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Como a riqueza e amplitude dos dados disponibilizados na TIC Kids Online Brasil 2012 não pode ser integralmente contemplada nesta breve reflexão, destacaremos alguns pontos que ilustram as habilidades das crianças e dos adolescentes para lidar com conteúdos e situações de risco na Internet. Em relação ao tão temido contato com estranhos por meio dos sites de redes sociais, os dados indicam que a maior parte (83%) se concentra em contatos com pes- soas que já conhecem pessoalmente em vez de interagir com desconhecidos. Mesmo a intera- ção com amigos de amigos não é tão intensa, sendo mais significativa a partir dos 13 anos de idade, já que entre 11 e 12 anos apenas 15% dos entrevistados fizeram, pelos sites de redes sociais, contatos com pessoas que primeiro conheceram na Internet, mas que eram conheci- dos de pessoas que conheciam. Entre os mais velhos, com 15 e 16 anos, 30% deles têm esse tipo de contato com amigos de amigos. Chama atenção a diferença significativa entre classes sociais, já que esse tipo de contato é comum para 43% das crianças e dos adolescentes das classes AB e apenas para 13% das classes DE. O grau de risco de contato com pessoas conhe- cidas exclusivamente pela Internet também é maior nas classes mais abastadas (8%), em rela- ção aos 3% nas classes DE. Os sites de jogos se apresentam como os ambientes mais propícios para contato com pessoas que não têm nenhuma outra ligação com a vida das crianças e dos adolescentes, sendo que 16% dos entrevistados entre 11 e 16 anos o fizeram nesse contexto.
Esse pequeno exemplo ajuda a desconstruir um preconceito potencial na elaboração de polí- ticas públicas e estratégias de promoção do uso seguro da Internet: a noção de que sempre há maior grau de risco entre as classes menos favorecidas. Como já ilustrado nos resultados da EU Kids Online, quanto maior a intensidade de uso, maior a probabilidade de experiências de ris- co, ao mesmo tempo em que há maior probabilidade de desenvolvimento de habilidades para desfrutar das oportunidades.
O fato de 71% das crianças usuárias de Internet entre 11 e 12 anos possuírem perfil em sites de redes sociais, geralmente restritos para menores de 13 anos (como no caso do Facebook e do Orkut), confirma as observações sobre a precocidade e intensidade de uso dos sites de redes sociais por crianças e adolescentes. O uso destes sites cresce significativamente com a idade e é menos frequente entre as classes menos favorecidas. Notem-se as diferenças na escolha dos sites de redes sociais, sendo que, entre as crianças de 9 a 16 anos que usam a Internet, o Orkut é preferido entre os nordestinos, os que possuem responsáveis de menor escolaridade, os de menor idade e de classe social mais baixa. Dados como esses sinalizam para a importância de esforços de educação e campanhas de prevenção que sejam singulares, exigindo certa diver- sidade nas políticas públicas que permitam a construção de materiais e estratégias adequadas aos diferentes perfis de crianças, adolescentes e pais. Para conseguir englobar a diversidade e a singularidade nas políticas públicas, parece importante que haja engajamento nas diferentes esferas federativas e o reconhecimento das diferenças regionais não apenas na infraestrutura, mas também nos hábitos culturais.
Em relação à configuração de privacidade do perfil da rede social, apesar de não haver tantas diferenças entres as faixas etárias, as disparidades em relação à classe social novamente cha- mam atenção. Entre crianças e adolescentes usuários de Internet (9 a 16 anos) de classe DE, o perfil totalmente aberto (público) é comum para 32% dos entrevistados, sendo de 21% nas classes AB. Ainda em termos de classe social, com exceção do nome da escola e do sobreno- me, crianças e adolescentes das classes DE parecem expor mais dados pessoais do que as de classes mais favorecidas, com destaque para a exposição do endereço, que chega a ser três vezes mais frequente em relação às classes AB e mais do que o dobro da média geral. Em geral,
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o grau de exposição de informações é significativo, já que 86% publicam fotos com o rosto, 69%, o sobrenome, 28%, o nome da escola, 13%, o endereço, e 12%, o número de telefone.
A exposição de dados pessoais merece destaque devido à complexidade de fatores associa- dos. Ao mesmo tempo em que esse tipo de exposição pode aumentar a vulnerabilidade relati- va a diferentes situações de risco e vitimização, o compartilhamento de informações pessoais é o motor da própria dinâmica das redes sociais, inclusive no desenho dos aplicativos e sites.
O conceito de públicos em rede3 ilustra bem essa dinâmica singular dos sites de redes sociais que podem ser considerados públicos por padrão, mesmo que haja possibilidades de configu- ração da privacidade. Além dos fatores sociotécnicos, vale destacar ainda a força de valores culturais no que diz respeito à própria noção do que são informações e espaço privado. Não podemos nos deixar levar por conclusões fáceis que indicam a morte da privacidade ou seu completo abandono pelos adolescentes que usam os SRS. Em um país onde o culto às cele- bridades e à erotização precoce da infância são cada vez mais intensificados pelas diferen- tes mídias, não podemos isolar a Internet em relação aos demais fluxos informacionais e cul- turais que compõem o repertório existencial das crianças e dos adolescentes brasileiros. Na Internet, o culto às celebridades massificado com a televisão e o cinema ganha mais força com as microcelebridades (MARWICK; BOYD, 2011) e complexifica ainda mais os limites entre o que é público e privado, entre os riscos e oportunidades associados à exposição de dados e da vida íntima na Internet (SIBILIA, 2008). Novamente precisamos destacar a importância de um olhar mais preciso como suporte vital à criação e implementação de políticas públicas dedica- das aos melhores interesses da criança e do adolescente também na Internet.
De volta aos dados, é interessante notar que, entre os internautas de 11 e 16 anos, 74% con- cordam que há muitas coisas boas para eles na Internet, e 75% concordam que sabem mais sobre Internet do que seus pais. Quando o assunto são as habilidades de uso da Internet, nova- mente notamos as diferenças não apenas de acordo com a idade, mas também de acordo com a classe social e escolaridade dos responsáveis. Apenas 54% dos internautas entre 11 e 16 anos das classes DE sabem alterar suas configurações de privacidade nas redes sociais (67%
nas classes AB); 59% sabem bloquear mensagens de pessoas indesejadas (74% nas classes AB);
44% sabem bloquear propaganda e/ou lixo eletrônico (55% nas classes AB).
No que diz respeito à capacidade de encontrar informações sobre uso seguro da Internet, a diferença continua significativa, já que essa habilidade é comum para 63% nas classes AB e para apenas 40% nas classes DE. Quando o fator é a escolaridade dos responsáveis, a diferen- ça na habilidade de encontrar as informações sobre uso seguro da Internet também é conside- rável, sendo uma habilidade comum para 49% daqueles com responsáveis com nível funda- mental I e para 61% daqueles com pais com nível médio ou mais.
Apesar de a percepção geral das crianças e dos adolescentes sobre a existência de coisas que podem incomodá-las na Internet seja mais equilibrada, com exceção da menor percepção na região Nordeste, as diferenças de classe social e de escolaridade dos pais parecem interferir
3 O conceito de networked publics (BOYD, 2011) faz-se relevante, já que é utilizado para descrever algumas dessas sin- gularidades, particularmente em sites de redes sociais. A partir desse termo, a autora aponta a peculiaridade do público reestruturado pelas tecnologias digitais em rede, destacando duas características simultâneas do chamado networked public. São elas: (1) trata-se de um público construído a partir das tecnologias digitais em rede e (2) formado a partir de uma coletividade imaginada que emerge como resultado da interseção entre pessoas, tecnologias e práticas.
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diretamente na capacidade deles de mediar o uso para orientar e maximizar as oportunida- des dos filhos. Os dados sobre experiências incômodas na Internet são relativamente baixos, mas não desprezíveis, principalmente quando destacamos que, entre os internautas de 11 a 16 anos, 14% tiveram contato com mensagens de ódio, 10%, com conteúdos de apologia a trans- tornos alimentares, e 7%, com conteúdos sobre formas de machucar a si mesmo. A vivência de situações problemáticas também se mostrou relativamente baixa quando se pensa no des- taque que elas ganham na imprensa e no senso comum. Mas também exigem atenção ao per- cebermos que 18% já tentaram passar menos tempo na Internet e não conseguiram, 11% se sentiram mal quando não puderam entrar na Internet, e 7% já deixaram de comer ou dormir por causa da Internet (todas as ocorrências citadas como “frequentes” ou “muito frequentes”).
Considerando a dificuldade de obter informações tão sensíveis diante dos pais ou responsáveis e dos pesquisadores, a incidência dessas experiências não pode ser desprezada.
Apesar de a maior parte dos responsáveis de todas as classes conversarem sobre o uso da Internet, as maiores diferenças entre as classes sociais se dão na proporção de crianças e ado- lescentes que afirmam ser estimulados diretamente pelos pais ou que navegam juntos, sendo muito inferior nas classes DE. Já quanto ao grau de permissão dos pais em relação às ativida- des das crianças e dos adolescentes, a restrição parece ligeiramente maior nas classes DE, com maior incidência da proibição de algumas atividades. Por fim, um dado significativo na análise da mediação dos pais é reconhecer que 53% dos pais não usam a Internet. Nas classes DE, essa proporção chega a 88%, levantando novamente o debate sobre a urgência de esse tema ser pau- tado com a devida qualidade e seriedade na agenda das políticas públicas. As orientações sobre uso seguro da Internet chegam aos pais principalmente por meio da TV, rádio, jornais ou revis- tas (52%), e apenas 7% dos pais informam que o governo foi fonte desse tipo de orientação. No entanto, quando indagados sobre as fontes desejadas para receber essas orientações, a escola se destaca (61%), ao lado da TV, rádios e jornais (57%) e do governo (30%). Em geral, 47% dos pais das classes DE consideram que têm pouca ou nenhuma capacidade de ajudar os filhos com situações de incômodo na Internet, sendo que o mesmo ocorre com apenas 20% nas classes AB.