CAROLI NA ANTUNES MONTEI RO
A I NVERSÃO DA SOMBRA: UM CONTO SOB A PERSPECTI VA DA PSI COLOGI A ANALÍ TI CA
Tr abalho de conclusão de curso com o ex igência parcial para gr aduação no curso de Psicologia, sob or ientação da Profa. Dr a. Elisa Mar ia de Ulhôa Cintr a
Pont ifícia Universidade Católica São Paulo
AGRADECIMENTOS
Agradeço
À m inha m ãe, Regina, pelas histórias contadas e repetidas até a exaustão quando eu pedia ( “Girafinha Flor” ). Por ter despertado em m im o interesse pelo m undo da literatura, um a paixão que deixou m arcas profundas.
Ao m eu pai, Cesar, pela aj uda que sem pre m e deu, m esm o que de form a indireta. Por perm itir- m e ser observadora da sua história, um a história de integridade e honra, da qual m uito m e orgulho.
A am bos pelo apoio que sem pre m e deram , m esm o quando por dentro se questionavam se era a coisa certa a fazer. Agradeço por terem m e fornecido as bases que eu necessitava para com eçar o m eu cam inho; daqui sigo sozinha, sabendo que posso contar sem pre com vocês.
À m inha irm ã, Fernanda, m eu duplo, m inha outra m etade, tão parecida e tão diferente. Obrigada por partilhar um a vida, um a casa, am igos, o com putador. Agradeço pelo espaço que m e ofereceu para que realizasse esse trabalho.
À m inha terapeuta, tam bém Fernanda, pela aj uda direta nesse trabalho. Pelas sessões extras, pelos puxões de orelha; por ter m e aj udado a encontrar o m eu cam inho, por m e aj udar a m e m anter nele e por respeitar os m om entos em que precisei pegar alguns atalhos.
À Elisa, m inha orientadora, que não podendo m e aj udar diretam ente, m e deixou livre para que eu desenrolasse m eu tem a.
À Alessandra Giordano, um a contadora de histórias de prim eira, m inha professora num curso do Sedes e que m e recebeu de coração tão aberto quando pedi.
e aqui uso o term o tam bém no seu sentido m ais am plo, de tornar ilustre, glorificar, aquilo que outros só im aginam e/ ou o que sequer o fazem !
Aos am igos da faculdade: Drin, Talys, Livinha, Mi e Luciano. Cinco anos integrais nessa faculdade não é pra qualquer um , acabam os virando fam ília m esm o. Ao Lu em especial, por desde cedo ter apontado coisas que pelo m eu orgulho e rigidez eu não m e perm itia ver. Por ser m eu m estre de carne e osso, com panheiro nas risadas, nas piadas infam es, nas agulhadas doloridas.
Aos am igos e professores do Núcleo 203, m uito presentes neste últim o ano que em bora não estivesse nos planos, se fez tão necessário para m eu desenvolvim ento pessoal e profissional.
Aos am igos que estão fisicam ente longe, m as que se fazem presentes de outras form as: Elise, Ágata, Lisboa.
Aos m eus novos velhos am igos: Andrés, Sam uel, Bruno, Luana, Flávio e Dani. Agradeço pelos m om entos que com partilham os, pela proxim idade que se estreita cada vez m ais, pelo aprofundam ento que cada um faz em si m esm o. Que coisa bonita! Agradeço por abrirem espaço de discussão do conto “ A Som bra” no grupo de estudos e um obrigado em particular ao Dani e ao Frávius ( assim é m elhor!) por se disporem a ler e a com entar esse trabalho. Ao Sam u e à m inha irm ã, m eus room ies, por suportarem m inhas im paciências e irritações ocasionais.
Às m inhas crianças, Laura, João, Paulinho e Luiza. Só a lem brança dos seus rostos já m e faz sorrir e pensar que o m undo é um lugar incrível afinal.
Aos m eus pacientes: aos que j á se foram , aos que estão com igo ainda e aos que ainda virão. Obrigada por dividirem com igo suas histórias e pela oportunidade de aprender e ensinar diariam ente.
7.07.00.00- 1 – Psicologia
Carolina Antunes Mont eiro: A inversão da som bra: um conto sob a perspect iva da psicologia analít ica, 2008.
Orient ador: Profa. Elisa Maria de Ulhôa Cint ra
Palavras-chave: Contos; Som bra, Psicologia Analít ica.
Resum o
O present e trabalho t eve com o obj et ivo um a am pliação sim bólica de um cont o de Hans Christ ian Andersen denom inado “ A Som bra”. Prim eiram ent e, foi feit a um a revisão histórica da origem dos contos de fadas, bem com o foi ressalt ada a sua im port ância para o desenvolvim ento infant il. O capít ulo t eórico visa criar bases para um a boa com preensão do conceito j unguiano de ‘som bra’, t endo sido usados para isso alguns autores pós- junguianos. Out ras hist órias e m it os são cit ados, m ostrando a relevância do t em a abordado. Um a associação com a alquim ia encerra o capít ulo, evidenciando a im port ância do confronto da som bra com o cam inho para um processo m aior de individuação. O cont o é discut ido à m edida que vai sendo recont ado, m as o leit or pode encontrar o conto na ínt egra em anexo. As considerações finais levam à conclusão de que trabalhar com contos e m it os no processo analít ico t em im port ant es conseqüências, bem com o evidenciam a necessidade da int egração do princípio de
SUMÁRIO
I – Introdução... 07
I.a. A Origem dos Contos... 09
I.b. A Im portância dos Contos... 11
I I – Método... 23
I I I – A som bra: um conceito da Psicologia Analítica de Jung... 25
I I I .a – A Form ação da som bra... 25
I I I .b – A Proj eção da som bra... 27
I I I .c. A presença da som bra na arte e na literatura... 29
I I I .d. A som bra coletiva... 32
I I I .e. O trabalho com a som bra... 34
I I I .f. A individuação... 38
I V – Discussão... 42
V - Considerações Finais... 57
VI - Referências Bibliográficas... 60
I - I NTRODUÇÃO
Encontrar um significado na vida é um dos t rabalhos m ais difíceis enfrent ados pelo ser hum ano em qualquer idade. As hist órias e m it os, assim com o os contos de fada, “ são a expressão m ais pura e m ais sim ples dos processos psíquicos do inconscient e colet ivo” (Von Franz, 2005, p.9) ; eles personificam e ilust ram conflit os int ernos. Eles são a m et áfora da im possibilidade de com preensão de si m esm o do ser hum ano: criam os hist órias, cont os, religiões e at é m esm o a própria ciência para descort inar os m ist érios da nossa existência. Essa dúvida e a busca por respost as são inerentes ao ser hum ano, bem com o a criação de m eios que abrandem essa inquiet ude.
“ Mitos são histórias de nossa busca de verdade, de sentido, de significação, através dos tem pos. Todos nós precisam os contar nossa história, com preender nossa história. Todos nós precisam os com preender a m orte e enfrentar a m orte, e todos nós precisam os de aj uda em nossa passagem do nascim ento à vida e depois à m orte. Precisam os que a vida tenha significação, precisam os tocar o interior, com preender o m isterioso, descobrir o que som os” ( Cam pbell apud Radino, 2003, p.56).
Para Cam pbell, o m it o é a canção do universo, a m úsica que dançam os m esm o quando não conseguim os reconhecer a m elodia. É sem pre um a m et áfora do que repousa at rás do m undo visível.
Marie Louise Von Franz foi provavelm ent e a m aior pesquisadora dos contos de fadas na área da Psicologia Analít ica. Ela ressalt a que em bora os m itos e lendas t am bém at inj am as estruturas básicas da psique hum ana, por cont erem um m at erial cult ural m uit o m enos conscient e, os contos de fadas represent am os arquét ipos na sua form a m ais sim ples, obj et iva e absolut a.
Vladim ir Propp, um acadêm ico est ruturalist a russo, est udou os com ponent es básicos do enredo de contos populares e ao que com um ent e cham am os de cont o de fadas, ele deu o nom e de conto m aravilhoso. Essa diferenciação foi feit a para dar cont a da vast idão de personagens e fenôm enos m ágicos, absurdos e fant asiosos que povoam essas hist órias. No ent ant o, a sabedoria popular elegeu as fadas com o represent ant es desse reino encant ado, m as deve ficar claro que as fadas não devem necessariam ent e est ar present es. Para ser um conto de fadas, a hist ória deve sim cont er algum elem ento extraordinário, surpreendent e, espantoso.
As fadas j á foram associadas às Moiras da m it ologia grega, seres responsáveis por fabricar, t ecer e cort ar aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos. Durant e o trabalho, as Moiras faziam uso da Roda da Fort una, um t ear ut ilizado para se t ecer os fios: as volt as da roda posicionavam o fio do indivíduo em sua part e m ais privilegiada ou em sua part e m enos desej ável, explicando-se assim os períodos de boa ou m á sort e de todos. Às fadas cabia ainda veicular a m agia por serem herdeiras das sacerdot isas dos rit os ancest rais. O lugar a elas cedido com o represent ant es do m undo m ágico parece m ais do que bem m erecido.
O carát er fant ást ico dessas narrat ivas tem a função de nos levar a um a outra dim ensão, um out ro m undo com lógica e possibilidades diferentes. Nesse m undo, a lógica da razão e a coerência são barradas. É j ust am ent e esse dist anciam ento que perm it e que os cont eúdos inconscient es sej am proj et ados e, ainda, que sej am elaborados.
I .a. A Origem dos Contos:
“Era um a vez, no tem po em que os desej os ainda se cum priam ...”1
A tradição de se cont ar essas histórias vem de longe; no Oriente Médio e na Ásia as histórias t êm sido cont adas e recont adas, pois elas resgat am um a das form as m ais ant igas de transm issão da experiência hum ana, através do encontro ent re o cont ador e o ouvinte. O que im port a não é o fat o das hist órias serem novas ou não, m as sim que a cada vez que são cont adas, elas ganham vida at ravés daquele que as cont a.
Just am ent e por trat ar de experiências hum anas e por ut ilizar um a linguagem de sím bolos, os contos viaj am no t em po e no espaço, podendo ser encont rados em qualquer part e do m undo. A linguagem dos contos de fadas é universal. Na Ant iguidade, um filósofo do século 2 d.C. escreveu um rom ance denom inado “ O Asno de Ouro”, que em m uit o se assem elha a “ A Bela e a Fera”. Foram encont rados contos de fadas em papiros e colunas egípcias. Na Europa Medieval, os contos eram a form a principal de ent ret enim ento nas populações agrícolas. No Ocident e, os irm ãos Grim m regist raram m uit as hist órias populares que lhes foram cont adas oralm ent e; são eles alguns dos nom es m ais reconhecidos com o autores de contos atualm ent e, em bora eles se auto-denom inassem com piladores, e não autores ( Radino, 2003: p.83) .
Segundo Radino ( 2003) , as fontes dos contos de fadas parecem difíceis de se precisar, m as há o consenso entre a m aior part e dos pesquisadores de que ele t eria se originado do povo celt a.
“ Na m aioria das cult uras, não existe um a linha clara separando o m it o do cont o folclórico ou de fadas; t odos
eles foram a lit erat ura das sociedades pré- lit erat as. ( ...) Algum as est órias folclóricas e de fadas desenvolveram -se a part ir dos m it os; out ras foram a eles incorporadas. As duas form as incorporaram a experiência cum ulat iva de um a sociedade, j á que os hom ens desej avam relem brar a sabedoria passada e t ransm it i- la às gerações fut uras. Est es cont os fornecem percepções profundas que sustent aram a hum anidade at ravés das longas vicissitudes de sua exist ência, um a herança que não é t ransm it ida sob qualquer out ra form a t ão sim ples e diret am ent e, ou de m odo t ão acessível, às crianças”
( Bet t elheim , 1980, p.34) .
As narrat ivas populares européias que deram origem ao que hoj e cham am os de contos infant is não apresent avam t ant a riqueza sim bólica quant o os contos de fadas, e som ent e após sofrerem m uit as m udanças, por volt a do século XI X, passaram a fazer part e da m it ologia universal. I nicialm ent e, t ais narrat ivas sequer eram direcionadas ao público infant il. Elas t inham a função de relat ar o m undo bruto e nom ear os m edos sent idos pelos habit ant es das aldeias cam ponesas, que recorriam às narrat ivas para enfrent ar as noit es frias de inverno, sent ados ao redor de um a fogueira.
Um exem plo disso é a história da Chapeuzinho Verm elho em que ao contrário da versão m ais conhecida, um caçador não surge no final para salvar a m enina e sua avó. Ao contrário disso, a história t erm ina com o lobo devorando a m enina. Não há um final feliz e nem um a “ m oral da hist ória” ; a narrat iva fala dos perigos do m undo, da crueldade, da violência dos hom ens e da natureza, enfim , de t udo aquilo a que o hom em est á suj eit o.
As alt erações sofridas no século XI X que levaram às m odernas versões dos contos de fadas se devem principalm ent e a duas m udanças na sociedade:
2. a construção de um a noção de infância, com o conhecem os hoj e. A criança passa a ser reconhecida com o suj eit o, com part icularidades que a diferenciam dos adult os. São criadas leis que lhe garantem direitos específicos.
Assim , as narrat ivas tradicionais se tornaram m ais infant ilizadas, ficaram m ais suaves e são o que at ualm ente denom inam os cont os de fadas.
No século XI X, um pesquisador cham ado Ludwig Laistner levant ou a hipót ese de que a origem dos t em as básicos dos contos de fadas e das lendas folclóricas seriam os sonhos. Parecia- lhe natural que algo sonhado num a noit e por um a pessoa, fosse cont ado com o realidade para outra e assim a história ia sendo passada adiant e. Sua hipótese nunca foi bem aceit a no m eio cient ífico, m as é int eressant e pensar nas relações exist ent es entre os contos e os sonhos.
I .b. A I m port ância dos Contos:
“Todas as crianças crescem, menos um a. Elas logo descobrem que vão crescer, e a m aneira com o Wendy descobriu isso foi a seguinte. Um dia, quando t inha dois anos, ela estava brincando no j ardim e, depois de colher mais um a flor, correu para j unt o de sua mãe. Acho que devia estar linda, pois a Sra. Darling levou a mão ao coração e exclam ou: “Ah, se você ficasse assim para sem pre! ”. Foi t udo o que aconteceu ent re elas com relação a esse assunt o, m as a part ir daí Wendy soube que teria que crescer. A gente sempre sabe, quando t em dois anos. Dois é o com eço do fim ” (BARRI E, J.M. Peter Pan).
im aginação, o que as conect a ao elem ent o m aravilhoso da fant asia e à m ult iplicidade de sent idos possíveis. O sent ido não é previam ent e dado ao ouvint e, ele t em que ser const ruído e a criança t rabalha ent ão analogam ent e a um garim peiro: procura por pepit as em m eio ao cascalho num eroso que lhe é apresent ado.
Já Bet t elheim ( 1980) , ressalt a que os livros infant is at uais preocupam -se m ais em divert ir e inform ar as crianças, m as o fazem de m aneira superficial, deixando de lado o desenvolvim ento afet ivo das m esm as. Não há est ím ulo dos recursos int eriores de que as crianças m ais precisam para lidar com seus difíceis problem as e quest ões, a leit ura é vazia, falt a- lhe um significado m ais profundo.
Em bora todos tendam a apreciar um a at ividade pelo benefício que ela oferece no m om ento, a criança, por viver o present e m ais do que o adult o, reforça t al com port am ento.
“ Para que um a est ória realm ent e prenda a at enção da criança, deve ent retê- la e despert ar sua curiosidade. Mas para enriquecer sua vida, deve est im ular- lhe a im aginação: aj udá- la a desenvolver seu intelect o e a t ornar claras suas em oções; est ar harm onizada com suas ansiedades e aspirações; reconhecer plenam ent e suas dificuldades, e, ao m esm o t em po, sugerir soluções para os problem as que pert urbam . Resum indo, deve de um a só vez relacionar- se com t odos os aspect os de sua personalidade – e isso sem nunca m enosprezar a criança, buscando dar inteiro crédit o a seus predicam ent os e, sim ult aneam ente, prom ovendo a confiança nela m esm a e no seu futuro” (Bett elheim , 1980, p. 13) .
Nesse sent ido, os contos de fadas são aqueles que m ais at endem t ais expect at ivas, um a vez que conversam com o m ais ínt im o do hum ano, expondo problem as int eriores e oferecendo soluções, alt ernat ivas para esses problem as.
passando dentro do seu inconscient e e ent ão dom inar os problem as psicológicos suscit ados pelo seu crescim ent o e se adapt ar a est e m undo. Os contos de fada ent ram exat am ent e aí: oferecem um nort e, induzem a um com port am ento m oral não através de conceit os abstratos, e sim do que parece concret am ent e corret o e por isso, significat ivo.
A globalização acelerou o processo de transm issão de hist órias que levou séculos na t radição oral e hoj e podem os perceber o ressurgim ento de contos que j á se tornaram clássicos e t radicionais, m esm o que dat em deste século. Segundo Corso e Corso ( 2006) , para a criança não im port a se o conto é ant igo ou cont em porâneo. Por serem m ais abert as às diferent es possibilidades de existência, as crianças são m ais capazes de se ident ificarem com personagens at ípicas e hist órias bizarras. A front eira ent re o real e o fant ást ico ainda não foi delim it ada, assim , elas podem com por o repert ório im aginário que m ais lhes convier.
Mais ainda que os adolescent es e adultos, a criança parece não se conform ar com est e m undo onde t oda a riqueza subj et iva é t razida à plena visibilidade. Ao contrário disso, o m ist ério e o desconhecido cont inuam sendo de grande int eresse para os pequenos; principalm ent e o m edo é um forte atrativo. O m edo vem j ust am ent e do que não se conhece, do que am eaça e pert urba a est abilidade, da percepção da finit ude da vida e, j ustam ent e por isso, est im ula a curiosidade e a disposição à coragem , ao enfrent am ent o. O que dá m edo é t am bém o que desafia. É com um ver que as part es m ais t ensas das hist órias, aquelas em que aparecem a bruxa do “ João e Maria” ou a m adrast a da “ Branca de Neve”, são exat am ente as partes que as crianças não se cansam de ouvir.
dão lugar às pressões inconscient es, possibilit ando ent ão a sua int egração. A m ensagem que o conto de fadas envia é j ust am ent e essa: que obst áculos inevit áveis surgirão no cam inho, m as que se o suj eito, personificado no herói, os enfrent a coraj osam ente, no final encontrará o triunfo.
Os t em as, em bora não conscientes, são m ais do que fam iliares para as crianças: a rivalidade e a perfeição do am or m at erno desm ist ificado present es nos contos da “ Cinderela” e da “ Branca de Neve”; o abandono e a lut a pela sobrevivência de “ João e Maria” , o sent im ento de “ estranho no ninho” vivido pelo “ Pat inho Feio”. Tais histórias aj udam a criança a ( re)conhecer-se, dão recursos para que desenhem o m apa im aginário que indicam seu lugar na fam ília e no m undo.
É im port ant e ressalt ar que de todas as am eaças que at ingem o m undo infant il, as fant asias inconscient es dos pais são as m ais perigosas, um a vez que diant e delas, pouco se tem a fazer. Com o Gepet o que dá form a de m enino a um pedaço de m adeira, m as que é incapaz de dar- lhe a vida, m uit as vezes os pais fazem de seus filhos m arionet es de seus próprios sonhos, o que leva à m ort e da criat ividade im aginária dos filhos. Nesse sent ido, é int eressant e pensar que em m uit os cont os o papel dos pais, sobretudo o pat erno, é reduzido: cabe ao herói seguir seu rum o sozinho. Na hist ória do
“ Mágico de Oz” vem os est a função pat erna represent ada pelo próprio m ágico que no final das cont as, não era t ão poderoso quanto se esperava. Em “ João e Maria”, o pai não desafia a vont ade da esposa e perm it e que os pequenos irm ãos sej am deixados na florest a à sua própria sort e.
ainda deixar a t eia incom plet a para que elas cont inuem t al t arefa; a criança recont a a própria hist ória à sua m aneira para t orná- la sua.
Maria Rit a Kehl, psicanalist a autora do prefácio de “Fadas no divã” , faz um a int eressant e com paração. Ela relaciona a associação entre a narrat ividade e os cuidados parent ais feit a pelos aut ores com o relato do rom ancist a Ricardo Piglia sobre a tribo indígena dos
“ ranqueles”. Esses índios eram nôm ades e não obedeciam a relações fixas de autoridade; o poder não sobrevinha da força ou da coerção, e sim da capacidade narrat iva do chefe.
“ Nessas sociedades, que souberam prot eger a linguagem da degradação que as nossas lhe infligem , o uso da palavra, m ais do que um privilégio, é um dever do chefe. O poder out orgado a ele do uso narrat ivo da linguagem deve ser int erpret ado com o um m eio que o grupo t em de m ant er a aut oridade a salvo da violência coercit iva. ( ...) com o um personagem de Kafka, esse hom em , prisioneiro de seus súdit os, continua, t odos os dias, const ruindo seus belos relat os de ilusão. E porque, apesar de t udo, cont inua falando, t odos os dias, ao am anhecer ou ao ent ardecer, consegue fazer com que suas hist órias ent rem na grande t radição e sej am lem bradas pelas gerações fut uras. At é que, por fim , um dia, as pessoas o abandonam : alguém , em out ro local, nesse m om ent o, est á falando em seu lugar. Seu poder, ent ão, acabou.”
( Piglia apud Kehl, 2005, p.19).
Ela t erm ina dizendo:
“ Com o o ant igo chefe ranquele, os pais narrat ivos servem - se de seu poder de dizer coisas significat ivas a seus filhos, dia após dia, at é perceber que eles est ão deixando de lhes dar ouvidos. É hora de deixá-los falar por si m esm os. O am or ent re eles cont inua – m as seu poder acabou” ( Kehl, 2005, p.19).
associação pode t am bém ser am pliada para a relação t erapêut ica entre analist a e paciente.
Toda vida não deixa de ser um a história, sej a ela rica em aventura, frust rações, reflexões ou até m esm o sendo insignificant e: falar dela é sem pre um a ficção. Nesse sent ido, visit ar as histórias dos outros, sej a escut ando sobre elas ou ainda vendo film es, lendo livros ou em peças de t eatro, nos auxilia a pensar a nossa própria exist ência, m uit as vezes sob ângulos diferent es. Vislum bram os diferentes possibilidades e cam inhos feit os por outros e com param os às nossas próprias escolhas num a constant e renovação.
Com o j á dit o ant eriorm ente, os contos m edievais de origem cam ponesa com o passar dos séculos foram direcionando-se m ais ao público infant il, m esm o que m uit os deles t enham m ant ido a sua estrut ura. Cabe ent ão a pergunt a: o que m ant ém as nossas crianças ainda t ão int eressadas neles? Bruno Bett elheim ocupou-se em responder a est a pergunt a de form a m uit o eficient e em “ A Psicanálise dos Cont os de Fadas” ( 1980). Em seu pioneirism o, ele foi o principal responsável pelo reconhecim ento at ual da im port ância dos cont os no desenvolvim ento infant il. Tendo trabalhado m uit o t em po com crianças gravem ent e perturbadas, ele ressalt a em prim eiro lugar o im pact o dos pais e/ ou cuidadores da criança em sua form ação, seguido pela herança cult ural que é t ransm it ida a ela. Para ele, a lit erat ura é o m eio que m elhor canaliza essas inform ações no caso de crianças pequenas.
Bem e m al são polarizados e o m al, que não é desprovido de at rações (com o o poder do m onstro, a int eligência da bruxa, a força do gigante) , por vezes é tem porariam ente vitorioso. Mas diferentem ent e do que pode ser pensado, não é a punição final do m al que faz com que os cont os t enham o carát er de “ educador m oral” ; é a sensação de que o crim e não com pensa que faz isso. A m oralidade vem através da ident ificação da criança com o herói; est e lhe é m ais at raent e, suas lut as e inquiet udes int eriores lhe são fam iliares.
A polarização ocorre porque é assim que funciona a m ent e da criança: não há m eio-t erm o, exist e a irm ã feia e a irm ã linda, o m enino m edroso e o corajoso. As am bigüidades só podem ser assim iladas por um a personalidade firm e na base das ident ificações posit ivas. Só ent ão pode-se abarcar a com plexidade das diferenças entre as pessoas e se escolher que t ipo de pessoa se quer ser.
Não é a com preensão racional que faz com que a criança ent enda o que est á se passando dentro de si. É entrando em cont at o com os cont eúdos suscit ados pelos cont os, pensando e repensando-os, reorganizando- os e adequando-os às fant asias conscientes que a criança se torna capaz de lidar com eles. Os cont os dão um a nova dim ensão à im aginação, estrut uram e fornecem im agens à criança, am pliando seu repert ório. Além disso, indo ao encontro das ansiedades existenciais, o conto de fadas oferece soluções de m odo adequado ao nível de com preensão da criança; o sent im ent o que ant es não era expresso por palavras ou som ent e de form a indiret a, agora t em um lugar aut ent icado e há o vislum bre de um a solução.
com esses elem entos do que os adult os. É necessário que a criança se sint a segura sabendo que seguirá seu cam inho sozinha, m as que t erá a aj uda de relações significat ivas quando precisar.
“ Só part indo para o m undo é que o herói dos cont os de fada ( a criança) pode se encont rar; e fazendo- o, encont rará t am bém o out ro com quem será capaz de viver feliz para sem pre; ist o é, sem nunca m ais t er de experim ent ar a ansiedade da separação. O cont o de fadas é orient ado para o fut uro e guia a criança – em t erm os que ela pode entender t ant o na sua m ent e inconscient e quando conscient e – a abandonar seus desej os de dependência infant il e conseguir um a exist ência m ais satisfat oriam ent e independent e”
( Bet t elheim , 1980, p.19) .
Os contos de fadas favorecem o crescim ento int erno da criança, além de divert i- la. Eles represent am o desenvolvim ent o sadio hum ano, iniciando com a resist ência contra os pais e o m edo de crescer e t erm inando com o encontro consigo m esm o, com a m at uridade m oral e com o encontro com o seu opost o sexual – o que ant es era am eaçador, agora se torna um com panheiro posit ivo.
O significado de cada conto é diferent e para cada pessoa e diferente ainda para aquela m esm a pessoa em diversos m om entos de sua vida, dependendo de seu est ágio psicológico de desenvolvim ento e dos problem as m ais em ergentes. Assim , um m esm o conto pode ser revisit ado sem pre que a pessoa est iver pront a para am pliar os velhos significados ou subst it uir por novos.
será m ais ou m enos im port ant e para det erm inada criança, som ente ela pode nos m ostrar isso a part ir de sua reação em ocional ao que o conto evoca em sua m ent e conscient e e inconscient e.
A criança dem onstrará seu int eresse pedindo para que a história sej a repet ida a cada noit e, at é que chegue o m om ent o em que ela assim ilará t udo que podia e out ro cont o passa a expressar m elhor suas novas questões. Mesm o que os pais percebam claram ent e qual é a t em át ica que está t ocando t anto a criança, é essencial que eles não m anifestem e não abram t al conhecim ent o para a criança. Grande part e do efeit o do cont o est á j ust am ent e no seu acesso ao inconsciente; além de acabar com o encant am ento, explicar a t em át ica para a criança im pede que ela descubra por si só o problem a e crie sua solução. Som ent e quando eu ent endo e resolvo m eus problem as por m inha cont a é que m e sent irei seguro e encontrarei sent ido nas m inhas escolhas.
“Os t em as dos cont os de fadas não são fenôm enos
neurót icos, algo que alguém se sent e m elhor
ent endendo racionalm ent e de form a a poder se livrar deles. Tais t em as são vivenciados com o m aravilhas porque a criança se sent e ent endida e apreciada bem
no fundo de seus sent im ent os, esperanças e
ansiedades, sem que tudo isso t enha que ser puxado e invest igado sob a luz austera de um a racionalidade que ainda est á aquém dela. Os cont os de fada enriquecem a vida da criança e dão- lhe um a dim ensão encant ada exat am ent e porque ela não sabe absolut am ent e com o as est órias puseram a funcionar seu encant am ent o sobre ela” (Bett elheim , 1980, p.27) .
cham aria de individuação. A própria palavra fada deriva do latim Fata,
Fatum, que significa destino. É só partindo para o m undo, que o herói do conto irá se encontrar e um a vez que se encontre, encontrará tam bém o outro com quem será capaz de viver feliz “ para sem pre” .
A preocupação do conto não é com o m undo exterior, m as representa os processos interiores que ocorrem num indivíduo, através da linguagem de sím bolos que vão personificar e ilustrar os conflitos int ernos. A m aior contribuição dos contos de fadas está aí segundo Bettelheim , no cam po das em oções, pois desenvolvem a capacidade de fantasia infantil, fornecem vias de elaboração e descarga ao falar dos m edos, ansiedades, ódios, conflitos edípicos, sentim entos de inferioridade, disputa fraterna; aliviando as pressões exercidas por esses problem as, auxiliam na recuperação e na construção de recursos internos. Nos contos de fadas, a m aior vitória é sobre si m esm o e sobre as partes não integradas do eu que são proj etadas nos rivais do herói. A criança sabe que não se tornará um a princesa e que não será feliz para sem pre, m as entende que poderá governar sua própria vida, tendo m eios para buscar essa felicidade.
“ O inconsciente é a fonte de m atéria- prim a e a base sobre a qual o ego erige o edifício de nossa personalidade. Prosseguindo na com paração, nossas fantasias são os recursos naturais que fornecem e m oldam esta m atéria-prim a, tornando- a útil para as tarefas de construção da personalidade que cabem ao ego. Se som os privados desta fonte natural, a vida fica lim itada, sem fantasias para nos dar esperanças, não tem os forças para enfrentar as adversidades da vida. A infância é a época em que estas fantasias precisam ser nutridas” (Bettelheim , 1980, p.73) .
Bett elheim ( 1980) ainda nos apresent a um a idéia darwiniana ao dizer que os contos que sobreviveram aos séculos foram aqueles que m elhor se adapt aram às necessidades at uais das crianças, ou ainda, aqueles cont os que m elhor represent avam os cont eúdos inconscient es das m esm as.
Von Franz, após m uit os anos de est udos, concluiu que de cert a form a, todos os contos de fadas se propõem a trat ar de um m esm o t em a: o Self. Por self podem os ent ender a t ot alidade psíquica de um a pessoa, m as t am bém o centro regulador do inconscient e colet ivo. Just am ent e por ser um t em a tão com plexo há t ant as form as de represent á- lo sem nunca esgot á- lo com plet am ent e. Assim , diferentes contos t rat am de diferent es faces e aspect os da t ot alidade: o em bat e da som bra na lut a do herói para vencer m onst ros, a experiência de anim a e anim us, a busca pelo t esouro perdido e pela vida et erna... Mas Von Franz ressalt a:
“ Em t erm os de valor não há diferenças ent re esses cont os, porque no m undo arquet ípico não há hierarquia de valores pela sim ples razão de que cada arquét ipo é, na sua essência, som ente um aspect o do inconscient e colet ivo, ao m esm o t em po que represent a, t am bém , o inconscient e colet ivo com o um t odo” ( Von Franz, 2005, p.11) .
Analisar um conto de fadas pode ser um trabalho superficial, um a vez que seu verdadeiro significado e im pacto podem ser apreendidos na sua form a original, e que at ingem cada criança de form as diferent es. Os cont os de fadas, assim com o os m itos, não possuem um sent ido próprio, m as são estrut uras que perm it em gerar sent idos. Por esse m ot ivo, t oda a int erpret ação será sem pre parcial, um a vez que há aspectos conscient es e inconscient es que nunca serão abarcados por um a só pessoa. Eles são o que Jung denom inou
Silveira, est udiosa e difusora da Psicologia Analít ica no Brasil, esclarece que os sím bolos t êm vida e nela at uam .
“ Um sím bolo não t raz explicações; im pulsiona para além de si m esm o na direção de um sent ido ainda dist ant e, inapreensível, obscuram ent e pressent ido e que nenhum a palavra da língua falada poderia exprim ir de m aneira sat isfat ória” (Silveira, 2001, p.71).
I I – MÉTODO
O presente trabalho surgiu de um interesse pela lit eratura, principalm ente a direcionada ao público infanto- j uvenil e seu papel no desenvolvim ento da fantasia e da vida em ocional da criança. Este foi, no entanto, som ente o ponto de partida; ao perceber que os contos de fadas e sua aplicação na Educação já foram abordados por vários autores não conseguia form ular um a nova pergunta.
Alguns fatores m e levaram a um afastam ento da PUC por um ano, fiquei im possibilitada de realizar o trabalho de conclusão de curso, m as a área de interesse a ser estudada e o tem a estavam de algum a form a sendo “ decantados” .
Foi em um curso de Contação de Histórias no I nstituto Sedes Sapientiae e na m inha própria terapia que vislum brei a possibilidade de se trabalhar com contos com o recurso terapêutico.
Em bora tenha m e interessado e estudado m ais profundam ente algum as outras abordagens, senti o “ cham ado” para a Psicologia Analítica. Foi ela que apresentou um a visão de hom em e de m undo e um a possibilidade de atuação que iam m ais ao encontro do que eu procurava.
Um dia caiu em m inhas m ãos um livro de poucas páginas, com um a ilustração belíssim a. Era um conto de Andersen que até então eu não conhecia. Quando o li pela prim eira vez, fiquei adm irada com o ele traduzia perfeitam ente um conceito fundam ental da Psicologia Analít ica: a som bra.
A partir daí, m eu cam inho tornou- se m ais claro. Para a introdução, foram realizados um levantam ento histórico e um a pesquisa sobre a im portância e significado dos contos de fadas para o desenvolvim ento infantil. Diversas vezes foi ressaltado que os contos têm poder tam bém sobre adolescentes e adultos.
O capítulo teórico traz o conceito de som bra e houve a necessidade de explicar outros conceitos fundam entais para a Psicologia Analítica. Minha tentativa foi a de explicá- los à m edida que iam aparecendo, m as tendo sem pre com o foco sua relação com o conceito de som bra.
que assim som os capazes de com preender m elhor o sím bolo e nos vem os então com o um a parte de um contexto arquetípico m aior. Aqui encontram -se tam bém articulações entre a teoria e o conto.
As considerações finais trazem as im plicações do conto com o recurso terapêutico; cito um pouco do que aprendi no curso de Contação de Histórias. A im portância da integração de conteúdos inconscientes é ressaltada tanto no processo de desenvolvim ento individual com o no processo de desenvolvim ento de consciência coletiva.
I I I – A SOMBRA: um conceito da Psicologia Analít ica de Jung
I I I .a – A Form ação da Som bra:
“Fiz de m im o que não soube E o que podia fazer de m im não o fiz. O dom inó que vest i era errado. Conheceram -me logo por quem não era e não desment i, e perdi-m e. Quando quis t irar a máscara, Est ava pegada à cara. Quando a t irei e m e vi ao espelho, Já t inha envelhecido. Est ava bêbado, já não sabia vest ir o dom inó que não t inha t irado.” (Fernando Pessoa – Tabacaria)
A criança quando nasce j á est á im ersa num com plexo contexto de valores, hábit os, com port am ent os e t em peram entos de pais, irm ãos e outros parentes. O desenvolvim ento do ego com o princípio organizador da consciência surge em respost a à necessidade do hom em de adapt ar-se à sociedade. O ego é aquilo que nos dá o nosso senso de ident idade, cont inuidade e personalidade. Dentro dessa at m osfera do adapt ar-se, a criança desenvolve sua noção de eu, seu ego a part ir de um a const ant e separação ent re “certo” e “ errado” , entre o eu-dent ro ( m undo int erno) e o não- eu ( m undo ext erno) nas experiências que vivencia. O ego vai se estrut urando de m odo a realizar e a m ediar da m elhor form a possível o Eu, enquanto pot encial de personalidade, e a realidade ext erna. Vej a-se que o Eu refere-se ao pot encial da personalidade, ao passo que o ego é a concret ização deste pot encial.
dem ais. Na realidade, o ego é um a pequena parcela da psique tot al, m as com o t endem os a pensar que aquilo que conhecem os é tudo o que exist e, m uit as vezes cai-se no erro de com preender o ego com o o centro da psique t ot al. No ent anto, pensar que o ego é o centro da psique é a m esm a crença dos povos prim it ivos de que o sol girava em t orno da t erra, e não o inverso.
I nicialm ent e, a fam ília, principalm ent e os pais, são os represent ant es dessa dit a realidade ext erna, oferecendo à criança o padrão daquilo que é esperado e desej ado que ela faça. A criança ouve desde cedo que cutucar o nariz e cuspir no chão é feio, que responder aos m ais velhos é falt a de educação, e assim por diant e. Esse referencial proporciona segurança ao ego em crescim ent o, no ent ant o, tudo o que não se adequa a este perfil vai nat uralm ent e form ando a som bra pessoal. Mais t arde o padrão será dit ado por professores, colegas da m esm a faixa et ária e inst it uições com o a religião. O processo de form ação dessa m áscara diant e da sociedade, Jung denom inou persona.
Robert Bly é um poet a am ericano que se dedica ao est udo da psicologia profunda. Em um de seus inúm eros livros ele faz um a int eressant e analogia ao dizer que ao nascerm os, trazem os um a sacola invisível às nossas cost as. Com o passar do t em po vam os enchendo essa sacola com t udo aquilo que acredit am os que nos fará perder a aceit ação e o am or de nossos pais. Ele diz ainda que passam os os prim eiros vint e anos de nossas vidas decidindo e escolhendo qual part e de nós colocarem os na sacola, e que passam os o resto da vida t ent ando esvaziá- la.
inconscient e em si. Ela é part e dele, a part e que com plem ent a o ego e represent a as caract eríst icas que a personalidade conscient e recusa-se a adm it ir. Ela confere tridim ensionalidade, j á que t udo que t em subst ância lança um a som bra: ela é j ust am ente o que nos t orna hum anos.
Deve ficar claro que a som bra não é intrinsecam ent e ruim , não é im oral per se. Ela é negat iva do ponto de vist a da consciência, do ego que t em e um a desestruturação que um a vivência e ident ificação com a som bra podem oferecer. O m edo da perda da soberania e do controle é característ ico do ego. Trazendo consigo todo o não vivido, a som bra abarca t am bém nossos t alentos e dons não desenvolvidos. É nesse sent ido que ela oferece um núm ero sem fim de pot encialidades.
A repressão dos cont eúdos que est ariam em desacordo com os valores externos não im pede que eles aj am , j á que cont inuam a exist ir com o o que Jung cham ou de com plexos. Com plexos são grupos de cont eúdos inconscientes carregados de afet o, expect at ivas e fragm ent os de experiências vividas, que apesar de serem inconscient es, ou m uito provavelm ent e por isso m esm o, agem com o personalidades divididas, parciais, independent es e separadas. São part es vit ais da const it uição psicológica de qualquer pessoa, m as à m edida que crescem os, som os capazes de t er consciência deles.
I I I .b – A Proj eção da Som bra:
“Nossos am igos nos m ost ram o que podem os fazer; nossos inim igos nos ensinam o que precisam os fazer”. (Goethe)
de um a pessoa ou grupo, sej a com aversão ou adm iração. Ao atribuir t al qualidade a outrem , eu proj et o aquilo que não consigo encarar com o m eu. Se a proj eção at inge um gancho no alvo proj et ado, ent ão ela se m ant ém . Por gancho, pode-se ent ender um cont eúdo que a outra pessoa realm ent e apresent e. A proj eção t am bém não é negat iva em si, j á que ela é condição básica e inicial de qualquer relacionam ent o hum ano e é o prim eiro passo para ext eriorizar os cont eúdos inconscientes.
A proj eção est á por trás de t oda percepção de m udança. Abordam os qualquer coisa nova na vida proj et ando algo que j á t em os em nós, arquet ipicam ente, para o m undo. I nicialm ent e, confundim os a realidade com a nossa proj eção, m as aos poucos nos adapt am os e algo novo se form a dent ro de nós, algo que se adapt a m ais à realidade.
William Miller, um analist a e escrit or j unguiano, apont a cinco cam inhos possíveis para observarm os a nossa própria som bra em ação:
• Pedir que outras pessoas nos digam com o nos vêem . As pessoas que nos conhecem bem são as que estão em m elhor posição para poder nos aj udar a ver os aspectos que relutam os em reconhecer em nós m esm os. Quando há a identificação por m ais de um a pessoa de determ inado traço que não é adm itido, um a profunda auto- análise se faz necessária.
• Descobrir o conteúdo de nossas proj eções. Com o explicado anteriorm ente, nossas proj eções estão carregadas de conteúdos indesej áveis da nossa própria som bra.
• Observar nossos lapsos verbais e de com portam ento e as incongruências entre o que passam os e aquilo que gostaríam os de passar para os outros. Ao pensarm os a som bra com o tudo aquilo que gostaríam os de ser, m as não ousam os, preparam os o palco para o surgim ento dos lapsos.
gosto” nos leva a um m aior autoconhecim ento. Mesm o sabendo o que é errado e tendo a certeza de que não o faríam os, nos divertim os com algo que gostaríam os de fazer. Um lado da som bra se realiza nesse m om ento. Rir de algo previne que eu efetivam ente faça esse algo.
• Trabalhar nossos sonhos, devaneios e fantasias. A som bra costum a aparecer em sonhos com o personagens deform adas e geralm ente do m esm o sexo do sonhador. Tendem os a evitar essas personagens assim com o evitam os a som bra na nossa vida consciente. Com o costum am os reagir a elas com m edo, aversão e antipatia, há a sensação de perseguição.
O aut or ressalt a que em bora est es cam inhos sej am possíveis, o cont at o com a própria som bra é um processo individual, cabendo a cada um desenvolver o seu m elhor m odo de conhecer sua própria
som bra.
I I I .c. A presença da Som bra na Arte e na Lit erat ura:
Anthony St evens, um psiquiat ra e psicot erapeut a brit ânico, faz num breve ensaio um hist órico da som bra na Lit eratura e na História. Ele afirm a que o m edo de ser possuído pelo poder das trevas e de cair na perversidade pode ser observado ao longo da história do crist ianism o. Os cont os que t razem lobisom ens e vam piros nos acom panham de longa dat a.
O autor relem bra a história de Fausto, um a ant iga lenda alem ã registrada por vários escritores e art istas, sendo a versão de Goethe do final do século XVI I I a m ais conhecida at é os dias de hoj e. O enredo traz o m édico Fausto que no afã de obt er conhecim ent o, faz um pacto com o diabo, Mefist ófeles, negociando sua alm a em troca de anos de prazer e sem envelhecer.
O autor cit a ainda a história “ O Médico e o Monst ro”, fam osa obra de Robert L. St evenson, que trat a de um reconhecido m édico, o Dr. Jekyll, que descobre um a poção que o transform a em Mr. Hyde, um assassino sem escrúpulos, a personificação do Mal que Jekyll escondia dentro de si. I nicialm ent e, o m édico t em cont role sobre sua t ransform ação e sent e-se aliviado por finalm ent e poder dar vazão aos seus ím petos atrozes, m as depois percebe que a transform ação com eça a ocorrer involunt ariam ent e. No final, Hyde o possui por com plet o.
St evens ressalt a que nossa adm iração por essas duas histórias vem da coragem de seus heróis em viver o lado som brio e pela própria num inosidade da som bra.
“ O t erm o ( num inoso) ocorre na psicologia analít ica ( ...) para indicar o carát er com que um a coisa, cuj o sent ido é ignorado ou ainda não conhecido, se t ransform a em força que fascina a consciência do suj eit o” ( Pieri, 2002, p.347) .
Am bas as personagens, Faust o e Jekyll, com et em o pecado da
t al pecado, a única pena é a m ort e. A m ort e sim bólica, de um ego que agora deverá ser reest ruturado, renovado.
Segundo St evens, Freud com preendeu que a ansiedade universal do ser hum ano é que o Mal fuj a de controle. Devido ao cont exto social e econôm ico em que viveu, Freud acredit ava que o Mal reprim ido era de nat ureza sexual e agressiva. Seu t rabalho sistem át ico com est e aspect o da som bra com binado ao declínio do poder do superego crist ão fez com que m uitos dem ônios erót icos fossem exorcizados. Ele diz:
“ I sso perm it iu que m uit os com ponent es da Som bra, at é ent ão reprim idos, fossem int egrados à personalidade t ot al de hom ens e m ulheres, sem forçá- los a sofrer a culpa decorrent e do processo, que cert am ente t eria afligido gerações ant eriores. Tem os aí um exem plo im pressionant e, em escala coletiva, do valor t erapêut ico
at ribuído por Jung ao processo analít ico de
reconhecim ent o e int egração dos com ponent es da Som bra.” ( St evens, 19822) .
Se ant es a repressão sexual era o que form ava a m aior parte da som bra colet iva nos t em pos de Freud, o autor diz que at ualm ente o desej o de poder e destruição é que a t orna m ais espessa. Há um im perat ivo biológico para t razer a som bra à consciência, caso contrário, chegarem os à ext inção da nossa e de out ras espécies.
I I I .d. A Som bra Colet iva:
“Joga pedra na Geni Joga pedra na Geni Ela é feita pra apanhar Ela é boa de cuspir Ela dá pra qualquer um Maldita Geni” (Chico Buarque – Geni e o Zepelin)
Se por um lado a som bra pessoal t em um desenvolvim ento subj et ivo, a som bra colet iva é um a experiência obj et iva, que cost um am os cham ar genericam ent e de Mal. Não percebem os diret am ent e a sua influência sobre nós, o que traz um a com plet a sensação de im pot ência. Um a form a de dar vazão ao desam paro t razido pela im pot ência est á na fé e na busca por religiões e sist em as inst it ucionais com o form a de proteção contra t odo o m al do m undo.
Segundo a m it ologia grega, o Mal t eria chegado aos hum anos at ravés de Pandora. Cont a a história que na criação do m undo, coube aos irm ãos Epim et eu e Prom et eu a criação dos anim ais e a divisão dos dons que assegurassem sua preservação. Quando chegou a vez do hom em , Epim et eu j á gast ara todos os seus recursos com os outros anim ais, ent ão Prom et eu sobe aos céus e rouba o fogo dos Deuses, entregando-o ao hom em . Com o fogo, o hom em foi capaz de construir arm as que subjugaram as outras espécies, ferram ent as que lhe perm it iram cult ivar a t erra e pode aquecer sua m orada, t ornando-se m ais independent e do clim a.
Zeus, enfurecido, cria Pandora para punir os irm ãos pela ousadia de furt ar o fogo dos Deuses e ao hom em por t ê- lo aceito.
ut ilizara, ao preparar o hom em para sua nova m orada. Pandora foi t om ada por intensa curiosidade de saber o que cont inha aquela caixa, e, cert o dia, dest am pou- a para olhar. Assim , escapou e se espalhou por t oda a part e um a m ult idão de pragas que at ingiram o desgraçado hom em , t ais com o a got a, o reum at ism o e a cólica, para o corpo, e a invej a, o despeit o e a vingança, para o espírit o. Pandora apressou- se em colocar a t am pa na caixa, m as, infelizm ent e, escapara t odo o cont eúdo da m esm a, com exceção de um a única coisa, que ficara no fundo, e que era a esperança”
( Bulfinch, 2000, p.20- 22) .
É curioso pensar que a esperança est ava guardada na m esm a caixa em que se encontravam t odos os m ales do m undo e que foi este ato de Pandora que com pletou a separação entre os seres hum anos e os deuses im ort ais: est ava dest inado aos hom ens t er que viver com essas duas polaridades, Bem e Mal.
A som bra colet iva pode m anifest ar-se em fenôm enos de m assa, nos quais grupos int eiros são possuídos pela força arquet ípica do Mal. Esse fenôm eno pode ser explicado pelo processo inconscient e denom inado part icipat ion m yst ique, isto é, quando o suj eito ou grupo se ident ifica com um obj eto de t al m odo que se torna incapaz de fazer dist inção entre ele m esm o e a percepção do obj eto. No caso da
I I I .e. O Trabalho com a Som bra:
“Se despert as aquilo que está dent ro de t i, o que despert as t e salvará. Se não despert as o que est á dent ro de t i, o que não despert as t e dest ruirá.”3 Negar o m al t alvez sej a a coisa m ais perigosa a fazer. Quando nos recusam os a olhar para o lado escuro, nossas proj eções nos levam a ver o m undo de m odo som brio, m ost rando-nos a nossa própria face, m esm o que não a reconheçam os. Viver a som bra não é o cam inho da int egração, bem com o não o é reprim i- la, pois am bos deixam a personalidade dividida em dois. A som bra, no ent anto, oferece um prim eiro olhar para a part e inconscient e da psique, represent ando um prim eiro passo para o encont ro com o Eu, com nossa individualidade. Som ent e através do trabalho com a som bra e do confronto com o fat o de que não som os perfeit os com o gost aríam os e procuram os ser é que pode haver um real crescim ent o e um a am pliação de consciência.
É com um que os confrontos com a som bra ocorram na m eia-idade, época em que o indivíduo se vê diante de si m esm o e revê suas escolhas; seus valores j á não batem m ais com os da cult ura e surge a pergunt a: quem sou realm ent e eu? Quando a vida com eça a se esvaziar de significado, perde o colorido, est á na hora de buscar na som bra aquilo que por m uit o t em po foi esquecido.
O processo terapêut ico exige a recuperação de tudo que foi rej eit ado em nom e de um ideal de ego, e nisso a int egração do lado som brio não se faz apenas necessária com o essencial. De acordo com o analist a Erich Neum ann:
“ O Self fica escondido na som bra; ela é a guardiã dos port ais, a guardiã da ent rada. O cam inho para o self é at ravés dela; por t rás do aspect o escuro que ela represent a est á o aspect o da t ot alidade, e é só fazendo am izade com a som bra que ganham os a am izade do self” ( Neum ann, 1969, p.61) .
Duas conhecidas histórias nos t razem o em bat e com a som bra
de um a form a saudável. Um a delas é o trecho do Gênesis em que Jacó se envolve num a lut a com um est ranho m ist erioso:
“ Jacó ficou sozinho; e alguém lut ava com ele at é o rom per da aurora. E quant o viu que não podia vencê- lo, aquele hom em t ocou-lhe na art iculação da coxa e est a deslocou- se, enquant o Jacó lut ava com ele. E disse- lhe: ‘Deixa- m e part ir, porque a aurora se levant a’.’Não t e deixarei part ir’, respondeu Jacó, ‘ant es que m e t enhas abençoado’. Ele pergunt ou- lhe: ‘Qual é o t eu nom e?’; ‘Jacó’. ‘Teu nom e não será m ais Jacó’, respondeu ele, ‘m as I srael, pois, com o príncipe, lut ast e com Deus e com os hom ens, e prevalecest e’. Jacó pergunt ou- lhe: ‘Peço- t e que m e digas qual é o t eu nom e’. ‘Por que m e pergunt as o m eu nom e?’, respondeu ele. E o abençoou no m esm o lugar. Jacó cham ou Peniel àquele lugar: ‘Porque’, disse ele, ‘eu vi a Deus face a face, e m inha vida foi preservada” ( Gênesis, 32: 24-30) .
com a som bra e de cert a form a ela realm ent e nos abençoa, assim com o a abençoam os.
O est ranho dá a Jacó um novo nom e, I srael. Aqui se caract eriza um dos principais pont os no lidar com a som bra: um a nova ident idade será realizada. Essa ident idade não será quem fom os ant es e nem será a ident idade da som bra, m as sim um a t erceira, acim a das out ras duas, m as que part ilha t anto de part e da ident idade original com o das qualidades da som bra de que necessit ávam os e das quais agora dispom os. Jacó vê Deus face a face, o que represent a aquilo que j á foi dito anteriorm ent e, do carát er num inoso da som bra, de m anifest ação do Self. Por últ im o, é im port ante ressalt ar que dessa lut a Jacó sai ferido na coxa. Não há com o confront ar a som bra e sair ileso; a experiência com o num inoso deixa as suas m arcas, às vezes físicas, outras na alm a.
ele o trat a de form a diferente dos outros, não o ludibria com o fez seu t io, Bilbo, e não o agride, com o seu com panheiro Sam wise aconselha. Ao contrário disso, t rat a-o com firm eza, m as de m odo j usto.
Mesm o que Góllum t ent e enganar Frodo durant e t oda a viagem rum o a Mordor a fim de readquirir o anel, a int egridade e com paixão de Frodo não perm it em que Góllum t enha êxit o.
Diversas vezes ao longo do cam inho Frodo é obrigado a colocar o anel no dedo para t ornar-se invisível e não ser percebido pelos seus inim igos. A cada vez, seu ganho t orna-se t am bém sua perda, j á que o anel ganha poder sobre ele, induzindo- o a cobiçar o anel para si m esm o. Frodo lut a contra esse poder com t oda a sua força de vont ade, m as no final j á apresent ando extrem o cansaço e debilidade, recebe a ofert a de aj uda de Sam wise. Est e se oferece para carregar o anel, ao que Frodo se nega, dizendo que cabia som ente a ele carregar e destruir o anel. É exat am ente assim que se dá o trabalho com a som bra: de form a individual.
I I I .f. A I ndividuação:
“Se eu quiser falar com Deus Tenho que ficar a sós Tenho que apagar a luz Se eu quiser falar com Deus Tenho que aceitar a dor Tenho que com er o pão Que o diabo am assou Tenho que virar um cão Tenho que lamber o chão Dos palácios, dos castelos Sunt uosos do meu sonho Tenho que me ver t rist onho Tenho que me achar m edonho E apesar de um m al tamanho Alegrar meu coração Se eu quiser falar com Deus Tenho que me avent urar Tenho que subir aos céus Sem cordas pra segurar Tenho que dizer adeus Dar as cost as, cam inhar Decidido, pela est rada Que ao findar vai dar em nada Do que eu pensava encont rar” (Gilbert o Gil – Se eu quiser falar com Deus) A individuação é o processo que ocorre ao longo da vida do indivíduo de t ornar-se aquilo que é, um ser único. Em nom e do colet ivo, o indivíduo despoj a o si- m esm o de sua realidade e se aliena. Devem os ressalt ar que a form ação de persona é necessária e, na m edida cert a, saudável. No ent ant o, por volt a da m eia- idade há um a quebra de sent ido, com o j á foi dit o ant eriorm ent e, e os valores do colet ivo são revistos pelo indivíduo que agora ent rará em cont ato consigo, com seus valores pessoais. É o m om ent o de “prest ação de cont as” , segundo Whit m ont:
Nesse sent ido, é chegada a hora de confront ar interiorm ent e
anim a, anim us e a som bra: elas não podem m ais ser proj et adas nos outros. “ A força m otriz da exist ência não é m ais invest ida em nós m esm os ou em out ras pessoas, m as em algo que est á além de nós ou por t rás do m undo dos obj etos” ( Whit m ont , 1969, p.252) .
A experiência de lidar com a som bra e int egrar as im agens da
anim a e do anim us acabam por t ransform ar o hom em com o um todo, não apenas e sua personalidade egóica, m as t am bém o próprio inconscient e, que agora deverá rem odelar os sím bolos. Lidar com o lado escuro da psique é um processo individual que podem os unicam ent e descrever em linhas gerais, m as j am ais poderem os apreender plenam ente a experiência de cada um .
Jung faz um a dist inção entre individualism o e individuação, confusão que com um ent e pode ocorrer:
“ I ndividualism o significa acentuar e dar ênfase deliberada a supost as peculiaridades, em oposição a considerações e obrigações colet ivas. A individuação, no ent ant o, significa precisam ente a realização m elhor e m ais com plet a das qualidades coletivas do ser hum ano; é a consideração adequada e não o esquecim ent o das peculiaridades individuais, o fat or det erm inante de um m elhor rendim ent o social” ( Jung, 1981, p.163) .
Assim , individuar-se é realizar a peculiaridade do seu ser, o que não se opõe à colet ividade, dado que o ser hum ano é um ser gregário, volt ado para o colet ivo. Exem plificando, todo rosto hum ano possui um nariz, um a boca, dois olhos, et c: isso é um traço com um ; m as com o serão essas part es, t am anho e cor, harm onia na distribuição, isso é individual.
aproxim ação excessiva do num inoso, não im port a se ele surge com o bem ou com o m al, t raz o perigo de um a inflação de ego e de serm os t ragados pelos poderes da luz ou das t revas. Um a vez tocado pela
som bra, perdem os para sem pre a inocência.
Que benefício esse difícil em bat e pode t razer? A som bra nos força a adot ar um outro ponto de vist a e responder à vida com nossas qualidades não-desenvolvidas; som os obrigados a olhar de perto, com hum ildade e honest idade, o que exist e em cada pessoa que nos irrit a: invariavelm ent e é o que repelim os em nós m esm os; o que exist e em cada pessoa que nos encant a e nos apaixona: t em os essa pot encialidade escondida em nós m esm os. Por fim , o em bate leva a um a genuína e profunda aut o- aceit ação e a um estreit am ento do relacionam ento ego- Self e ent ão descobrim os o valor e o brilho do t esouro que possuím os.
Essa analogia da som bra com o ouro oculto nos faz pensar na alquim ia, área de int eresse e que rendeu m uit os estudos de Jung. Não cabe aqui discut ir a validade e a possibilidade de real t ransform ação da m at éria, no caso dos m et ais m ercúrio e do enxofre em ouro; o cont eúdo sim bólico do trabalho alquím ico int eressa m ais do que a física envolvida. Desvendando os herm ét icos textos alquím icos, Jung const atou que o grande t rabalho alquím ico correspondia do processo de individuação.
A alquim ia é um a art e com plexa que com bina elem ent os de quím ica, física, astrologia, m ist icism o e religião. A busca pela pedra filosofal divide-se em quat ro fases principais:
• N igr e do: ou Operação Negra, é o estágio em que a m atéria é
dissolvida e putrefata;
• Albe do: ou Operação Branca, é o estágio em que substância é
purificada;
• Cit r init a s: ou Operação Am arela, é o estágio em que opera- se a
• Ru be do: ou Operação Verm elha, é o estágio final com a obtenção da
pedra.
No sent ido psicológico, t ais fases correspondem diret am ent e às fases da individuação: encontro com a som bra e o encontro com o princípio fem inino (anim a) , bem com o a união com o m asculino (anim us) . A fusão dos opostos que nos leva a tot alização psíquica, ist o é, a individuação. A pedra representa o Self.
Podem os encontrar diversas associações ao sím bolo do ouro no “Dicionários de Sím bolos” , m as ressalt arei um a em especial:
“ ( ...) A função not urna do ouro, sím bolo do
conhecim ent o esot érico, liga- se à significação alquím ica dest e m et al, produt o da digest ão dos valores diurnos ou aparent es, e resum e a am bivalência da noção de sagrado, ao consagrar os resíduos da digest ão, os excrem ent os e as im undícies. ( ...) Os iniciados bam baras ( ...) que se ent regam publicam ent e a dem onst rações de coprofagia, são t idos com o os possuidores do ouro verdadeiro, os hom ens m ais ricos do m undo” ( Chevalier, 2007, p.670,671) .
O ouro t em relação diret a com os excrem entos, com aquilo que é rej eit ado – a som bra.
Não há nenhum hom em capaz de abarcar em si t odo o Bem e todo o Mal do m undo, não há quem consiga int egrar toda a vergonha, a invej a, a ira e que t enha parado de projet ar nos outros todas as suas escuras inferioridades ou suas lum inosas pot encialidades. Mas há aquele que com grande esforço vai trazendo à luz cada cam ada de
I V – DI SCUSSÃO
Opt ei nest e trabalho por recont ar o cont o à m edida que faço associações e am plifico alguns dos sím bolos encontrados no t ext o. No ent ant o, o cont o pode ser encontrado na ínt egra em anexo, um a vez que o cont o em si é um sím bolo e com o t al deve ser olhado pelo leit or, de m odo que est e possa entrar em cont ato com ele da form a que ele se apresent a.
Antes disso, um a rápida cont ext ualização: o t exto foi escrit o em 1847 por Hans Christ ian Andersen, autor que ficou fam oso por seus contos infant is, sendo alguns dos m ais conhecidos: A Sereiazinha, A Princesa e a Ervilha, O Pat inho Feio, Os Sapat os Verm elhos, A Vendedora de Fósforos, A Roupa Nova do I m perador, O Soldadinho de Chum bo e out ros.
Nascido em Odense, Dinam arca, no ano de 1805, Andersen t eve um a vida hum ilde na infância. Filho de um sapat eiro que se engajou no exércit o napoleônico e só volt ou ao lar para m orrer, Andersen assum iu a responsabilidade sobre a fam ília ainda m enino, aos 11 anos. Já nessa época costum ava fazer bonecos de papel e invent ava histórias que divert iam as out ras crianças da rua em um t eat ro de papel e som bras. Saindo de casa aos 14 anos rum o a Copenhague em busca de est udos e boas oportunidades, encontrou apenas fom e e m iséria at é conhecer Jonas Collins, o diretor do Teat ro Real, que passou a lhe dar prot eção e a lhe subsidiar os est udos. Dessa form a, viaj ou por vários países e t eve cont ato com diferent es cult uras. Escreveu poem as, relat os de viagens, peças de t eatro e rom ances, cham ando a at enção do público desde o início, m as foram os contos infant is que lhe t rouxeram reconhecim ento m undial.
t oda aut obiográfica, especialm ent e “O Pat inho Feio”, a fam osa história do cisne que se sent e um “est ranho no ninho” por viver entre os patos, só descobrindo sua verdadeira ident idade de cisne t ardiam ente.
É considerado por m uit os o precursor da Lit eratura I nfant il, de histórias volt adas especificam ent e a este público. Muit as de suas obras foram adapt adas para o cinem a, a t elevisão, o teatro e o desenho anim ado.
O conto “ A Som bra” inicia- se com um a apresent ação do local e da personagem do sábio. Aqui não se nom eiam personagens e não se ident ificam lugares, não se det erm ina o tem po: um hom em sábio vindo das t erras frias chega a um país quent e e sofre com as agruras do sol, que o obriga a confinar-se em seu quarto, j unt am ent e com sua som bra. Só a noit e lhe perm it e sair à rua, arej ar-se e ent ão, ele e sua som bra “ recom eçavam a viver” (Andersen, 1847, p.286) .
Não nom ear lugares e personagens é um a form a de fazer com que o leit or se ident ifique, m as m ant enha um a dist ância segura: aquela pode ser a história de qualquer um , em qualquer lugar, inclusive a sua própria. O caráter arquet ípico dos contos fica evident e, bem com o do tem a que será abordado por est e conto: a quest ão do desdobram ent o da personalidade e do aparecim ento do oposto.
t ent at iva de int egração da polaridade opost a e a m udança de um padrão de consciência, que não m ais se encontra estrat ificada.
Um pont o nodal da teoria analít ica se encontra j ust am ent e aí: na existência dos opostos com plem ent ares, a energia vem da t ensão entre os opostos e a ident ificação com um a das polaridades apenas é o t rabalho do ego, a at it ude da consciência. Assim Jung concebia o funcionam ent o da psique hum ana: um incessant e dinam ism o, um a oscilação e t ent at iva de equilíbrio entre os opostos.
À noit e, t odas as pessoas saíam de suas casas, tudo se anim ava, a vida volt ava a reinar. Novam ent e, essa descrição nos fala do padrão de consciência reinant e, no caso o da inconsciência: viver apenas na part e da noit e é viver no escuro. A exceção era a casa da frent e daquela em que m orava o sábio; lá t udo perm anecia silencioso e tranqüilo m esm o quando na rua havia um a algazarra. O sábio chega a pensar que ninguém deveria habit ar aquela casa, m as é dem ovido dessa idéia quando percebe as flores m uit o vivas no balcão, flores que só poderiam ser regadas por alguém que lá vivesse. Além disso, um a m úsica incom parável vinha daquela casa, um a m úsica que atraía o sábio, levando- o a procurar o senhorio a fim de saber quem ocupava aquela casa. O senhorio diz não saber quem alugara a casa e que nunca vira ninguém por lá.
som ent e por loj as. Volt arei a falar dessa figura fem inina e do im pact o por ela causado um pouco m ais adiant e.
Num a t arde, o sábio est ava sent ado em seu balcão enquant o um a vela queim ava atrás dele, de m odo que sua som bra era proj et ada exat am ent e para o balcão que lhe despert ara t ant a curiosidade. “Sem pre que o estrangeiro se m ovia, sua som bra t am bém se m ovia, porque era assim que ela sem pre se com port ava” ( Andersen, 1847, p.288) . Andersen descreve aqui exat am ent e o com port am ent o “ norm al” da som bra no sent ido da Psicologia Analít ica: m esm o quando não est am os nos at ent ando para ela, ela nos acom panha e at ua no am bient e.
Ent ão, o sábio com eça a perceber sua som bra quando a vê sent ada entre as flores do balcão da frent e. Ele com eça a desej ar que ela sej a m ais espert a e entre pela porta ent reabert a, que explore a casa do vizinho. Est e é um m om ent o im port ante da história, j á que é aqui que a som bra com eça a ganhar força e autonom ia. O sábio fica encant ado com o poder que a som bra lhe oferece, de explorar aquilo que ele não pode ver diret am ent e. Muit as vezes, proj et am os nossa
som bra com o prim eira e única form a de lidar com conteúdos difíceis de serem assim ilados pela consciência. Com o foi explicado no capít ulo ant erior, esse procedim ent o é nat ural e em cert a m edida at é necessário. No ent anto, se nos m ant em os unicam ent e na proj eção, a
som bra ganha força e com o verem os no conto a seguir, pode ocorrer a cisão com o ego. No cont o, o sábio ainda int erage com a som bra, acena e ela acena de volt a, levant a-se e ela t am bém se levant a, vira-se e a som bra vira com o ele, m as Andervira-sen escreve:
“ ( ...) e se houvesse alguém prest ando at enção na cena, t eria vist o claram ent e a som bra ent rar pela port a ent reabert a do balcão da casa do vizinho da frent e no exat o inst ant e em que o est rangeiro ent rava em seu quart o e deixava a longa cort ina voltar para o lugar”
Se houvesse alguém prest ando at enção. Mas não havia e geralm ent e não há. O em bat e com a som bra é um evento que acont ece no int erior do hum ano, em bora suas m anifest ações possam ser percebidas por aqueles que t êm um olhar m ais apurado. Ocorrendo a cisão, a cort ina volt a para o lugar, velando novam ent e a possibilidade da consciência de perceber o que est á acontecendo.
No dia seguint e, ao tom ar o café da m anhã, o sábio se dá cont a de que est á sem a sua som bra e isso o deixa aborrecido, não pelo desaparecim ento em si, m as por t er ouvido na sua t erra um a hist ória parecida, de um hom em sem som bra, e se cont asse sua história, as pessoas pensariam que est ava im it ando a out ra. Assim , decide não falar sobre o assunto com ninguém . Essa é a at it ude dessa consciência im at ura: ela est á m ais preocupada com o olhar do outro do que com sua inteireza, sua int egridade. Est á focada no im pessoal, e não com prom et ida com seu próprio desenvolvim ento.
Naquela noit e o sábio sai novam ent e para seu balcão e posiciona um a vela novam ent e atrás de si com o obj et ivo de assim at rair sua som bra, “ pois sabia que as som bras sem pre desej am t er seus senhores com o t elas” (Andersen, 1847, p.288) . É curioso pensar nessa im agem que Andersen nos traz, de serm os exat am ent e a proj eção de nossa som bra, funcionando com o um a t ela branca.
Nada acont eceu naquela noit e, m as ao cabo de oit o dias um a nova som bra com eçou a crescer de suas pernas sem pre que ele saía para o sol. “ A raiz devia t er ficado ent errada” (Andersen, 1847, p.288) . A raiz t raz j ust am ente a idéia de que a som bra est á em but ida nas profundezas da nossa psique e que nunca podem os acabar com ela t ot alm ent e, pois ela crescerá novam ent e.
posit ivos, enchendo novam ent e a sacola at rás de si à qual Robert Bly se refere. Assim é a dinâm ica da psique, a energia que não encontra saída pela port a da consciência ( com o o sábio que não encontra a port a da casa do vizinho) é com pensada pelo inconscient e na som bra. O hom em é sábio e escreve sobre o bem , o belo e a verdade, m as não experim ent a realm ent e aquilo que sabe. Seu cont at o com os outros se dá por vias indiret as, pois ele distribui lições de vida sem vivê- las na pele, fala de sent im ent os sem sent i- los de fato. Daí o esfacelam ento de sua personalidade, cabendo à sua som bra viver o que o sábio é incapaz.
Est ar tot alm ent e ident ificado com os aspectos do Self, sej am eles posit ivos ou negat ivos, denot a um a inflação de ego. Quando o ego supera as lim it ações a ele im post as e vai fundo dem ais nos dom ínios do Self, é invadido por conteúdos inconscient es, t endo se ident ificado com o inconscient e colet ivo. A diferenciação necessária entre o ego e a im agem divina é anulada, o que é perigoso para o ego. Por out ro lado, um a pequena inflação egóica pode ser posit iva, j á que é ela que faz com que o ego saia da posição em que se encontra e m ude o st at us quo, que ele alm ej e m ais e realize o m it o do herói.
A inflação m anifest a-se geralm ent e nas sensações de grandeza, no sent im ento de singularidade, de ser “ o escolhido” , m as t am bém em seus opost os: desvalorização exagerada, desvalia e profunda inferioridade. O perigo est á em m anter- se nessa posição, com o é o caso do sábio. Podem os dizer que quando inflado, o ego est á ident ificado com os valores solares, o sol aqui com o sím bolo do Self e não com o sím bolo da luz, da consciência. Ao m eio-dia, quando o sol est á a pino, não vem os a som bra que proj et am os. É exat am ent e assim que funciona a inflação. O ego se percebe Senhor da Tot alidade e não m ais com o veículo.