Renata Vicente Duarte75 Janaína Soares Schorr76
RESUMO: O consumo na sociedade líquida assume um papel de relevância quando se analisa a busca de alternativas sustentáveis por se estar diante de indivíduos com características e relações egocêntricas e individualistas, com comportamentos e preferências velozmente mutáveis, de modo que a acelerada obsolescência leva rapidamente ao descarte. Aplica-se o método de abordagem dedutivo, o método de procedimento monográfico e a técnica de pesquisa de documentação indireta, com análise de documentos e pesquisa bibliográfica. O crescimento da economia colaborativa pode estabelecer um maior e melhor aproveitamento de recursos, menos produtos ociosos ou relegados ao descarte. Nisto reside a importância desses novos meios de negociação voltados ao uso colaborativo dos bens e a necessária responsabilidade de se estabelecer alternativas viáveis para o consumo sustentável.
Palavras-chave: Consumo. Economia colaborativa. Sociedade líquida. Sustentabilidade.
INTRODUÇÃO
A internet alterou profundamente as relações subsidiando o surgimento de uma nova economia, a colaborativa. São várias as formas de construção conjunta e de plataformas que irromperam o compartilhamento de serviços e bens, como bolsas, roupas, malas, ferramentas, carros, bicicletas e até mesmo imóveis. Esse novo modelo de economia surge para suprir a crescente necessidade de se dar a máxima utilidade aos recursos cada vez mais escassos, combinada com os espaços cada vez menores e a preocupação em se comprar e descartar menos.
Nesse contexto, questiona-se: tendo por base a busca por alternativas de consumo sustentável na sociedade líquida, qual o estado da arte da legislação brasileira para acolher a economia colaborativa?
Este questionamento, inclusive, se deve ao fato de que cabe à investigação científica o dever de contribuir para o estudo sobre os novos movimentos sociais e a construção de subsídios teóricos capazes de preencher possíveis lacunas legais. Além disso, a questão da economia colaborativa tem um papel fundamental diante da crise ambiental em que o planeta está imerso.
Para tanto, como método de abordagem, o trabalho se utilizará do método dedutivo, vez que se partirá de um estudo amplo sobre os comportamentos sociais pelo viés do consumo na sociedade líquida, para analisar as mudanças legais brasileiras para acolher a economia colaborativa como uma alternativa de consumo sustentável (LAKATOS; MARCONI, 2019, p. 109).
Como método de procedimento o estudo se utilizará do método monográfico, tendo em vista que, neste método, parte-se do exame de um grupo para obter generalizações. Neste estudo, a análise será da sociedade como um todo. Quanto à técnica de pesquisa, aplica-se a técnica de pesquisa documental indireta por meio da análise documental e pesquisa bibliográfica para levantamento de dados. Utilizar-se-á, para isso, de livros, artigos de periódicos, teses e demais estudos sobre o tema, além de análise da legislação brasileira.
75 Bacharel em Administração de empresas pela UFSM e acadêmica do 10º semestre do curso de Direito da Faculdade de Direito de Santa Maria - FADISMA. E-mail: [email protected].
76 Doutoranda em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Mestra em Direitos Humanos pela Universidade do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ. Professora da graduação e pós-graduação na Faculdade de Direito de Santa Maria – FADISMA. Advogada OAB/RS. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Direito Constitucional Com- parado da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. E-mail: [email protected].
Para uma melhor compreensão do tema em análise, o estudo está dividido em três partes: a primeira, direcionada a estudar a respeito da sociedade líquida, do consumo e de comportamentos de consumo; na sua segunda parte, o trabalho se debruça sobre a economia colaborativa, com o intuito de mostrá-la como alternativa de consumo sustentável, e, na terceira e última parte, analisa- se as mudanças na legislação brasileira voltadas ao suporte legal para o compartilhamento como alternativa de consumo sustentável.
1 CONSUMO NA ÉGIDE SOCIEDADE LÍQUIDA
A sociedade atual é pautada pela indústria do descartável. Diferencia-se quanto ao consumo das gerações anteriores pelo fato de que a valoração das pessoas passou a ser determinada pela aquisição de produtos e serviços, ou seja, pelo ato de consumir. Quanto mais se consome, mais digno de respeito se é, maior a sua inserção social e maior o seu sucesso (MORENO E REI, 2018).
Para Leff (2001), fica evidenciado, a partir dos anos 1960, que a crise ambiental surge da irracionali- dade ecológica dos padrões dominantes de produção e consumo, marcando os limites do crescimento eco- nômico. O autor faz um diagnóstico das bases da evolução da sociedade, associando-a à crise civilizatória, cuja expressão é visível através da atual racionalidade econômica e tecnológica dominantes:
A degradação ambiental emerge do crescimento e da globalização econômica. [Ela] se manifesta não só na degradação das bases da sustentabilidade ecológica do processo econômico, mas como uma crise de civilização que questiona a racionalidade do sistema social, os valores, os modos de produção e os conhecimentos que os sustentam (LEFF, 2001, p. 56).
Percebe-se que o foco no consumo é uma das características centrais dessa sociedade líquida, individualista e competitiva. Essa liquidez, para Bauman (2009), é uma configuração de sociedade na qual seus membros – comportamentos e preferências – mudam num tempo extremamente curto, com o objetivo de não construir laços sólidos, sob o pretexto de que uma sobrecarga pode significar não acompanhar a rapidez dos eventos e rapidamente impor-lhes a obsolescência.
Nas palavras de Bauman:
A “vida líquida” e a “modernidade líquida” estão intimamente ligadas. A “vida líquida” é uma forma de vida que tende a ser levada adiante numa sociedade líquido-moderna. “Líquido-moderna” é uma sociedade em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas, das formas de agir.
Numa sociedade líquido-moderna, as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos. (2009, s.p.)
E ele mesmo resume:
[...] a vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante. As preocupações mais intensas e obstinadas que assombram esse tipo de vida são os temores de ser pego tirando uma soneca, não conseguir acompanhar a rapidez dos eventos, ficar para trás, deixar passar as datas de vencimento, ficar sobrecarregado de bens agora indesejáveis, perder o momento que pede mudança e mudar de rumo antes de tomar um caminho sem volta.(2009, s.p.)
As preocupações mais intensas e obstinadas que assombram esse tipo de vida é de perder o momento que pede mudança e atualização. Esse é o momento em que se perde a utilidade, o viço, a atração, o poder de sedução e, consequentemente, o valor. As propriedades, que traduzem o valor de cada indivíduo, têm uma expectativa de vida útil limitada e, uma vez que tal limite é ultrapassado, se tornam impróprios para o consumo e inúteis. Há pressa para que sejam removidos do espaço da vida de consumo para abrir caminho para objetos de consumo novos e na moda (BAUMAN, 2009).
A moda, nesse sentido, acaba, muitas vezes, assumindo o papel de ser um dos principais provedo- res de mudança, vez que diminui e desvaloriza tudo aquilo que deixa atrás de si e estabelece a neces- sidade insuportável de substituir o, agora impróprio e inútil, por algo novo e valioso. Esse fenômeno é materializado pelo comportamento de consumo na sociedade líquida, em que, além do foco na posse,
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Claramente, diante da limitação dos recursos e da imperativa necessidade de diminuir o descarte, que impacta diretamente nos atuais problemas ecológicos e ambientais, precisa-se mudar a direção para uma forma diferente de consumo. Isto porque,
Numa sociedade líquido-moderna, a indústria de remoção do lixo assume posições de destaque na economia da vida líquida. A sobrevivência dessa sociedade e o bem-estar de seus membros dependem da rapidez com que os produtos são enviados aos depósitos de lixo e da velocidade e eficiência da remoção dos detritos. Nessa sociedade, nada pode reivindicar isenção à regra universal do descarte, e nada pode ter permissão de se tornar indesejável. Vivem para sobreviver (tanto quanto possível) e para obter satisfação (o máximo possível).
Nesse cenário, o consumo colaborativo (alugar, emprestar e até compartilhar bens em vez de comprá-los) surge como uma alternativa de consumo sustentável. Compartilhar e alugar mais coisas significa produzir e desperdiçar menos, pode ser o encaixe perfeito para um estilo de vida urbano, no qual se tem muitos vizinhos e pouco armazenamento (WALSH, 2011).
2 ECONOMIA COLABORATIVA COMO ALTERNATIVA SUSTENTÁVEL
O consumo colaborativo e a economia de compartilhamento (também conhecida como economia colaborativa e economia em rede) são fenômenos que nasceram e prosperaram na era da informação, embora o ato de compartilhar esteja entre os comportamentos humanos desde os agrupamentos originários. O compartilhamento faz um grande sentido prático e econômico para o consumidor, o meio ambiente e a comunidade no sentido de se traduzir em um consumo mais sustentável. Consumo colaborativo pode ser descrito como “o ato e o processo de distribuir o que é seu para que outros usem”. (BELK, 2007, s.p., em tradução livre)
Consumo Sustentável, segundo o Ministério do Meio Ambiente (2020), significa comprar o que é realmente necessário, estendendo a vida útil dos produtos tanto quanto possível. Envolve também a escolha de produtos que utilizam menos recursos naturais em sua produção, que garantem boas condições de emprego aos que os produziram, e que são facilmente reaproveitados ou reciclados. Anuncia, ainda, o Ministério, que é a partir do consumo consciente que a sociedade envia ao setor produtivo um sinal de que quer produtos e serviços que tragam impactos ambientais e sociais positivos ou que reduzam significativamente os impactos negativos no acumulado do consumo de todos os cidadãos.
Os bens móveis e imóveis são recursos que devem ser usufruídos pelo maior número de pessoas e, por consequência, ficarem ociosos pelo menor tempo possível. Isto posto, uma das formas emergentes na economia colaborativa para melhor aproveitar bens é a multipropriedade ou time- sharing (“tempo compartilhado” em tradução livre) (OLIVEIRA, 2019).
Além disso, a crise ambiental na qual está imerso o planeta, traz consigo a necessidade de se construir uma consciência ambiental e, por consequência, a apropriação do conceito de ambiente.
Assim, a noção de sustentabilidade, tão importante para que se possa construir uma casa planetária que tenha recursos suficientes para prover as necessidades de todos, foi sendo divulgada e vulgarizada até fazer parte do discurso oficial e da linguagem comum, chamada por Enrique Leff de “discurso dominante da sustentabilidade”:
O discurso e as políticas da sustentabilidade estão abrindo um campo heterogêneo de perspectivas alternativas, marcados pelo conflito de interesses em torno da apropriação da natureza. Nos países do Norte, suas preocupações se concentram nos problemas ambientais globais (...) que rompem os equilíbrios ecológicos do planeta, colocam em perigo a sustentabilidade do sistema econômico; enquanto que no Sul, o ambientalismo não surge da abundância, mas da luta pela sobrevivência em condições de uma crescente degradação socioambiental (2001, p. 45-47)
A questão ambiental, em resposta ao pensamento neoliberal ambiental, que busca delimitar as resistências da cultura e da natureza submissas dentro da lógica do capital, passa necessariamente pela valorização da diversidade étnica e cultural da espécie humana, pela fomentação da valorização de diferentes formas de manejo produtivo da biodiversidade. Ou seja, a problemática ambiental não deve situar-se apenas no domínio do social nem do natural, nem numa formulação de uma
teoria geral formal, vazia de conteúdos reais; ao contrário, deverá observar que estes sistemas estão dialeticamente imbricados e possuem autonomias e interdependências simultâneas. (LEFF, 2001)
A partir deste contexto, Leff aponta para a desconstrução do paradigma econômico/instrumental da modernidade e para a reconstrução de outros futuros possíveis, baseada nas estratégias do ecodesenvolvimento. Nesta perspectiva, o desenvolvimento sustentável não se limitaria a tornar compatíveis a conservação e o desenvolvimento, internalizando custos ecológicos para um crescimento da economia, enxergando o meio ambiente somente enquanto um custo. Mas também o ambiente seria tido como um potencial para um desenvolvimento alternativo, para a construção de um paradigma alternativo de sustentabilidade, que integre a natureza e a cultura como forças produtivas. (LEFF, 2001)
Os espaços estão cada vez mais escassos diante do crescimento populacional nas cidades, os depósitos e a construção de bens móveis e imóveis envolvem um grande envolvimento de materiais, refugos e sobras. Diante desse cenário a multipropriedade vem se popularizando, vez que permite a várias pessoas utilizarem a mesma coisa ao longo do ano, cada uma em um determinado período (OLIVEIRA, 2019).
É urgente, assim, a fundação de novos modos de produção e estilos de vida, alicerçados nas condições e potencialidades ecológicas de cada região, assim como na diversidade étnica e na autonomia das populações para a gestão democrática dos seus recursos, ou seja, dentro de uma perspectiva de desenvolvimento descentralizado e autóctone. Nesta perspectiva, Leff (2001) defende que os povos e nações é que deveriam ter a prerrogativa de construir seus próprios estilos de desenvolvimento e não como algo definido “de cima para baixo”, dentro de uma visão unidimensional.
O consumo colaborativo tem a vantagem de fazer parte do interesse pessoal dos consumidores, conduzindo a uma mudança de hábitos mais fácil e conveniente, de modo que em se construindo um comportamento que gere recompensa, terá maior probabilidade de se perpetuar. E para tanto as redes sociais possuem um papel importante nessa equação, vez que facilitam a redistribuição de objetos, de modo a deixarem o local em que não são mais necessários (obsoletos) para outro lugar ou outra pessoa em que ainda sejam úteis (BOTSMANN E ROGERS, 2011).
Alves (2017, s.p.) define consumo como “um ato de escolha de bens e serviços que irá tornar a vida das pessoas mais agradável e menos dispendiosa, além de promover a satisfação pessoal”. Portanto, ao exercer esse poder de escolha, o consumidor assume também o poder de influenciar a indústria a ofertar-lhes produtos com os quais consigam identificar-se. As mudanças nos comportamentos de consumo pressionam as empresas a modificarem seus métodos de produção para, além das satisfações individuais, comprometerem-se com o bem-estar das pessoas e da sociedade.
Já é possível perceber que o cenário produtivo modificou-se. A disseminação da ideia de cooperação entre as organizações culminou com o nascimento de um capitalismo de alianças. As empresas viram-se estimuladas a formar sistemas de colaboração integrados e flexíveis de produção, distribuição e desenvolvimento tecnológico devido às dificuldades em atender às exigências competitivas isoladamente. A possibilidade de obter benefícios coletivamente pode ser o principal motor da cooperação entre agentes racionais egoístas (BALESTRIN; VERSCHOORE, 2016).
A mudança de comportamento é algo que leva tempo e amadurecimento do ser humano, mas é acelerada quando toda a sociedade adota novos valores, ao consumir de maneira sustentável, fazendo escolhas conscientes e responsáveis, com a compreensão de que terão consequências ambientais e sociais – positivas ou negativas. Para que uma sociedade seja sustentável, é inarredável incumbir aos cidadãos a responsabilidade de mudar os padrões de consumo, instigando o interesse pela esfera pública para a construção de novas formas de ação (PORTILHO, 2005).
Ainda que a motivação inicial das pessoas que optam por uma propriedade compartilhada seja o fator financeiro, em razão de serem transações de custos menores, a ação acaba por culminar em grandes vantagens coletivas e ecológicas. Percebe-se, portanto, que por já ter adotado mudanças legislativas para acolher as possibilidades que a economia colaborativa inaugura nos comportamentos de consumo, há um movimento latente instigado pelas pressões sociais de que se aprecie o tema e sejam criadas normas no sistema jurídico brasileiro de modo que seja garantida a segurança jurídica, uma vez que existem muitas lacunas a serem preenchidas.
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3 ECONOMIA COLABORATIVA: ASPECTOS LEGAIS
A economia colaborativa traz consigo uma nova percepção de mundo, aquela na qual as pessoas, compartilhando bens, produtos e serviços, economizam em termos econômicos e, ao mesmo tempo, utilizam algo até o máximo do seu potencial e da sua durabilidade. Há vários exemplos que podem ser encontrados em nosso dia a dia como espaços de trabalho compartilhado, a multipropriedade, plataformas de crowdfunding, que permite o financiamento coletivo de projetos em troca de recompensas, plataformas para compartilhamento de lares, que trouxe um modelo de negócios disruptivo para o mercado de hospitalidade e aplicativos para o compartilhamento de transporte que conectam diretamente motoristas e usuários (SARFAT, 2016).
A sociedade em rede é terreno fértil para que se proliferem plataformas e aplicativos para o compartilhamento do acesso a bens e serviços, eliminando intermediários e sem envolver a aquisição de um produto novo. Essas plataformas agregam credibilidade para as transações e ofertam um ambiente amistoso como ponto de encontro aos interessados. É clarividente que o Brasil está participando desse fenômeno de multiplicação de empreendimentos oriundos da economia colaborativa. No entanto, como se verá a seguir, com uma cultura conservadora e resistente a mudanças, ainda falta uma visão plural, atualizada, abrangente e consistente para motivar mudanças efetivas nas políticas públicas, ações governamentais e a edição de novas leis (AFONSO, 2020).
A multipropriedade sobre bens móveis, um automóvel compartilhado, por exemplo, ainda está sem legislação específica expressa. Assim é regulada por meio de contratos atípicos que envolvem elementos de locação ou por meio de um condomínio tradicional com um acordo entre os condôminos acerca do uso do bem. Mas tais alternativas não solucionam satisfatoriamente as demandas desse negócio. No contrato de locação há o risco de que o titular do direito real de propriedade venda a coisa a terceiros. Estes não serão obrigados a respeitar o contrato. Já no contrato de condomínio tradicional, a insegurança aos contratantes nasce do fato de que a maioria censitária pode modificar as regras de uso da coisa a qualquer tempo (OLIVEIRA, 2019).
Para atender às crescentes demandas de regulação da multipropriedade, foi editada a Lei nº 13.777, de 20 de dezembro de 2018, para incluir o Capítulo VII-A, a respeito do condomínio em multipropriedade, no Código Civil (Lei nº 10.406 de 2002), e alterou a Lei nº 6.015/73 - Lei dos Registros Públicos, para dispor sobre o regime jurídico da multipropriedade e seu registro. Antes da regulação, não havia previsão legal estrita da multipropriedade imobiliária como direito real, de modo que os registradores de imóveis evitavam registrá-la. Isso porque os direitos reais devem estar tipificados em lei em sentido formal, editada pelo Congresso Nacional (KOENIG, 2018).
Ainda mais envolto a um vazio regulatório do que a multipropriedade, está o crowdfunding. Trata-se de uma alternativa para angariação de recursos para projetos a partir de pequenas contribuições realizadas por um grande número de pessoas. Essa forma de financiamento não é novidade no Brasil, a Rede Globo, por exemplo, desde 1986 abre espaço em sua grade para a transmissão do Criança Esperança, cujo objetivo é captar recursos de seus telespectadores para o financiamento de projetos sociais (COELHO, 2018).
O crowdfunding, portanto, pode ser descrito como “um fenômeno que, diante de sua necessidade de alcançar um vasto número de pessoas, utiliza‐se de ferramentas que permitem a publicidade massificada” (COELHO, 2018, s.p.) como a televisão aberta e a internet, por exemplo. Essa ferramenta popularizou-se entre os desenvolvedores de projetos que não encontrariam no mercado tradicional de financiamento uma maneira viável de bancar suas ideias. As startups, por exemplo, cujas ideias criativas e inovadoras, muitas vezes alinhadas aos valores basilares de coletividade, sustentabilidade e reaproveitamento, não conseguiriam um financiamento tradicional em uma instituição bancária em razão de seu foco não estar no lucro a qualquer preço (COELHO, 2018).
Já houve, inclusive, tentativas de regulação dessa forma de financiamento pelo legislativo brasileiro por meio da edição de Projetos de Lei (PL). O PL nº 2.862/2015 foi proposto pelo Deputado Federal Otavio Leite, no qual além de estabelecer diretrizes para a atuação de empresas em investimento coletivo na internet, propunha-se incentivos fiscais para os investidores (COELHO, 2018).
Outra proposta, mais recente, o PL nº 3.883/2020, sob a justificativa de que os órgãos reguladores deveriam incentivar e dar prioridade ao financiamento colaborativo em relação ao financiamento bancário tradicional, para diminuir custos de financiamento aos tomadores de crédito em razão do
incremento na concorrência, a senadora Zenaide Maia (Pros-RN) propôs acrescentar uma nova seção à Lei nº 4.595/1964 (Lei da Reforma Bancária) (AGÊNCIA SENADO, 2020).
Outra questão emergente, que ainda não encontra solução no ordenamento jurídico e já causa insegurança jurídica nos tribunais brasileiros, é o compartilhamento de imóveis por meio de plataformas online. O Airbnb, por exemplo, define seu negócio como uma oportunidade de empoderar economicamente as pessoas que podem monetizar seus espaços disponíveis, ofertando desde um sofá na sala, um quarto vazio ou o imóvel inteiro enquanto estiver viajando, por exemplo (AIRBNB, 2019).
O Projeto de Lei n° 2.474 de 2019, de iniciativa do Senador Angelo Coronel, propõe uma alteração da Lei do Inquilinato de nº. 8.245 de 1991, “para disciplinar a locação de imóveis residenciais por temporada por meio de plataformas de intermediação ou no âmbito da economia compartilhada” (BRASIL, 2019). Tal iniciativa foi instigada, especialmente, pelo conflito entre os condôminos que querem ofertar seus imóveis para compartilhamento e os condomínios residenciais que estão criando resistência e até buscando o judiciário para impedir o que alegam ser prestação de serviço de hospedagem, que eleva a rotatividade de pessoas e aumenta a sensação de insegurança. (BRASIL, 2019).
Para tanto, a proposta é de que a regra seja de vedação ao compartilhamento de imóveis em condomínio exclusivamente residenciais. Se a lei for aprovada no estado em que está, apenas seria possível disponibilizar um imóvel ou cômodo para hospedagem por meio de plataformas online se a convenção do condomínio expressamente permitir. Justifica-se tal barreira sob o argumento de que o principal fator a ser sopesado deve ser a vontade dos condôminos.
Como já referido, tal impasse já alcançou o Superior Tribunal de Justiça através do Recurso Especial nº 1.819.075, no qual ainda não há decisão transitada em julgado quanto ao mérito. O relator já proferiu seu voto no sentido de reconhece a proibição do compartilhamento de imóveis pela convecção de condomínio configuraria afronta ao direito de propriedade constitucionalmente protegido.
Percebe-se que ainda são vários os aspectos legais pendentes de legislação que atenda as especificidades de cada negócio. O Brasil está caminhando a passos lentos no que tange os aspectos legais para garantir segurança jurídica aos negócios de economia colaborativa. A cultura do consumo está entremeada na cultura brasileira, relegando, portanto, as alternativas para um consumo mais consciente, enquanto alternativa sustentável, ao segundo plano.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
É inegável que o comportamento de consumo precisa mudar. A crise ambiental, uma realidade que precisa de soluções emergenciais, está diretamente relacionada à irracionalidade dos padrões dominantes de produção e consumo. Os negócios que surgem a partir da proposta da economia colaborativa apresentam-se como uma solução, pois, ainda que resulte em redução e melhor aproveitamento de matéria-prima, bens, imóveis e até de financiamento, tem foco no atendimento das necessidades e desejos daquele consumidor. Trata-se de uma alternativa atraente para os consumidores que ainda não mudaram seus padrões de comportamento.
Tocar, emprestar e compartilhar bens entre a comunidade em que se está inserido, são atividades que sempre existiram, mas que foram se perdendo com o tempo. Os dias cada vez mais sobrecarregados de tarefas fazem com que as pessoas conheçam cada vez menos a comunidade que as rodeia, ou seja, não conhecem nem os vizinhos. A falta de confiança entre os pares, somado ao cenário de insegurança jurídica, são as principais barreiras para que nasça um novo negócio colaborativo.
Especialmente no que tange aos novos negócios que surgiram a partir das possibilidades que a popularização da internet fomentou, na ausência de bases legais no ordenamento jurídico que supra as necessidades de implemento na confiança e garantia para as transações, percebe-se que as plataformas digitais assumem esse papel. Proporcionam uma avaliação entre as partes que diminui as chances de golpes ou de aproveitadores. Além de agregar segurança aos dados pessoais e transações financeiras, os aplicativos permitem a localização de oportunidades para o compartilhamento tanto na vizinhança quanto entre pessoas de todos os lugares do mundo.
Cada vez mais os negócios que envolvem um propósito, que apontam em causas sociais para empoderar economicamente os indivíduos, buscam explorar o financiamento e o seu crescimento