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Braz. j. . vol.83 número2

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BrazJOtorhinolaryngol.2017;83(2):235---238

www.bjorl.org

Brazilian

Journal

of

OTORHINOLARYNGOLOGY

RELATO

DE

CASO

Oculopharyngeal

muscular

dystrophy

or

oculopharyngeal

distal

myopathy:

case

report

Distrofia

muscular

oculofaríngea

ou

miopatia

oculofaríngea

distal:

relato

de

caso

Marilia

Yuri

Maeda

a,∗

,

Tais

Yuri

Hashimoto

b

,

Isabella

Christina

Oliveira

Neto

c

e

Luciano

Rodrigues

Neves

d,e

aUniversidadeFederaldeSãoPaulo(UNIFESP),FellowshipemOtorrinolaringologiaPediátrica,SãoPaulo,SP,Brasil bUniversidadeFederaldeSãoPaulo(UNIFESP),FellowshipemLaringologia,SãoPaulo,SP,Brasil

cUniversidadeFederaldeSãoPaulo(UNIFESP),DepartamentodeFonoaudiologia,SãoPaulo,SP,Brasil dUniversidadeFederaldeSãoPaulo(UNIFESP),DepartamentodeORL-CCP,SãoPaulo,SP,Brasil eUniversidadeNovedeJulho(UNINOVE),SãoPaulo,SP,Brasil

Recebidoem23dejunhode2015;aceitoem16dejulhode2015 DisponívelnaInternetem16defevereirode2017

Introduc

¸ão

A distrofia muscular oculofaríngea (OPMD) é uma doenc¸a genética com padrão predominantemente autossômico dominante,ligadaaogenePABPN1.AOPMDcursacom qua-drodeptoseprogressiva,disfagiaefraquezadosmúsculos proximaisdosmembros.1

Adoenc¸ausualmenteseinicianaquintaousextadécada

devida.Nasuaformarecessiva,ossintomascostumamser

levese mais tardiose o diagnóstico torna-se maisdifícil,

pode haverconfusão com outros sintomas dedoenc¸as da

terceiraidade.2

DOIserefereaoartigo:

http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2015.07.019

Como citar este artigo: Maeda MY, Hashimoto TY, Oliveira

Neto IC, Neves LR. Oculopharyngeal muscular dystrophy or ocu-lopharyngealdistalmyopathy:casereport.BrazJOtorhinolaryngol. 2017;83:235---8.

Autorparacorrespondência.

E-mail:[email protected](M.Y.Maeda). ArevisãoporparesédaresponsabilidadedaAssociac¸ão Brasi-leiradeOtorrinolaringologiaeCirurgiaCérvico-Facial.

A OPMD temumaprevalência estimadade 1:1.000 em

estudofeitonoCanadá.3Amaioria doscasos descritosna

literaturatem história familiar positivade doenc¸a

neuro-muscular,masexistemraroscasosem quenãofoipossível

estabelecer essa associac¸ão, a mutac¸ão é a explicac¸ão

cabível.1Amiopatiaoculofaríngeadistal(OPDM)éuma

enti-dadecontroversanaliteratura,consideradaporalgunscomo

umapatologiadistintadadistrofia muscularoculofaríngea

(OPMD)eporoutrosumavariantedessa.4

Thevathasanetal.relatamque,naOPDM,a

oftalmopare-siaéfrequente,origina-seprecocemente.Oacometimento

dosmúsculosdosmembrosocorreinicialmentenosdistais,

omúsculotibialanterioreosmúsculosintrínsecosdasmãos

sãoosmaiscomumenteacometidos.Luetal.acrescentam,

ainda,quenaOPDMoquadrosurgemaisfrequentementeem

adultosjovenscomfraquezaseveranosmúsculosdaface.

Paraaadequada investigac¸ão daOPMD ediferenciac¸ão

frenteà gamadediagnósticosdiferenciais (doenc¸as

mito-condriais,miopatiadeNonakae OPDM,entreoutras),são

importantesexamescomodosagemdeanticorpo

antirrecep-tordeacetilcolina,curvaséricadelactato,eletromiografia,

biópsiasmusculareseaferic¸ãocomtestesgenéticos.4

Osachadoshistopatológicos das duasdoenc¸as (OPMD e

OPDM) incluem anormalidades miopáticas distróficas não

(2)

236 MaedaMYetal.

específicas, presenc¸a de vacúolos e de inclusões

nuclea-restúbulo-filamentosasintramusculares,essasúltimas são

maioresnaOPDM(>8nm).5

Os testes genéticos mostram que, na OPDM, nãohá o

padrão de repetic¸ão dos pares de base (‘GCG’) no gene

PABPN1,comodetectadonoscasosdeOPMD.4

Dentreasalterac¸õesmuscularesdetectadas,adisfagiaé

osintomaquemaispreocupa,poiséevidênciado

progres-sivoenfraquecimentodamusculaturaesofagianaefaríngea,

asquaissãoresponsáveispeloprocessodeglutitório.Ograu

dedisfagiaapresentadopelopacienteéumimportantefator

prognósticodadoenc¸a,umavez que essespacientes

evo-luemparaadesnutric¸ão.6

Otratamento curativo daOPMD aindaé desconhecido.

Noentanto,pode-se fazertratamento clínicooucirúrgico

comintuitodemelhoraraqualidadedevidadopaciente.

Nocasodadisfagia,pode-seintroduzirmudanc¸ade

con-sistência alimentar, adoc¸ão de manobras facilitadoras e

fonoterapiadeglutitória.Quandonãomaisexisteevoluc¸ão

daterapiainstituída,oupresenc¸adeperdaponderal

impor-tante,oudetecc¸ãodepneumoniasaspirativasrecorrentes,

podem-seindicartratamentoscirúrgicos,comoamiotomia

domúsculocricofaríngeoouatéagastrostomia.6

Oobjetivodestetrabalhofoirelatarocasoclínicodeum

pacienteportadordealterac¸õesmuscularesimportantese

biópsiademúsculodeltoidecompatívelcomadistrofia

mus-cularoculofaríngea(OPMD).Noentanto,apesardoesforc¸o

diagnóstico,nãofoipossíveldiscerni-ladamiopatia

oculo-faríngeadistal(OPDM).

Relato

de

caso

PacienteARS,62 anos,gênero masculino,aposentado,foi

avaliadoemnossoservic¸ocomqueixasdisfágicas

progressi-vas,perceptíveishavialongadata.

Referiuqueaos36anosiniciouquadrodeptosepalpebral

simétrica progressiva. Foi avaliado e diagnosticado como

portadorde doenc¸a neuromuscularcompatívelcom OPMD

ouOPDM(presenc¸adevacúolosdotiporimmedemtecido

domúsculodeltoide).

O paciente foi encaminhado para a especialidade de

oftalmologia,paraquefossesubmetidoàcirurgiapara

sus-pensãofrontaldosolhosparafacilitaravisão.

Aos52anos,opacientereferiuiníciodequadrodisfágico

(engasgoscomalimentossólidos,necessidadedepigarrear

eingestãodelíquidosapósingestaalimentar).Referiu

tam-bémdificuldade progressivaparafalare paramovimentar

osmúsculos daface e dos olhos. Relatouque os achados

clínicossetornaramprogressivos(figs.1e2).

Aos57anos,apresentoudificuldadeparaelevarobrac¸o

direito,paraabrira mão direita,mantinha-se emposic¸ão

de‘‘garra’’,efraquezageneralizadanaspernas,caírapor

diversasvezes(fig.3).

Nessamesmaépoca,referiuqueseuslábioscomec¸aram

a ‘‘cair’’ (sic), juntamente com a detecc¸ão de episódios

eventuaisdeincontinênciaurinária.

Desdeoiníciodossintomas,opacienteapresentouperda

ponderalemtornode13kgeapresentoudoisepisódiosde

pneumonia.

Como antecedentes familiares, o paciente relatou ter

seteirmãos,doisdelesapresentavamptosebilateral(umdo

Figura1 Pacienteemvistafrontal.

gênerofeminino,cominíciodaptoseaos69anos;eumdo

gêneromasculino,cominíciodoquadroaos74anos).Quanto

aosfilhos(n=4),somenteumapresentavaptosebilateral,

queseiniciouaos37anos.

Oreferidopacientefoiavaliadodevidoàsqueixas

disfá-gicas.

À videoendoscopia da deglutic¸ão, com o emprego de

variadasconsistências alimentarese quantidades (líquido,

pastosoesólido),detectou-sedisfagiaorofaríngeaemgrau

moderado, sem visualizac¸ão de penetrac¸ão ou aspirac¸ão

(3)

Oculopharyngealmusculardystrophyoroculopharyngealdistalmyopathy:casereport 237

Figura3 Mãoemgarra.

alimentar. Evidenciou-setambéma presenc¸adesialorreia

relativapordificuldadedeglutitória.

Como tratamento, foi instituída fonoterapia

deglutitó-ria euso detoxinabotulínica emglândulas salivares para

diminuirproduc¸ãosalivar.

Discussão

Apesardascontrovérsiasnaliteratura,VanderSluijsetal.

relatamemseuartigoasprincipaiscaracterísticasclínicas

dadistrofiamuscularoculofaríngea(OPMD):7ptosebilateral

lentamenteprogressiva;fraquezademembrosproximais;e

disfagiaprogressiva.

Osautoresdescrevemqueosachadosacimatêm

apare-cimentotardio;namiopatiaoculofaríngeadistal(OPDM),o

surgimentodossintomasocorredemodoprecoce(entre15

e20anos),einicialmentemanifestam-secomfraquezados

músculostibiaisanterioresouptosebilateral.7

Referemtambémqueémuitomarcantenessespacientes

ahipotoniadosmúsculosdafaceedosmúsculosextrínsecos

oculares emgrau intenso,que causaptosee limitac¸ãoda

movimentac¸ãoocularefacial,ocorreemgraumaisgravee

precocedoquenoscasosdeOPMD.7

Minamietal.8fazemreferênciaarelatosnaliteraturade

casosdeOPMD(distrofiamuscularoculofaríngea)nosquais

osmúsculosdistaisestãoacometidosequeapenasao

anali-saressascaracterísticasclínicasseriaextremamentedifícil

distingui-lasdoscasosdeOPMD(miopatiaoculofaríngea

dis-tal).

Nesseestudo,aoavaliarogenePABPN1,obtiveram

resul-tadosquanto àpresenc¸a derepetic¸ões dos paresdebase

‘GCG’presentesnaOPMD.8

No caso clínico aquiapresentado, o paciente iniciou o

quadrodeptosepalpebralemidadeprecoce,aos36anos.

Além disso, apresentou alterac¸ões musculares na face,

musculaturaextrínseca dos olhos,mão direita e membros

inferiores.

Conjuntamentecomoquadrodisfágico,ossinaise

sinto-masacimadescritosorientamparaumpossíveldiagnóstico

deOPDM.Contudo,houveoacometimentodamusculatura

proximal(cinturaescapularepélvica),oquetornoupossível

odiagnósticodeOPMD.

Abiópsiadefragmentotecidualdomúsculodeltoidedo

paciente permitiudetecc¸ãode fibrasmusculares atróficas

Figura4 Vacúolostiporimmed embiópsiademúsculo del-toide(colorac¸ãodeGomorimodificada,comaumentode350×).

poligonaisedevacúolosdotiporimmed

intrasarcoplasmáti-cos.Apresenc¸adevacúolosdotiporimmedécaracterística

deambas asdoenc¸as, é impossível a diferenciac¸ão entre

OPMDouOPDM(figs.4e5).

Infelizmente,emnossoservic¸o,atéopresentemomento,

nãodispomosdeexamesgenéticosparaauxíliodiagnóstico.

ComojáprevistoporMinami,8nãofoipossíveldiferenciaras

duasdoenc¸as(OPMDeOPDM)somentecomasinformac¸ões

clínicasdisponíveis.

Quantoàdisfagiaapresentadapelopaciente,apesarda

evoluc¸ão progressiva apresentada por ambas as doenc¸as,

que culminaram com disfagia grave e pneumonias

aspi-rativas frequentes, optou-se pela conduta clínica, pois

apresentava disfagia orofaríngea moderada e sialorreia:

fonoterapiadeglutitória;exercíciosparamelhorara

motrici-dadeoral;mudanc¸adaconsistênciaalimentar;exerostomia

químicacomaplicac¸ãodetoxinabotulínica.

Comoatéomomentonãoexistetratamentoparaambas

asdoenc¸as(OPMDeOPDM),aterapêuticadevese

concen-trarnaadequac¸ãodosdéficitsapresentados,comoobjetivo

demelhorqualidadedevida.

A introduc¸ão da fonoterapia deglutitória tem como

intuito, além de melhorar a dinâmica deglutitória, a

correc¸ão de posturas indesejadas. Tanto a retroflexão da

(4)

238 MaedaMYetal.

cabec¸acomoa contrac¸ão domúsculo frontalsão

conheci-dosmecanismoscompensatórios paraacorrec¸ãodaptose

palpebral,cujaac¸ãotemumefeitonegativonadeglutic¸ão,

o que agravaa disfagia preexistente. Uma leve flexão da

cabec¸a podemelhorara fase orofaríngea dadeglutic¸ão e

diminuirotempodasrefeic¸ões,aquantidadederesíduose

oriscodeaspirac¸ão.9

O usode toxinabotulínica em glândulas salivares teve

comoobjetivoadiminuic¸ãodaproduc¸ãosalivar,fazercom

queopacientetivessemenorvolumeparadeglutir.

Opacientecontinuaemacompanhamentodadisfagiaaté

opresentemomento.

Conclusão

Comopresentetrabalho,foipossívelapresentaredescrever

umcasoclínicodedoenc¸aneuromuscularrara,cujoimpacto

noprocessodeglutitórioéimportante.

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

Referências

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Imagem

Figura 1 Paciente em vista frontal.
Figura 4 Vacúolos tipo rimmed em biópsia de músculo del- del-toide (colorac ¸ão de Gomori modificada, com aumento de 350×).

Referências

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