HELENA RODRIGUES ROCHA MARTINS DE OLIVEIRA
Ensaio e autobiografia na construção da narrativa autoficcional de Carmen Martín Gaite
HELENA RODRIGUES ROCHA MARTINS DE OLIVEIRA
Ensaio e autobiografia na construção da narrativa autoficcional de Carmen Martín Gaite
I Vol.
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas (Literaturas Hispânicas), Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Letras Neolatinas.
Orientadora: Profa Dra Silvia Inés Cárcamo de Arcuri.
Oliveira, Helena Rodrigues Rocha Martins
Ensaio e autobiografia na construção da narrativa autoficcional de Carmen Martin Gaite / Helena Rodrigues Rocha Martins de Oliveira – Rio de Janeiro: UFRJ / Faculdade de Letras 2011
x, 215 f.: il; 31 cm
Orientadora: Silvia Inés Cárcamo Arcuri
Tese (Doutorado) – UFRJ / Faculdade de Letras, 2011
Referências bibliográficas: f. 203-215
Ensaio e autobiografia na construção da narrativa autoficcional de Carmen Martin Gaite Helena Rodrigues Rocha Martins de Oliveira
Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Doutor em Letras Neolatinas (Literaturas Hispânicas).
Examinada por:
_____________________________________________________________________ Presidente: Professora Doutora Silvia Inés Cárcamo de Arcuri – UFRJ
_____________________________________________________________________ Professora Doutora Valéria De Marco – USP
_____________________________________________________________________ Professora Doutora Elena Palmero – UFRJ
_____________________________________________________________________ Professora Doutora Magnólia Brasil do Nascimento – UFF
_____________________________________________________________________ Professora Doutora Sônia Monnerat – UFF
_____________________________________________________________________ Professor Doutor Júlio Dalloz – UFRJ, suplente
_____________________________________________________________________ Professora Doutora Ana Isabel Guimarães Borges – UFF, suplente
Dedico esta tese:
Ao meu amoroso marido, Afrânio, pela imensa dedicação e amor com que me acompanhou em todo o trajeto de elaboração desta tese, desde o exame de seleção para o ingresso no curso até o dia da defesa. Por sua generosidade, paciência e carinho que tanto me ajudaram a concluir esta pesquisa. Por partilhar todas as lutas nesse caminho em que a vida nos uniu.
Ao meu amado filho Jorge Lucas que enche minha vida de sorrisos, abraços e felicidade.
A meus pais que me mostraram, desde menina, que estudar é bom, incentivando-me a buscar sempre o melhor na vida.
A meus irmãos Luisinho, Roberto e Carla e a minha sobrinha Leda, pelo carinho de sempre.
Agradeço a Deus pela força de cada dia.
Agradeço a toda a minha família pelo incentivo, por torcer e rezar pelo meu sucesso. Agradeço a minha querida orientadora, Silvia Cárcamo, pelo apoio, pelo incentivo e por partilhar o conhecimento de maneira tão simples e generosa.
RESUMO
OLIVEIRA, Helena R. R. M. de. Ensaio de autobiografia na construção da narrativa autoficcional de Carmen Martín Gaite. Rio de Janeiro: UFRJ, abr. 2011. 217 fls. Tese de Doutorado (Letras Neolatinas). Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas-Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A escritora espanhola Carmen Martín Gaite (1925-2000) elaborou uma extensa obra literária durante a segunda metade do século XX, cultivando uma variada gama de gêneros literários ao longo de mais de quarenta anos de criação onde o ensaio, a autobiografia, a narrativa ficcional intimista, o romance fantástico, os roteiros de teatro e televisão conquistaram o apreço da crítica e dos leitores comuns, tanto na Espanha quanto em outros países. O objetivo desta pesquisa consiste em analisar a presença dos discursos autobiográfico e ensaístico na
construção da narrativa autoficcional da escritora no romance ―El cuarto de atrás‖. Como
suporte teórico apresentam-se, no campo da autobiografia, as teorias de Phillipe Lejeune, em
―El pacto autobiográfico‖ e Georges Gurdorf, em ―Condiciones y límites de la autobiografia‖,
teóricos que iniciaram respectivamente em 1956 e 1975 as discussões sobre este vasto campo de pesquisa. Suas teorias servem-nos de embasamento e pretexto para a discussão sobre a configuração e os limites desta prática narrativa na contemporaneidade. Como contraponto são apresentados os pontos de vista de teóricos que discutiram mais recentemente a autobiografia a partir da perspectiva pós-moderna da ruptura dos limites genéricos. Temos como exemplo desta linha investigativa: Darío Villanueva, Guy Mercadier, Anna Caballé e José María Pozuelo Yvancos. No que se refere ao ensaio, fundamenta-se esta pesquisa na teoria do ensaio desenvolvida por José Gómez Martínez e María Elena Arenas Cruz que traçam os aspectos caracterizadores deste gênero. Como contraponto, apresentam-se opiniões de estudiosos que analisam a especificidade do ensaio literário, como Alberto Giordano. O terceiro campo teórico que dá suporte à tese, refere-se à Autoficção, campo literário que caracteriza-se pela mescla do discurso autobiográfico com o discurso ficcional. Neste ponto toma-se por base as considerações de Manuel Alberca, no livro ―El pacto ambíguo‖, onde traça o histórico e constituição do gênero, aplicando a teoria à análise de obras da literatura espanhola e hispanoamericana. Com base nos aspectos assinalados pelos teóricos dessas áreas do fazer literário, analisa-se o livro ―El cuarto de atrás‖, identificando a utilização do discurso ensaístico e autobiográfico na elaboração da autoficcionalidade do texto. Como pano de fundo, a questão da metaliterariedade, da intertextualidade, e autorreflexividade presentes no pós-modernismo, aspectos contitutivos das metaficções historiográfica, conceito definido por Linda Hutcheon em sua Poética do pós-modernismo.
RESUMEN
OLIVEIRA, Helena R. R. M. de. Ensaio de autobiografia na construção da narrativa autoficcional de Carmen Martín Gaite. Rio de Janeiro: UFRJ, abr. 2011. 217 fls. Tese de Doutorado (Letras Neolatinas). Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas-Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
La escritora española Carmen Martín Gaite (1925-2000) elaboró una extensa obra literaria a lo largo de la segunda mitad del siglo XX, cultivando un variado espectro de géneros literarios por más de cuarenta años de creación donde el ensayo, la autobiografía, la narrativa ficcional intimista, la novela fantástica, los guiones para teatro y televisión han conquistado el aprecio de la crítica y de los lectores comunes, tanto en España como en otros países. El objetivo de esta investigación consiste en analizar la presencia de los discursos autobiográfico y ensayístico en la construcción de la narrativa autoficcional de la escritora en la novela ―El
cuarto de atrás‖. Como base teórica se presentan, en el campo de la autobiografía, las teorías de Phillipe Lejeune, en ―El pacto autobiográfico‖ y Georges Gurdorf, en ―Condiciones y límites de la autobiografía‖, teóricos que iniciaron respectivamente en 1956 e 1975 las discusiones sobre este amplio campo de estudio. Sus teorías nos sirven de base y pretexto para la discusión sobre la configuración y los límites de esta práctica narrativa en la contemporaneidad. Como contrapunto se presentan los puntos de vista de teóricos que discutieron más recientemente la autobiografía a partir de la perspectiva posmoderna de la ruptura de los límites genéricos. Tenemos como ejemplo de esta vertiente de investigación: Darío Villanueva, Guy Mercadier, Anna Caballé y José María Pozuelo Yvancos entre otros. Cuanto al ensayo, se fundamenta esta investigación en la teoría del ensayo desarrollada por José Gómez Martínez y María Elena Arenas Cruz que identifican los aspectos caracterizadores de este género. Como contrapunto, se presentan opiniones de estudiosos que también analizan la especificidad del ensayo literario, como, por ejemplo, Alberto Giordano. El tercero campo teórico que sostiene la tesis, se refiere a la Autoficción, campo literario que se caracteriza por la mescla del discurso autobiográfico con el discurso ficcional. En este punto se toma por base las consideraciones de Manuel Alberca, en el libro ―El pacto ambiguo‖, donde presenta el histórico y la constitución del género, aplicando la teoría al análisis de obras de la literatura española e hispanoamericana. Tomando por base los aspectos señalados por los teóricos de esas áreas del quehacer literario, se analiza el libro ―El cuarto de
atrás‖, identificando la utilización de los discursos ensayístico y autobiográfico en la elaboración de la autoficcionalidad del texto. En el trasfondo, la cuestión de la metaliterariedad, de la intertextualidad, y la autorreflexividad presentes en el pos-modernismo, siendo aspectos constitutivos de las metaficciones historiográficas, concepto definido por Linda Hutcheon en su ―Poética del posmodernismo‖.
A medida que lo absurdo y lo irracional proliferan en torno nuestro y nos tambalea una creciente sensación de provisionalidad, más se nos van quitando las ganas de acudir a la literatura en busca de soluciones ni
respuestas y más agradecemos – o por
lo menos yo – esa sombra ambigua y
confortable de los textos que espejan nuestras propias perplejidades. Me refiero a esos relatos que no dejan clara la frontera entre lo vivido y lo soñado, entre el espacio y el tiempo, entre la mentira y la verdad…
SUMÁRIO
Pág.
Introdução... 01
Cap. 1 Carmen Martín Gaite... 06
1.1 – Carmen Martín Gaite: uma biografia literária... 07
1.2 – Para uma poética literária na ficção... 28
1.3 – Narrativa e interlocução: uma questão vital... 41
Cap. 2 As fronteiras fluídas da pós-modernidade: ensaio, autobiografia e autoficção... 48 2.1 – O pós-modernismo nos estudos literários: uma aproximação teórica. 49 2.2 – O ensaio: um gênero para pensar e fazer pensar... 67
2.2.1 – O ensaio de uma ficcionista... 92
2.3 – Definições e redefinições do gênero autobiográfico... 105
2.4 – A autoficção: uma teoria em construção... 124
Cap. 3 “El cuarto de atrás”. ¿Que obra e esta? 157 3.1 – Revisão crítica... 157
3.2 - Ensaio e autobiografia na construção da narrativa autoficcional em ―El cuarto de atrás‖... 172 Conclusões... 197
1 Introdução.
A presente tese de doutorado tem como objeto de estudo a obra da escritora
espanhola Carmen Martín Gaite (Salamanca 1925 – Madrid 2000). A genialidade expressa em seus textos é reconhecida tanto pela crítica especializada quanto por seus
milhares de leitores na Espanha e em outros países. Aclamada tanto pela crítica e pelos
leitores, a escritora salmantina possui uma obra literária que abrange mais de quarenta
anos de criação. As reflexões que pretendemos realizar sobre sua obra terá como ponto
de partida a observação da variedade de gêneros literários pelos quais a escritora
transitou com maestria e a recorrência de temas em sua obra ficcional e ensaística. Mas
não somente a variedade de gêneros existentes na obra de Carmen Martín Gaite estará
em pauta, mas também o entrelaçamento desses gêneros em uma mesma obra,
colocando em jogo a questão dos limites ou fronteiras literárias.
A escritora espanhola consagrou-se por sua produção ficcional, mas além de
uma elaborada obra narrativa, com romances e contos, Carmen Martín Gaite também
escreveu ensaios literários e históricos, poesia e roteiros para a televisão e teatro. Se
considerarmos que nesta variedade de gêneros pode-se verificar a presença de temas que
aparecem reiteradamente e são reelaborados segundo as normas internas que regem
formalmente cada gênero, podemos supor que a autora utiliza seu próprio processo
criativo como ponto de partida para novas escrituras, inclusive a autocitação é um
recurso comum em sua obra, tanto na ensaística, quanto na narrativa. Este processo de
escrita e reescrita da própria obra culminou com o ―romance‖ El cuarto de atrás (1978). A escritura híbrida desse ―romance‖ remete o leitor a um discurso ora autobiográfico, ora ensaístico, ora ficcional. Ou as três coisas ao mesmo tempo. As narrativas híbridas
2 obras pós-modernistas, como observa Linda Hutcheon em sua Poética do
Pós-modernismo. O hibridismo literário é atualmente um dos traços mais presentes na
narrativa espanhola atual, com o registro de um acentuado crescimento no número de
obras com esta característica nas duas últimas décadas do século passado e na primeira
do atual. Mas, considerando que El cuarto de atrás foi escrito entre os anos de 1975 e
1978 estamos diante de uma das obras precursoras da narrativa espanhola atual.
Aspectos desenvolvidos por Carmen Martín Gaite no referido romance serão
intensamente explorados por escritores que publicarão seus relatos nas décadas
posteriores. Um desses aspectos é a autoficcionalidade. Para se ter uma idéia, das 269
autoficções espanholas e hispanoamericanas inventariadas por Manuel Alberca, ao final
de seu livro ―El pacto ambíguo‖ (2007), 222 foram publicadas após El cuarto de atrás,
principalmente nas décadas de 90 do século passado e na primeira década de nosso
século, o que comprova o pioneirismo de Carmen Martín Gaite no âmbito das literaturas
hispânicas atuais.
Todas essas obras têm como traço comum: a presença do autor, enquanto
personagem e narrador, designado por seu nome próprio, num processo narrativo que
mescla seus dados autobiográficos com elementos de criação ficcional. É este processo
narrativo que tentaremos explorar no capítulo final, buscando identificar os diferentes
tipos materiais de discurso (autobiográfico e ensaístico) e como eles se organizam na
composição da autoficcionalidade da obra.
A presença da autobiografia e do ensaio na narrativa ficcional de Carmen
Martín Gaite revela uma escritora que utiliza sua ficção para cultivar a memória, através
de uma elaborada narrativa intimista, bem como exercitar a reflexão sobre sua prática
3 pós-moderna, conecta a criação literária da escritora a uma tradição do romance
hispânico – a tradição cervantina – em que a ficção é objeto de reflexão na própria ficção. Tradição cultivada por Torres Villaroel e Unamuno. Esta prática metaliterária é
um dos fios condutores do argumento de El cuarto de atrás, introduzindo a obra de
Carmen Martín Gaite no campo da criação literária cujo estudo e definição ainda estão
em curso na atualidade: a autoficcção. O hibridismo literário é um dos traços
caracterizadores da autoficção. O uuso do discurso autobiográfico e do ensaístico,
ambos plenos de componentes metanarrativos que são os elementos fundamentais da
autoficcionalidade de El cuarto de atrás.
Para início de trabalho, buscamos um referencial teórico que trata de definir os
gêneros literários com os quais Carmen Martín Gaite enlaça El cuarto de atrás, ou seja,
o ensaio, a autobiografia e a autoficção. Inicialmente, trabalhamos com o texto de José
Luis Gómez Martínez, ―Teoría del ensayo‖, para a exposição da teoria do ensaio de forma didática, abrangendo desde sua conformação histórica até uma caracterização
detalhada do gênero. Em seguida, partimos para a tese de doutorado de María Elena
Arenas Cruz, em que estuda o ensaio a partir do conceito de classe de textos. Desta
forma, antes de abordar a questão do ensaio propriamente dito, Arenas Cruz busca uma
definição do que podemos considerar como uma classe de textos. Tal perspectiva nos
interessa, particularmente, por ser a classe de texto uma noção mais abrangente que a do
gênero literário, sendo aplicável ao nosso estudo já que o hibridismo dos textos de
Carmen Martín Gaite os fazem escapar de um noção estanque de gênero literário. A
concepção de classe de textos também guarda alguma relação com o conceito de gênero
do discurso, conforme aborda Mikhail Bakhtin, conforme veremos. Para ampliar nossas
4 estudiosos que tratam especificamente do ensaio dos escritores e finalizaremos com
alguns exemplos de ensaios de Carmen Martín Gaite.
Com relação à autobiografia, baseamos-nos em diversos trabalhos que
problematizam as especifidades da autobiografia enquanto gênero literário.
Ressaltamos os números monográficos da revista Anthropos dedicados especialmente
ao tema. Um dos trabalhos fundamentais que nos oferece suporte teórico a nossa
pesquisa é ―El pacto autobiográfico‖ (1991), de Phillippe Lejeune que, ao lado de
―Condiciones y limites de la autobiografía‖ (1991), de Georges Gusdorf, nos orienta na
identificação dos aspectos mais importantes do gênero autobiográfico, pois tentam
delimitar suas fronteiras enquanto gênero literário. No entanto, falar em fronteiras
literárias é algo incerto e ao mesmo tempo instigante já que grande parte das discussões
teóricas sobre literatura na atualidade questionam a existência dessas fronteiras. Ou
seja, questionam se é possível estabelecê-las, pois elas estão cada vez mais fluídas.
Sendo assim, as reflexões sobre a autobiografia se completam com alguns estudos que
propõem a investigação da problemática dos limites e fronteiras do gênero, tema
essencial para nossa pesquisa, considerando-se a autoficção um gênero limítrofe entre a
autobiografia e a ficção.
Tendo como objetivo verificar a função desses dois gêneros – o ensaio e a autobiografia – na construção da narrativa autoficcional de Carmen Martín Gaite, nosso suporte teórico se completa com o estudo sobre a autoficção. Neste campo, destacam-se
os trabalhos de Manuel Alberca (1999, 2007, 2009) sobre o gênero. Autor dos
principais trabalhos sobre autoficcção em língua espanhola, além de apresentar uma
visão ampla sobre os textos autoficcionais no âmbito das literaturas hispânicas, Alberca
5 A pesquisa chega a seu objetivo final com a aplicação dessas teorias na análise
de El cuarto de atrás, obra reconhecida pela crítica como autêntico exemplo de
autoficção e onde podemos observar tanto o discurso autobiográfico, quanto o discurso
ensaístico de Carmen Martín Gaite. No entanto, pareceu-nos impossível limitar nossa
análise a este livro, e embora seja ele o fio condutor de nossas investigações, não
pudemos deixar comentar diversos trabalhos da escritora, onde temas explorados nesse
livro são reiteradamente abordados. São de suma importância seus ensaios publicados
em coletâneas como La búsqueda de intelocutor (2.000) e Tirando del hilo (2.007).
Ambos são recopilações da obra ensaística da autora dispersa em revistas e jornais em
épocas distintas de sua vida. Sendo assim, partimos agora para uma apresentação mais
6
Capítulo 1 – Carmen Martín Gaite.
Ao iniciar a apresentação dos resultados da pesquisa desta tese de doutorado,
façamos uma aproximação à carreira literária de Carmen Martín Gaite, através de
informações coletadas em estudos críticos sobre a escritora e em seus próprios artigos
publicados em revistas e jornais, onde recorda passagens de sua vida, sempre tendo
como referencial a carreira acadêmica e literária. Cumprimos este propósito traçando
um panorama de sua carreira literária na primeira seção deste capítulo, Carmen Martín
Gaite: uma biografia literária, onde fatos da vida da escritora são contados por ela
mesma em textos em que recorda a infância, os estudos acadêmicos e suas primeiras
experiências como escritora. A contextualização histórica da vida e da obra da escritora
também se realiza nesse momento, já que é de caráter absolutamente relevante o fato da
escritora ter vivido mais da metade de sua vida sob o regime franquista, sofrendo suas
consequências como cidadã espanhola, como mulher, como intelectual e como escritora.
Em seguida, em Para uma poética literária na ficção, discutiremos as
concepções literárias de Carmen Martín Gaite elaboradas a partir de sua própria ficção
onde, à maneira de ensaio, trata de valorizar a questão da narrativa dentro do ensaio e do
ensaio dentro da narrativa.
Em Narrativa e interlocução: uma questão vital, finalizamos esta aproximação à
escritora com um estudo sobre um tema vital em sua obra: a interlocução. Tema
presente nos ensaios literários sobre outros escritores, em sua obra narrativa e ensaística
7
1.1 - Carmen Martín Gaite: uma biografia literária.
Neste capítulo inicial, cuja pretensão é a de traçar, em linhas gerais, a trajetória
biográfico-literária de Carmen Martín Gaite, busca-se resgatar os acontecimentos de sua
vida e de sua carreira através de dados recolhidos não só em diversas publicações de
estudiosos e críticos literários, mas também, através de depoimentos da própria escritora
relatados em vários textos de sua autoria. Desta forma, já iniciamos nosso trabalho
ressaltando a tendência autobiográfica na obra de Carmen Martín Gaite, cuja trajetória
literária e biográfica é representada em sua própria obra.
Carmen Martín Gaite nasceu na cidade de Salamanca, Espanha, no dia 8 de
dezembro de 1925, filha caçula de José Martín e María Gaite. Seus primeiros estudos
não ocorreram convencionalmente devido às convicções ideológicas de seu pai que era
contrario à educação religiosa institucionalizada e, naquela época, eram raros os bons
colégios laicos em Salamanca. Desta forma, a escritora teve sua instrução inicial em
casa com professores particulares e com seu próprio pai que lhe transmitiu os primeiros
conhecimentos em arte, história e literatura. O ambiente familiar foi bastante propício
ao desenvolvimento de seu talento desde a infância, como nos relata Isabel Laguna no
artigo ―Una rebelde poco agresiva‖, publicado na ocasião da morte da escritora:
De su madre, una mujer gallega a quien definió como medio ―meiga‖, heredó su capacidad para llevar la fantasía a la realidad y la realidad a la fantasía, y de su padre, un notario aficionado a la lectura, el descubrimiento de la literatura, pues fue él quien encauzó sus gustos, desde la gran biblioteca que tenían en casa.(LAGUNA, 2000, p. 40)
O adjetivo ―meiga” atribuído à sua mãe adquire fundamental importância, pois
8 que podemos chamar de esfera fantástica. Esfera esta a qual a escritora adotou como
fonte de matéria para sua criação fictícia. Além disso, em sua casa a literatura ocupava
um lugar importante e Carmen Martín Gaite teve uma infância rodeada de livros. Eles
também estavam na casa de veraneio, na Galícia, como companheiros inseparáveis de
suas horas de lazer e solidão voluntária. Testemunha dos anos de guerra civil – tinha dez anos quando eclodiu a contenda – encontrou nos livros a necessária alternativa ao mundo real. Eles foram ponto de partida para o desenvolvimento de uma mente
criadora, em que o sonho e a fuga da realidade configuraram-se como elementos chave
para toda a sua futura criação literária.
Essa atmosfera da infância estimulante para a leitura determinou em sua opção
pela literatura como forma e meio de vida. Seus relatos e ensaios mostram como, desde
pequena, o gosto pela literatura, assim como o hábito de refletir sobre os textos que lia,
era parte inerente de seu modo de viver e de pensar desde muito jovem. No primeiro
ensaio de La búsqueda de interlocutor1, intitulado ―Los malos espejos‖, a autora assinala a impressão que lhe causava, em suas leituras de infância, a maneira como os
autores construíam as cenas do primeiro encontro de um par romântico nos livros que
lia naquela época:
Cuando yo era niña, recuerdo haberme sentido muy fascinada por un recurso literario común a varias de las historias de amor primeras que leí, bien procedentes del campo de la novela rosa (…) bien de unos folletines decimonónicos con olor a humedad que habían alimentado también sueños juveniles de mi madre y se guardaban en los armarios de una casa donde veraneábamos, en Galicia.(MARTÍN GAITE, 2000, p. 15)
Após os anos de estudos iniciais em casa, Carmen Martín Gaite passou à
formação secundária no Instituto Feminino de Salamanca e ingressou na Universidade
9 de Salamanca, em 1943, no curso de Filologia Românica, concluindo-o em 1948. Os
anos universitários foram culturalmente muito produtivos. A escritora, além de
participar de teatro universitário, começou a publicar seus primeiros poemas na revista
Trabajos y dias2. A autora se refere a estas primeiras incursões literárias no ensaio
―Salamanca, la novia eterna‖, também publicado em La búsqueda de interlocutor.
Durante mi etapa de bachiller, en Salamanca hacía un frío tan riguroso que el Tormes llegó a helarse y los niños lo cruzaban patinando. Mi primer poema publicado en la revista Trabajos y días evocaba aquella larga tregua del invierno y se titulaba ―la barca nevada‖. (MARTÍN GAITE, 2000, p.193)
Os anos de universidade foram uma época de iniciação e experimentação
literária para Carmen Martín Gaite. Esta fase se deu no período pós-guerra civil, em
plenos anos 40, em que havia um grande isolamento cultural e poucas possibilidades de
expressão artística no controlado panorama das letras espanholas daquele período
histórico. A escritora encontrou na poesia e nos amigos de universidade um refúgio e
um estímulo à criação. A poesia era o gênero literário preferido daqueles estudantes,
entre os quais figurava Ignacio Aldecoa, líder dos jovens escritores e que viria a ser, na
década seguinte, um dos mais destacados representantes do neo-realismo espanhol.
Aldecoa tornou-se grande amigo de Carmen Martín Gaite e é recordado por esta no
ensaio ―Un aviso: ha muerto Ignacio Aldecoa‖3, que escreveu como homenagem póstuma. Neste ensaio, publicado pela primeira vez na revista La estafeta literaria, em
novembro de 1969, e compilado pela autora em La búsqueda de interlocutor,
relembra-se a importância de Ignacio Aldecoa para o grupo de poetas ao qual pertenceu e destaca
o entusiasmo dos estudantes com a poesia:
10 Estas cosas escribía Ignacio Aldecoa por los primeros años del cuarenta, cuando yo lo conocí en la Facultad de Letras de Salamanca. Nos gustaba mucho a los amigos de entonces, todos entre los diecisiete y los veinte años, esta historia del pistolero Larrigan y la recitábamos mientras tomábamos el sol apoyados en la barandilla de piedra del palacio de Anaya entre clase y clase, o cuando íbamos a remar en grupo al río. (MARTÍN GAITE, 2000, p. 34)
E mais adiante:
Los versos de los otros amigos – y todos escribíamos versos entonces – no los recitábamos en alta voz; eran versos de cuchicheo íntimo para ser leídos en casa. Hablaban preferentemente de congojas del ánimo, de preocupaciones metafísicas, y poco después vinieron a ver la luz en la primera revista donde yo colaboré asiduamente, Trabajos y días, revista provinciana hecha por universitarios a que Ignacio no se asomó nunca. (MARTÍN GAITE, 2000, p.34)
Como veremos mais adiante, este amigo será uma das personalidades mais
presentes na vida literária de Carmen Martín Gaite. De fato, o ensaio citado apresenta
aspectos autobiográficos que nos ajudam nessa tentativa de reconstruir a biografia de
Carmen Martín Gaite, já que a escritora não chegou a escrever uma autobiografia,
propriamente dita. Observaremos que será frequente a inclusão do discurso
autobiográfico na obra ensaística da escritora, como observa Juan Senís Fernández, no
artigo ―Márgenes de la autobiografia en la obra de Carmen Martín Gaite‖ (2004).
Discutindo a questão dos limites genéricos e as possibilidades de fontes de informação
na constituição de aspectos autobiográficos na obra da escritora, o crítico revela que
seus ensaios são, além de importantes contribuições à crítica literária, uma grande fonte
de informação sobre a vida da escritora.
11 relacionados directamente con su trayectoria vital; más bien estamos ante escritos que nacen con otra intención y que, por necesidades de la materia tratada en ellos, derivan hacia regiones muy cercanas a la autobiografía. El caso más ejemplar es Esperando el porvenir, cuyo origen está en un ciclo de conferencias sobre Ignacio Aldecoa que Carmen Martín Gaite impartió en la fundación Juan March en 1994, cuando se cumplía el vigésimoquinto aniversario de su muerte. En principio, no se trataba más de eso, de una conferencia; pero en esta ocasión, la escritora salmantina no podía hacer unas charlas convencionales, pues como es bien sabido, Aldecoa era su amigo, habían coincidido en las universidades de Salamanca y Madrid y habían iniciado sus carreras literarias a la par y arropados por el mismo grupo de amigos y las páginas de las mismas revistas. Así, sobre todo los primeros capítulos del libro, cuentan más la historia de esta generación de escritores y, por lo tanto, están llenos de datos personales sobre la propia vida de Carmen Martín Gaite, además de ilustrado con numerosas fotografías. (SENÍS FERNÁNDEZ, 2004, pp. 625-626)
A passagem refere-se ao ciclo de conferências que ocorreu vinte e cinco anos
após a morte de Ignacio Aldecoa, promovido pela fundação Juan March. Passados vinte
e cinco anos da publicação do artigo de Carmen Martín Gaite que comunicava a morte
do amigo, homenageando-o, a escritora participa de um ciclo de conferências em que
relembrar Aldecoa serviu de motivo para homenagear também a geração de escritores
que em pleno primeiro pós-guerra buscava não asfixiar-se com as limitações dos anos
iniciais do franquismo. O fragmento do artigo de Senis Fernández além de ressaltar a
importância dos ensaios de Carmen Martín Gaite para a recomposição de sua trajetória
biogrfica e literária, alude àquele grupo de escritores que compunham uma
intelectualidade espanhola sem presunções messiânicas, mas que, nas palavras de
Vazquez Montalbán4, foram uma espécie de ―puente para sensibilidades posteriores‖. Tratava-se da geração de ―medio siglo‖.
Antes mesmo de se formar, em 1946, aos 21 anos, a escritora teve a sua primeira
oportunidade de estudar fora da Espanha com uma bolsa de estudos da Universidade de
Coimbra. Foi a sua primeira viagem ao exterior. Em Portugal, conheceu também as
12 cidades do Porto e Lisboa. A estadia em Portugal durou dois meses e rendeu-lhe frutos
na carreira literária e acadêmica. Além do interesse pelo cancioneiro galaico-português,
posteriormente a escritora dedicou estudos à obra de Eça de Queiroz. É importante
observar que, embora a estadia de Carmen Martín Gaite em Portugal tenha se dado
durante um período em que este país, assim como a Espanha, estava sob um regime
ditatorial, o de Salazar (que permaneceu no poder de 1932 a 1968), para Carmen Martín
Gaite, o período representou um passo para a liberdade, pois, somente o fato de uma
moça solteira viajar sozinha para o exterior, desafiava as regras impostas às mulheres
espanholas da época. Era necessário já ter cumprido suas obrigações como o ―Servicio Social‖ dirigido pela ―Sección Femenina‖, órgão subordinado à Falange Espanhola encarregado de dar uma formação às mulheres, preparando-as para o cumprimento de
seu papel de mãe e esposa, em consonância com a ideologia imposta pelo regime
franquista.
Esta questão é retratada detalhadamente no livro Usos amorosos de la
postguerra española (1987) . No terceiro capítulo desse ensaio histórico, intitulado ―El
legado de José Antonio‖, Carmen Martín Gaite parte de um importante acontecimento histórico – a morte de José Antonio Primo de Rivera por fuzilamento – para comentar alguns aspectos relativos à ―Sección Femenina‖. Este órgão político cumpriu um papel determinante na formação e no comportamento de várias gerações de mulheres na
Espanha de pós-guerra. Dirigida pela irmã de Primo de Rivera, Pilar Primo de Rivera, a
―Sección Femenina‖ era a responsável pelo Serviço Social. Tratava-se de uma espécie
de estágio com cursos obrigatórios para as mulheres solteiras ou viúvas sem filhos, onde
obtinham conhecimentos sobre os afazeres do lar, corte e costura, puericultura,
13 ao qual a vida das mulheres deveria restringir-se. No ensaio, Carmen Martín Gaite nos
dá um testemunho bastante pessoal sobre sua experiência no Serviço Social:
Cuando empezábamos a hacer el Servicio Social nos daban una chapita roja de esmalte con las iniciales S.S. grabadas en dorado, indicadora de que se estaba cumpliendo. En el plazo, a veces de años, que mediaba entre la penitencia de esa insignia provisional y la adjudicación libertadora de otra exactamente igual pero en esmalte azul. A algunas no había dado tiempo a terminar una carrera y soñábamos con hacerla, a despecho del mes de formación teórica, los dos de asistencia a escuelas del hogar y los tres de prestación que se podía cumplir en comedor infantil, taller o cocina. Además de gimnasia y un poco de baloncesto, se había aprendido, haciendo empanadilla de escabeche y la canastilla del bebé, que para la mujer la tierra es la familia. (MARTÍN GAITE, 1994, 63)
O fragmento demonstra que, para algumas mulheres, como é o caso da escritora,
o Serviço Social era um sacrifício que deveria ser cumprido por mera obrigação. É
importante observar que o não cumprimento do Serviço Social representava a perda da
possibilidade de ter acesso a direitos simples como o de tirar uma carteira de motorista
ou um passaporte. O Estado exercia, através desse mecanismo, um controle total sobre
as mulheres, esperando, assim, zelar pela moral e pelos bons costumes das famílias,
preparando as mulheres para seu destino mais desejável, o casamento. Ainda que na
Espanha de pós-guerra o número de mulheres fosse consideravelmente superior ao
número de homens.
Nesse contexto, é fácil entender o significado que a primeira viagem ao exterior
teve para Carmen Martín Gaite, ainda que tenha sido para um país cujo regime político
fosse muito semelhante ao instaurado na Espanha. Segundo David González Couso,
14 obra alusiones que lo relacionan con un ámbito de libertad‖ (GONZÁLEZ COUSO, 2009).
Esta primeira saída de Carmen Martín Gaite da Espanha foi mais do que uma
simples viagem de estudos de uma jovem estudante. É preciso considerar o momento
histórico que a década de 40 representa na vida cultural da Espanha, onde o regime do
pós-guerra civil, em um primeiro momento, submergiu o país em um total isolamento,
gerando uma estagnação cultural que, somente a duras penas, podia ser vencida pelos
jovens da época. O anseio de liberdade e novidade era uma marca do espírito da
escritora. O desejo de conhecer o novo, a abertura ao mundo externo ao seu, tão cheio
de limitações e restrições a sua mente talentosa, manifestava-se em sua juventude. Isto
se reflete na relação que a escritora estabeleceu com sua cidade natal, que, embora tão
querida, não lhe bastava. É o que podemos ler nas linhas iniciais do ensaio que
novamente citamos, ―Salamanca, la novia eterna‖.
Supe muy pronto, tal vez al borde de la adolescencia, que con la ciudad donde nací, aprendí a hablar y llevé a cabo mis estudios, nunca me uniría una relación matrimonial, sino de noviazgo sin formular del todo, uno de aquellos amores contrariados de los que habla santa Teresa al aludir a los suyos con Dios.(MARTÍN GAITE, 2000, p.193)
Em 1948, ao término de sua licenciatura, Carmen Martín Gaite obteve uma bolsa
de estudos para um curso de verão na Universidade de Cannes. Nessa oportunidade,
pôde ler muitos escritores franceses e, como relatou no ensaio ―Brechas en la costumbre‖5, conheceu o ―sabor autêntico da liberdade‖. Carmen Martín Gaite, portanto, faz parte de uma geração de escritores que, naquele contexto de pós-guerra,
começa a viajar ao exterior e a entrar em contato com a cultura européia da época. A
15 experiência na França confirmou sua convicção de que era necessário sair da cidade
natal para buscar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento acadêmico e
literário. Assim, em novembro de 1948, deixa Salamanca rumo a Madri para dar
prosseguimento aos estudos com um projeto de doutorado.
Em Madri, começou a publicar contos e artigos em revistas literárias. Trabalhou
confeccionando fichas para um dicionário da ―Real Academia Española‖. Nesse período, contraiu tifo e teve que regressar a Salamanca para receber os cuidados de sua
mãe. Foram mais de quarenta dias de cama e febre. A escritora transformou a
experiência da enfermidade em uma obra que poderíamos situar entre o relato
autobiográfico, a narrativa fantástica e a metaliteratura. O livro escrito no período em
que a doença durou relata os delírios febris da autora e toda sua fragilidade humana em
uma situação de total dependência. Entre os delírios causados pela febre, revelam-se
seus pensamentos sobre a vida e a literatura, sendo esta representada pelo próprio ato de
escrever que se mostra como um elemento vital para a autora/personagem da obra.
Estamos falando de El libro de la fiebre (2007), publicado postmortem. Embora
estilisticamente o livro esteja muito mais relacionado à primeira fase da escritora, onde
predominou a poesia, marca o início de sua criação narrativa, apresentando
procedimentos literários que reaparecerão algumas vezes em sua obra, como a
alternância entre sonho e realidade. A introdução de María Victoria Calvi à primeira
edição desse livro pela Editora Cátedra afirma a conexão deste relato com a obra
posterior da escritora. No estudo, Victoria Calvi cita a própria Carmen Martín Gaite,
em ―Bosquejo autobiográfico‖6
e Cuadernos de todo. A autora de ―El libro de la fiebre‖
apresenta sua visão sobre este primeiro intento narrativo fantástico.
16 En el ―Bosquejo‖, Por lo tanto, se ostenta el rechazo por el texto juvenil; Carmen Martín Gaite hace suya la opinión negativa de Sánchez Ferlosio, distanciándose de su visión de entonces, distorcionada por la exaltación de neófito. Por otra parte, los dos fragmentos no salieron en ―La hora‖, sino en la revista universitaria ―Alcalá‖, pero la autora no manifiesta gran interés por averiguar los datos de su publicación. (VICTORIA CALVI, 2007, p.12)
A citação acima se refere ao relato em que Carmen Martín Gaite conta como foi
desestimulada por Sánchez Ferlosio (com quem viria a casar-se posteriormente) quando
lhe mostrou o livro. O escritor lhe disse que aquela narrativa ―no valía nada, que resultaba vago y caótico‖. Ainda que Carmen Martín Gaite estivesse muito entusiasmada com seu livro e este lhe parecesse ―muy bonito‖, a opinião negativa de Sánchez Ferlosio prevaleceu e a escritora não se animou a publicá-lo, salvo alguns
fragmentos na revista La hora.
Por outro lado, como assinala Victoria Calvi, a escritora apresentará comentários
mais pessoais sobre El libro de la fiebre em Cuadernos de todo:
En los Cuadernos de todo, en cambio, se encuentran referencias más personales que nos permiten enfocar la relación entre la obra primeriza y el conjunto de su producción. Si por un lado, se confirma el ―rechazo excitado y pirado del Libro de la fiebre, por el otro, se reconoce la importancia de este texto, como revelación de una incipiente llamada hacia lo fantástico:
17 Neste fragmento da introdução de Victoria Calvi, onde ela cita o Cuadernos de
todo, destaca-se a autocrítica de Carmen Martín Gaite, que revisa sua obra inicial e a
conecta com suas convicções literárias mais perenes, as quais poderão ser percebidas
décadas mais tarde em El cuarto de atrás. O gosto pelo fantástico já se apresentava de
forma germinal, talvez sem muito conhecimento teórico, mas que será buscado e
aperfeiçoado posteriormente.
Em 1950, Carmen Martín Gaite se mudou definitivamente para Madri. Lá
reencontrou o amigo de Universidade, Ignacio Aldecoa, figura importante na trajetória
da escritora desde a época da Faculdade de Filologia, em Salamanca. Foi através dele
que a escritora ingressou no círculo literário madrilenho da época. A admiração de
Carmen Martín Gaite por Ignacio Aldecoa se prolonga ao longo de toda a sua vida e
carreira literária, posto que, após a fase poética da universidade, o escritor destacou-se
como uma das figuras mais influentes do neorrealismo espanhol, que reuniu nomes
como Jesús Fernández Santos, José María de Quino, Alfonso Sastre e Rafael Sánchez
Ferlosio, que viria a casar-se com Carmen Martín Gaite em 1953. Estes jovens fizeram
parte de uma geração que colaborou para reconstruir a literatura espanhola, também
devastada pela guerra, assim como todos os setores da vida cultural da Espanha.
Liderados por Aldecoa, estes jovens, também chamados ―niños de la guerra‖, foram os
primeiros a tentar reconstruir o panorama cultural destruído pela guerra. A professora
doutora Valéria De Marco refere-se a este grupo no artigo ―Tira y afloja: metáfora de construção da obra de Carmen Martín Gaite‖. :
18 eles ficaram na Espanha. Sob o signo da guerra, perderam a inocência e amadureceram sob os longos trinta e seis anos da ditadura de Franco. Os historiadores da literatura destacam as especificidades do grupo e consideram que ele configura uma geração – ―la generación del medio siglo‖. Seus integrantes, além de terem começado a publicar nos anos cinquenta, dedicaram-se à literatura, desenvolvendo obras empenhadas em falar do contexto social em que viviam. (DE MARCO, 1993, 289)
Valéria De Marco acrescenta ainda que esta geração não vivenciou os avanços
culturais e sociais promovidos pela República. Neste período que antecedeu a Guerra
Civil, foram instaurados centros radiadores de cultura – os ―Institutos de Libre
Enseñanza‖, as ―Residencias de Estudiantes‖ e as ―Casas del Pueblo‖. Todos com
projetos de arte e cultura que eram levados a todas as cidade e aldeias. Pela ação do
governo republicano, as fronteiras haviam sido abolidas, as províncias tiveram sua
autonomia reconhecida e houve uma ―rica convivência entre regionalismos, aspirações
nacionais e ritmo cosmopolita‖. Todos esses avanços foram interrompidos pela Guerra
e o longo pós-guerra que se seguiu.
É preciso recordar que o pós-guerra civil foi um momento sombrio na vida do
povo espanhol. Os anos imediatos ao término da Guerra Civil representaram, para uma
grande parte da população, miséria e fome, num país praticamente devastado. A vida
intelectual sofreu graves danos devido ao ambiente de cerceamento ideológico que se
implantou com a vitória do general Francisco Franco Bahamonde. A guerra dispersou
os intelectuais e escritores. Vários deles tiveram que exilar-se, continuando a escrever
no exterior. Foi o caso de Max Aub, Ramón J. Sender, entre outros. Os escritores que
permaneceram no país tiveram que conviver com a censura rígida de obras estrangeiras
e, obviamente, lhes era quase impossível saber o que seus companheiros das letras
19 Se produjo por lo tanto una brusca interrupción en la continuidad literaria. Unamuno, Valle Inclán, Antonio Machado y Lorca habían muerto, la gran mayoría de los mejores escritores se había ido, y los que quedaron o los que volvían eran meros fantasmas de los que fueron. En un ambiente tenso y generalmente hostil, preocupados por cuanto los rodeaba, tenían que empezar de nuevo entre vacilaciones bajo la atenta mirada de una censura todopoderosa. Los años cuarenta fueron, como era de presumir, años muy flojos para la literatura española. (BROWN, 1998, p. 235)
Os escritores espanhóis estavam, portanto, obrigados a viver em um isolamento
cultural e político. Este quadro perdurou até a década de 50, quando, motivados pela
Guerra Fria, o ocidente democrático viu com bons olhos o anticomunismo espanhol.
Segundo Manuel Vázquez Montalbán, a ―ciudad franquista‖ começa a se desconstruir já em 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial:
En cierto sentido, el franquismo empezó a desconstruirse en 1945, en el momento en que, perdido el impulso inicial imperial arropado y respaldado por la prepotencia nazi-fascista, la ciudad franquista tiene que resituarse en un mundo marcado por la redivisión de la segunda guerra mundial y el inmediato desafío de la guerra fría. (VÁZQUEZ MONTALBÁN, 1998, p.60)
Para Vázquez Montalbán, o início da guerra fria fez com que os condutores do
regime franquista percebessem que poderiam vender algo às potências vencedoras da
Segunda Guerra Mundial,
20 Os Estados Unidos apoiaram economicamente a Espanha em troca da
viabilização da construção de bases militares no país. A ajuda estrangeira e o
investimento no turismo facilitaram o crescimento econômico da Espanha. Ao mesmo
tempo, o isolamento em que a Espanha se encontrava deu lugar a uma tímida abertura
com o Plano de Desenvolvimento que começou a ser implantado por Franco, em 1959.
Alguns fatores como o aumento do número de estudantes universitários, a
expansão da classe média e a conscientização do proletariado modificam o quadro
sócio-cultural da Espanha, trazendo como consequência uma literatura direcionada ao
realismo social, com obras representativas como La colmena, de Camilo José Cela e
Nada, de Carmen Laforet.
Después de La colmena se produjo un súbito florecimiento (a pesar de las enérgicas podas de la censura) de jóvenes talentos consagrados a la causa de exponer, o al menos de dar testimonio, de las calamidades de la vida española (...). El consciente testimonio de estos escritores, muchos de los cuales eran todavía niños durante la Guerra Civil, pero que ahora habían llegado a una edad en que podían denunciar sus consecuencias, fue como una bocanada de aire fresco para las letras españolas.(BROWN, 1998, p. 241)
Para que acontecesse este ressurgimento da literatura espanhola, foi de
fundamental importância a existência desse grupo de jovens escritores que,
principalmente, em seus romances, assumiam um papel informativo em uma sociedade
onde qualquer informação era filtrada pelos meios oficiais de censura. O romance foi,
durante a década de 50, uma espécie de substituto de outros meios de informação.
Mortos ou exilados os grandes ícones da cultura espanhola, parte dos narradores
21 italiano configura-se como uma corrente artística que tem suas primeiras manifestações
a partir de 1945, com a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial e a liberação
do país. Os acontecimentos históricos de pós-guerra, bem como os imediatamente
anteriores ao fascismo e a resistência, foram o foco de análise dos escritores e cineastas,
proporcionando, assim, um clima de resgate de valores morais e civis adulterados sob o
fascismo.
O neorrealismo italiano entrou na Espanha na primeira metade dos anos 50,
através de três eventos cinematográficos: as Semanas de Cinema Italiano, realizadas em
Madri pelo Instituto Italiano de Cultura, em novembro de 1951 e maio de 1953, e as
Primeiras Conversas Cinematográficas de Salamanca, em maio de 1955. As Semanas
de Cinema Italiano marcaram os primeiros contatos dos escritores e intelectuais
espanhóis com o neorrealismo e as Conversas Cinematográficas foram os primeiros
eventos organizados por esses intelectuais contra o franquismo. Nesse momento
assumiram o neorrealismo italiano como ponto de partida para uma nova arte realista
espanhola.
A narrativa neorrealista caracterizava-se pela busca da transformação social
através de um posicionamento humanitário, baseado no amor e na bondade. A inclusão
de uma temática que chama a atenção para a dor alheia era fruto tanto para os cineastas
italianos quanto para os narradores espanhóis de uma realidade pós-guerra (Segunda
Guerra para os italianos e Guerra Civil para os espanhóis) em que a miséria e as
desigualdades eram a expressão maior do sofrimento humano.
Na narrativa de pós-guerra de Carmen Martín Gaite, em especial, vemos a
22 Matilde de sua primeira narrativa longa, El Balneario (1953)7 e os injustiçados, como a empregada doméstica doconto ―Los informes‖8. O romance Entre visillos, também apresenta uma preocupação humanitária, visível na angústia de personagens como a
jovem Natália que, por ser mulher, sofre pela falta de liberdade para realizar suas
aspirações profissionais.
A geração de escritores neorrealistas espanhóis, também chamada de geração de
―medio siglo‖, manifestou seu compromisso de renovar as letras e a cultura do país em
diversas revistas literárias. Primeiramente, nas revistas promovidas pelo Sindicato
Espanhol Universitário como La Hora, Alcalá, ou em publicações independentes como
Índice, Correo Literario. Mas foi com a Revista Española, nos seus seis números
bimestrais, publicados a partir de maio de 1953, que o movimento ganhou coesão. José
Carlos Mainer comenta a importância da revista no estudo introdutório ao romance
Ritmo lento:
Y no es nada casual que en el primer número Ignacio Aldecoa reseñara con entusiasmo el estreno de Escuadra hacia la muerte, de Alfonso Sastre y que apareciera el bellísimo relato de Jesús Fernández Santo, ―Cabeza rapada‖; no es un tacto de codos entre buenos amigos sino el reconocimiento de dos signos de alerta a propósito de la primera tragedia existencial del teatro español de posguerra y de un primer cuento de clara vocación neorrealista (Martín Gaite se estrenó en la segunda entrega con la narración Un día de libertad).9
Neste comentário que se refere aos dois primeiros números da Revista Española,
estão quatro dos principais nomes do neorrealismo espanhol. Mais adiante, José Carlos
7
El balneario foi, conforme a própria Carmen Martín Gaite revelou, a primeira tentativa de passar do conto ao romance. Escrito em 1953, ganhou o prêmio Café Gijón de 1954. Utilizamos aqui o texto incluído na coletânea Todos los cuentos, pp. 15 a 81.
8
Neste conto, também recolhido em Todos los cuentos, uma jovem empregada doméstica é acusada injustamente de roubo sendo desumanamente humilhada.
23 Mainer descreve como o cinema neorrealista italiano formou a base do movimento
literário na Espanha.
Pero en su corto año de vida Revista Española ofreció más cosas. En sus páginas, los filmes del neorrealismo se transformaron en una suerte de sacramento general para quienes ya habían asistido con unción a las semanas de cine italiano celebradas en Madrid en junio de 1950 y en marzo de 1953. Aquellas imágenes límpidas y directas, donde la trama estaba subordinada a la eficacia de las escenas sueltas, hechas con la cámara en la calle y con actores no profesionales, les mostraron el camino de una posible estrategia artística para una posguerra y, sobretodo, la recuperación de la objetividad (casi tienta escribir ―de la inocencia‖) del observador.10
Anna Mateu, na monografia Carmen Martín Gaite y el periodismo. La visión de
los medios de comunicación en los artículos de prensa (1949-2000), organiza e analisa
diacronicamente os artigos de Carmen Martín Gaite publicados na imprensa, desde os
anos 40, até a década de 90. A pesquisadora lembra a importância das revistas literárias
como meios aglutinadores daquela geração de escritores cujo traço comum era mais
político do que, necessariamente, literário.
Este grupo de amigos será la llamada ―generación del cincuenta‖ o ―del medio siglo‖. También se la ha llamado ―generación perdida‖, ―generación puente‖, ―generación silenciosa‖, ―generación olvidada‖ o ―generación oscura‖. Josefina Rodríguez, miembro del grupo y esposa de Ignacio Aldecoa, preferirá nombrarlos ―los niños de la guerra‖, y Ana María Matute, ―la generación de los niños asombrados‖. Martín Gaite escribirá, cuarenta años más tarde, un artículo – con una inusual actitud de distanciamiento, a pesar de incluirse como primera persona – analizando lo que unió a los escritores de su generación. (MATEU, 2009, 21)
E mais adiante:
Estos jóvenes escritores, nascidos entre 1925 e 1930 se agruparon en sus años universitarios en Madrid en torno a la Revista Española , auspiciada por
24 Rodríguez Moñino – de la que hablaremos más abajo –, y en Barcelona en torno a la revista Laye, alentada por José María Castellet y Manuel Sacristán. Desde Catalunya, Carme Riera también dejará de lado las discusiones teóricas sobre si se puede considerar una generación o sencillamente un grupo de amigos dedicado a autopromocionarse a la ―Escuela de Barcelona‖, de la que forman parte Carlos Barral, Jaime Gil de Biedma y José Agustín Goytisolo (Mateo Gambarte, 1996: 211). Aunque entre los estudiosos hay una gran dispersión en el concepto y la forma de nombrar esta generación, parece que Martín Gaite acepta esta etiqueta.
Lo que comparten todos estos escritores, para Mateo Gambarte, es ―una actitud cívica de antifranquismo‖. Esta actitud – más como personas que como escritores – sumada ―a lo de una escuela común (la educación bajo la dictadura uniformada y uniformante) son los elementos que en una primera época pueden dar un cierto aire de familia a la foto, efecto muy parecido a ese parecido que sufren las amigas adolescentes…‖ (Mateo Gambarte, 1996: 207-208). (MATEU, 2009, p. 22)
A década de 50 marcou, portanto, a primeira fase literária de Carmen Martín
Gaite, cujos relatos apresentaram muitos aspectos neorrealistas. A própria autora
analisará, anos mais tarde, essa vertente da literatura espanhola de pós-guerra,
assinalando que suas histórias se caracterizam por não ter um final feliz nem uma moral
da história. Para Carmen Martín Gaite, eram relatos que mostravam algumas visões da
realidade circundante e onde o autor não dava nenhuma solução aos problemas
apresentados, limitava-se a ser apenas uma mera testemunha de uma realidade
pós-guerra civil.
Nesse período veio à luz o romance Entre visillos (1958) e, um pouco depois,
Ritmo lento (1963). Em ambos, os personagens e conflitos apresentados são
determinados pelo franquismo. Nesse período também publicou diversos contos nas
revistas literárias há pouco mencionadas. Entre 1963 e 1974, Carmen Martín Gaite não
publicou nenhum romance.
O silêncio narrativo foi rompido em 1974, com Retahílas. Em 1975, com a
morte de Franco, iniciou-se o período de transição democrática na Espanha. Dom Juan
25 processo de recuperação das liberdades democráticas na Espanha. Este processo se
desenvolveu de forma pacífica com a colaboração da maioria do povo espanhol, da
monarquia e de políticos reformistas. Em dezembro de 1976, um referendo aprovou a
Lei da Reforma Política que legalizou os partidos políticos e, em 1977, realizaram-se as
primeiras eleições por sufrágio universal desde 1936. Em 1978, com o consenso de
todos os partidos políticos, a nova Constituição foi aprovada por votação popular em
novo referendo. Foi neste clima de abertura política que Carmen Martín Gaite publicou
mais dois romances: Fragmentos de interior (1976) e El cuarto de atrás (1978). Nos
três romances da década de setenta, observa-se um posicionamento analítico do passado
histórico recente, a defesa da comunicação entre as pessoas e o desejo de renovar os
procedimentos narrativos. A abertura democrática permitiu que o franquismo e a
própria figura do ―generalísimo‖ se tornassem matéria narrativa e fossem tratados de maneira crítica.
Após a publicação de El cuarto de atrás, deu-se mais um intervalo de doze anos
sem a publicação de romances. Somente em 1990, a escritora publica novo romance
que inicia seu período mais produtivo no tocante à sua obra narrativa. Na década de 90,
nos brinda com Caperucita en Manhatan (1990), Nubosidad variable (1992), Lo raro es
vivir (1996), La reina de las nieves (1998), Irse de casa (1998). Seu último romance,
Los parentescos, foi publicado inacabado post mortem, no ano de 2001.
Ao lado de sua obra narrativa, a autora escreveu uma obra ensaística composta
de estudos literários e históricos. Devemos destacar, entre outros, as seguintes obras: El
proceso de Macanaz. Historia de un empapelamiento (1970),
Usos amorosos del dieciocho en España, (1972), La búsqueda de interlocutor y otras
26
española (1987), Desde la ventana (1987), Agua pasada (1993), Esperando el porvenir:
Homenaje a Ignacio Aldecoa (1994). Merece destaque especial o livro Tirando del
hilo, (2006). Trata-se de uma recopilação de artigos da escritora publicados em
periódicos entre os anos de 1949 e 2000. Por abranger praticamente toda a carreira da
escritora, esta coletânea é uma referência no estudo da evolução do pensamento
crítico-literário de Carmen Martín Gaite.
Em nossa pesquisa, verificamos uma estreita relação entre a obra narrativa de
Carmen Martín Gaite e seus ensaios, em que a escritora elabora de forma crítica alguns
temas abordados artisticamente em suas narrativas. Nas próximas páginas,
verificaremos que temas são estes e o como seu posicionamento teórico se articula de
maneira coerente com sua prática narrativa e ensaística.
A carreira de Carmen Martín Gaite foi coroada com mais de dez prêmios
literários, dos quais destacamos: Prêmio ―Café Gijón‖, em 1954, pelo romance El
balneario; Prêmio ―Nadal‖, em 1957, pelo romance Entre visillos; Prêmio ―Nacional de
Literatura‖, em 1978, pelo romance El cuarto de atrás; Prêmio ―Nacional de literatura
infantil y juvenil‖, em 1984; Prêmio ―Anagrama‖ e ―Libro de Oro de los libreros españoles‖, em 1987, pelo ensaio histórico Usos amorosos de la postguerra española;
Prêmios ―Príncipe de Asturias de las Letras Españolas‖ e ―Acebo de Honor‖, em 1988, e ―Castilla y León de las Letras‖, em 1992, em reconhecimento ao conjunto de sua obra;
Prêmio "Nacional de las Letras", em 1994, em reconhecimento a sua trajetória literária e
pelo romance ―La reina de las nieves‖; Prêmio ―Miguel Delibes‖, em 1994 e ―Medalla
de oro de la Villa de Madrid‖, no ano 2000.
A carreira de Carmen Martín Gaite somente encerrou-se com sua morte, em 23
27 das letras e da cultura. Renomados escritores destacaram, na ocasião, a importância e a
qualidade de sua obra. O escritor português José Saramago escreveu para o jornal ABC
na ocasião:
Del mundo literario de Carmen Martín Gaite me interesó mucho esa sensibilidad que ella tenía para los entresijos del espíritu femenino. Esa capacidad increíble de fabulación que ella poseía y que se acentuó en el dominio de lo fantástico de los últimos tiempos. La muerte de Carmen Martín Gaite es una pérdida irreparable para la literatura, para sus amigos y para sus innumerables y muchísimos lectores que en esa hora nos sentimos muy afectados.11
Da mesma forma, o escritor uruguaio Mario Benedetti declarou para Europa
Express que Carmen Martín Gaite era muito apreciada por escritores e críticos. O
secretário de Estado de Cultura da Espanha na ocasião, Luis Alberto Cuenca, também
deixou seu registro sobre a escritora: Foi-se―una maravillosa narradora, una estupenda dramaturga y una ensayísta formidable‖. Pretendemos com nossa pesquisa colaborar com o estudo da obra desta versátil e querida escritora que foi membro de uma geração
que colaborou para a renovação da literatura espanhola no decorrer da segunda metade
do século XX.
28
1.2– Para uma poética literária na ficção.
As considerações sobre a obra de Carmen Martín Gaite que nortearão nossas
reflexões ao longo desta tese resultam da identificação de temas que permeiam muitos
textos da escritora. Tanto sua obra narrativa quanto a crítica literária, apresentam seu
pensamento sobre o fazer literário. Personagens que escrevem impulsionados por
alguma necessidade estão presentes em seus romances, como em Nubosidad variable,
onde duas amigas que se reencontram após um longo período e passam a trocar
correspondências contando a suas histórias de vida, inquietações e angústias. Já em El
cuarto de atrás, a narradora/protagonista é uma escritora que, em determinado momento
da narrativa, compartilha com um misterioso interlocutor (e também com o leitor) que
foi após a leitura de ―Introdução à literatura fantástica‖, de Todorov, que decidiu
escrever um romance fantástico (que é o próprio livro que o leitor está lendo). Nota-se,
portanto, a identificação dessas personagens com a própria autora.
Aliar o prazer e a necessidade de escrever ao estudo e à reflexão sobre o
processo criativo é uma das propostas do projeto literário de Carmen Martín Gaite.
Entendemos que esta combinação de criação com reflexão e explicação do próprio
processo de invenção literária, em especial do processo narrativo, é um fator
determinante na criação da escritora e sua preocupação com esta questão ficou
registrada nos artigos que publicou em jornais e revistas literárias, sendo recopilados em
Agua pasada (1993), La búsqueda de interlocutor e Tirando del hilo (2006). Este
último, prologado por José Teruel, organiza cronológicamente 194 artigos publicados
entre os anos de 1949 e 2000. No prólogo, José Teruel ressalta a colaboração semanal
de Carmen Martín Gaite no Diario 16 entre os anos de 1975 e 1979, no mesmo período
29 em pleno processo de elaboração. Devemos recordar que 1975 foi o ano em que Franco
morreu. O fim da ditatura marcou o início de um processo de mudanças políticas,
sociais e culturais, em que escritores que viveram mais da metade de suas vidas sob o
regime implantado em 1939 – los niños de la guerra –, viram ampliadas suas possibilidades de expressão literária. Além disso, desde os primeiros anos da década
anterior, os pressupostos teóricos do realismo literário já vinham sendo desestabilizados
por acontecimentos e estudos que propunham uma nova estética literária mais
condizente com os novos tempos. Joan Oleza, no artigo ―La poética antirrealista de los años 70 en la literatura española‖ (1995), faz um breve histórico da mudança da sensibilidade estética na Espanha dos anos anos 70.
Acaeció en los primeros 60 un vertiginoso asalto al poder de la norma realista, hegemónica desde los años 30. Los hitos de este vértigo los evoca Santos Sanz Villanueva: la eclosión del boom latinoamericano con la colaboración del Premio Biblioteca Breve de 1962 para La ciudad y los perros ; el cambio de actitud de los dirigentes literarios de la generación del medio siglo, en especial de su editor más representativo, Carlos Barral, de su más celebrado crítico, Josep Mª Castellet, o de su novelista más avizor, Juan Goytisolo; la irrupción de una nueva generación poética con algarada de manifiesto, que culminó en la ruidosa antología novísima de 1970, prologada por el citado crítico y editada por el no menos citado editor. En el prólogo de ésta su autor explicaba que alrededor de 1962 "los postulados teóricos del 'realismo' empiezan a convertirse en pesadilla para muchos" y que esa "pesadilla estética" desembocó en un doble movimiento de evolución y de ruptura: evolución por parte de la propia generación del medio siglo, ruptura por parte, en cambio, de gente muy joven, representativa de una nueva sensibilidad, y que se había formado más que en contra, de espaldas a sus mayores.
La nueva norma dominante habría de resultar de una triple alianza. De un lado el impulso evolutivo de algunos de los más representativos escritores -novelistas, sobre todo- de los 50, que encontró en Juan Goytisolo su modulación más radical, en conexión con la vanguardia parisina de los 60. Del otro la práctica creativa -poética, sobre todo- de los novísimos, audaz, agresiva, brillante, y mucho más plural de lo que acertó a ver su antólogo, pero que entonces concitó si no entre los lectores sí entre los críticos adhesiones de conjunto. Finalmente la referencia estatuaria, de oráculo, de Juan Benet, el más puro heredero del simbolismo internacional.