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Rev. Bras. Anestesiol. vol.67 número3

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Academic year: 2018

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REVISTA

BRASILEIRA

DE

ANESTESIOLOGIA

PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologia

www.sba.com.br

ARTIGO

CIENTÍFICO

Efeitos

do

aumento

de

pressão

positiva

ao

final

da

expirac

¸ão

sobre

a

microcirculac

¸ão

sublingual

em

pacientes

com

síndrome

do

desconforto

respiratório

agudo

Nathaly

Fonseca

Nunes,

Antônio

Tonete

Bafi

,

Eduardo

Souza

Pacheco,

Luciano

Cesar

Pontes

de

Azevedo,

Flavia

Ribeiro

Machado

e

Flávio

Geraldo

Rezende

Freitas

UniversidadeFederaldeSãoPaulo(Unifesp),HospitaldeSãoPaulo,DisciplinadeAnestesiologia, DoreTerapiaIntensiva,SãoPaulo,SP,Brasil

Recebidoem21demaiode2015;aceitoem5deoutubrode2015 DisponívelnaInternetem2demarçode2017

PALAVRAS-CHAVE

Síndrome dodesconforto respiratório doadulto; Pressãopositiva expiratóriafinal; Microcirculac¸ão; Hemodinâmica; Choque; Ventiladores mecânicos

Resumo

Objetivo:Oobjetivodesteestudofoiavaliaroimpactodoaumentodepressãopositivanofim daexpirac¸ão(PEEP)sobreamicrocirculac¸ãosublingual.

Métodos: Ospacientes adultos que foram sedados,sob ventilac¸ão mecânica,com diagnós-ticodechoquecirculatórioesíndromedodesconfortorespiratórioagudoforamincluídos.O níveldaPEEPfoiestabelecidoparaobterumapressãodeplatôde30cmH2Oedepoismantido

nessenívelpor20minutos.Asvariáveisdemicrocirculac¸ão(obtidapormicroscopiadevídeo) ehemodinâmicaforamregistradasnafasebasalecomparadascomaquelasnofimde20min. Resultados: Dozepacientesforamincluídos.Emgeral,osparâmetrosdamicrocirculac¸ãonão apresentaram alterac¸ões significativasapóso aumentoda PEEP.Porém, houve considerável variabilidadeinterindividual.Houveumacorrelac¸ãonegativa,moderada,entreasalterac¸ões noescoredeDeBacker(r=-0,58,p=0,048),nadensidadetotaldovaso(r=-0,60,p=0,039)e nosvaloresbasais.Asalterac¸õesnadensidadetotaldovaso(r=0,54,p=0,07)enadensidade dovasoperfundido(r=0,52,p=0,08)apresentaramtendênciadecorrelac¸ãocomasalterac¸ões napressãoarterialmédia.

Conclusão:Emgeral,osparâmetrosdamicrocirculac¸ãonãoapresentaramalterac¸ões signifi-cativasapósoaumentodaPEEP.Noentanto,individualmente,essarespostafoiheterogênea. Asalterac¸õesnosparâmetrosdamicrocirculac¸ãopuderamsercorrelacionadascomosvalores basaisealterac¸õesnapressãoarterialmédia.

©2016SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eum artigoOpen Accesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Autorparacorrespondência.

E-mail:[email protected](A.T.Bafi). http://dx.doi.org/10.1016/j.bjan.2017.02.002

(2)

KEYWORDS

Adultrespiratory distresssyndrome; Positive

end-expiratory pressure; Microcirculation; Hemodynamics; Shock;

Mechanical ventilators

Effectsofthepositiveend-expiratorypressureincreaseonsublingual microcirculationinpatientswithacuterespiratorydistresssyndrome

Abstract

Objective: Theaimofthisstudywastoevaluatetheimpactofincreasedpositiveend-expiratory pressureonthesublingualmicrocirculation.

Methods:Adultpatientswhoweresedated,undermechanicalventilation,andhada diagno-sisofcirculatoryshockandacuterespiratory distresssyndromewereincluded. Thepositive end-expiratorypressurelevelwassettledtoobtainaplateaupressureof30cmH2Oandthen

maintained atthislevelfor 20minutes.Microcirculatory (obtainedbyvideomicroscopy) and hemodynamic variableswere collectedat baselineand compared withthose attheend of 20min.

Results:Twelvepatientswereenrolled.Overall,themicrocirculationparametersdidnot sig-nificantly changeafter increasing thepositive end-expiratory pressure.However, therewas considerableinterindividualvariability.Therewasanegative,moderatecorrelationbetween the changes in the De Backer score (r=-0.58, p=0.048), total vessel density (r=-0.60,

p=0.039)andbaselinevalues.Thechangesintotalvesseldensity(r=0.54,p=0.07)and perfu-sedvesseldensity(r=0.52,p=0.08)trendedtowardcorrelatingwiththechangesinthemean arterialpressure.

Conclusion: Overall,themicrocirculationparametersdidnotsignificantlychangeafter incre-asing thepositive end-expiratory pressure.However, atindividuallevel, such responsewas heterogeneous.Thechangesinthemicrocirculationparameterscouldbecorrelatedwiththe baselinevaluesandchangesinthemeanarterialpressure.

©2016SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.Publishedby ElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Introduc

¸ão

Em pacientes com síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), moderada ou grave, uma estratégia de ventilac¸ão combase em níveismaisaltosem vez demais baixos da pressão positiva no fim da expirac¸ão (PEEP) é recomendada.1,2APEEPresultaemrecrutamentoalveolar,

reduc¸ão doshunt e aumentodapressão parcialde oxigê-nio(PaO2).2Noentanto,osefeitosextrapulmonaresdeuma

PEEP elevada podem limitar essa abordagem. Os efeitos sobreahemodinâmicaeo fluxosanguíneoregionalsãoas principaispreocupac¸ões.3

Oobjetivofinaldasintervenc¸õesrespiratóriase hemodi-nâmicasérestaurarumaperfusãotecidualeficazefornecer oxigênio para manter o metabolismo celular. Portanto, a avaliac¸ão damicrocirculac¸ãopodemelhorara nossa com-preensão dos efeitos das terapias, além de restaurar a hemodinâmica sistêmica.4 Alterac¸ões no fluxo sanguíneo

microvascularsãomecanismossubjacentesqueestão envol-vidosnodesenvolvimentodedisfunc¸ãodemúltiplosórgãos e, eventualmente,morte.5 Váriosestudos mostraramque

alterac¸õesgravesepersistentesnamicrocirculac¸ãosão for-tespreditivosdodesfecho.6---9Alterac¸õesnamicrocirculac¸ão

podemestarpresentesmesmoquandoosparâmetros hemo-dinâmicosglobaissãoaprimorados.10Essesachadossugerem

que objetivar a microcirculac¸ão é uma abordagem lógica para as intervenc¸ões que visam a melhorar a perfusão tecidual.4

Estudos clínicosqueinvestigamasalterac¸õesde perfu-sãoregional induzidaspela PEEP como uso dediferentes ferramentas tiveram como foco a área esplâncnica e

apresentaramresultadosconflitantes.11---13 Comoosefeitos

microcirculatóriosdaPEEPnãoforamestabelecidos,o obje-tivodesteestudofoiavaliaroimpactodoaumentodosníveis daPEEPsobreosparâmetrosdamicrocirculac¸ãosublingual comousodevideomicroscopia.

Métodos

Esteestudofoifeitoem umaunidadedeterapiaintensiva (UTI)mista,com35leitos,deumhospitaluniversitárioentre julhode2011 eoutubro de2012.OComitêdeÉticalocal aprovouoestudoeosparentesmaispróximosdos pacien-tesassinaramostermosdeconsentimentoinformadopara permitiracoletadedados.

Os pacientes adultos com SDRA que foram mecanica-mente ventilados com uma pressão de platô≤25cm H2O

e PEEP≤10cm H2O, bem como com uma indicac¸ão de

aumentodaPEEPpelomédicoresponsável,foramincluídos. Todosospacientesrecebiamsedac¸ãocomgrau6naescala deRamsay, haviam desenvolvido choque circulatório com necessidade de vasopressor e monitorac¸ão hemodinâmica comcateter deartéria pulmonare cateter arterial. SDRA foi definida de acordo com a Conferência de Consenso.14

Oscritériosdeexclusãoforamgravidez,hipertensão intra-craniana,síndromede compartimentoabdominal elesões orais.Tambémexcluímosospacientesnosquaisaprincipal causadechoquecirculatóriofoisangramentoativo(suspeito ouconfirmado)ouchoquecardiogênico,oqualfoidefinido comoumíndicecardíaco(IC)<1,8L.min−1.m−2semsuporte

(3)

Intervenc¸ões

Ospacientesselecionadosforamventiladosmecanicamente (Vela,Viasys,PalmSprings,CA,EUA),comomodovolume controlado.Ovolumecorrentefoiajustadopara6mL·kg---1

(com base no peso corporal previsto do paciente) e não houve alterac¸ões nos outros parâmetros ventilatórios. A complacênciaestáticadosistemarespiratóriofoicalculada apósumapausa inspiratória de2segundos (s). Cada paci-entefoiobservadopor10minutos(min)antesdasalterac¸ões na PEEP paragarantir que nãohouvesse variac¸ões signifi-cativas nos parâmetros hemodinâmicos e ventilatórios. O níveldaPEEPfoientãoaumentadoparaobterumapressão deplatô de 30cmH2O (medida após umapausa

inspirató-ria de2s). A PEEP foi mantida a esses níveis por 20min. Duranteo períododeestudo,asdosesdosagentes sedati-vos,inotrópicosevasopressorespermaneceramconstantes. Casohouvesseumaquedadapressãoarterialmédia(PAM) abaixode65mmHg,doICabaixode50%oudaoximetriade pulsoabaixode90%duranteesseperíododeobservac¸ão,a intervenc¸ãoseriainterrompida.Apósoprotocolo,omédico responsávelajustouoníveldaPEEP.

Os parâmetros hemodinâmicos, ventilatórios e micro-circulatórios foram medidos na fase basal (T0) e imedia-tamente após o período de 20min (T1). O IC foi medido comatécnicadetermodiluic¸ãosemicontínua,que conside-rouamédiadosvaloresdequatromensurac¸õesconsecutivas nateladomonitorVigilance®(EdwardsLifesciences,Irvine, CA,EUA)emmodoSTAT.Todasaspressõesforam determi-nadasnofimdaexpirac¸ãocomo níveldereferência zero estabelecidodoquartoaoquintoespac¸ointercostalaolongo dalinhaaxilarmédia.

Avaliamosaredemicrovascularsublingualcomométodo deimagem SidestreamDark Field(SDF)(Microscan; Micro-Vision Medical, Amsterdam, Holanda). Resumidamente, o Microscan é umsistema portátil de videomicroscopia que iluminaotecidodeinteressecomumaluzverde estrobos-cópica(530nm)queemitediodos.Ahemoglobinaabsorvea luzdecomprimentodeondade530nm, que,porsuavez, écapturadaviaumguiadeluzdasondadeimagemeuma câmaradedispositivodecargaacoplada.Asimagensclaras dofluxo de hemáciassão retratadas como glóbulos escu-rosem movimento nolúmen dos vasossanguíneos contra umfundo branco/acinzentado. As técnicasrecomendadas paragarantirimagensdealtaqualidadeforamadotadas.15

Após a remoc¸ão de saliva e secrec¸ões orais, a sonda foi aplicadasobreamucosa.Emcadamomentoestabelecido, trêsvídeosforamgravadosemdiferenteslocaisnabaseda língua, durante pelo menos 10s por local. Atenc¸ão espe-cialfoidedicadaparaevitarartefatosdepressãomediante observac¸ão dofluxo em andamento nos microvasos maio-res.TodososvídeosforamobtidoscomoprogramaAVA3.0® (MicrovisionMedical,Amsterdam,Holanda), consideraram--separaasanálisesosvasoscomdiâmetroinferiora20␮m

(pequenosvasos).Asequênciainteirafoiusadapara distin-guirascaracterísticassemiquantitativasdofluxosanguíneo microvascular,especialmenteapresenc¸adefluxo interrom-pidoouintermitente.Asequênciadistingueentreausência defluxo(0),fluxointermitente(1),fluxolento(2)eofluxo contínuo(3).Umvalorfoiatribuídoparacadavaso.Apósa estabilizac¸ãodasimagenscomoprogramaAVA3.0, determi-namosoíndicedefluxomicrocirculatório(MFI),adensidade

totaldovaso(TVD),aproporc¸ãodevasosperfundidos(PPV), o escore de De Backere a densidade do vaso perfundido (PVD),comopreviamentedescrito.15Ospesquisadores(ATB

eNFN),cegadosparaoestudo,analisaramtodasasimagens emordemrandomizada.

Análiseestatística

Anossaproposic¸ãofoiumareduc¸ãomédiade0,5eumdesvio padrãodadiferenc¸ade0,5noMFIapósumaumentodaPEEP paracalcularo tamanhodaamostranecessáriopara com-pararduasamostraspareadas(níveldesignificânciade5% e poderde80%). Otamanhonecessário daamostrafoide 10pacientese,paracorrigiropotencialdedistribuic¸ãonão paramétricadavariável,ajustamosotamanhodaamostra para12pacientes.

Os dados foram expressos em números (%) ou media-naseintervalosinterquartis(percentil25a75).Testesnão paramétricosforamusadosdevidoaopequenotamanhoda amostra.Asvariáveishemodinâmicas,respiratóriase micro-circulatóriasforamcomparadasemT0eT1comotestede Wilcoxonpareado.Análisesadicionaisforamfeitaspara tes-taracorrelac¸ãolinearentreasvariáveismicrocirculatórias na fase basal e suas alterac¸ões após o aumento daPEEP (MFI,TVD,PPV,PVDeescoredeDeBacker),como testedecorrelac¸ãodeSpearman.

Usamos o programa estatístico SPSS versão 17.0 para Windows(SPSS Inc.,Chicago,IL, EUA).Osresultados com valoresdep<0,05foramconsideradossignificativos.Parao cálculodotamanhodaamostra,oprogramaMedCalc14.12.0 (MedCalcSoftwarebvba,Bélgica)foiusado.

Resultados

DozepacientescomSDRAechoquecirculatório,commédia de68anos(50,25-76,50),foramincluídos.Choqueséptico foiacausamaiscomumdeadmissãoemUTI.Osprincipais dadosclínicossãoapresentadosnatabela1.

Oaumento médiodos níveis da PEEP paraatingir uma pressãodeplatôde30cmH2Ofoide7,5(6,0-10,0)cmH2O.

ApósoaumentodaPEEP,dezpacientesapresentaramqueda doICe nove daPAM.Aumentar osníveisdaPEEP levou a umaumentosignificativodaPaO2(p=0,05);porém,houve

umareduc¸ãosignificativadaofertadeoxigênio(p=0,01).As variáveishemodinâmicaserespiratóriassãoapresentadasna tabela2.

Emgeral,osparâmetrosdamicrocirculac¸ãonãovariaram deformasignificativaapósumaumentodaPEEP(tabela3). No entanto, houve uma considerável variabilidade inte-rindividual. As alterac¸ões individuais nos parâmetros da microcirculac¸ãosãoapresentadasnafigura1.Doispacientes apresentaram quedas dramáticas na PPV. Esses pacien-tes também apresentaram reduc¸ão importante do IC e daPAM.

Houveuma correlac¸ão negativa, moderada,entreDe Backer (r=-0,58, p=0,048) e TVD (r=-0,60, p=0,039) e seus valores basais. Esse não foi o caso de MFI (r=-0,29, p=0,36) ou PPV (r=-0,48, p=0,12). Houve uma tendência de correlac¸ão negativa entre PVD (r=−0,57, p=0,05) e o valor basal. Curiosamente, TVD

(4)

Tabela1 Característicasdospacientes

Variáveis (n=12)

Idade,anos 68,0(50,2-76,5)

Sexo(masc.) 7(58,3)

InclusãodeSofa 15(13-17)

EscoreApacheII 27(20-34)

Categoriadeinternac¸ão

Choquepós-operatório 4(33,3)

Choqueséptico 8(66,7)

Localdeinfecc¸ão

Pneumonia 3(25,0)

Infecc¸ãointra-abdominal 3(25,0)

Infecc¸ãodotratourinário 2(16,6) Infecc¸ãorelacionadaaocateter 1(8,3) Drogasvasoativas

Norepinefrina 12(100)

Dobutamina 5(41,6)

Epinefrina 2(16,6)

Índicedemassacorporal,kg.m2 23,0(21,8-24,8)

Mortalidadehospitalar 8(66,7)

Apache II: Acute Physiological Chronic Health Evaluation

(avaliac¸ãodafisiologiaagudaedoestado crônico desaúde); Sofa:SequentialOrganFailureAssessment(avaliac¸ão sequen-cialdafalênciadeórgãos).Resultadosexpressosemnúmero(%) oumediana(25%-75%).

tendênciadecorrelac¸ãocomasalterac¸õesdaPAM.Nenhuma outracorrelac¸ãofoiobservadaentreasalterac¸õesnos parâ-metrosdamicrocirculac¸ãoeasalterac¸õesnahemodinâmica sistêmicaoualterac¸õesnosníveisdaPEEP.

Discussão

Descobrimos que houve variac¸ão considerávelnas respos-tasindividuaisdamicrocirculac¸ãosublingualaosaumentos na PEEP, embora não tenha havido alterac¸ões globais. As alterac¸ões induzidas pela PEEP nos parâmetros da microcirculac¸ão se correlacionaram com osvalores basais nosescoresdaTVDedeDeBacker.Alémdisso,houveuma tendênciade correlac¸ão entre asalterac¸ões na PAM e as alterac¸õesnaPVDeTVD.

Emgeral,nãohouvealterac¸ãosignificativanos parâme-tros damicrocirculac¸ão após o aumento da PEEP.Porém, avariabilidadeinterindividualconsiderávelsugerea neces-sidadedeestudosadicionaisque visam acompreender os fatoresqueinfluenciamasvariac¸õesindividuaisdaresposta. Osmecanismosenvolvidosnasalterac¸õesdamicrocirculac¸ão após o aumento da PEEP provavelmente incluíram outros fatoresalémdahemodinâmicasistêmica.Ospapéisda pres-são intraabdominal,16 da atividade neuro-humoral,17 dos

sinaismetabólicosdependentesdeoxigênio,18dopotencial

efeitodoaumentodosníveisdaPEEPsobreapressãovenosa central19 e das alterac¸ões induzidas pela sepse no fluxo

sanguíneodosórgãosnãopodemsernegligenciados.20O

con-troledofluxosanguíneonamicrocirculac¸ãoéumfenômeno muitocomplexoeasrespostasaltamenteheterogêneosem níveldepacienteemnossoestudopoderiamserexplicadas pelasinterac¸õesdemúltiplosfatores.21

Nosso estudo foi o primeiro a avaliar as respostas da microcirculac¸ão sublingual aosaumentos na PEEP.Porém, estudos anteriores examinaram os efeitos da PEEP sobre aperfusão regional com outrasferramentas. Bruhn etal. mostraramqueumaPEEPde10-20cmH2Onãoafetoua

per-fusãoda mucosa gástrica medida por tonometria gástrica efoihemodinamicamentetoleradanamaioriados pacien-tescomSDRAincluídosnoestudo.12Kieferetal.relataram

queumaumentodaPEEP de5cmH2Onãoteveumefeito

Tabela2 Alterac¸õesdasvariáveishemodinâmicas,respiratóriasemetabólicasapósumaalterac¸ãodaPEEP

Variáveis Fasebasal ApósPEEP p-valor

FC,bpm 100,50(92,50-111,25) 98,50(91,50-114,50) 0,710

IC,L.min-1.m-2 3,71(3,45-5,00) 3,45(2,65-4,52) 0,005

PAM,mmHg 78,50(75,25-86,00) 77,00(68,25-85,00) 0,100

PVC,mmHg 12,00(7,25-13,75) 13,00(9,75-16,00) 0,004

mPAP,mmHg 24,00(18,50-37,75) 26,50(23,25-35,50) 0,110

PAPO,mmHg 9,90(8,15-13,50) 13,90(12,92-16,25) 0,008

PP,% 3,75(2,37-7,35) 6,50(3,20-13,00) 0,009

RazãoPaO2/FiO2 163,50(126,42-228,66) 205,00(154,13-238,57) 0,070

PaO2,mmHg 88,00(80,50-108,50) 101,50(89,05-119,00) 0,050

Volumecorrente,mL 467,50(438,75-557,50) 467,50(438,75-557,50) 1,000

PEEP,cmH2O 7,00(5,00-9,50) 15,00(14,25-19,00) 0,002

SvO2,% 75,50(64,40-81,22) 75,60(62,62-83,12) 0,630

Lactato,mg.dL−1 30,00(26,25-49,25) 28,00(17,50-44,25) 0,640

DO2,mL.min−1 855,53(532,81-1044,77) 781,39(504,55-970,11) 0,010

VO2,mL.min−1 192,83(161,60-231,00) 180,65(151,73-202,72) 0,230

Complacência,mL.cm-1H

2O 35,89(24,31-44,16) 35,85(24,31-44,64) 0,480

DO2,ofertadeoxigênio;FC,frequência cardíaca;FiO2,frac¸ãoinspiradadeoxigênio;IC,índicecardíaco;mPAP,pressão daartéria

pulmonar;PAM,pressãoarterialmédia;PaO2,pressãoparcialdeoxigênio;PAPO,pressãodaartériapulmonarocluída;PEEP,pressão

positivanofimdaexpirac¸ão;PVC,pressãovenosacentral;PP,variac¸ãodapressãodepulso;SvO2,saturac¸ãovenosamistadeoxigênio;

(5)

Tabela3 Alterac¸õesnasvariáveisdamicrocirculac¸ãoapósumaalterac¸ãonaPEEP

Variável Fasebasal ApósPEEP p-valor

TVD,mm.mm−2 13,51(12,64-15,24) 14,95(11,80-15,63) 0,875

PVD,mm.mm−2 11,25(10,06-14,24) 11,87(10,26-13,09) 0,583

PPV,% 83,14(77,72-91,48) 81,02(77,25-87,26) 0,695

DeBacker,n.mm−2 9,50(8,73-10,24) 9,60(8,09-10,40) 0,875

MFI 2,62(2,28-2,75) 2,55(2,28-2,75) 0,799

MFI,índicedefluxodamicrocirculac¸ão;PEEP,pressãopositivanofimdaexpirac¸ão;PPV,proporc¸ãodevasosperfundidos;PVD,densidade dovasoperfundido;TVD,densidadetotaldovaso.Dadosexpressosemmediana(25%-75%).TestedeWilcoxonpareado.

25

20

15

10

T0 T1

T0 T1 T0 T1

T0 T1 T0 T1

TVD mm.mm

–2

PVD mm.mm

–2

PPV %

De Bac

k

er n.mm

–1

MFI

100

90

80

70

60

50

20

15

10

15

10

3

2

1

Figura1 Comportamentoindividualdosparâmetrosmicrovascularessublinguais(T0,fasebasal;T1,apósoaumentodaPEEP; MFI,índicedefluxodamicrocirculac¸ão;TVD,densidadetotaldovaso;PPV,proporc¸ãodevasosperfundidos;PVD,densidadedos vasosperfundidos).

consistentesobreofluxo sanguíneoesplâncnico eo meta-bolismoquandooíndicecardíacoestavaestável.13Emoutro

estudo,noentanto,aumentos de5a 15cmH2Odos níveis

daPEEPinduziramumdecréscimododébitocardíacocom quedaconcomitantedasaturac¸ãodeO2naveiahepáticae

daproduc¸ãohepáticadeglicose.11Dadosdeestudos

expe-rimentais sugerem que o efeito da PEEP sobre o sangue esplâncnico depende da dose e que geralmente podeser revertidocomamanutenc¸ãodahemodinâmicasistêmica.3,22

Infelizmente, o pequeno tamanho de nossa amostra não permite análises estatísticas adicionais para deter-minar o comportamento da microcirculac¸ão no subgrupo depacientes com comprometimento hemodinâmico. Con-tudo, observamos uma tendência na correlac¸ão entre as alterac¸ões da PAM e da microcirculac¸ão sublingual; os pacientes com reduc¸ão da PAM após um aumento da PEEP apresentaram reduc¸ão daperfusão microvascular.A grande maioria dos estudos com videomicroscopia para avaliar intervenc¸ões terapêuticas relatou que os efeitos da microcirculac¸ão sublingual foram relativamente inde-pendentes dos efeitos sistêmicos.8,23,24 Porém, algumas

evidênciassugeremqueamicrocirculac¸ãonãoétotalmente dissociadadahemodinâmicasistêmicaealterac¸õesna per-fusãodamicrocirculac¸ãopodemcorresponderaalterac¸ões

na PAM.23,25---27 Vale mencionar que não descobrimos

qual-quercorrelac¸ãoentreasalterac¸õesnoíndicecardíacoeas alterac¸õesnasvariáveismicrocirculatórias.

Não podemos descartar a possibilidade de que as alterac¸ões entre as mensurac¸ões podem ser variac¸ões aleatórias associadas à técnica SDF ou um fenômeno estatístico.28 Porém,acorrelac¸ãonegativa entreas

variá-veismicrocirculatóriaseseusvaloresbasaisfoisignificativa para TVD e escore de De Backer e tendeu a ser signifi-cativa para PVD.Curiosamente, alguns estudosrelataram que essasalterac¸ões podemestar correlacionadascom os valores basais. Nasepse, a respostadamicrocirculac¸ão à noradrenalinadepende do estadomicrocirculatório basal; adensidadedoscapilaresperfundidosmelhorounos pacien-tesqueapresentaramperfusãosublingualalteradanafase basal.23Oaumentodofluxosanguíneomicrocirculatóriofoi

inversamentecorrelacionadocomosníveisbasaisnos paci-entescomchoquesépticoapós12horasdehemofiltrac¸ãode altovolume.29Aalterac¸ãonaperfusãocapilarapósa

trans-fusãodehemáciasfoicorrelacionadacomaperfusãocapilar basalemelhorounospacientescomperfusãocapilar alte-radanafasebasal.30Nossosresultadosestãodeacordocom

(6)

sublingualmaisbaixanafasebasal,enquantodiminuiunos pacientes comfluxo sanguíneomicrovascular maior. Esses resultadosprecisamserconfirmadosporestudosadicionais. Nosso estudo tem outras limitac¸ões além do pequeno tamanhodaamostra.Operíododeestudofoicurtoe avali-amosamicrocirculac¸ãosublingualemapenasummomento após os aumentos da PEEP. Portanto, os resultados não podem ser extrapolados para alterac¸ões prolongadas da PEEP.Nossoestudotambémnãocontoucomumgrupo con-trole e, por fim, não avaliamos o impacto da elevac¸ão gradualdaPEEPeusamosumvalorvariáveldePEEP.

Conclusão

Houveumavariac¸ãoconsiderávelnasrespostasindividuais damicrocirculac¸ãosublingualaoaumentodaPEEP,embora nãotenhahavidoalterac¸õesglobaisnosparâmetros micro-circulatóriossublinguais.Porém,asalterac¸õesna perfusão da microcirculac¸ão podem estar correlacionadas com os valoresbasaisealterac¸õesnaPAM.

Financiamento

Este estudo foi totalmente subsidiado pela Fundac¸ão de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp ---2010/50096-6).

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

Referências

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Tabela 2 Alterac ¸ões das variáveis hemodinâmicas, respiratórias e metabólicas após uma alterac ¸ão da PEEP
Figura 1 Comportamento individual dos parâmetros microvasculares sublinguais (T0, fase basal; T1, após o aumento da PEEP;

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