RevBrasAnestesiol.2014;64(2):140---144
REVISTA
BRASILEIRA
DE
ANESTESIOLOGIA
OfficialPublicationoftheBrazilianSocietyofAnesthesiologywww.sba.com.br
CARTAS
AO
EDITOR
Change
Pain
Latin
America
(Mude
a
Dor
América
Latina)
---
Nova
iniciativa
criada
para
melhorar
o
tratamento
de
pacientes
com
dor
crônica
na
América
Latina
CaroEditor,
Gostariade informá-losobrea formac¸ãodeumnovo pai-nelconsultivocientífico comprometidocoma melhoriana América Latina da qualidade de vida de pacientes com dor crônica. O painel foi formado em respostaaos resul-tados encorajadores observados com o programa Change PainEurope,cujoobjetivoéidentificarasnecessidadesnão atendidasdepacienteseuropeuscomdorcrônicae forne-cersoluc¸õesdeboaspráticasparamelhorarosresultados. Opaineldeperitosregionaisestá lanc¸andoumainiciativa pan-latino-americana com o programa: Change Pain Latin America(CPLA).
OPainelConsultivodoCPLAdispõede17especialistasde Brasil,Chile,Colômbia,CostaRica,Equador,México,Peru, Venezuela e Espanha, os quais trabalham com variadas especialidades clínicas relacionadas à dor (tabela 1). Os membrosdopainelestãoaplicandoseuconhecimentoesua experiênciaparadarvisibilidadeeatendimentonaAmérica Latina às necessidades médicas não atendidas associadas aotratamento depacientes comdor crônicae superar os obstáculospara melhorarasboas práticase osresultados naregião.AreuniãoinauguraldopainelocorreuemMiami (28-29dejunhode2012).Osdebatesforamcentradosnos atuaisparadigmasdetratamento naAmérica Latina enas barreiraspara amanejo eficaz dopaciente. Durante essa reunião,osobjetivosparaoCPLAforamdeterminadosapós discussõessubstanciaiseaceitosdecomumacordoentreos membrosdopainel(tabela2).
Embora o manejo ‘‘subótimo’’ de pacientes com dor crônica seja um problema global, os fatores que contri-buem para esse problema na América Latina incluem as lacunasnacompreensãodosmédicoseosequívocos associ-adosnotratamentodador.OspacientesnaAméricaLatina muitas vezes não compreendem os riscos associados aos
DOI do artigo original: http://dx.doi.org/10.1016/j.bjane. 2013.03.004
analgésicos,o quetornaaeducac¸ãodopaciente uma pri-oridade. Consequentemente, os profissionais de saúde da região têm umconhecimento insuficiente sobreas vanta-gens e desvantagens dos opiáceos e da dosagem correta dessesmedicamentos,oquelimitaaprescric¸ãoadequada. Outras barreiras significativas incluem o acesso limitado dos pacientesà medicac¸ão e/ou a especialistas em dore instalac¸õesespecíficas,bemcomopolíticasdesaúde gover-namentais restritivas. Todos esses fatores contribuem na AméricaLatinaparaasnecessidadesmédicasnãoatendidas dospacientescomdorcrônica.
NasegundareuniãodoCPLAnaCidadedoMéxico(9---10 de novembro de 2012), o painel apresentou iniciativas importantes projetadas para abordar essas necessidades não atendidas. Para ajudar a melhorar o tratamento do paciente, os membros do painel estão agora revendo as diretrizesinternacionaisparaadorcrônicaparaidentificar estratégias detratamento quesãomaisrelevantes paraa AméricaLatina.Opróximopassoseráforneceraosmédicos emtodaaregiãorecomendac¸õesclarasdetratamentocom base nessa pesquisa para facilitar a adoc¸ão uniforme de boas práticas em toda a região. O primeiro conjunto de recomendac¸ões terá como foco a dor lombar crônica. A necessidade não atendida de educac¸ão entre os médicos tambémestásendoabordadapormeiodeumaferramenta on-line,MeetinginaBox,queincluiumabiblioteca atuali-zadadeslideserecursosdeorganizac¸ãodereuniõesparaa formac¸ãodegruposdemédicossobrequestões-chavenador crônicaemreuniõeslocais.Alémdisso,boletins informati-vosquedetalhamquestõesregionaisimportantesnomanejo dadorcrônicaeatividadesplanejadaspeloPaineldoCPLA para ajudar a discutir essas questõesserão distribuídose implantadasparaacomunidadedesaúdeemgeral.
Parte dos esforc¸os do painel terá como foco obterna América Latina um conhecimento melhor doônus da dor crônica. Os membros do painel fizeram uma metanálise dos dados epidemiológicos disponíveis, que estabeleceu a prevalênciadadorlombarcrônica naregião e destacou anecessidadedeestudosmaisprofundos.Paraapoiaressa iniciativa, o paineldiscutiu umnovo protocoloem toda a AméricaLatinaparaoônusdadoenc¸aprojetadopara quan-tificar o consumo de recursos de assistência médica em pacientescomdorcrônica.Osdadosgeradosdevem forne-cer estimativasconsistentes doscustos diretose indiretos associadosa essefardoem todosospaísesmembros, que
CARTASAOEDITOR 141
Tabela 1 Membros do Painel Consultivo do Change Pain LatinAmerica
Argelia Lara-Solares
México Anestesiologia,
controledadore cuidadospaliativos JoséAlberto
FloresCantisani
México Anestesiologia,
controledadore cuidadospaliativos César
Amescua-García
México Anestesiologia,
controledadore cuidadospaliativos MaríadelRocío
GuillénNú˜nez
México Anestesiologia,
controledadore cuidadospaliativos AzizaJreige
Iskandar
Venezuela Reabilitac¸ãofísica
PatriciaBonilla Venezuela Anestesiologia,
controledadore cuidadospaliativos JoãoBatista
SantosGarcia
Brasil Anestesiologia,
controledadore cuidadospaliativos
OsvandréLech Brasil Ortopedia
DurvalCampos Kraychete
Brasil Anestesiologiae
controledador MaríaAntonieta
Rico
Chile Anestesiologia,
controledadore cuidadospaliativos JohnJairo
Hernández--Castro
Colômbia Neurologia,controle
dadorecuidados paliativos
FrantzColimon Colômbia Anestesiologiae
controledador
CarlosGuerrero Colômbia Anestesiologia,
controledadore cuidadospaliativos WilliamDelgado
Barrera
CostaRica Anestesiologia
Manuel Sempértegui Gallegos
Equador Anestesiologiae
controledador
MaríaBerenguel Cook
Peru Anestesiologia,
controledadore cuidadospaliativos ConcepciónPérez
Hernández
Espanha Anestesiologiae
controledador
poderão trazerinformac¸ões sobreuma melhor gestãodos recursos na área. Além disso, informac¸ões sobre os hábi-tosdeprescric¸ãoediagnósticoentreosmédicosnoMéxico serãopublicadasproximamente.Seapesquisaforampliada paraincluirtodaaregiãoerepetidaanualmente,permitirá mudanc¸asnapráticaclínicaemtodaaAméricaLatinaque serãodocumentadas.
OpaineldoCPLAvaiestabelecergruposdetrabalho cen-tradosnos objetivos aceitosconsensualmente. Estratégias práticas são necessárias para quebrar barreiras regionais específicas para o tratamento eficaz dos pacientes com dorcrônica.Formac¸ãoaprimoradaeeducac¸ãopermanente dosprofissionaisdesaúdesãonecessáriasparamelhoraras
Tabela 2 Objetivos doPainel Consultivodo ChangePain LatinAmerica
•Identificarosfatoresrelevantesqueinfluenciamo
tratamentodadoreostomadoresdedecisãoemtoda aAméricaLatina
•Entenderosfatores/motivosrelevantesportrás
doparadigmaatualdetratamentodador
•Identificarasalavancasquepodemserusadas
paramodificarasituac¸ão
•Estabeleceraligac¸ãoentreteoriaepráticamédica
notratamentodadorcrônica
•Estabelecerasreaisnecessidadesnãoatendidas
naAméricaLatinanotratamentodadorcrônica
•Compreendermelhorarealidadedospacientes
comdorcrônicahoje
•Encontrarumconsensosobreosdesafiosno
tratamentodadorcrônicaapartirdaperspectiva
deummédico
•Avaliar
anecessidadedeeducarparaaumentara conscientizac¸ãosobreasmelhorespráticas notratamentodadorcrônica
•Avaliaranecessidadedemelhoraracomunicac¸ão
entremédicosepacientes,comoformademelhorar otratamentodador
•Desenvolversoluc¸õesbaseadasemdadosdepesquisa
eopiniãodeespecialistasqueapoiamotratamento maiseficazeeficientedador
•Aumentaroconhecimentoefornecerferramentas
adequadasparamelhorarodiagnósticodador
•Eliminaraopiofobiapormeiodaeducac¸ãodos
profissionaisdesaúdeepacientesemtratamento
comopiáceo
decisões de diagnóstico e tratamento. Isso aumentará as prescric¸ões adequadas dos analgésicos atualmente dispo-níveis e a aceitac¸ão de novas tecnologias analgésicas, à medida que forem aprovados em toda a América Latina. Uma compreensão maior na América Latina do ônus da dor também é um avanc¸o fundamental. Ao gerar dados epidemiológicose farmacoeconômicos substanciais para a região, o CPLA contribuirá para os esforc¸os para prever como as necessidades de analgésicos mudarão o futuro. Essesnovosdadoseessasevidênciasatuaistambémserão vitaisnosesforc¸osparafacilitar ummaiordiálogocomos tomadores de decisão de governos nacionais e ajudar a remodelarapolíticadesaúdenaAméricaLatina que con-duzàmelhorassistênciapossívelparaospacientescomdor crônica.
ParaajudaradestacarasquestõesrelevantesdaAmérica Latina, oCPLA está buscando parcerias com organizac¸ões nacionaisestabelecidasparao controle dador em todaa região.AconhecidaabordagemChangePainEuropeé apoi-adapelaEuropean FederationofIASP® Chapters (EFIC)na
realizac¸ãodeseusobjetivos.
Conflitos
de
interesse
142 CARTASAOEDITOR
JoãoBatistaSantosGarciaa,b,c,1
aSociedadeBrasileiradeEstudodaDor,SãoPaulo,SP,
Brasil
bUniversidadeFederaldoMaranhão,SãoLuís,MA,Brasil
cInstitutoMaranhensedeOncologiaAldenoraBelo,
SãoLuís,MA,Brasil
E-mail:[email protected]
1EmnomedeTheChangePainLatinAmericaAdvisoryPanel:
Argelia Lara-Solares, José AlbertoFlores Cantisani, César
Amescua-García,MaríadelRocíoGuillénNú˜nez,AzizaJreige Iskandar, Patricia Bonilla, Osvandré Lech, Durval Campos Kraychete, María Antonieta Rico, John Jairo Hernández--Castro,Frantz Colimon,CarlosGuerrero,WilliamDelgado Barrera, Manuel Sempértegui Gallegos, María Berenguel Cook, João BatistaSantos Garcia, Concepción Pérez Her-nández.
http://dx.doi.org/10.1016/j.bjan.2013.03.004
Contrac
¸ão
versus
contratura
e
miopatia
do
núcleo
central
versus
miopatia
da
parte
central
em
hipertermia
maligna
Caroeditor
Lemos com grande interesse o artigo de revisão de Cor-reia etal. ‘‘Hipertermia maligna: aspectosmoleculares e clínicos’’1egostaríamosdecomentaralgunsitens.
Na sec¸ão ‘‘Hipertermia maligna’’, item ‘‘Teste de contrac¸ãoà exposic¸ãoao halotano-cafeína (TCHC)’’, Cor-reia et al. empregam o termo ‘‘contrac¸ão’’, em vez do termooriginal ‘‘contratura’’. O testepara diagnósticode suscetibilidade à hipertermia maligna (HM) baseia-se na resposta anormal de contratura após administrac¸ão de cafeína/halotano,e nãona respostanormal decontrac¸ão muscularapósoestímuloelétrico,queéaplicadodurante todo o teste para comprovar a viabilidade do fragmento muscular testado. A figura 1 mostra a diferenc¸a entre a contrac¸ãoe a contratura nográfico de umteste positivo depacientesuscetívelàHM.Assim,anomenclaturadeveria
sercontracturetesteminglêse‘‘testedecontratura’’em
português.2---4
Ainda nesse subitem, enfatizamos que os níveis de corte do TCHC citados correspondem a valores emprega-dosnoprotocolodogruponorte-americanodeHM(MHAUS
---www.mhaus.org).Alémdisso,oprotocolodogrupoeuropeu
deHM(EMHG---www.emhg.org)diferedonorte-americano emaspectosadicionaisquenãoforamcitados,taiscomoo númerodefragmentostestados(seisnonorte-americanoe quatronoeuropeu),administrac¸ãodohalotano(doseúnica de 3% no americano e dose crescente de 0,5% a 3% no europeu) e finalmente o ponto de corte, que é de 0,2g parahalotano 2% e 0,2gpara cafeína 2mm no protocolo europeu.5,6
Diferentemente do citadopor Correia et al., noBrasil o Cedhima (Centro de Estudo, Diagnóstico e Investigac¸ão deHipertermiaMaligna)daEscolaPaulistadeMedicinada UniversidadeFederaldeSãoPaulo(Unifesp)usaoprotocolo dogrupoeuropeudeHMparaotestedecontraturamuscular
invitro(IVCT).4
Na mesma sec¸ão ‘‘Hipertermia maligna’’, item ‘‘Tratamento’’, Correia et al. incluem como medida indicada‘‘Substituic¸ão do circuito deanestesia por outro nãocontaminadoporagenteanestésico’’.Éimportanteaqui enfatizarqueessamedidanãoéindicadanomomentoem quesetrataumacrise,massomentenopreparodamáquina anestésicaparaaanestesiadeumpacientecomhistóriade
HM. Nomomento dacrise deHM deve-se ‘‘desconectar o vaporizador,masnãoperdertempotrocandoocircuitoou amáquinaanestésica’’.7Noitem‘‘Dantroleno’’,apesarde
Correiaetal.informaremqueo usoclínicododantroleno
1 min 0,6 g
0,5% 1%
Figura1 Testedecontraturamuscularinvitroemrespostaao