RevBrasAnestesiol.2017;67(3):326---328
REVISTA
BRASILEIRA
DE
ANESTESIOLOGIA
PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologia www.sba.com.brINFORMAC
¸ÃO
CLÍNICA
Correc
¸ão
de
gastrosquise
sob
anestesia
caudal:
uma
série
de
três
casos
Neha
Kasat
∗,
Nandini
Dave,
Harick
Shah
e
Swapnil
Mahajan
SethG.S.MedicalCollege&K.E.M.Hospital,DepartmentofAnesthesia,Mumbai,Índia
Recebidoem5demaiode2016;aceitoem22dejulhode2016
DisponívelnaInternetem30demarçode2017
PALAVRAS-CHAVE
Gastrosquise; Anestesiacaudal; Lactentes, recém-nascido
Resumo Gastrosquiseéumaanomaliacongênitacaracterizadaporumdefeitodaparede abdo-minalanteriorcomprotrusãodevíscerasabdominais.Amortalidadenoperíodoperioperatório émuitoelevadanessespacientes.Tradicionalmente,acorrec¸ãodegastrosquisetemsidofeita sobanestesiageralcomintubac¸ãoorotraqueal,oquerequerinternac¸ãoemunidadedeterapia intensivaeventilac¸ãomecânicanopós-operatório.Obloqueiocaudaléumaopc¸ãoatraente àanestesiageral.Apresentamosumasériedetrêscasosderecém-nascidoscomgastrosquise corrigidaunicamentesobanestesiacaudal.
©2016SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eum artigoOpen Accesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
KEYWORDS
Gastroschisis; Anesthesia,caudal; Infant,newborn
Gastroschisisrepairundercaudalanesthesia:aseriesofthreecases
Abstract Gastroschisisisacongenitalanomalycharacterizedbyadefectintheanterior abdo-minalwallwithprotrusionofabdominalviscera.Perioperativemortalityisveryhighinthese patients.Traditionallygastroschisisrepairhasbeenperformedundergeneralanesthesiawith endotrachealintubation,requiringpostoperativeintensivecareadmissionandmechanical ven-tilation.Caudalblockisanattractivealternativetogeneralanesthesia.Wepresentaseriesof threeneonateswithgastroschisis,repairedsolelyundercaudalanesthesia.
©2016SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
∗Autorparacorrespondência.
E-mails:[email protected],[email protected]
(N.Kasat).
Introduc
¸ão
Gastrosquise é uma malformac¸ão congênita da parede abdominal anterior com protrusão de vísceras para fora da cavidade abdominal. A incidência é de 2-4,9 por
http://dx.doi.org/10.1016/j.bjan.2016.07.004
Correc¸ãodegastrosquisesobanestesiacaudal 327
10.000 nascidos vivos, com preponderância do sexo masculino.1 A administrac¸ão de anestesia geral a esses
recém-nascidos aumenta a probabilidade de apneia no períodopós-operatórioeanecessidadedeventilac¸ão mecâ-nica.Parasuperaressesproblemas,osbloqueiosneuraxiais centraissãovistoscomo umaopc¸ão. Relatamosumasérie detrêscasosderecém-nascidoscomgastrosquisenosquais acirurgiafoifeitaapenassobanestesiacaudal.
Série
de
casos
Casoum
Neonatocomdoisdiasdevida,nascidoprematuramentena 34a
semana,com1,5kg,enviadoparaaplicac¸ãodesilopara gastrosquise. Ao exame, o intestino delgado do paciente estavaprojetadoparaforadaparedeabdominal.O recém--nascido estava ativo e com bom choro. A frequência de pulsodopacienteerade130batimentosporminuto(bpm)e arespiratóriade35 incursõesporminuto(ipm).Aavaliac¸ão nopré-operatórionãorevelouqualqueranomaliasistêmica. Ostesteslaboratoriaisestavamdentrodoslimitesnormais. Dextrosea10%(120mL.kg−1.dia−1)foiadministradapordois
dias.
Casodois
Neonatocomquatrodiasdevida,nascidoprematuramente na34a
semana,com2kg,enviadoparaaplicac¸ãodesilopara gastrosquise.Ointestinodelgadoepartedoestômago esta-vamforadacavidadeabdominal.Afrequênciadepulsodo paciente nopré-operatório era de145bpm e a respirató-riade40ipm.Aavaliac¸ãocardiorrespiratóriae asanálises bioquímicas estavamdentrodos limitesnormais. Soluc¸ões eletrolíticasforamadministradas(150mL.kg−1.dia−1).
Casotrês
Neonatocom12horasdevida,nascidona36asemana,com 2,1kg, enviado para reduc¸ão completa devido à gastros-quise.Partedointestinodelgadoedointestinogrossoestava emprotrusãoparaforadoabdômen.Orecém-nascidoestava ativoecombomchoro.Afrequênciadepulsoerade144bpm earespiratóriade45ipm.Todosostestesestavamdentro doslimitesnormais.Dextrosea10%(100mL.kg−1.dia−1)foi
administrada.
Manejo
da
anestesia
No período intraoperatório, a monitorac¸ão incluiu cardi-oscópio, oxímetro de pulso pré- e pós-ductal, sensor de temperaturaepressãoarterialnãoinvasiva.
Todos os procedimentos foram feitos somente sob bloqueio caudal. A induc¸ão por inalac¸ão foi feita com sevoflurano via máscara facialpara manter a imobilidade dos recém-nascidos durante a realizac¸ão do bloqueio caudal. Após o posicionamento do paciente em decúbito lateral esquerdo e sob todas as precauc¸ões assépticas, uma combinac¸ão de 2mg.kg−1 de bupivacaína a 0,5% e
7mg de lidocaína a 2% com adrenalina a 1:200.000 foi
administrada.Ovolumetotaldassubstanciasadministradas em todos os casos foi de 1,25mL.kg−1; a combinac¸ão
dos anestésicos locais foi diluída com soro fisiológico normalparaperfazero volumecalculado.Nenhuma outra medicac¸ãofoiadministrada.Oxigêniofoifornecidoatravés decateter nasala1L.min−1 e amonitorac¸ão contínuado
CO2expiradofoifeita.Aanalgesiafoicomplementadacom paracetamolinjetável(7,5mg.kg−1).Oslíquidosnoperíodo
perioperatório consistiram em 10mL.kg−1 de dextrose
a10% para manutenc¸ão e 15mL.kg−1 de soro fisiológico parareposic¸ão delíquidos.Ossinais vitaismantiveram-se estáveis no período perioperatório. Os recém-nascidos respiraram espontaneamente durante todo o tempo. A aplicac¸ão de tela foi feita nos dois primeiros casos, enquantoofechamentoprimáriofoifeitonoterceirocaso. Os procedimentos duraram 60minutos (min), 75min e 90min,respectivamente.Aperdadesanguefoimínimaem todososcasos.Ostrês recém-nascidosforamtransferidos paraa UTI neonatal,respiravam espontaneamente e sem qualquernecessidadedeintubac¸ãoousuporteventilatório eforam observadosparadepressão respiratória, apneia e sinaisdedesenvolvimentodesíndromecompartimental.
Discussão
Ascirurgiasabdominaisdegrandeporteemrecém-nascidos sãoemsuamaioriafeitassobanestesiageralcomintubac¸ão endotraqueal ou sob anestesia geral com bloqueio regio-nal.Porém,aanestesia geralaumentaaprobabilidadede complicac¸ões,comoanecessidadedeventilac¸ãomecânica prolongadae a morbidade associada à ventilac¸ão prolon-gada,especialmenteemrecém-nascidosprematurosdealto risco.2
A anestesia regional tem sido defendida para recém--nascidos de alto risco que precisam respirar espontane-amenteapós a cirurgia. Pode ser considerada como uma técnica anestésica eficaz em recém-nascidos e lactentes acordados ou sedados como uma opc¸ão para a anestesia geralemcirurgiagastrointestinal.Nestasériedetrêscasos, obloqueiocaudalcominjec¸ãoúnicafoiadministradocom êxitoparacorrec¸ãodegastrosquise.2
Obloqueiocaudalestáassociadoaumamínimaalterac¸ão cardiorrespiratória, mas oferece estabilidade hemodinâ-micacombomrelaxamentomuscular.Essebloqueiodiminui anecessidadedeanalgésicosopioidesnoperioperatórioea depressãorespiratóriaassociada.Outrasvantagensincluem areduc¸ãodarespostaaoestressecirúrgicoedaincidência dehipoxemiaebradicardianopós-operatório.Alémdisso, umrecém-nascidocom respirac¸ão espontânea permiteao cirurgião decidir sobre a viabilidade de fechamento pri-mário. Dessaforma, o desconforto respiratório devido ao aumentodapressãointra-abdominalpodeserreconhecido precocemente.3 O oxímetrode pulso em membroinferior
ajudaocirurgiãoadeterminaraextensãodareposic¸ãodo intestinono abdomeque será tolerada pelo neonatosem comprometeracirculac¸ãonomembroinferior.
Araquianestesia tambémpodeser usadacomo técnica anestésicaparacorrec¸ãodegastrosquise.3,4 Sua
328 N.Kasatetal.
intra-abdominal, o que também aumenta a chance da anestesia espinhalalta outotal levar ao desconforto res-piratório.Obloqueiocaudalajudaaindamaisaevitaressas complicac¸ões.
A combinac¸ão de raquiperidural também foi relatada como uma técnica anestésica segura para correc¸ão de gastrosquise.Porém,essa abordagemé demoradae apre-sentaoutrosproblemas,comodificuldadetécnica,falhana colocac¸ãodecateteresperiduraisedeslocamentoacidental decateteres.5
Paraconcluir,relatamosaadministrac¸ãosegurado blo-queiocaudalparacorrec¸ãodegastrosquise,especialmente nospaísesemdesenvolvimento,ondeosrecursossão limi-tadosourestritos.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
Referências
1.KleinMD.Congenitaldefectsoftheabdominalwall.In:Grosfeld JL,O’NeillJAJr,CoranAG,FonkalsrudEW,CaldamoneAA, edi-tors.Textbookofpaediatricsurgery.6thed.Philadelphia:Mosby
Elsevier;2006.p.1157---71[Chapter73].
2.StewardDJ. Preterm infantsaremoreproneto complications following surgery than term infants. Anesthesiology. 1982;56: 304---6.
3.VaneDW,AbajianJC,HongAR. Spinalanaesthesiaforprimary repairofgastroschisis:a newandsafetechnique for selected patients.JPaediatrSurg.1994;29:1234---5.
4.TobiasJD.Spinalanaesthesiaininfantsandchildren.Paediatr Anaesth.2000;10:5---16.