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Universo dos Livros Editora Ltda. Rua do Bosque, 1589 Bloco 2 Conj. 603/606 CEP Barra Funda São Paulo/SP Telefone/Fax: (11)

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Academic year: 2022

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Universo dos Livros Editora Ltda.

Rua do Bosque, 1589 – Bloco 2 – Conj. 603/606 CEP 01136-001 – Barra Funda – São Paulo/SP Telefone/Fax: (11) 3392-3336

www.universodoslivros.com.br

e-mail: [email protected] Siga-nos no Twitter: @univdoslivros

(4)

Para todos aqueles que são corajosos o suficiente

para sentirem medo.

(5)

Frozen II: Forest of Shadows

Copyright © 2019 by Disney Enterprises, Inc. All rights reserved.

Illustrations by Grace Lee © Disney Enterprises, Inc.

© 2019 by Universo dos Livros

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998.

Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora, poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais

forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros.

Diretor editorial: Luis Matos Gerente editorial: Marcia Batista

Assistentes editoriais: Letícia Nakamura e Raquel F.

Abranches

Tradução: Raquel Nakasone, Aline Uchida e Rebecka Villarreal

Preparação: Jéssica Dametta

Revisão: Marina Takeda e Luisa Tieppo Arte e adaptação de capa: Valdinei Gomes Diagramação: Aline Maria

Ilustrações: Grace Lee Design original: Winnie Ho

Projeto gráfico original: Susan Gerber

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057

B416f

Benko, Kamilla

Frozen II : a floresta sombria / Kamilla Benko ; ilustrações de Grace Lee ; tradução de Aline Uchida, Raquel Nakasone,

(6)

Rebecka Villarreal. -– São Paulo : Universo dos Livros, 2019.

352 p. : il.

ISBN 978-85-503-0477-9

Título original: Frozen II: Forest of Shadows

1. Literatura infantojuvenil 2. Princesas - Literatura infantojuvenil I. Título II. Lee, Grace III. Uchida, Aline IV.

Nakasone, Raquel V. Villarreal, Rebecka

19-2122 CDD 028.5

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A Floresta Sombria

Uma história original de

Kamilla Benko

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O medo inimigo.

será seu — Vovô Pabbie

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Prólogo

O CÉU ACORDOU e a floresta também.

Anna de Arendelle segurou sua capa com firmeza, enquanto acima dela os galhos desfolhados batiam uns nos outros feito dentes e o vento balançava suas tranças. Ela olhou para um arbusto. Pelo que sabia, arbustos não deveriam ter olhos. Mas princesas de cinco anos também não deveriam estar sozinhas e do lado de fora do castelo à noite. E ainda assim, ali estava ela… Contudo, Anna não começou a noite sozinha. Sua irmã, Elsa, estava em algum lugar ali fora nas florestas de gelo, provavelmente se escondendo no arbusto do qual Anna se aproximava vagarosamente naquele instante.

Três anos mais velha do que Anna, com grandes olhos azuis e um sorriso tímido, Elsa era o tipo de garota que poderia ficar sentada por horas sem mexer as pernas e cuja trança de cabelos branco-dourados estava sempre ajeitada com cuidado atrás de suas costas. Os adultos frequentemente elogiavam o quão bem-comportada era a irmã mais velha de Anna… mas eles não conheciam Elsa como Anna. Debaixo daquele exterior educado e equilibrado, havia um senso de humor travesso. Tudo o que Elsa precisava era de uma desculpa, e Anna se sentia feliz em ser somente isso: a desculpa de Elsa para vestir uma capa e sair do castelo de fininho à procura de fazer um boneco de neve e brincar de esconde- esconde sob a aurora boreal, exatamente o que elas estavam fazendo naquele momento. Elsa já havia encontrado Anna dentro de uma árvore seca, mas Anna estava procurando Elsa há tanto tempo que parecia uma eternidade… ou, pelo menos, cinco minutos.

As folhas farfalharam de novo e Anna colocou suas mãos na boca a fim de impedir que uma risadinha escapasse. Sim, definitivamente alguém a estava observando da moita coberta de neve. Ela prendeu a respiração e se aproximou. Estava certa de que era Elsa, mas havia chances de ser um Huldrefólk – os boatos diziam que eles viviam escondidos nos riachos, embaixo de pedras e nas histórias que sua mãe, a rainha Iduna, lia para ela antes de dormir. O coração de Anna acelerou. Se fosse mesmo um Huldrefólk, ela só tinha que ver a cauda dele. Ela sempre se perguntou se

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suas caudas eram soltas, como a de cavalos, ou espessas, como a de uma raposa, ou ainda longas e finas, como a dos ratos.

Porém, Anna tinha a sensação de que sabia quem era a figura escondida atrás do arbusto. Afastou os galhos e, nas cores alegres que dançavam no céu, encontrou uma mecha de cabelo loiro. Não era um Huldrefólk. Era só sua irmã.

Rindo, Anna sacudiu a moita.

– Eu te encontrei! É a sua vez de ser o Troll Crusty!

Elsa não respondeu.

– Eu disse que te encontrei. – Anna espiou através da folhagem. – É a minha vez de me esconder, essa é a regra. Sai daí!

Quando a irmã de Anna virou a cabeça, percebeu que havia cometido um erro. Não era cabelo loiro que havia visto nas luzes em movimento.

Era pelo branco.

O grito de Anna ficou preso na garganta enquanto o lobo branco saía da moita com um olhar incomum e os membros longos surgindo como fumaça. Seu olhar amarelo e feroz estava fixado nela, e os olhos de Anna percorreram seu corpo gigantesco, do tamanho de um cavalo… Então ela viu quatro patas assustadoras, cada uma do tamanho de um dos escudos largos de seu pai, o rei Agnarr. Mas isso não era o pior.

Não, o pior era o pelo em volta de suas garras e mandíbula, manchado de vermelho.

Vermelho. A cor do sangue.

O que teria acontecido com sua irmã?

– Elsa! – Anna gritou. – Onde está você?

O lobo pulou.

Anna correu.

Seu coração batia com força dentro do peito, cada respiração era como uma faca afiada. Ela tentava correr mais e mais rápido, porém sabia que não teria como vencer um lobo. Avistou um tronco caído e mergulhou embaixo dele, dobrando os joelhos contra o seu peito, tentando se esconder. Ainda que seus pulmões doessem na busca por ar, Anna segurou o fôlego, pois não queria entregar sua posição com o menor dos suspiros.

Um segundo se passou, então outro, e outro. Teria despistado o lobo?

A neve caía, espessa e silenciosa. Anna tremia, desejando ter escutado Elsa quando ela lhe disse para não usar sua linda capa verde, mas a capa marrom e grossa de lã que usava todos os dias.

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Elsa. Onde estava Elsa?

Quieta como uma sombra, Anna espiou por cima do tronco, meio que esperando dar de cara com o lobo. Em vez disso, ela viu inúmeras árvores lançando sombras horríveis no chão coberto de neve. E, conforme o vento acelerava, o medo de Anna aumentava. Se fosse pela neve fresca, o lobo conseguiria ver exatamente a direção que ela escolhera. E se não fosse pela neve… talvez nunca encontrasse sua irmã.

Vermelho no branco.

Sangue no pelo.

Anna não poderia ficar escondida ali para sempre. Retirou sua capa e a colocou no chão, fazendo um monte no formato de uma garotinha de cinco anos que está tirando uma soneca. Em seguida, se agachou. Até ali, tudo bem. Devagar, deu um passo para trás. E então outro, e outro, movendo-se de costas entre as árvores com cuidado, da mesma forma como o Huldrefólk caminhava nas histórias que sua mãe contava, para manter escondida sua cauda. Mas Anna não tinha uma cauda para esconder. Em vez disso, estava deixando uma trilha de pegadas frescas na neve – pegadas que sempre conduziriam para longe de onde ela realmente estava.

– Elsa – ela sussurrou –, você ganhou. Por favor, saia do seu esconderijo.

Entretanto, não houve resposta. A neve caía com mais agilidade, então Anna se moveu depressa, lançando-se entre as árvores, mergulhando atrás de rochedos, examinando a floresta coberta de neve em busca de um sinal de sua irmã. Qualquer sinal. Porém, não havia nenhuma pegada. Era como se Elsa tivesse sido apagada. Como se… Mas o pensamento era horrível demais para que Anna o reconhecesse.

De algum lugar próximo, o lobo uivou.

Anna congelou. Ela conhecia aquele som. Era o mesmo som que os cães de caça de seu pai emitiam ao sentir o cheiro de raposa. O lobo uivou novamente, mas dessa vez um pouco mais longe. O plano de Anna havia funcionado! Ela se virou e saiu correndo. A neve caía com rapidez, os flocos grossos se acumulavam em seus cílios e ficava difícil de enxergar.

– Elsa! – O nome saiu rasgando de sua garganta. – Elsaaaa! El… – Ela engasgou.

Ali, na frente dela, estava não sua irmã, mas o lobo.

Mais uma vez, os ferozes olhos amarelos se fixaram nela.

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Como ele tinha conseguido tomar a dianteira? Não havia tempo para pensar – só para correr.

Anna forçou suas pernas ao máximo, fazendo com que a neve voasse em volta dela. Não podia parar. Seu mundo inteiro era neve, medo e frio, e então, de repente… céu infinito! Anna tropeçou e se deteve. Ela estava na beirada de um precipício. Uma vastidão escura de nada se projetava adiante, mas ela sabia que o que estava atrás de si, à espreita, poderia ser muito pior.

Hálito quente.

Garras afiadas.

Dentes afiadíssimos.

– ELSA! – ela gritou mais uma vez.

Mas Elsa não apareceu. Se a irmã não estava ali, algo horrível devia ter acontecido. A dor queimava as articulações dos ombros de Anna. Ela havia hesitado por muito tempo. As garras do lobo se prenderam nas suas costas.

Ela caiu para a frente.

Saltou na direção do precipício…

E acordou.

Uma mão fria e reconfortante estava pousada em sua testa e, enquanto piscava, Anna viu nitidamente o rosto de sua mãe. Os olhos azuis acinzentados da rainha brilhavam com preocupação, e seu cabelo castanho caía solto em cascata sobre um ombro, sem sua franja e tranças de sempre.

Um largo cachecol vinho, com flocos de neve bordados, e uma franja roxa estavam em cima de seus ombros e cobriam sua camisola de cor lavanda.

Anna disparou:

– Onde está Elsa? O lobo a pegou?

– Anna, está tudo bem. – Sua mãe sentou-se e passou os braços em volta dela. – Está tudo bem.

– Tinha neve – contou Anna, com o coração ainda batendo rápido. – E árvores! E eu estava correndo, e então… escorreguei! – Com esforço, ela se sentou e se apoiou nos travesseiros. – Elsa estava lá, e depois não estava. Fiquei tão preocupada!

Seu pai entrou em passos largos, carregando uma bandeja com canecas de chocolate quente.

– Você teve um pesadelo – ele disse. O cabelo loiro avermelhado, sempre penteado para trás com cuidado, estava emaranhado, como se ele tivesse acabado de chegar de uma cavalgada noturna. Pela mesma razão,

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estava usando seu uniforme resplandecente azul-marinho com distintivos e adornos dourados em vez de uma camisa de dormir. Inclinou-se e pousou a bandeja na mesinha de cabeceira. – Elsa está dormindo no quarto dela, o que todos nós deveríamos fazer agora.

Mas aquilo não parecia correto. A última coisa de que Anna se lembrava era de estar acordada nessa mesma cama, observando o céu dançar pela janela, querendo acordar Elsa para… fazer algo. Mas o quê? Anna fechou os olhos, tentando se lembrar da pancada em sua cabeça. Estranho. Era tudo de que ela conseguia se lembrar. A única coisa depois disso era o resumo de seu pesadelo: uma montanha, um lobo e um frio amargo.

Seu pai se sentou ao lado de sua mãe e deu um abraço caloroso em Anna.

– Beba isto – ele ofereceu. O vapor saía da caneca, movendo-se com a mesma graça espontânea do lobo.

Anna estremeceu, ainda um pouco abalada, mas nunca dizia “não” para chocolate quente. Ela tomou um gole e, assim que o líquido desceu, seu estômago se aqueceu.

Sua mãe lhe deu um tapinha no joelho.

– Sabe, quando tenho um pesadelo, sempre imagino que o estou amassando como se fosse um papel e depois o jogo pela janela, para que Frigg tenha algo mais para pescar além da lua e do sol. Você se lembra da velha história que eu costumava contar a você sobre Frigg, o pescador, certo?

Anna se lembrava, mas fez um “não” com a cabeça. Ela queria que a mãe continuasse a falar. Ela se deitou, enquanto a rainha começava a narrar o conto do pescador presunçoso que lançava redes em busca de conseguir grandes recompensas e acidentalmente ficou preso em um oceano noturno de estrelas. Anna mergulhou na presença reconfortante de sua mãe, que sempre emanava uma fragrância relaxante de lavanda.

A memória do pesadelo desapareceu, sendo substituída pela realidade:

seu confortável quarto decorado com papel de parede cor-de-rosa, tapetes grossos ornamentados, uma pintura oval do Castelo de Arendelle que ela gostava de admirar, uma tapeçaria de rainhas e velas cintilantes em castiçais nas paredes. Ainda que não houvesse chamas queimando na lareira, algumas brasas brilhavam como joias caídas. E seus pais ali, ao lado dela, eram os detalhes mais aconchegantes de todos. Os olhos de Anna começaram a ficar pesados.

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– Sente-se melhor? – seu pai sussurrou quando a mãe terminou o conto.

Anna concordou com a cabeça e ele sorriu.

– Tudo fica melhor com chocolate quente – ele afirmou.

– Nós deveríamos acordar a Elsa. – Os olhos de Anna palpitavam enquanto a garota segurava a caneca vazia. – Ela iria gostar disso.

Anna quase não percebeu a troca de olhares entre a mãe e o pai. Então, houve uma mudança no quarto, como se uma nuvem passasse pela janela.

– Elsa precisa dormir – sua mãe falou. – E você deveria tentar descansar também. Agnarr, pode me passar o outro travesseiro?

O pai de Anna se levantou e andou até a cadeira branca que fora arrastada de seu lugar perto da parede para ficar entre Anna e a lareira. Um travesseiro e uma pilha de cobertores amarrotados repousavam no chão em volta da cadeira, como uma cama improvisada.

A menina olhou do chão para seus pais. Eles só dormiam em seu quarto se ela estivesse muito doente…

– Vocês estavam dormindo aqui? – Anna perguntou. – Estou doente?

– Você está bem – seu pai confortou-a com um sorriso agradável. Pegou o travesseiro e colocou-o embaixo da cabeça da filha enquanto a mãe arrumava os lençóis. Anna mexeu os dedos do pé para afrouxar as cobertas só um pouco, enquanto seus pais apagavam as luzes e se dirigiam para a porta.

– Bons sonhos, Anna – sua mãe sussurrou do batente; a luz do corredor contornava seus pais.

– Bons sonhos… – Anna murmurou de volta, mergulhando no travesseiro.

A iluminação foi sumindo até que, por fim, a porta se fechou. Anna escutou os passos de seus pais antes de virar o rosto para olhar pela janela.

O céu estava adormecido, e fitas coloridas da aurora boreal se encontravam inseridas dentro de uma colcha de retalhos de nuvens. Mas a nuvem seguia brilhante, encarando-a de cima, como se fosse um dos olhos do lobo. Observando. E esperando. Mas o quê?

Ficou frio de novo, e Anna puxou as cobertas até a cabeça, mas o sono nunca veio.

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Dezesseis anos depois…

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Capítulo Um

ANNA DESCEU RAPIDAMENTE as escadas de carpete do segundo grande saguão do castelo, dois degraus de cada vez.

Ela quase tropeçou, mas não queria diminuir a velocidade. O relógio da torre já havia anunciado dez da manhã e ela tinha prometido a Elsa que não se atrasaria. Por um segundo, considerou deslizar pelo corrimão. Essa era realmente a forma mais rápida de descer, mas aos 21 anos ela já estava velha para essas coisas… certo? Certo. Mas…

Os pés de Anna reduziram a velocidade. A madeira branca do corrimão brilhava por causa do polimento recente e da promessa de agilidade. E suas novas botas de equitação com saltos – um presente de um dignitário de Zaria – não estavam amaciadas ainda e não eram exatamente as melhores para corrida. Ela olhou por cima dos ombros. Não havia ninguém. Tomou a decisão, ergueu a saia do vestido até os braços, suspendeu uma perna por cima do corrimão e escorregou o resto do caminho, aterrissando com tranquilidade ao chegar no primeiro andar. Saiu pelas portas do castelo e correu em direção aos estábulos.

– Elsa! Estou aqui! – Anna sussurrou enquanto se movia pelas portas do estábulo e adentrava o mundo silencioso de feno fofo e cavalos mastigando devagar. Ela alisou cuidadosamente a parte de trás de seu vestido preto e se certificou de que o longo cabelo castanho ainda estava preso no lugar com uma trança dupla. – Não estou atrasada! Bem – ela adicionou –, não tão atrasada assim. Mas eu estava sonhando algo muito fascinante, onde… – ela passou a falar mais baixo e olhou em volta.

Sua única audiência eram as orelhas alertas dos cavalos do castelo e a ninhada de gatinhos que vinham para o estábulo aos tropeços sempre que alguém entrava. Não havia sinal de Elsa. Anna arrumou a franja na testa, confusa. De alguma forma, ainda que tivesse dormido demais, tinha chegado mais cedo do que a irmã, o que era estranho. Muito, muito estranho. Elsa era sempre pontual; essa era uma das muitas razões pelas quais ela era uma ótima rainha, amada por todos em Arendelle.

Anna pegou um gatinho cinza que estava ronronando e que havia começado a brincar com os cadarços de sua bota e deu um passo para fora

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da cocheira. Talvez Elsa tivesse chegado ali tão cedo que decidira inspecionar a última entrega de maçãs. Com cuidado, mantendo a voz em um tom baixo para não assustar os cavalos, Anna chamou mais uma vez:

– Elsa?

– Você está procurando no lugar errado – anunciou uma voz amigável do outro lado dos estábulos e, um segundo depois, Kristoff Bjorgman apareceu pela porta da baia, com um forcado na mão e um pouco de palha em seu cabelo.

Anna sorriu. Ela sempre sorria assim perto dele, simplesmente não podia evitar. Quando Kristoff começara a visitar o castelo com mais frequência, três anos atrás, Gerda, que conhecia as meninas desde pequenas e as ajudava a organizar seus horários, havia comentado com as irmãs que ele parecia com as montanhas das quais coletava gelo: era forte e sólido. Elsa dissera que ele parecia “legal”. Quando Anna a pressionou mais um pouquinho, Elsa adicionou que ele também era “loiro”. Tudo isso era verdade, mas, para Anna, Kristoff não era só um homem da montanha ou um cara “legal” ou “loiro”, ele era seu melhor amigo – e definitivamente algo a mais, ainda que, às vezes, ele cheirasse a rena. O que era completamente compreensível, visto que seu outro melhor amigo, Sven, era uma rena.

A cabeça de Sven surgiu na porta da baia e ele mexeu as orelhas como se quisesse dar um “oi” simpático. Ainda que Anna tivesse convidado inúmeras vezes tanto Sven quanto Kristoff para residirem em um dos inúmeros quartos vazios do castelo, ambos preferiam ficar nos estábulos.

Anna suspeitava de que eles gostavam dos lugares menos confinados do estábulo, após passarem meses nas montanhas coletando gelo para o reino durante o verão.

– Ela não está aqui? – Anna perguntou, inclinando-se para colocar o gatinho no chão com cuidado. Ele saiu correndo para se juntar aos outros.

Kristoff colocou a mão na parte de baixo da boca de Sven e começou a mexê-la para cima e para baixo, falando no tom de voz de Sven:

– Parece que alguém não está escutando.

Anna sorriu com a “conversa de Sven” de Kristoff – ele estava sempre falando com seu amigo. Era bobo, mas ela amava isso. Então, Anna recebeu o “conselho de Sven” e prestou atenção nos arredores. No começo, tudo o que percebia era o barulho do rabo dos cavalos se mexendo e afugentando as moscas e o miado dos gatinhos tropeçando em volta de

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uma das cocheiras. Mas então, abaixo dos sons comuns, ela escutou um zunido estranho, que parecia com…

– Oh! – Os olhos de Anna se arregalaram e ela correu para o outro lado do estábulo, onde havia uma pequena janela. Ao olhar para fora, ela viu justamente o que suspeitava: uma pequena multidão de aldeões reunidos no pátio. E mesmo que não pudesse ver o que eles rodeavam, ela soube exatamente quem poderia ser: Elsa.

Aonde quer que Elsa fosse, as pessoas pareciam segui-la. Eles estiveram ali naquela manhã, perguntando-lhe sobre o que deveria ser feito à tarde, sobre o que deveria ser feito à noite, sobre o que deveria ser feito no dia seguinte. A mesa de Elsa na câmara do Conselho estava sempre repleta de papéis, e ultimamente Anna só conseguia ver de relance a irmã enquanto Gerda a conduzia de uma reunião para outra, sempre apontando o calendário comicamente grande como se fosse um metrônomo marcando a batida do dia de Elsa no ritmo.

E o cronograma frenético de Elsa estivera cada vez mais cheio no último mês, porque, no fim da semana ela iria, por fim, seguir a tradição iniciada pelo avô delas, o rei Runeard: partir em uma grande viagem pelo mundo. Em cinco dias, Elsa sairia de Arenfjord, o corpo d’água no qual Arendelle fora construída, e navegaria para além de Weselton e das Ilhas do Sul, antes de seguir para o leste em busca de explorar terras como Zaria, Royaume, Chatho, Tikaani, Eldora, Torres e Corona, entre outras.

Ela conheceria todos: dignitários e dançarinos, cientistas, pintores e cabras da montanha premiadas. E iria sem Anna.

Quando Kai, o administrador mais antigo do castelo, mencionou pela primeira vez que era a hora de Elsa começar a se planejar para sua grande viagem, Anna presumiu que partiria junto à irmã mais velha. Porém, conforme os meses se desdobraram em semanas e dias, Elsa não a convidou. E não era como se Anna não tivesse lhe dado inúmeras chances.

Na semana anterior, Anna mencionara casualmente que sempre fora seu sonho assistir ao balé Chathoan – e ela o dissera em chathoanês. Anna passara dias aperfeiçoando seu sotaque. Antes disso, executara o hino nacional de Tikaani para todos no castelo, com acompanhamento musical de Olaf, o boneco de neve que Elsa criara três anos atrás com seus gélidos poderes mágicos, usando uma flauta feita da cenoura de seu nariz. Até então, entretanto, nenhum dos esforços de Anna tinham sido notados.

Mas isso iria mudar.

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Ou pelo menos foi o que ela planejou.

Ainda espiando pela janela, Anna franziu o rosto, conforme mais aldeões em xales e casacos de cores intensas entravam pelos portões do castelo e se apressavam para se reunir à multidão em volta de Elsa.

Anna ficara aflita a semana inteira e finalmente decidira que o momento perfeito seria naquela manhã, durante a caminhada programada das irmãs pela floresta antes da partida de Elsa. Anna sabia que Elsa considerava o silêncio da floresta tranquilizador, e ela esperava que isso a guiasse ao momento perfeito para perguntar se poderia embarcar com a irmã na grande viagem. A caminhada era também uma boa oportunidade para provar que Anna poderia ser uma companheira muito útil, que seria de grande ajuda e que não ficaria no meio de seu caminho. Mas essa era uma parte do problema. Elsa não parecia precisar de ajuda.

Embora Elsa tivesse sido coroada apenas três anos antes, Anna já sabia que a irmã mais velha seria lembrada como uma das grandes governantes de Arendelle, como aquelas da tapeçaria pendurada do lado oposto da cama de Anna. Sua irmã parecia ter tudo sempre sob controle – até mesmo seus poderes mágicos –, com uma presença majestosa que todos respeitavam. Todas as vezes que conversavam, Elsa fazia Anna se sentir especial e importante. Aos 24 anos, Elsa parecia conduzir e fazer tudo com facilidade.

– Está assim desde que ela chegou aqui – comentou Kristoff, saindo da baia próxima à Anna e olhando pela janela dos estábulos. – Ou seja – ele disse, lançando um olhar de provocação –, meia hora atrás.

Anna fez uma careta.

– Eu sei, eu sei, dormi demais… de novo. – Ela precisava encontrar uma forma de tirar Elsa da multidão para que elas pudessem cavalgar juntas.

Antes que Elsa a deixasse.

Algo puxou o pé de Anna e ela olhou para baixo para ver que o gatinho cinza tinha voltado, aparentemente determinado a apanhar aqueles cadarços malvados.

– Ei, Kristoff? – Anna disse devagar, ainda olhando para o gato insistente, que tinha o tamanho da palma de sua mão, desafiando sua grande bota. – Acho que tenho uma ideia. Você tem um minuto?

– Pra você? – Kristoff piscou. – Sempre.

Anna sorriu, arrancando o gatinho de seus cadarços e o depositando nos braços de Kristoff.

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– Perfeito! Agora, esse é o plano…

Uns minutos mais tarde, Anna deixou o estábulo e correu para a multidão amigável no pátio. Conforme se aproximava, ouviu as perguntas se amontoando em volta de Elsa.

– Majestade, a chaminé em nossa ferraria tem algumas rachaduras, e estou preocupado que ela não seja consertada até a chegada do inverno – relatou Ada Diaz, uma mulher de cabelo castanho e ondulado, parada ao lado de sua esposa, Tuva Diaz, cujo cabelo era ainda mais castanho e ondulado. Elas eram as melhores ferreiras do continente e eram conhecidas por forjarem as ferraduras mais sortudas, ainda que as ferraduras da sorte em abundância não fossem tão úteis quanto a sabedoria calma de sua rainha.

– Cheguei aqui primeiro – outro aldeão com rosto familiar queixou-se de Ada antes de virar para Elsa e fazer uma reverência. – Majestade, você prometeu que as pedras do meu jardim seriam removidas até o início do outono e olhe… – Ele segurava uma folha vermelha de carvalho. – Já é outono!

Ah-hãm – disse outro. – A Corte do Povoado está esperando para anunciar quem serão os juízes do festival da colheita deste ano, Majestade.

Você tem os nomes? – Ainda que Anna não pudesse ver ninguém em particular na multidão, ela soube, só de escutar a voz e pela tosse irritante de quem sabe tudo, que era Wael, aquele que se autodenominou repórter da aldeia, cujos cabelos pretos e oleosos combinavam com as mãos sujas de tinta.

Movendo-se ao lado de Elsa, Anna contava silenciosamente. Três…

dois… um… E então fez um sinal para Kristoff.

– Oh, minha nossa, Sven! – Kristoff declarou em voz alta da entrada dos estábulos. – Olha só pra esses gatinhos adoráveis!

– Eles são mais fofinhos do que você! – ele disse, na voz de Sven.

E durante o breve segundo em que todos da multidão se viraram para olhar os gatinhos brincando ao longe, em um canto do pátio, Anna disparou no meio do aglomerado, pegou Elsa pela mão e a puxou para perto dos estábulos e depois para dentro.

– Anna! – Elsa exclamou, ofegante, enquanto dobravam uma esquina, onde Havski e Fjøra, os cavalos mais rápidos, aguardavam-nas com suas selas prontas. – O que está fazendo?

Anna sorriu.

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– Libertando você!

– Mas… – Elsa protestou, afastando da testa uma mecha solta de cabelo branco como gelo. – Os aldeões precisam da minha ajuda…

– Eu sei! – Anna concordou. – Mas Kai e Gerda podem cuidar deles, e é importante você cavalgar comigo uma última vez antes de partir, só para ter certeza de que tudo está em ordem. Não acha? Além disso – ela adicionou, abrindo um sorriso ainda maior –, você não quer passar um pouco de tempo comigo?

Elsa tinha lidado com reclamações a manhã inteira, mas ainda parecia majestosa e calma. O vento soprou por uma porta aberta e levantou sua capa azul diáfana com fenda e seu casaco, puxando para trás a trança embutida, de modo a deixá-la suspensa sobre seu ombro esquerdo. Por um momento, ela ficou parecendo uma das rainhas valentes e atemporais de um dos seus livros. Mas, no segundo seguinte, Elsa lançou um sorriso a Anna e tudo pareceu como antes – quando ambas ainda eram apenas duas crianças fugindo de seus quartos para uma aventura noturna.

– Acho que posso deixar Kai e Gerda tomando conta das coisas só desta vez – disse Elsa.

Anna soltou um grito de alegria. Ela subiu rapidamente no dorso de Havski enquanto Elsa levou um tempo para montar em Fjøra, uma linda égua com cauda listrada branca e preta. Por fim, após algumas tentativas, Elsa subiu. Juntas, elas trotaram para fora dos estábulos e deixaram o pátio do castelo. Anna acenou para Kristoff, que sorriu debaixo de uma pilha de gatinhos brincando com seu rosto.

As irmãs cruzaram a Ponte dos Arcos e adentraram o ar fresco e selvagem do outono. Atrás delas, abrigado nas sombras das montanhas exorbitantes, o castelo brilhava e reluzia com as tochas decorativas da mágica gélida de Elsa. Anna parou seu cavalo com um galope e Elsa fez o mesmo.

Arendelle era um reino ermo, de costas vigorosas, profundas águas azuis e navios altaneiros. Muitos e muitos navios. Eles vinham de todos os lugares, trazendo pessoas de todas as partes do mundo, que ficavam contentes em se estabelecer em um reino tão pitoresco – pessoas que ficavam contentes por responderem ao convite de Anna para compartilhar as lembranças de seus próprios países para que ela pudesse aprender mais sobre seus costumes. Lembranças que poderiam ajudar Anna a preparar Elsa para a grande viagem… se Elsa a deixasse ir. Afinal, ao mesmo

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tempo que os navios traziam pessoas para o reino, eles também partiam com pessoas. Os navios reais estavam no porto, carregados de mercadorias, à espera do embarque de Elsa.

Enquanto as irmãs seguiam para além da aldeia em expansão e as pessoas acenavam empolgadas, uma sensação de satisfação preencheu o corpo de Anna. Era a melhor parte de ter aberto os portões, três anos atrás:

a circulação de todas essas novas pessoas e novas ideias. Embora a aldeia estivesse mais populosa do que nunca, com ainda mais habitantes chegando, Arendelle seria para sempre o coração de Anna e seu lar. Tal situação jamais mudaria.

Conforme elas se moviam para além das casas e lojas, a floresta de Arendelle florescia em volta delas, revelando cores vivas: amarelos brilhantes, vermelhos profundos e tons envelhecidos de laranja que lembravam Anna de fogueiras e caramelos derretidos. Um suspiro alegre lhe escapou. As folhas do outono haviam começado a mudar, e todos os seres vivos da floresta pareciam estar se acomodando, assim como Elsa se habituava a ser rainha. Anna, particularmente, não gostava de mudanças.

Ela sempre queria que as coisas permanecessem as mesmas. Nos últimos dias, ela mal conseguira ver Elsa, sempre confinada na câmara do Conselho, afundada em papelada ou liderando reuniões importantes das quais Anna também participava. Mas ela ficava feliz de ver Elsa desabrochando, mesmo que isso significasse uma alteração no relacionamento delas, como efeito colateral.

Os cavalos reduziram a velocidade, trotando devagar lado a lado.

Imaginando se seria o momento certo, Anna lançou um olhar a Elsa. Sua irmã estava com um semblante pensativo e distante.

– Em que você está pensando agora? – Anna perguntou.

– Ah. – Elsa olhou para suas rédeas. – Nada… você sabe, trabalho.

– Quer compartilhar algo comigo? – Anna perguntou, tentando manter sua ansiedade em um nível oito, em vez do nível dez de sempre. – Você se lembra do que papai sempre dizia, certo?

Elsa inclinou a cabeça.

– O quê? Que os fardos devem ser compartilhados?

Anna sentiu um incômodo, como se algo estivesse preso em sua garganta. Porque… bem, os fardos e segredos de sua família não haviam sido compartilhados com ninguém. Ou pelo menos não com Anna. Seu pai

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havia deixado um troll expulsar as lembranças de Anna acerca da mágica de gelo de Elsa, e ele, sua mãe e Elsa tinham todos mantido segredo.

Isso se tornara um segredo muito, muito grande, até o dia da coroação de Elsa, quando Anna forçou os limites da nova rainha e Elsa perdeu o controle de seu temperamento – e de seus poderes de gelo, os quais, até então, pareciam tão terríveis quanto o inverno vasto e eterno que se instalou no reino. No entanto, observando em retrospectiva, foi a melhor coisa que já acontecera com Anna. Isso não só marcou o início de uma nova era com a irmã, mas também lhe permitiu escapar por pouco de um casamento um tanto quanto… precipitado… com um príncipe que a enganou.

– Não! Não isso! – Anna balançou a cabeça, desejando poder afastar aquele sentimento desconfortável. – O outro ditado, aquele sobre muitas mãos deixarem o trabalho menos penoso.

– Ah. – Elsa riu. – Ele tinha muitos ditados, não tinha?

Anna esperou que Elsa continuasse a falar, mas sua irmã pareceu se esquecer de sua presença, ainda que estivessem cavalgando lado a lado.

– Ei, Elsa? – ela tentou novamente.

– Humm?

– Aposto que chego primeiro naquela clareira!

– O quê?

Então, Anna fez Havski voltar a galopar. Ele disparou, libertando o coração dela. Cavalgar o cavalo cinza era como cavalgar uma avalanche:

rápida, emocionante e poderosa. A adrenalina percorria suas veias e, sem pensar, ela soltou as rédeas.

– O que está fazendo? – Elsa gritou atrás dela.

– Voando! – Anna gritou de volta e abriu bem os braços. O vento fresco fluía pelo seu rosto e parecia estar soprando para longe aquela sensação apertada que havia se instaurado em seu peito desde que Elsa anunciara sua partida. Elsa gritou algo, mas o vento levou suas palavras embora.

– O quê? – Anna indagou por cima do ombro.

– GALHO! – Elsa gritou novamente.

Anna se virou para a frente a tempo e esquivou-se da bétula cujo galho estava suspenso. Rindo, abraçou o pescoço de Havski e o cavalo bufou em resposta, sem perder a velocidade. E por que ele deveria? Eles haviam crescido juntos, e por um longo período Havski havia sido o mais próximo que Anna tinha de um melhor amigo. Os dois haviam desviado de galhos

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mais grossos e pulado por cima de rios ainda mais largos juntos. Ao recuperar as rédeas outra vez, a princesa as manteve soltas e deixou Havski se acomodar em um galope ofegante.

Seus passos diminuíram e, aos poucos, o cavalo passou para um trote mais tranquilo, antes de alcançarem uma clareira repleta de musgo. Houve um rangido e o som de galhos se quebrando, e Anna se contorceu em sua sela bem a tempo de perceber a aproximação de Elsa e Fjøra. Uma única folha escarlate tinha pousado no cabelo de Elsa e era quase como se a floresta estivesse coroando sua rainha do outono.

Anna sorriu.

– Não é divertido?

Arrumando as mechas soltas do cabelo loiro, Elsa retirou a folha de sua cabeça, fitou-a e começou a rir.

– É, sim – concordou.

Anna sentia como se um sol em miniatura estivesse incendiando seu peito.

Elas foram se aproximando das calmas e generosas terras cultivadas.

Anna viu que a irmã havia enfim se acomodado sobre a sela e observava a paisagem ao redor com olhos curiosos. Ela parecia tranquila. Parecia relaxada. Talvez fosse a hora de finalmente lhe perguntar o que tanto queria. Elas viraram para a esquerda, passando por um pomar lindo, com radiantes maçãs vermelhas e folhas de outono tão laranja que era como se o mundo tivesse sido incendiado. Maçãs. Perfeito.

Anna apontou para elas.

– Sabia que tem uma maçã na bandeira real de Zaria? – ela comentou de maneira casual. – E é por isso que é costume local os visitantes presentearem seus anfitriões com maçãs. – Uma preocupação perpassou os pensamentos de Anna. – Seu navio está levando maçãs a bordo, certo?

Elsa balançou a cabeça.

– Sim, Anna. Você fez questão disso! Se eu levar mais dos barris de presentes que você sugeriu para todos, meu navio vai ficar pesado demais para sair do porto!

Anna afastou a franja dos olhos e riu.

– O que você faria sem mim? – Ela puxou as rédeas, fazendo Havski parar com gentileza. – Elsa, quero te perguntar uma coisa. Estava pensando se eu poderia me juntar… – Mas, antes que pudesse terminar, as orelhas de Havski se achataram diante de um ruído vindo de perto.

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Uma aldeã irrompeu de um matagal, ofegante, erguendo a saia verde para conseguir correr.

Demorou um tempo para que Anna a reconhecesse – havia tantos aldeões novos em Arendelle esses dias –, mas então ela se lembrou de SoYun Lim, uma garota da sua idade que recentemente começara a criar um rebanho bovino em uma fazenda não muito longe dali. Anna conversara com ela no verão, durante uma das noites de fogueira oferecidas pelo castelo, e lhe perguntara sobre seu país nativo, Chatho. A pesquisa fora realizada, claro, para a grande viagem. De fato, SoYun era uma das pessoas que lhe ajudaram a aperfeiçoar seu sotaque chathoanês.

Contudo, a garota sempre lhe pareceu tão calma quanto uma manhã sem vento, cuja natureza silenciosa acalmava os animais sob seus cuidados. A garota em pé na frente dela estava desgrenhada. Sua trança negra, que normalmente se mantinha alinhada e firme como um varal, tinha se transformado em uma série de nós escapando, e ela estava calçando duas botas diferentes: o pé esquerdo enfiado em uma bota preta alta, enquanto o direito ostentava uma bota marrom-clara de couro. Mas não era o estado estranho de suas roupas ou de seu cabelo que revelavam que havia algo perturbando a garota. Era a expressão em seu rosto e seus olhos arregalados, como se ela tivesse visto um fantasma, e o jeito frenético como batia os braços em busca de chamar a atenção delas.

– Majestade! – SoYun curvou a cabeça na direção de Elsa em uma leve reverência. – Ainda bem que alcancei você! Algo terrível aconteceu!

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Capítulo Dois

– SOYUN! O QUE ACONTECEU? – Anna desceu de Havski, aterrissando em uma pilha de folhas antes de sair correndo até a garota.

– É o meu rebanho – disse SoYun, olhando de Elsa, que descia com cuidado de Fjøra, para Anna. – Eles estão… Oh! – SoYun balançou a cabeça. – Não sei nem por onde começar! – Lágrimas encheram seus olhos.

Anna abriu a boca para falar, mas parou para dar uma chance a Elsa.

Elsa aproximou-se.

– Que tal você nos levar lá e nos contar o que aconteceu no caminho?

Diga qualquer coisa que vier à mente e nós encaixaremos as partes para entender, tudo bem?

SoYun assoou o nariz e então concordou.

– Eu estava indo por aquele caminho – ela relatou, e se pôs a caminhar tão rápido que quase saiu trotando. Segurando as rédeas dos cavalos, as irmãs seguiram, em busca de entender a história de SoYun enquanto ela a contava. – Tudo começou alguns dias atrás – disse SoYun, com a voz trêmula –, quando eu tentei chamar o rebanho de volta… você sabe como normalmente tudo funciona como se por encanto.

Anna sabia. Chamar o rebanho era uma antiga tradição arendelliana, baseada em cantar notas altas para convocar os animais de volta. Eram necessários muita prática e controle para que tudo ocorresse corretamente, já que se tratava de muito mais do que uma simples entoação. Era um som de conto de fadas, um som que fazia os pelos da nuca de Anna se arrepiarem, fazendo com que ela soubesse – realmente, profundamente soubesse – que, por um único instante, qualquer diferença entre ela, a Terra, o vento e o céu era apenas uma ilusão. SoYun era uma das aldeãs mais habilidosas nessa técnica. Ela nunca havia tido nenhum problema. Na verdade, quando as vacas não queriam voltar, as pessoas sempre pediam a ajuda de SoYun.

– E então eu fui para os campos – continuou SoYun – e tentei cantar para que retornassem. Porém… – Seus ombros caíram. – Elas nunca

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vieram. Nem mesmo quando usei meu berrante. Saí para procurar e, finalmente, quando as encontrei… – A voz de SoYun vacilou.

– O que aconteceu? – Elsa indagou, enquanto elas afastavam árvores de bordo mortas e adentravam um campo aninhado aos pés de uma montanha azul, onde Anna podia somente distinguir uma fazenda bem cuidada entre campos dourados mais bem cuidados ainda e um rebanho bovino circulando em volta de um grande rochedo branco.

– Foi isto o que aconteceu. – SoYun inclinou-se para a frente. Enquanto elas se aproximavam do rebanho, Anna percebeu que as vacas não estavam em volta de um rochedo branco, no final das contas, mas de um touro que dormia.

– Este é o Hebert – disse SoYun. – O líder do meu rebanho.

Hebert. O nome pareceu familiar para Anna e ela se lembrou que um ano antes, durante a competição do festival da colheita, um grande e enérgico touro com esse nome conquistara o primeiro lugar. Mas seu couro era tão negro quanto a asa de um corvo, e esse animal era inteiramente branco.

SoYun respirou fundo.

– Alguns dias atrás, percebi que ele estava com uns pelos brancos, o que não seria muito incomum. Ele está ficando velho. Mas então, na manhã seguinte, o branco aumentou drasticamente, até a situação que vocês veem agora.

Elsa ergueu as sobrancelhas como se quisesse dizer: É só isso? Um pouco de pelo branco?

Mas Anna se lembrou de uma mecha do seu próprio cabelo que havia ficado branca, como resultado de um golpe acidental da mágica de Elsa quando elas eram crianças.

SoYun puxou a ponta de sua longa trança e mordeu seu lábio inferior.

– Mas eu não teria incomodado Sua Majestade só por conta disso.

Tem… outra coisa.

– Tipo…? – Anna não tirava os olhos do touro adormecido, com seus grandes chifres encurvados apontando para o céu, duas pontas idênticas.

– Ele estava agindo de um jeito diferente há alguns dias também…

Primeiro pareceu que ele estava com medo de algo invisível, como um draug – disse SoYun, fazendo uma referência ao terrível zumbi mitológico de que Anna já tinha ouvido falar nas fogueiras do castelo. – E então – continuou SoYun –, ele correu para o campo até que irrompeu em um suor

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repleto de pânico, o que aparentemente deixou seu pelo branco. E, finalmente, suas pupilas ficaram grandes, enormes, até que seus olhos foram completamente engolidos por uma tinta negra. – Os olhos de SoYun se arregalavam conforme elas olhavam para eles. – Daí ele começou a gemer até que, por fim, pegou no sono.

Anna trocou olhares confusos com Elsa. Ela não costumava pensar no sono como algo ruim. Na verdade, quanto mais dormisse, melhor.

As sobrancelhas de Elsa agitaram-se de novo.

– Dormiu? – ela perguntou.

– Sim. – SoYun confirmou vigorosamente com a cabeça. – Não um sono comum, mas profundo. Não importa o que a gente faça… gritar, empurrar, jogar água… ele não acorda. Faz dias já. O que significa também que ele não está comendo.

Quando SoYun mencionou isso, Anna notou as costelas do touro saltadas; seu pelo branco tornava fácil imaginá-lo como uma pilha de ossos descoloridos pelo sol. Anna envolveu os dedos na longa crina sedosa de Havski – ela não sabia o que faria caso algo do tipo acontecesse com ele. E quaisquer conexões que Anna estabelecera entre a sua mecha outrora branca e o touro esbranquiçado sumiram. Afinal, quando Elsa deixou seu cabelo branco, Anna correu o risco de se transformar em gelo, não de adormecer.

SoYun olhava do touro para as garotas, e uma lágrima escorria pelo seu pescoço.

– Ele está desaparecendo bem na nossa frente, e os outros bovinos estão mostrando sintomas similares! – SoYun apontou para uma vaca de olhar sereno, com longos cílios e olhos que iam para trás e para a frente, como o pêndulo de um relógio da época de seu avô. Era como se estivesse acompanhando algo que não estava ali. Ou melhor, acompanhando algo invisível, que somente ela podia ver.

– E se – continuou SoYun – todos eles adormecerem, e então… – O medo na voz da garota era tangível e afiado.

Anna se aproximou e a abraçou forte.

– Eles vão ficar bem. Não se preocupe. Nós vamos dar um jeito de ajudá-los, não vamos, Elsa?

Elsa se aproximou e deu leves tapinhas no ombro de SoYun.

– Sim. Você fez tudo exatamente certo ao vir até mim e falar sobre isso.

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Mim. Aquela palavra ecoou por todo o corpo de Anna. Certo tempo atrás, Elsa teria dito nós, com certeza.

Anna virou-se para Elsa.

– Tenho uma ideia – sussurrou. – Nós deveríamos visitar os trolls.

Embora sua altura chegasse apenas na cintura de Anna e sempre estivessem cobertos de musgo, os trolls, pequenas criaturas das montanhas, eram os seres mais poderosos que ela conhecia. Vovô Pabbie, o troll mais antigo e sem dúvida o mais sábio, às vezes usava o brilho da aurora para mostrar relances do que poderia acontecer ou, ocasionalmente, para lidar com situações que poderiam envolver mágica. Se havia alguém capaz de ajudar SoYun e seu rebanho, Anna sabia que eram os trolls.

Afinal, ela tinha aprendido que, quando eventos misteriosos aconteciam, era melhor visitar criaturas mágicas para obter respostas.

Elsa sorriu.

– É uma ótima ideia, mas acho que teremos tempo somente para olhar na biblioteca do castelo. Por que não tentamos isso primeiro? Lembre-se do que papai costumava dizer.

Anna fez uma careta, tentando determinar a qual dos inúmeros ditados Elsa estava se referindo.

– “Anna e Elsa, sempre confiem uma na outra quando precisarem de ajuda”? – ela tentou adivinhar.

Um leve sorriso apareceu nos lábios de Elsa, ainda que ligeiramente triste.

– “O passado encontra uma forma de retornar”. Nós deveríamos tentar descobrir se isso já aconteceu antes e ao menos juntar alguma informação útil para os trolls.

Era uma excelente sugestão, e Anna de repente ficou empolgada para verificar a biblioteca junto a ela. Ambas as irmãs gostavam de apreciar um bom livro de histórias lá, mas na biblioteca também havia livros sobre acontecimentos no reino, sobre a família real e os habitantes da aldeia. Se algum lugar no castelo tinha respostas, seria ali.

– Existe algo que pode ajudar a diminuir os sintomas? – perguntou Elsa a SoYun.

SoYun, que havia se ajoelhado para fazer carinho no nariz de Hebert, olhou para cima.

– Hortelã parece ajudá-los a se manter alertas. O cheiro é azedo para o nariz deles, mas não dura muito tempo.

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– Hortelã – Elsa repetiu. – Vou garantir que isso esteja no relatório.

Lembre-me disso, Anna?

Após garantir que tinham aprendido tudo sobre os sintomas, elas se despediram de SoYun, Hebert e o restante do rebanho. Enquanto Anna seguia na direção de Havski, gritou para trás:

– Não se preocupe, SoYun! Nós vamos dar um jeito nisso, prometo.

Anna e Elsa passaram o resto da tarde na biblioteca do castelo. Até então, não tinham encontrado nenhuma menção, em toda a história de Arendelle, a um rebanho doente que caíra em sono aparentemente infinito.

Isso significava que não havia sugestões para a cura da ferrugem branca, como Elsa decidira chamar a doença do sono.

Ela sentou-se perto da janela e ficou folheando um livro, enquanto Anna se esparramou em um sofá na frente de uma ladeira, erguendo um volume sobre sua cabeça para ler. Uma batida cortante ressoou pelo cômodo, seguida da voz urgente de Kai:

– Majestade, você está aí?

– Estou aqui, Kai! – Elsa respondeu.

A porta ornamentada se abriu e o homem que estava quase sempre calmo entrou parecendo aflito, com o cachecol desarrumado, em vez de amarrado em um nó ao redor de seu pescoço, e as sobrancelhas juntas, demonstrando preocupação. O coração de Anna acelerou. Como administrador do castelo, Kai era o homem do decoro e dos protocolos.

Ele sempre se curvava quando as via, não importava quantas vezes as irmãs tivessem implorado para que ele parasse. Mas dessa vez ele não fez reverência nenhuma.

– O que aconteceu, Kai? – Elsa se levantou da alcova da janela e correu em sua direção, enquanto Anna virava seu livro para baixo e se levantava do sofá.

– Péssimas notícias – Kai disse arquejando, como se fosse sair correndo dali. – O rebanho inteiro de cabras dos Westen parece ter caído subitamente no meio do campo, e elas simplesmente não querem se levantar. A família está pedindo que você venha rapidamente, Majestade.

O medo tomou conta de Anna e ela se virou para Elsa:

– Você acha que…?

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Elsa concordou:

– Certamente é possível. No entanto, ainda não temos uma resposta. – Ela olhou para a longa pilha de livros, para as prateleiras altas e cheias e, então, de novo para Kai, claramente dividida sobre o que deveria fazer em seguida.

– Você deveria ir – Anna a encorajou. – Só para ter certeza de que é a mesma coisa.

Elsa entrelaçou seus dedos, um hábito que herdara do tempo em que usava luvas de seda para reprimir seus poderes. Anna se aproximou e pousou a mão no antebraço da irmã. Surpresa, Elsa olhou para baixo e, percebendo o que estava fazendo, sorriu para Anna como se estivesse agradecendo. Então, fechou as mãos cuidadosamente na frente dela.

– Se está preocupada – disse Anna –, você deveria dividir e conquistar.

Envie Kristoff e Sven para os trolls, já que não encontramos nada de útil, e eu fico aqui e continuo procurando respostas. Eu dou conta disso.

Mesmo assim, Elsa hesitou e Anna se perguntou o porquê. Talvez Elsa não tivesse gostado da sugestão? Ou será que não confiava que ela daria conta? Por fim, Elsa concordou, e o alívio tomou conta de Anna quando sua irmã disse:

– Boa ideia. Vou avisar Kristoff antes de sair, mas prometo que estarei de volta logo. – E, assim, Elsa apressou-se na direção de Kai, deixando Anna sozinha na biblioteca.

Horas se passaram; as ceras das velas caíam em cascatas na mesa e formavam pequenas poças, mas Anna mal as notou – ela continuou indo de livro em livro, à procura de respostas… e falhando. Uma brisa calma entrou pela janela, causando alvoroço nas páginas dos livros abertos, além de espalhar pitadas de arrepios nos braços de Anna e bagunçar as cinzas da lareira. Logo, a mesma brisa estaria inflando as velas de Elsa para levá-la para muito, muito longe.

Viagens de navio deixavam Anna nervosa. Sete anos tinham se passado desde que seus pais partiram para os Mares do Sul. Algo que deveria ter durado somente duas semanas tornou-se eterno. Os dias que sucederam a notícia foram os mais obscuros da vida de Anna, e as noites eram ainda piores. Dormir era impossível. As partes internas de suas pálpebras ficaram da cor de ondas incompreensíveis, como aquelas que ela imaginava terem levado seus pais. Às vezes, até hoje, a ausência deles a assustava, tão recente e repentina como a picada de uma abelha.

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Entretanto, conforme os anos foram passando, a dor se tornou menos imediata, os pesadelos de infância foram sumindo e ela podia se lembrar de seus pais – as amorosas canções de ninar da mãe, o humor zombador do pai e todos os seus relatos inverossímeis – com alegria.

O reencontro com a irmã ajudara. Elsa havia se trancado quando criança, e Anna foi deixada apenas com as próprias memórias de seus pais.

Mas desde que as portas do quarto de Elsa se abriram, a coleção de histórias sobre eles se multiplicou. E mesmo que essas histórias não preenchessem o vazio em seu coração, ajudavam a amaciar as bordas pontudas.

Ela podia não ter mais seus pais, mas tinha uma irmã, e isso era o suficiente. Suficiente para fazê-la desejar que Elsa não a deixasse para trás. Ela iria deixá-la… a menos que Anna provasse o seu valor. A menos que provasse ser mais do que uma garotinha boba que conversava com os retratos da galeria e que dissera “sim” para um pedido de casamento do malvado (e felizmente agora exilado) Príncipe Hans menos de vinte e quatro horas após tê-lo conhecido. Anna sabia que Elsa a valorizava, apesar de tudo isso, mas ainda sentia uma insegurança permanente.

Olhou para a estátua de pedra de um cavalo que ficava no canto da biblioteca como se ela tivesse todas as respostas de que precisava. Mas tudo o que ela possuía eram delicadas conchas e estrelas-do-mar de pedra esculpidas em sua crina e uma expressão brava em sua cara. Era uma estátua velha, e Anna tinha medo de seus dentes à mostra, seus cascos dianteiros furiosamente suspensos no ar e seus olhos vazios. Uma vez, quando tinha quatro anos, ela gastou todos os cosméticos de sua mãe em uma tentativa de deixar o cavalo mais feliz, antes que a mãe descobrisse e a carregasse para fora do aposento, avisando-a para não encostar na estátua novamente. Sempre diziam à jovem Anna que ela não deveria encostar nas coisas, como cordas de violão, pinturas a óleo, espadas de seu pai e…

– Uau, o que aconteceu aqui?

Anna se assustou com a voz. Desviando o olhar para longe da estátua, ela olhou para a frente e identificou a forma arredondada de Olaf em pé na porta.

Quando crianças, Elsa e Anna inventavam histórias sobre um boneco de neve chamado Olaf, que tinha galhos como braços e uma cenoura como nariz. Anos mais tarde, no dia da coroação de Elsa, ela acidentalmente perdeu o controle de seus poderes de gelo e trouxe Olaf à vida. Desde

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então, ele era o boneco de neve residente do castelo e membro da família das irmãs. Ele tinha uma nuvem de nevasca flutuando acima da cabeça, o que evitava que ele derretesse, mas, depois que os poderes de Elsa aumentaram e mudaram, ela podia controlá-los de longe e enfeitiçar Olaf com um gelo permanente, que serviria ao mesmo propósito. Os olhos de Olaf se arregalaram quando entrou na biblioteca. Ou melhor, na bagunça da biblioteca.

– É mais fácil para mim se eu dividir tudo em pilhas – Anna explicou, observando o espanto de Olaf diante das torres de livros espalhadas pelo chão. Ela não havia percebido o quão… empolgada estava quando começou a organizar os títulos. Talvez houvesse mais livros no chão do que nas estantes. Certamente não era o sistema organizado e metódico de Elsa, a julgar pelos volumes que a irmã deixara em pilhas perfeitas perto da janela da alcova.

Olaf assentiu com a cabeça:

– Faz sentido. Quando você faz um boneco de neve, deve sempre começar com as pilhas. A menos que você seja a Elsa, claro. – Ele apontou: – Quais são esses?

– Livros sobre doenças – disse Anna. – A pilha ao lado dessa é sobre anatomia animal, e a outra, sobre sono. – Cada título estava explodindo com possibilidades.

Olaf moveu-se para a última pilha e só seu cabelo de ramos ficou visível sobre o monte.

– E essa enorme aqui?

– Essa é a minha pilha “a serem lidos”.

– Aaaah, é muito maior do que todo o resto – ele observou.

Anna encolheu os ombros. Tinha deixado esses livros de lado, pois não eram necessariamente úteis, mas interessantes o suficiente para que ela quisesse dar uma olhada neles mais tarde. Poemas eram ótimos por causa de sua imagética e brevidade, mas ela também adorava os grandes tomos de artistas de diferentes épocas. E, é claro, havia também os romances nos quais as pessoas encontravam o amor verdadeiro, ou se comprometiam com uma jornada perigosa, ou se reuniam com os entes amados perdidos.

Anna esfregou os olhos e ajustou a saia do vestido, que havia começado a apertá-la de forma desconfortável.

– Onde você estava? – ela perguntou.

Olaf caminhava de pilha em pilha.

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– Na biblioteca da aldeia, escutando uma palestra sobre o Inferno de Dante. Quanto mais quente a história, melhor.

Anna sorriu. Após sua primeira festa de aniversário depois do inverno perpétuo de Elsa, Anna ensinara Olaf a ler. Desde então, o boneco de neve havia ficado obcecado. Ele gostava de livros de todos os tamanhos, mas seus favoritos eram os grossos volumes de filosofia, além de leituras para a praia, as quais ele frequentemente insistia que eram tão importantes quanto os clássicos. Anna não discordava.

– Então, por que você está reorganizando a biblioteca? – perguntou Olaf.

Respirando fundo, Anna rapidamente explicou sobre SoYun e seu rebanho e lhe contou que Elsa estava fora, verificando as cabras dos Westen.

– Parece que alguma ajuda poderia lhe ser útil – sugeriu Olaf, arrumando um botão de carvão. – E, nas palavras sábias de muitos filósofos, quatro olhos são melhores do que três.

– É isso o que eles dizem? – perguntou Anna, repousando a cabeça na palma da mão.

Olaf tirou seu par de óculos de gelo favorito, os quais Elsa fizera especialmente para ele.

– Na verdade – ele disse –, também recomendam “começar do começo”.

Então, vamos começar pela letra C, de “começo”. – Anna seguiu seu dedo irregular que apontava para a prateleira do meio, a mais próxima, atrás da estátua de cavalo.

– Claro – concordou Anna. – Você olha essa enquanto eu termino aquela.

Olaf escalou uma mesa abaixo de um retrato da coroação do rei Agnarr e, então, pulou nas costas do cavalo de pedra. Cuidadosamente, deslizou seu traseiro e depois se levantou, balançando com dificuldade de um lado para o outro.

– Quase… – ele disse, tentando alcançar a estante.

Anna podia ver que ele estava tendo dificuldades, então deu um salto e correu para ajudá-lo.

– Só um pouquinho… Ops! – Houve um “clique” seguido por um som estridente, como engrenagens movendo-se umas contra as outras. A pata traseira do cavalo, na qual Olaf estava em pé, desceu como se fosse uma alavanca. Poeira espalhou-se pelo ar e Anna fechou seus olhos, virando a

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cabeça para o lado contrário para evitar engolir mais poeira. E então…

tudo ficou parado.

Tudo ficou em silêncio.

– Uau – Olaf soltou em um suspiro. – Isso aí é algo que você não vê todo dia.

Os olhos de Anna se abriram e ela deu um suspiro, surpresa. A prateleira de livros atrás da estátua havia se aberto para dentro, como uma porta. Não, não foi como uma porta. Era uma porta de verdade, que se abriu revelando uma entrada com arcos e, além dela, escuridão. E talvez – só talvez – algo que poderia trazer respostas e ajudar Elsa a descobrir como curar a ferrugem branca.

Boquiaberta, Anna adentrou o quarto secreto e imediatamente bateu as canelas em algo. Ela recuou. Independentemente do que fosse aquilo, ia deixar um hematoma. Por que não pensou em pegar uma vela? Ao virar a cabeça para trás, viu Olaf balançando na direção dela, com uma vela na mão. Ele parou na sua frente e a chama lançava um fraco brilho laranja em seu rosto preocupado.

Olaf ergueu uma sobrancelha, desconfiado.

– Pensei que você não podia enxergar no escuro.

– Não consigo – disse Anna. – Você se importaria de dividir a luz?

– Não! – Olaf entregou a vela para ela. – Vai precisar disso para ver a pessoa que está em pé atrás de você.

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Capítulo Três

ANNA ESTAVA INQUIETA, segurando um grito asfixiante.

Porém, ao levantar a vela, ela percebeu que não era uma pessoa, mas um capacete de metal inteligentemente forjado para criar a ilusão de uma careta assustadora, com dentes afiados. À primeira vista, isso lhe causou confusão e surpresa, porque era diferente dos capacetes que os soldados arendellianos usavam. Na verdade, quanto mais ela observava, mais tinha certeza de que esse capacete viera da época de Aren de Arendelle, há muitos anos, de heróis que hoje eram mais lenda do que história.

Conforme ela foi erguendo a vela, a esfera de luz aumentou e revelou o resto do que eles haviam encontrado: um quarto sem janelas, com chão revestido de lajotas, um teto arqueado e prateleiras brilhantes.

As prateleiras haviam sido esculpidas nas paredes de pedra e, à diferença do resto do castelo, não tinham sido cobertas com papel ou tinta nem decoradas com motivos florais. Elas haviam sido deixadas ao natural, e os pequenos cristais incrustados nas pedras pareciam piscar em uma saudação amigável, conforme a luz da vela os iluminava. Não era só a pedra que brilhava debaixo de uma camada de pó, mas também os objetos muito estranhos e deslumbrantes nas prateleiras: uma cintilante balança prateada, um diagrama do que parecia ser uma barragem de água, béqueres de vidro e garrafas repletas de espécies fascinantes de flora e fauna, boiando em salmoura.

E havia livros. Em espiral, eles subiam até as vigas do teto, a única superfície que havia sido pintada e se assemelhava ao céu desperto, com a aurora boreal e constelações conhecidas, como Lupus, o lobo, Frigg, o pescador, e muitas outras. Havia livros largos com lombadas de couro grosso, livros grandes com lombadas finas, livros com páginas amareladas, livros com páginas aos farrapos, livros finos, livros de tamanho médio, livrinhos menores do que um dedão. Anna ficou boquiaberta. Não importava o quão diferentes fossem, cada livro podia guardar as respostas que ela desesperadamente precisava.

Olaf cambaleou para dentro do cômodo.

– Aaah, mais livros! Livros secretos!

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– Livros secretos… – Anna ponderou, e sua empolgação inicial diminuiu. Ela sabia que deveria estar mais entusiasmada pela descoberta do cômodo secreto, mas algo sobre o sigilo disso tudo a incomodava, fazendo com que se sentisse ligeiramente magoada. Devagar, aproximou- se das prateleiras. Estava se perguntando quem teria usado esse cômodo. A família real de Arendelle vivia no castelo fazia décadas. Desde que seu avô, o rei Runeard, supervisionou sua construção quando o pai de Anna ainda era um garoto. Talvez esse quarto tivesse sido um local de consolo para algum tio ou tia há muito tempo.

Anna passou os olhos pelos títulos. Alguns tinham sido escritos em línguas que ela não conhecia, mas que eram familiares de suas pesquisas para a grande viagem. Outros possuíam símbolos indecifráveis. Porém, aqueles que ela podia ler fizeram seu coração saltar: O esconderijo de Hulda; Pergaminhos dos trolls; Pesadelos e proibições; Jornadas de outrora; Artesanatos de feiticeiros e jogos; Lendas da magia; Decifrando a magia…

Magia. Os pensamentos de Anna vibraram com a batida de seu coração.

Magia. Magia. Magia!

Magia não era desconhecida em Arendelle. Afinal de contas, Elsa tinha habilidades mágicas que ninguém no reino tinha visto antes. Ou pelo menos ninguém vivo tinha visto antes. Em algumas das histórias antigas, as favoritas da rainha Iduna, a mágica era abundante. Ela contava fábulas sobre toalhas de mesa que podiam produzir banquetes repletos de alimentos em um piscar de olhos, botas que podiam viajar sete léguas em um único passo, metamorfos que viviam em uma floresta encantada e pedras que podiam transformar chumbo em ouro… mas essas eram inventadas. Faz de conta. De mentira.

Contudo, nos últimos três anos, Anna tinha testemunhado coisas inacreditáveis, impossíveis. Uma irmã que podia estar entre a terra e o céu e construir palácios de gelo somente com alguns sopros de ar e alguns movimentos rápidos de seus pulsos. Uma rainha que podia controlar o frio.

Se Elsa podia existir, e Anna bem sabia que ela existia, então por que outras impossibilidades também não poderiam?

Por que não poderia existir algum tipo de feitiço ou encantamento que pudesse consertar o que quer que estivesse acontecendo com a ferrugem branca? Claro, Anna tinha esperanças de encontrar algo nesse lugar que pudesse ajudá-la com o problema que tinha nas mãos, mas, depois disso,

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quem sabe? Talvez houvesse conhecimento em algum lugar ali que poderia ajudar ferraduras a nunca enferrujarem, ou fazer o pão nunca mofar, ou ainda evitar velas de derreterem e se tornarem tocos. Ela seria uma heroína.

– A-há. – Anna puxou um volume grosso de uma prateleira e o depositou em uma mesa vazia, no centro do cômodo, próximo à vela. – Este aqui parece útil. – Ela pousou a mão sobre o título e leu em voz alta para Olaf: – O almanaque do alquimista: um guia para cuidar e manter os campos, incluindo observações precisas sobre o clima e o trigo.

Olaf olhou para baixo, com seu par de óculos de gelo, e depois para Anna.

– Não é exatamente meu gênero preferido.

Anna sorriu.

– Aaah, esse parece ser mais oculto e denso! – comentou Olaf, pegando outro livro grosso. – Aqui! Você pode gostar deste também! – Ele o mostrou a Anna.

A capa possuía caligrafia em preto e marrom. O título não estava escrito em um alfabeto que Anna conhecia, mas, conforme ela observava, uma memória esquecida – uma impressão vaga de som e cor – surgiu: o tecido suave do vestido de sua mãe encostando em sua bochecha, enquanto Anna se aconchegava em seu colo. E, então, algo quente ao seu lado – Elsa, que tinha se juntado a ela. Palavras vagarosas, gentis e vagas de um livro que sua mãe lia em voz alta, cuja capa era da cor das novas botas de trilha de Anna. Canções de ninar sobre rios brancos secretos, Gigantes da Terra e lendas perdidas de outrora… Será?

Ao colocar o almanaque de volta na prateleira, Anna abriu outro livro e viu o título novamente escrito em runas. Alguém havia adicionado ao lado, a lápis, as palavras “OS SEGREDOS DOS DETENTORES DE MAGIA”.

Anna prendeu a respiração por um instante.

Era a letra de sua mãe.

Anna conhecia isso de algum lugar.

Este livro. Este cômodo. Sua mãe sabia dele; ela já estivera aqui antes.

Esses livros e objetos sobre magia eram dela. De repente, o peito de Anna pareceu pequeno demais para seu coração. Ou talvez o coração fosse grande demais para o seu peito. Segredos. Esse castelo estava repleto de segredos que ela não conhecia – que não era permitido saber. As perguntas a incomodavam: por que Anna sempre fora deixada de lado? Por que sua

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mãe colecionou todos esses livros sobre magia? E… será que Elsa sabia sobre esse cômodo? Quando elas eram crianças, por que Anna era sempre a última a saber das coisas?

– Anna? – Ela sentiu um tapinha gentil nos ombros. – Não julgue um livro pela capa.

Com as palavras de Olaf, Anna sentiu o aperto no peito se desfazer um pouco, mas foi o suficiente para que pudesse respirar novamente. Olaf era amigo de ambas as irmãs; ele era um pouco de Elsa e um pouco de Anna, criado pelas duas, juntas. E ao olhar em volta, Anna pensou que a irmã não sabia sobre esse cômodo secreto. Afinal, Elsa tinha sido tão boa em contar a Anna sobre tudo o que ela havia perdido durante o tempo em que a sua cabeça estivera sob a persuasão do troll, quando fora forçada a esquecer que a magia de Elsa existia. Elsa não iria esconder coisas dela, não mais.

– Não estou julgando, Olaf. – Anna jogou a trança para trás. – Este livro… era da minha mãe.

– Oh. – Olaf espiou por baixo dos óculos. – Parece que a escolha de leituras dela era muito específica. Seria melhor ver este livro. – Ele mostrou um volume preto, fino, em suas mãos. – Este é sobre metamorfos perigosos que moravam em uma floresta amaldiçoada.

– Por que você não dá uma lida? – perguntou Anna. – Quem sabe…

talvez mencione animais amaldiçoados também.

– Dê um grito caso precise de mim! – Olaf mergulhou na mesa para folhear o exemplar.

Enquanto isso, os olhos de Anna coçaram. O livro de sua mãe. Ela folheou o restante das páginas espessas. As runas pareciam constelações sem significado, mas as traduções ao lado haviam sido feitas por sua mãe e ela queria seguir os passos dela, ou ao menos as suas impressões digitais, já que elas estavam em todos os lugares.

Os segredos dos detentores de magia parecia um livro de fábulas antigas, histórias breves e mapas que mostravam o caminho para o Vale das Rochas Vivas, mas também era um glossário, com muitos termos que nomeavam todos os tipos de criaturas que só existiam nas crenças populares. Espíritos do ar, água e fogo. Gigantes da Terra. Nattmara.

Huldrefólk. Todos eles pareciam familiares, mas era como se Anna tentasse observar através de um lençol pendurado em um varal. Em determinado momento de sua vida, ela soubera o significado dessas

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