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ARTIGO
DE
REVISÃO
Autism
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aaIRCCSInstituteofNeurologicalSciencesofBologna,ChildNeurologyandPsychiatryUnit,Bologna,Itália bUniversityofBologna,DepartmentofBiomedicalandNeuromotorSciences,Bologna,Itália
Recebidoem23deagostode2016;aceitoem13desetembrode2016
KEYWORDS
Autismspectrum disorder; Neurobiology; Epidemiology; Environmental factors; Airpollutants; Epigenetics
Abstract
Objective: Autism spectrum disorders are lifelong and often devastating conditions that severelyaffectsocialfunctioningandself-sufficiency.Theetiopathogenesisispresumably multi-factorial,resultingfromaverycomplexinteractionbetweengeneticandenvironmentalfactors. Thedramaticincreaseinautismspectrumdisorderprevalenceobservedduringthelastdecades hasledtoplacingmoreemphasisontheroleofenvironmentalfactorsintheetiopathogenesis. Theobjectiveofthisnarrativebiomedicalreviewwastosummarizeanddiscusstheresultsof themostrecentandrelevantstudiesabouttheenvironmentalfactorshypotheticallyinvolved inautismspectrumdisorderetiopathogenesis.
Sources: A search was performed in PubMed (United States National Library of Medicine) abouttheenvironmentalfactorshypotheticallyinvolvedinthenon-syndromicautismspectrum disorderetiopathogenesis,including:airpollutants,pesticidesandotherendocrine-disrupting chemicals,electromagneticpollution,vaccinations,anddietmodifications.
Summaryofthefindings: Whiletheassociationbetweenair pollutants,pesticidesandother endocrine-disruptingchemicals,andriskfor autismspectrumdisorderisreceivingincreasing confirmation,thehypothesisofarealcausalrelationbetweenthemneedsfurtherdata.The possiblepathogenicmechanismsbywhichenvironmentalfactorscanleadtoautismspectrum disorderingeneticallypredisposedindividualsweresummarized,givingparticularemphasisto theincreasinglyimportantroleofepigenetics.
Conclusions: Future researchshould investigate whetherthereis asignificantdifference in the prevalenceofautismspectrum disorderamongnations withhigh andlowlevelsofthe varioustypesofpollution.Averyimportantgoaloftheresearchconcerningtheinteractions betweengeneticandenvironmentalfactorsinautismspectrumdisorderetiopathogenesisisthe identificationofvulnerablepopulations,alsoinviewofproperprevention.
©2016SociedadeBrasileiradePediatria.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisanopen accessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/ 4.0/).
DOIserefereaoartigo:
http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2016.09.002
夽 Comocitaresteartigo:PosarA,ViscontiP.Autismin2016:theneedforanswers.JPediatr(RioJ).2017;93:111---9.
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](A.Posar).
2255-5536/©2016SociedadeBrasileiradePediatria.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCC
PALAVRAS-CHAVE
Transtornodo espectroautista; Neurobiologia; Epidemiologia; Fatoresambientais; Poluentes
atmosféricos; Epigenética
Autismoem2016:necessidadederespostas
Resumo
Objetivo: Ostranstornosdoespectroautista(TEAs)sãovitalíciosenormalmentesãodoenc¸as devastadorasqueafetamgravemente ofuncionamentosocial eaautossuficiência.A etiopa-togeniaépresumivelmentemultifatorial,resultantedeumainterac¸ãomuitocomplexaentre fatoresgenéticoseambientais.OaumentodrásticonaprevalênciadeTEAsobservadonas últi-masdécadaslevouàmaiorênfasenopapeldosfatoresambientaisnaetiopatogenia.Oobjetivo destaanálisedanarrativabiomédicafoiresumirediscutirosresultadosdosestudosmais recen-teserelevantessobreosfatoresambientaishipoteticamenteenvolvidosnaetiopatogeniados TEAs.
Fontes: FoifeitaumapesquisanaBibliotecaNacionaldeMedicinadosEstadosUnidos (Pub-Med)sobreosfatoresambientaishipoteticamenteenvolvidosnaetiopatogeniadosTEAsnão sindrômicos,inclusivepoluentesatmosféricos,pesticidaseoutrosdesreguladoresendócrinos, poluic¸ãoeletromagnética,vacinasealterac¸õesnadieta.
Resumodosachados: Emboraaassociac¸ãoentrepoluentesatmosféricos,pesticidaseoutros desreguladoresendócrinoseoriscodeTEAtenharecebidocadavezmaisconfirmac¸ões,a hipó-tesedeumarelac¸ãocausalrealentreelesaindaprecisademaisdados.Ospossíveismecanismos patogênicospormeiodosquaisosfatoresambientaispodemcausarTEAemindivíduos geneti-camentepredispostosforamresumidos,comênfaseespecialnopapelcadavezmaisimportante daepigenética.
Conclusões: Futuraspesquisasdeveminvestigarseháumadiferenc¸asignificativana prevalên-ciadeTEAentrenac¸ões comníveis altos ebaixosde váriostiposdepoluic¸ão.Umobjetivo muitoimportantedapesquisaarespeitodasinterac¸õesentrefatoresgenéticoseambientais naetiopatogeniadoTEAéaidentificac¸ãodepopulac¸õesvulneráveis,tambémemvirtudeda prevenc¸ãoadequada.
©2016SociedadeBrasileiradePediatria.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigo OpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4. 0/).
Introduc
¸ão
Transtornos do espectro autista (TEAs) são vitalícios e normalmentesãodoenc¸asdevastadorasqueafetam grave-menteofuncionamentosocialeaautossuficiência,exercem umimpactomuitonegativosobreasvidasdetodaafamília dosindivíduosafetados.SegundooscritériosdoManualde DiagnósticoeEstatísticodeTranstornosMentais,5a
edic¸ão (DSM-5), os TEAs são definidos pelos déficits persistentes nacomunicac¸ãoeinterac¸ãosocial,bemcomopor compor-tamentos, interesses e atividades restritas e repetitivas.1 Presumivelmente,osTEAstêmumaetiopatogenia multifa-torialresultante de umainterac¸ão muito complexa entre fatoresgenéticos e ambientais.2,3 Apresenc¸a de um pro-blema médico definido é demonstrada em apenas uma minoriadoscasos.
Estudos epidemiológicos mostraram, nas últimas déca-das, um aumento drástico na prevalência de TEAs, que, nos últimos anos, atingiram 1-2% das crianc¸as.4 O estudo epidemiológicodeNevisonsugerequeesseaumentoé prin-cipalmentereal5e,portanto,atribuívelapenasempequena parteaumconhecimentomelhordoproblema.Esse fenô-meno precisa de mais investigac¸ão e possíveis hipóteses explicativasemtermosdesaúdepública.Obviamente,não podemos explicar esse aumentode prevalência com base apenas em fatores genéticos e devemos considerar com cuidadoopapeldepossíveisfatoresambientais. Primeira-mente, devemos tentar entender o que mudou em nosso ambienteenossoshábitosnessasúltimasdécadas.Na lite-ratura,diversashipótesesforamlevadasem considerac¸ão.
Nestaanálise,fizemosumasíntesedashipótesesmais intri-gantes a seguir: selecionamos toda a literatura recente (entre 1◦ de janeiro de 2013 e 20 de agosto de 2016) e relevante(preferencialmente estudoscaso-controleque envolvessem indivíduos humanos) disponívelna Biblioteca NacionaldeMedicinadosEstadosUnidos(PubMed),comas seguintespalavras-chave:‘‘autismo’’,‘‘poluentes atmosfé-ricos’’,‘‘poluic¸ão’’,‘‘pesticidas’’,‘‘desreguladores endó-crinos’’, ‘‘fatores ambientais’’, ‘‘campos eletromagnéti-cos’’,‘‘vacinas’’,‘‘ômega3’’e‘‘epigenética’’.
Poluentesatmosféricos
Nos últimos anos, o papel etiopatogênico da exposic¸ão a poluentes atmosféricos, principalmente metais pesados e material particulado (MP), durante os períodos pré-, peri-epós-natal,foiseriamenteconsideradonaliteratura, emboranãoexistamconclusõesdefinidas.Segueumabreve descric¸ãodealgunsdosmaisimportantestrabalhosrecentes nessesentido.
Becerraetal.investigaramopossívelefeitodaexposic¸ão à poluic¸ão atmosférica relacionada ao tráfego durante a gravidez sobre o desenvolvimento de autismo. Os auto-resfizeram umestudo caso-controledebasepopulacional com dados de estac¸ões de monitoramento atmosférico e
um modelo de regressão baseado no uso do solo (LUR)
Transtor-nos Mentais,4a
edic¸ão,revisão detexto (DSM-IV-TR),6 de 3-5 anos entre 1998-2009. Eles incluíram 7.603 crianc¸as comTAe10controles(pordefinic¸ão,semadocumentac¸ão do autismo) por caso, pareados por sexo, ano de nas-cimento e idade gestacional mínima. Os autores fizeram uma regressão logística condicional, ajustada por idade materna, localde nascimento, etnia e escolaridade; tipo de parto (único, múltiplo), paridade; tipo de convênio (umamedidaopcionaldasituac¸ãosocioeconômica);eidade gestacional no nascimento. Eles calcularam um aumento relativo de 12-15% nas chances de autismo por aumento do intervalo interquartil (IIQ) para ozônio e MP2,5 (MP comumdiâmetroaerodinâmico inferiora2,5m) quando ajustado mutuamente por ambos os poluentes. Ademais, eles calcularam um aumento relativo de 3-9% nas chan-cesdeTAporaumentodoIIQnasestimativasderivadasda LUR daexposic¸ão aóxidonítrico e dióxido denitrogênio. As associac¸ões derivadas da LUR foram mais consistentes para crianc¸as nascidas de mães com escolaridade infe-rioraoensinomédio.Osautores sugerirama presenc¸ade associac¸õesentreaexposic¸ãopré-natalàpoluic¸ão atmosfé-ricarelacionada,namaiorpartedotempo,aotráfegoeao autismo.7
Volk et al. examinaram a possível associac¸ão entre a poluic¸ãoatmosféricaeoautismo.Elesfizeram,na Califór-nia (EUA), um estudo caso-controle de base populacional queincluiu279crianc¸asemidadepré-escolarcomautismo (deacordocomo ProgramadeObservac¸ãoDiagnósticado Autismo[ADOS]eaEntrevistaDiagnósticadeAutismo Revi-sada[ADI-R]) e245 controlesnormais,pareados porsexo, idade e amplaárea geográfica.As razõesde chance para autismoforamajustadaspelosexoeetniadacrianc¸a,nível deescolaridadedos pais,idadematernaetabagismo pré--natal.As crianc¸as comautismo, durantea gestac¸ãoe no primeiroanodevida,mostraram-semaissuscetíveisamorar em casascomo quartilmaisaltodeexposic¸ãoà poluic¸ão atmosféricarelacionadaaotráfegoemcomparac¸ãoaos con-troles.Nosmesmosperíodos,aexposic¸ãotambémadióxido denitrogênio,MP2,5eMP10(MPcomumdiâmetro aerodinâ-micoinferiora10m)foiassociadaaoautismo.Osautores concluíram que, durante agravideze no primeiro anode vida,aexposic¸ãoàpoluic¸ãoatmosféricarelacionadaao trá-fego,dióxidodenitrogênio,MP2,5eMP10 estáassociadaao autismo.8
Jungetal.estudaram,emTaiwan,apossívelassociac¸ão entre a exposic¸ão pós-natal de longo prazo à poluic¸ão atmosféricaeorecém-diagnósticodeTEA.De2000a2010, eles fizeram um estudo de coorte de base populacional prospectivoqueconsiderou49.073indivíduoscommenosde três3anos.Nessacoorte,342crianc¸asdesenvolveramTEA, de acordo com os critérios daClassificac¸ão Internacional deDoenc¸as,9a
revisão,modificac¸ãoclínica(CID-9-MC).9As razõesderiscoforamajustadasporidade,ansiedade,sexo, deficiência intelectual, prematuridade e situac¸ão socioe-conômica.OriscodenovosdiagnósticosdeTEAaumentou deacordocomoaumentonos níveisdeozônio,monóxido decarbono,dióxidodenitrogênioedióxidodeenxofre.Os resultadosdoestudosugeremqueaexposic¸ãodascrianc¸as a esses quatro poluentes nos 1-4 anos anteriores pode aumentar o risco de desenvolvimento de TEA. Nenhuma associac¸ão foi encontrada entre MP10 e o risco de novos diagnósticosdeTEA.10
Robertsetal.estudaram,nosEUA,apossívelassociac¸ão entreaexposic¸ãoperinatalapoluentesatmosféricoseTEA. Eles estimaram associac¸ões entre os níveis de poluentes atmosféricosperigososnomomento/localdenascimentoe oTEAnascrianc¸as (325casosemcomparac¸ãocom22.101 controles)participantesdoIIEstudodeSaúdede Enfermei-ras(Nurses’HealthStudyII),coortelongitudinalprospectivo deenfermeirasrecrutadasem1989.Osautoreslevaramem considerac¸ãopossíveisvieseseajustaramasituac¸ão socioe-conômicadafamíliaedosetorcensitário,idadematernano nascimentoeanodenascimento.As exposic¸õesperinatais aomaiorquintilemcomparac¸ãocomomenorquintilde par-tículasdediesel,chumbo,manganês,níquelecádmio,bem como umamedic¸ão geral dos metais, foram significativa-menteassociadasaoTEA.Paraamaiorpartedospoluentes, a associac¸ão foi maisforte nosexo masculino do que no feminino.Osautoresconcluíramqueaexposic¸ãoperinatal apoluentesatmosféricospodeaumentaroriscode desen-volverTEAsesugeriramestudosadicionaisparaospossíveis caminhosbiológicosespecíficosdecadasexoqueassociam aexposic¸ãoapoluentesatmosféricosaosTEAs.11
elucidac¸ão do envolvimento doMP2,5 na etiopatogenia do TEA.13
Novamente, Talbott et al. Fizeram um estudo caso--controledebasepopulacionalnosudoestedaPensilvânia (EUA)paraestimar apossível relac¸ão entrea exposic¸ãoa 30neurotoxinas ambientais eo TEA.13 Osautores estuda-ram217 crianc¸as comTEAnascidas entre2005e2009 em comparac¸ãocom224controlespareadosporanode nasci-mento,sexoeetniae5.007controlesapartirdeuma amos-traaleatóriadecertidõesdenascimentocomomesmolocal denascimento.Osautorescalcularamasrazõesdechance, ajustadasporidade,escolaridade,etniaetabagismodamãe epeloanodenascimentoesexodacrianc¸a.Eles descobri-ramqueviveremáreascomníveismaiselevadosdeestireno ecromoduranteagravidezestavaassociadoaoaumentodo riscodeTEA,aopassoqueosefeitoslimítrofesforam consta-tadoscomrelac¸ãoahidrocarbonetosaromáticospolicíclicos (HAPs)ecloretodemetileno.Entretanto,combasenesses achados, não está claro se os produtos químicos mencio-nadosrepresentamfatoresderiscoemsi ouserefletemo efeitodeumamisturadepoluentes.14
Considerando que nos EUA crianc¸as com TEA parecem viveremagrupamentosespaciaiseomotivodesse agrupa-mentoédifícildedeterminardevidoavariac¸õesilimitadas de acesso a servic¸os de saúde e práticas de diagnóstico, Schellyetal.exploraramadifusãodoTEAnaCostaRica,em umpequenoambienteemquenenhumavariac¸ãonoacesso aservic¸osdesaúdeepráticasdediagnósticoestápresente. Alémdisso,naCostaRica,opotencialdeexposic¸ãoa mer-cúriodafontehipoteticamenteimplicadanoTEA(consulte asec¸ãosobreusinastermelétricas)estáausenteeasáreas comníveiselevadosdepoluic¸ãoatmosféricaestão concen-tradasespacialmente. O estudo incluiu 118 crianc¸as com TEAdiagnosticadasdeacordocomo ADOS,avaliado entre 2010-2013.Osautoresidentificaram agrupamentos espaci-aisqiesugeriamummecanismoquenãodependedefatores comoinformac¸õessobre TEA,acesso aservic¸osde saúde, práticasdediagnósticooutoxinasambientais.Osresultados verificadospeloestudonãocorroboramacausamais prová-veldeagrupamentoambiental---apoluic¸ãoatmosférica.15
Dickersonetal.Fizeramumestudoecológicoem cinco locaisdosEUA:Arizona,Maryland,NovaJersey,Carolinado SuleUtah,respectivamente.Elesverificaramaassociac¸ão, duranteosanos1990,entreaprevalênciadeTEA (diagnos-ticadodeacordocomoscritériosdoDSM-IV-TR),6nonível dosetorcensitário,eaproximidadedoscentrosdos seto-rescomasinstalac¸õesindustriaismaispróximasqueemitem arsênio,chumbooumercúrio.Elesanalisaram2.489setores censitárioscom4.486casosdeTEA,ajustaramàs caracterís-ticasdemográficasesocioeconômicasdasáreas.Osautores constataramque a prevalênciade TEAfoi aumentada em setorescensitáriosno10◦percentilmaispróximocomparado comadistânciadossetoreslocalizadosno50◦percentilmais distante. Os autores concluíram que esses achados suge-remumaassociac¸ão entrea proximidade residencialcom instalac¸õesindustriais queemitempoluentesatmosféricos eoaumentodaprevalênciadeTEA.16
Novamente,Dickersonetal.,queconsideraramamesma amostrade 4.486 crianc¸as com TEA que vivemem 2.489 setores censitários, usaram modelos binomiais negativos multinível, estudaram a possível relac¸ão entre chumbo, mercúrio e concentrac¸ões de arsênio no ar e prevalência
de TEA. Ao ajustar pelos fatores demográficos e socioe-conômicos, os setores com concentrac¸ões de chumbo no quartil mais alto apresentaram prevalência de TEA sig-nificativamente maior em comparac¸ão com setores com concentrac¸õesdechumbonoquartilmaisbaixo.Alémdisso, ossetorescomconcentrac¸õesdemercúrioacimado75◦ per-centil e concentrac¸õesdearsênio abaixo do75◦ percentil apresentaramprevalênciadeTEAsignificativamentemaior emcomparac¸ãocomsetorescomconcentrac¸õesdearsênio, chumboemercúrioabaixodo75◦percentil.Osautores suge-riramumapossívelrelac¸ãoentreconcentrac¸õesdechumbo noareprevalênciadeTEAesustentaramqueexposic¸õesa váriosmetaispodemgerarefeitossinérgicossobreo desen-volvimentodeTEA.17
Kalkbrenneret al. examinaram nos EUA a exposic¸ão a MP10nolocaldenascimentode979crianc¸ascomTEA, diag-nosticadasde acordocomo DSM-IV-TR,6 nascidasde 1994 a 2000 (645 na Carolina do Norte e 334 na Califórnia), em comparac¸ão com 14.666 controlesamostrados aleato-riamentenascidosnosmesmoscondadoseanos(12.434na CarolinadoNortee2.232naCalifórnia,respectivamente). Osautorescalcularamasrazõesdechancedeautismoem umaumentode10g/m3naconcentrac¸ãodeMP
10em perío-dosdetrêsmesesapartirdoperíodopré-concepcionalatéo primeiroaniversáriodacrianc¸a.Asrazõesdechanceforam ajustadas por ano, estado, escolaridade e idade damãe, etnia,níveldeurbanizac¸ãodobairroerendafamiliarmédia. Além disso, umtermo nãoparamétricoparaa semana de nascimentofoi incluídopararepresentar tendências sazo-nais.Osautoresconstataramqueaexposic¸ãoaMP10durante oterceirotrimestre,enãonoiníciodagestac¸ão,foi associ-adaaumriscomaiordeautismo.Osautoresindicaramque seusdadosnãopermitiramqueconhecessemacomposic¸ão doMP(MP10 surgedetráfego,fumac¸ademadeiraeusinas deenergia),masoutrapesquisanessecampoéimportante tambémparafacilitar osesforc¸osdeprevenc¸ão contraas diferentesfontesdasquaisoMPpodesurgir.18
Raz et al. examinaram nos EUA a possível associac¸ão entreaexposic¸ãodamãeaoMPeaschancesdeTEAemseu filho,fizeramumestudocaso-controleaninhadodos partici-pantesdoIIEstudodeSaúdedeEnfermeiras(Nurses’Health StudyII).11 Elesincluíram245crianc¸asdiagnosticadascom TEA,confirmadopelaADI-RepelaEscaladeResponsividade Social (ERS), e1.522 crianc¸as semTEA selecionadas alea-toriamente. Durante a gravidez,a exposic¸ão ao MP2,5 foi associadaachancesmaisaltasdeTEA,comrazãodechance ajustada(porsexodacrianc¸a,anodenascimento,mêsde nascimento,idade maternanonascimento,idade paterna nonascimentoerendasegundoocenso)deTEAde1,57por aumentodeIIQnoMP2,5econsideraramapenasasmulheres quemantiveramomesmoenderec¸oantesedepoisda gra-videz(160casose986 indivíduosnogrupodecontrole).A associac¸ãoentreaexposic¸ãoaoMP2,5eTEAfoimaisforte noterceirotrimestredoquenosdoisprimeirostrimestres degravidezquandoajustadamutuamente.Foiencontrada poucaassociac¸ãoentreoMP10-2,5(MPcomdiâmetro aerodi-nâmicoentre10me2,5m)eTEA.Osautoresconcluíram que,duranteagravidez,principalmentenoterceiro semes-tre,umaexposic¸ãomaternamaioraoMP2,5está associada aoaumentodaschancesdeumacrianc¸acomTEA.19
avaliaramseaexposic¸ãopré-natalaóxidosdenitrogênioe MP,estimadaentre2008e2011,estavaassociadaatrac¸os deautismo.Osautoresincluíram 8.079crianc¸asentre4e 10 anos noestudo. Os trac¸osde autismo foram avaliados com,respectivamente,o módulo deTEAdoinventário de tiquesdeautismo,transtornosdedéficitdeatenc¸ãoe hipe-ratividadeeoutrascomorbidades(A-TAC)nacoortesueca; asubescaladeproblemasinvasivosdodesenvolvimentoda listadeverificac¸ãodocomportamentoinfantil(CBCL1½-5) nascoortesholandesa eitaliana; umaversãoadaptadade 18 itensda ERSna coorteholandesa; e o testedo espec-trode autismo na infância (Cast)nas coortes espanholas. Aexposic¸ão pré-natalaóxidos denitrogênio e ao MPnão estavaassociadaatrac¸osdeautismo.Osautores trabalha-ramcomahipótesedequeaexposic¸ãopré-natalàpoluic¸ão atmosférica poderiaestar relacionada ao TEA,porém não a amplos trac¸osde autismo.Eles sugeriram umapesquisa adicional, inclusive estudos europeussobre crianc¸as diag-nosticadas com TEA; comparac¸ão da manifestac¸ão e da detecc¸ão de TEA entreos EUA e a Europa; e explorac¸ão de mecanismos subjacentes à associac¸ão entre poluentes atmosféricos e TEA para melhor entender os diferentes resultadosemcomparac¸ãocomestudosanteriores.20
Pesticidaseoutrosdesreguladoresendócrinos
Osdesreguladoresendócrinos(DEs)normalmentesão subs-tânciasfeitaspelohomemquepodeminterferirnosistema endócrinoeestãopresentesemumagrandequantidadede produtosdomésticoseindustriais.Apossívelrelac¸ãoentre DEs,principalmentepesticidas,eoautismotemsidomuito discutidanosúltimosanos,atéagorasemchegara conclu-sõesdefinidas.
Nocontexto doestudocaso-controledebase populaci-onalchamadoriscosdeautismoinfantildevidoàgenética eaomeioambiente(Charge),Sheltonetal.exploraramna Califórnia(EUA)apossívelrelac¸ãoentreaproximidadeda residência com pesticidas agrícolas durante a gestac¸ão e TEAouatrasonodesenvolvimento(AD).Noquedizrespeito a970participantes de2-5anos,osdadosdeaplicac¸ãode pesticidacomercialcoletadoscomousodorelatóriodeuso depesticidasnaCalifórnia(de1997a2008)estavam rela-cionadoscomosenderec¸osduranteagestac¸ão.Aslibrasdo princípioativoaplicadoemorganofosforados, organoclora-dos,piretroidesecarbamatos(quatrofamíliasdepesticida selecionadas pelos autores)foramagregadas àsdistâncias de1,25km,1,5kme1,75kmdaresidência.Osautores usa-ram regressão logística multinomial para calcular a razão de chance de exposic¸ão, compararam casos afetados por TEA(486,diagnosticadosdeacordocomaADI-ReoADOS) ouporAD(168,avaliadospelaEscaladeMullende Aprendi-zagemPrecoceepelaEscaladeComportamentoAdaptativo Vineland) com controles normais (316) pareados com os casosdeTEAporsexo,idadeeáreadecaptac¸ãoregional. Os dados foram ajustados por escolaridade paterna, pro-priedadedacasa,localdenascimentodamãe, rac¸a/etnia dacrianc¸a,ingestãodevitaminaspré-natalmaternaeano denascimento.Duranteagravidez,cercadeumterc¸odas mães vivia a 1,5kmda aplicac¸ão de pesticidas agrícolas. Viverpróximoaorganofosforadosporalgumtempodurante agravidezfoiassociadoaumrisco60%maiordeTEA,mais altonaexposic¸ãoaorganofosforadosem geralnoterceiro
trimestre e na aplicac¸ão de clorpirifós (organofosforado
explorado independentemente) no segundo trimestre.
Crianc¸as de mães que viviam próximo de aplicac¸ões de piretroidesduranteoperíodopré-concepcionalougravidez noterceirotrimestreestavamsujeitasaumriscomaiorde TEAeAD.OriscodeADfoimaiornaquelesquevivem pró-ximoàsaplicac¸õesdecarbamatos,semperíodovulnerável específico.Os autores concluíram que esse estudo corro-boraaassociac¸ãoentreaexposic¸ãoapesticidasdurantea gravidez,principalmenteorganofosforados,eostranstornos doneurodesenvolvimentoefornecenovosachadossobreas associac¸õesdepiretroidesecarbamatoscomTEAeAD.21
Keil et al., na Califórnia (EUA), examinaram a possí-velassociac¸ãoentreousodeimidaclopridarelatadopelas mães,pesticidadomésticocomumusadoparaotratamento depulgas e carrapatos em animais de estimac¸ão, e TEA. Os participantes foram inscritos como parte do estudo Chargemencionado.21Oconjuntodedadosanalíticosincluiu informac¸ões completas, coletadas antes de setembro de 2011, de407 crianc¸as com TEA (avaliadascom a ADI-R e oADOS)e262controlesnormais,pareadosporsexo,idade naentrevistaeregiãodenascimento.Osautoresusaramos modelosdeBayesianparaavaliaraassociac¸ãoentre imida-clopridae TEA,bemcomo corrigira possívelclassificac¸ão errôneadaexposic¸ãodiferencialdevidoàmemóriaemum estudo caso-controle de TEA. Na entrevista, os casos de controleeramligeiramentemaisnovosdoqueascrianc¸as comTEA (média detrês anos e sete meses e três anos e 10meses,respectivamente).Osdadosforamajustadospor sexo da crianc¸a, centro regional de nascimento e idade; escolaridadedamãe,etniaeparidade;esepossuíam ani-maisduranteoperíodopré-natal.Aschancesdeexposic¸ão pré-natalàimidaclopridaentreoscasoscomTEAforam ape-nasligeiramentemaiores do queentre oscontroles.Uma análise da janela de susceptibilidade apresentou maiores razõesde chance para exposic¸ões durante a gestac¸ão do queparaexposic¸õesduranteoiníciodavidae, apesarde considerarapenas usuáriossistemáticos de imidacloprida, asrazõesdechanceaumentarampara20.Osautores con-cluíramqueaassociac¸ãoentreaexposic¸ãoàimidacloprida eoTEApoderesultardaclassificac¸ãoerrôneadaexposic¸ão em si, devido ao viés de memória. Contudo, eles suge-riramuma investigac¸ão adicional sobre essa associac¸ão e enfatizaram a necessidade de estudos de validac¸ão com relac¸ãoàexposic¸ãopré-natalàimidaclopridaempacientes comTEA.22
MeioAmbiente),osautoresmediramasconcentrac¸ões san-guíneas ouna urinadas substâncias mencionadas em 175 mulheresgrávidasqueresidemnaregiãometropolitanade Cincinnati(Ohio,EUA),inscritasparaparticiparentre2003e 2006(estudoprospectivodecoortedenascimento).Quando ascrianc¸aschegarama4e5anos,asmãesreceberamaERS. Osdadosforamajustadosporidadematernanoparto,etnia, estadocivil, escolaridade, paridade, cobertura de convê-nio,trabalho,renda familiar,uso devitaminasnoperíodo pré-natal,sintomas de depressão e QI da mãe, ambiente decuidadoeexposic¸ãogestacionalafumac¸adecigarro.Os autoresexploraramasassociac¸õesajustadaspelo fatorde confusão entreosDEs mencionados e oscomportamentos deautismoavaliadospelaERScomummodeloderegressão hierárquicadedoisestágiosparaconsiderarasmedidaseos fatoresdeconfusãoporDEscorrelacionados.Grandeparte dosDEsfoiassociadaadiferenc¸assemimportânciaem pon-tosnaERS.Cadaaumentode2dpnasconcentrac¸õesséricas do éter difenil polibromado-28 (PBDE-28) (retardante de chamasbromado) outransnonacloro(pesticida organoclo-rado) foi associado a comportamentos mais relacionados aautismo. Por outro lado,osautores constataram menos comportamentosautistasem filhosdemulheres com PCB-178(bifenilopoliclorado),-hexaclorocicloexano(pesticida organoclorado)ouPBDE-85(retardantedechamasbromado) em concentrac¸ões detectáveis em comparac¸ão com não detectáveis. O aumento das concentrac¸ões de perfluoro--octanoato(PFOA)(substânciaperfluoroalquilada)também estavaassociado a menoscomportamentosautistas. Essas últimas associac¸ões com menos comportamentos autistas podemsugerirumapossívelac¸ãoprotetoradassubstâncias envolvidas.Osautoresconcluíram quealgunsDEsestavam associadosamaisoumenoscomportamentosdeautismona infância,porémotamanhopequenodaamostranão permi-tiuquechegassemaconclusõesdefinidas.23
A hipótese intrigante de que os DEs podem modificar os eixos de hormônios endógenos, interferir no neurode-senvolvimentoesteroide-dependenteeaumentaroriscode TEA23,24aindaexigeconfirmac¸ãoexperimental.
Outrosfatoresambientais
Gaoetal.investigaramaassociac¸ãoentrefatoresderisco ambientalpré-nataleautismoemTianjin(China).Eles fize-ramumestudocaso-controlequeincluiu193crianc¸ascom autismoe 733controlesnormalmente desenvolvidos
pare-ados por idade e sexo de 2007 a 2012 com o uso de um
questionário.Ogrupodocasoconsistiuemcrianc¸as diagnos-ticadasporumpediatrasegundooscritériosdoDSM-IV-TR6 e comescore ≥ 30 na Escala de Classificac¸ãode Autismo na Infância (CARS). A análise estatística foi feita com a ÁrvoreEstatística Rápida, Imparcial e Eficiente (Quest) e a análise de regressão logística para calcular a razão de chance de cada fator de risco ajustado por fatores soci-oeconômicos. Ao combinar uma árvore de classificac¸ão à análisederegressão logística,osautoresconstataramque adepressãomaternaduranteagravidezeascomplicac¸ões neonatais(anóxia, icterícia e pneumonia aspirativa) esta-vamassociadasaoaumentodoriscodeautismonainfância, aopassoqueo usodearcondicionado pelamãeeadieta compeixesdeáguadocedopaiantesdagravidezestavam associadosà reduc¸ão dorisco de autismo na infância. Os
autores mencionaram que o uso do ar condicionado pode diminuir a concentrac¸ão de poluentes atmosféricos resul-tantedareduc¸ãodeMPnoarpelosfiltros.Outrahipóteseé queumambienteinternomaisbemcontroladopodereduzir aumidadeeascondic¸õesquefavorecemocrescimentode micróbios.Adietadepeixesdospaispodeajudarareduzir ouevitaraobesidadepaterna;alémdisso,oóleodospeixes podemelhoraraqualidadedoesperma.25
Em nossaopinião,o possível envolvimento dapoluic¸ão eletromagnética na etiopatogenia dos TEAs é uma das hipótesesmaisintrigantes,porém, aomesmo tempo,uma das menos estudadas.26 O grande aumento na poluic¸ão eletromagnética,relacionadoaousodetecnologiassemfio, parece sesobreporcronologicamenteao aumentoda pre-valênciadoautismodetectadanasúltimasdécadas.Muitos estudosdaliteraturasugeriramospossíveisefeitos biológi-cosesobreasaúde,inclusivecarcinogenicidade,atribuível àexposic¸ãoeletromagnética,provavelmentemediada,pelo menosem parte, pelos danosao DNA.27---29 Principalmente no que diz respeito ao TEA, os mecanismos patogênicos hipotéticosdepoluic¸ãoeletromagnéticaincluem:danosao DNA, estresse oxidativo, aumento do cálcio intracelular, disfunc¸ãodosistemaimunológicoerompimentodabarreira hematoencefálica.28,29 O estudo caso-controle observacio-nal feitopor Pino-López eRomero-Ayuso na Espanha, que envolveu 70 casos com TEA e 136 controles (com idade de 16-36 meses), sugeriu a presenc¸a de uma correlac¸ão entre exposic¸ão eletromagnética relacionada ao trabalho dos pais, principalmente do pai, e TEA em seus filhos.30 Contudo, o estudo mostra algumas limitac¸ões em termos demetodologia,inclusiveofatodequeosautoresusaram dadosdeumúnicocentro(CiudadReal)eumaferramenta (Lista deVerificac¸ão ModificadaparaAutismoem Crianc¸as deUmaTrêsAnos:M-Chat)nãototalmenteconfiávelparao diagnósticodeTEA.Umestudoepidemiológicosistemático que envolva centros localizados em diferentes áreas geo-gráficascom diversosníveisde exposic¸ão eletromagnética énecessárioparaavaliarahipótesedeumarelac¸ãoentre a extensão depoluic¸ão eletromagnética e prevalência de autismo.26 Porém, infelizmente, até agora esses tipos de estudossobreessetópicoestãoemfalta.
Portanto, ainda existe alguma incerteza a respeito dessa questãoe,deacordocomSealyetal.,esseassuntodeveser estudadoaindamaiseacomunidadecientíficaaindadeve estar atenta a respeito dapossível associac¸ãoentre vaci-naseTEA.33 Entretanto,nomomento,desistirdasvacinas parece umaescolha injustificada e perigosa para a saúde pública.
VanElstetal.desenvolveramumateoriaanimadorade acordo com a qual pode existir um vínculo entre ácidos graxospoli-insaturados(Pufa)e TEA.Osautoresindicaram que,nasúltimasdécadas,oaumentonaprevalênciadeTEA parece ser concomitante às modificac¸ões na composic¸ão dos ácidos graxos da dieta, a saber: a substituic¸ão do colesterolpeloômega6em muitos produtosalimentícios, oquecausouumaumentoimpressionantenarazãoômega 6/ômega3.Osautorestrabalharamcomahipótesedeque, duranteosprimeirosestágiosdavida,odéficitdeômega3 poderálevaraalterac¸ões:naneurogênese,sinaptogênese, mielinizac¸ão;sínteseerotatividadedeneurotransmissores; conectividadedocérebro;expressãodereceptoresativados por proliferador de peroxissoma; respostas à inflamac¸ão; funcionamento e comportamento cognitivo; todos eles parecem estar relacionados ao TAE.34 Infelizmente, atéo momento,osensaiosclínicosrandomizadoscomoumtodo nãomostraramefeitossignificativosdasuplementac¸ãocom ômega3emcrianc¸asafetadaspeloTEA,mesmosemexcluir a existência de um subgrupo de pacientes com TEA que possaresponderaessetratamento.35
Discussão
Atualmente, se aceita amplamente que ambos os fatores genéticoseambientaissãoimplicadosnaetiopatogeniado denominadoTEA não sindrômico, que nãoé secundário a umadoenc¸agenéticabemconhecida(comoocomplexoda esclerose tuberosa oua síndrome do X frágil). Por muito tempo,opesodocomponentegenéticofoiconsiderado cla-ramenteprevalente,porém,nosúltimosanos,considerando o aumento drástico na prevalência do ASD, o papel dos fatoresambientaisganhouumaimportânciarelativamente maior.Além dessas considerac¸ões epidemiológicasóbvias, conforme sugerido por Wong et al., a hipótese de que a exposic¸ãoa fatoresambientaispodecontribuir considera-velmenteparaodesenvolvimentodeTEAéjustificadapela presenc¸a dediferentes subconjuntos de genes candidatos
em cada indivíduo com TEA e pela ampla variedade de
fenótiposdessesindivíduos.36Contudo,aindahámuitoase descobrir sobre a complexainterac¸ão entre esses fatores causais. O conceito relativamente novo de epigenética pode ser muito útil nesse sentido, pelo menos em uma subpopulac¸ãodecasoscomTEA.Aepigenéticarepresenta um mecanismo fundamental de regulac¸ão genética com basenasmodificac¸õesquímicasdeDNAedasproteínasde histonassemalterarasequênciadeDNA.Foipropostoque os fatoresambientais, como os metais pesados e os DEs, podemmodificarostatusepigenéticoeaexpressãodogene ecausaroTEA.37,38
Contudo,opapeletiopatogênicodosfatoresambientais aindaprecisa ser considerado comcuidado devido àfalta de dados conclusivos. Apesar de a associac¸ão entre, por exemplo,ospoluentesatmosféricoseoriscodeTEAs rece-bercadavezmaisconfirmac¸ão,ahipótesedeumarelac¸ão
causalrealentreelesprecisadedadosadicionaiseos pos-síveismecanismospatogênicosdospoluentesatmosféricos envolvidosnos TEAs continuam hipotéticos. Em humanos, a exposic¸ão a poluentes atmosféricos tem mostrado um favorecimentodoestresseoxidativoedasinflamac¸ões,16 o quepode contribuirpara a patogênesedos TEAs.39 Adici-onalmente, chumbo, mercúrio e arsênio sãoneurotóxicos conhecidosquepodemultrapassarabarreira hematoencefá-licaeprejudicaroneurodesenvolvimento.16Osmecanismos epigenéticospodemserhipotetizadoscombasenos resulta-dosdoestudoexperimentalemanimaisfeitoporHilletal.37 Outracoisaquedeveserconsiderada éapossibilidadede as misturas de poluentes atmosféricos, e não poluentes isolados, estarem relacionadas aos TEAs devido a efeitos sinérgicos:12,17 obviamente, isso tornaria a interpretac¸ão dosdadosresultantes dosestudos sobrepoluentese TEAs muitomaisdifícil.SegundoGuxensetal.,aexposic¸ãodopai apoluentesatmosféricosduranteoperíodopré-concepc¸ão tambémpode ter umpapel na etiopatogenia dos TEAs,20 porémsãoescassososestudossobreesseassunto. Infeliz-mente, atualmente nosso conhecimento nessa áreaainda estánassuposic¸õesouapenasumpoucomaisadiante.
Poroutrolado,nãodevemosesqueceraimportânciado componentegenéticonaetiopatogenia dosTEAs, demons-tradaporumaquantidadeexpressivadedadosnaliteratura durante os últimos anos e confirmada hoje também por umasimplesobservac¸ão:apesardoaumentona prevalên-ciadadoenc¸anasúltimasdécadas,agrandedesproporc¸ão entrehomensemulheresemfavordosprimeirostemsido confirmada.4CasoaetiopatogeniadosTEAsestivesse relaci-onadaapenasafatoresambientais,comosquaishomense mulheresestãoinevitavelmenteemcontato,nãodevehaver motivoparaessa persistênciana diferenc¸a naprevalência entreossexos.
A figura 1 representa uma tentativa de resumir várias possíveisinterac¸ões entre fatores genéticos e ambientais envolvidos na etiopatogenia de TEAs não sindrômicos. O esquema mostra que, em indivíduos geneticamente pre-dispostos, os fatores ambientais podem levar a autismo diretamente ou por meio de mecanismos epigenéticos, alterac¸ões na func¸ão imune da mãe durante a gravi-dez (ativac¸ão imune materna) e do indivíduo afetado e modificac¸ões do microbioma (representado pela totali-dade de microrganismossimbióticos abrigadospelo corpo humano), que, por sua vez, interage de forma recíproca com a func¸ão imune, o estresse oxidativo e a disfunc¸ão mitocondrial.37---45Esseesquemanãopretendeserexaustivo e,certamente,precisarádeatualizac¸ões.
Exposição precoce a fatores ambientais (por exemplo,
poluentes atmosféricos, desreguladores endócrinos, infecções maternas pré-natais)
Susceptibilidade genética (por exemplo, variação no número de cópias (CNVs))
Ativação imune materna durante
a gravidez
Modificações do microbioma
Modificações do estado epigenético e expressão gênica
Desregulação imune e neuroinflamação
Estresse oxidativo
Disfunção mitocondrial
Transtorno do espectro do autismo não sindrômico
Figura1 Etiopatogeniadetranstornodoespectrodoautismonãosindrômico.Obs.:Afigura1resumeváriaspossíveisinterac¸ões entrefatoresgenéticoseambientaisenvolvidosnaetiopatogeniadetranstornodoespectrodoautismonãosindrômico.Cadaseta significaumefeitofacilitador.
Conclusões
Apesar dos grandes esforc¸os envidados nas últimas déca-dasem pesquisa médicaque envolve recursos humanos e financeiros consideráveis, atualmente muitos aspectos da etiopatogeniadoTEAaindasãodesconhecidos,aopassoque a prevalênciadessa doenc¸a heterogêneaaumentou muito semexplicac¸õessatisfatórias.Issonoslevou adesenvolver váriashipótesesnormalmentedivergentesqueainda preci-samdeconfirmac¸ão.Grac¸asàenormequantidadededados dapesquisasobreoautismoessesanos,atualmentesabemos muitomaisinformac¸õessobreofuncionamentodocérebro dessesindivíduos,mastambémdosindivíduosdesenvolvidos
normalmente. Contudo, infelizmente, mesmo atualmente
nãoexisteumtratamentoespecíficoqueocure.Em2016, aindaobservamosque essadoenc¸ainvalidante écada vez maisfrequente,semumaetiopatogeniaconhecidaou tra-tamentosdecisivos.Essasituac¸ãofavoreceuindiretamente, nasfamíliasenvolvidas,ousodetratamentosdemedicina complementarealternativa,47fenômenoquenemsempreé seguroparaospacientes.
Futuraspesquisasdeveminvestigarseháumadiferenc¸a significativanaprevalênciadeTEAentrenac¸õescomníveis altosebaixosdeváriostiposdepoluic¸ão.Atéagora,aampla maioria dos estudos que buscaram uma correlac¸ão entre poluentese autismo foifeita nosEUA e issopodeser um fatorlimitante dopontodevistaepidemiológico, também porqueamaioriadospoucosestudosfeitosemoutroslocais nãoconfirmouosresultadosobtidosnosEUA.Nãoestáclaro seissoédevidoaproblemasmetodológicosouadiferenc¸as reaisentreasáreasgeográficaslevadasemconsiderac¸ão.De acordocomSheltonetal.,21umobjetivomuitoimportante dapesquisaarespeitodasinterac¸õesentregenéticae ambi-enteéaidentificac¸ãodepopulac¸õesvulneráveis,também emvirtudedaprevenc¸ãoadequada.Porfim,outroaspecto que consideramos muito importante na pesquisa nessa área é a uniformidade dos critérios de diagnóstico e das
ferramentasdeavaliac¸ão deTEAparatornar comparáveis osresultadosdosestudosfeitosemtodoomundo.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
Agradecimentos
ACeciliaBaroncinipelarevisãodoinglês.
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