atuais, como engenharia genética e tecnologia da informação, mas também desenvolvimentos antecipados para o futuro, como uma realidade virtual completamente imersiva, nanotecnologia em fase de máquinas, e inteligência artificial. (PEPPERELL, 2003, p. 171-172).

De acordo com Bittar (2019), até o momento, a sociedade já pode observar as modificações e as novas condições de socialização ocasionadas pela era digital. No entanto, resta a dúvida de como o Direito irá lidar com estas novas condições tecnológicas. Neste sentido, o primeiro passo é o reconhecimento de que a noção de sujeito acabou por forjar a então concepção moderna de sujeito de direito, uma noção que é capaz de abrigar os inúmeros conceitos que estão em constante mutação, em seu interior, daí sua ampla versatilidade histórica. Perante à era digital, é possível que a categoria de sujeito de direito volte a se reconfigurar, abrangendo, também, o dito homem-máquina do direito contemporâneo, confirmando um novo estatuto, o estatuto dos sujeitos pós-humanos, que abriga a nova qualidade de ser humano por processos tecnocientíficos.

Entretanto, para Bittar (2019), a preocupação aqui não está em apenas regular esses novos fatos, mas sim em reconstruir a teoria do direito acerca do sujeito de direito diante da revolução digital e tecno-científica sobre o corpo humano. Visto que, enquanto a aceleração presente pelas máquinas torna totalmente incerta a vida da sociedade contemporânea e suas relações sociais, o direito constitui-se da tarefa de regulamentar todos esses efeitos negativos deste processo, atuando na perspectiva da preservação dos direitos e deveres dos seres humanos nos espaços cibernéticos.

Por fim, precisamos destacar a mudança de perspectiva da modernidade para a pós-modernidade, sendo a revolução digital um fragmento desse novo modo de pensar a sociedade. Destarte, a evolução do digital denuncia pela incerteza, a fluidez das relações humanas e uma mudança entre sujeito e objeto, em que o ser humano era o sujeito e tudo o mais objeto. Atualmente, no entanto, conforme aponta Bauman, (1991), que a modernidade era determinística, enquanto a pós-modernidade é fluida e incerta, portanto, indeterminada. Cabe a nós compreendermos este processo e nos propomos à uma construção jurídica, normativa e humana, que atenda às mudanças, mas que também proteja os direitos humanos, a privacidade e os direitos da personalidade.

2 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Há, portanto, a inversão do paradigma moderno, para o pós-moderno, em que o ser humano é deslocado para uma condição de objeto e não mais de sujeito. Podemos dizer que a maioria de nós nasceu na modernidade, mas já transita na pós-modernidade, surgindo a necessidade de responder às demandas éticas e de privacidade, que surgem no espaço virtual e de acordo com o avanço tecnológico.

Acredita-se, por conseguinte, que a dissociação entre liberalismo e democracia pode contribuir para um novo momento de maior maturidade política, no entanto, é preciso haver uma volta à proteção da liberdade individual, dentro de um novo contexto. De outro modo, o colapso total da democracia liberal pode ocasionar uma regressão histórica e temporal em termos de direitos humanos.

Isto posto, defendeu-se, neste trabalho, que o Estado de Direito deve ser protegido, ainda que as instituições se adaptem a uma nova sociedade comunicativa, muito mais fluída, tecnológica e digital, não sendo o fim da democracia liberal o fim também dos direitos humanos. É, sem sombra de dúvidas, o início de um novo período histórico, sendo que o direito deverá se adequar, progressivamente, aos novos anseios, sem que caia especificamente na mesma armadilha da modernidade, no sentido de ficar refém do mercado.

Além disso, cabe ao sistema jurídico e à democracia o papel de manutenção da liberdade, dos direitos individuais e dos direitos de personalidade, para que a ruptura da democracia liberal não signifique um novo totalitarismo de Estado. Não obstante, pensar a proteção jurídica neste novo espaço que surge, isto é, o espaço digital, vai possibilitar o equilíbrio entre o desenvolvimento tecnológico e a concretização dos direitos humanos.

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A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E A DESMISTIFICAÇÃO DAS

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