ANNA, ELSA E KRISTOFF não podiam ficar na caverna de águas cristalinas e vaga-lumes para sempre.
Porque agora até mesmo o silêncio era perigoso.
Havia se passado aproximadamente 24 horas desde que Anna dormira pela última vez e, julgando pelas olheiras escuras embaixo dos olhos de Elsa, para sua irmã fazia mais tempo ainda. Mas era Kristoff quem estava sofrendo mais com o cansaço. Procurando sua família de trolls, ele caminhara bastante até voltar para o castelo, para partir em seguida. Ele estava acordado havia tempo demais. Precisava dormir. Todos precisavam.
Todavia, se dormissem, Nattmara poderia encontrá-los – e Anna sabia que a maldição não desistiria. Era a natureza dos pesadelos: em um segundo, eram esquecidos, só para depois explodirem em uma memória viva. Anna, Elsa e Kristoff tinham que continuar percorrendo as minas.
Eles tinham que manter os pés em movimento e os olhos abertos. Se qualquer um dormisse, poderia ser o fim de todos. E havia tantas pessoas para salvar.
Então, depois de fazerem fios com vaga-lumes e pendurá-los nos pescoços e pulsos, decidiram ir por um túnel – não por ser familiar, mas por parecer subir mais que os outros. Usando as habilidades que aprendera nas montanhas, Kristoff conseguiu ajudá-las a escalar a parede com sua corda para chegar até a passagem mais alta.
Eles seguiram adiante. Anna tentou pensar em coisas que lhe davam energia: ver o nascer do sol, andar de trenó, brincar com as crianças na cidade, Olaf. Mas, em vez de se sentir desperta e animada, só ficou mais triste e cansada. Ela se perguntou se algum dia se sentiria desperta novamente. Kristoff tropeçou ao seu lado. Ele não conseguiu se equilibrar novamente, como costumava fazer, e caiu de joelhos, batendo os calcanhares no chão.
Anna agachou-se ao seu lado e colocou uma mão nas costas dele.
– Você está bem, Kristoff? Você precisa se levantar! – Ela o cutucou.
Kristoff respondeu murmurando e deitou a cabeça no chão.
– Essa pedra é tão macia.
Anna puxou seu braço, mas não conseguiu levantá-lo. Só ficou mais cansada e também caiu no chão.
Kristoff estava certo. A pedra era macia e firme, e queria que ela repousasse a cabeça ali. Era quentinha e, das profundezas de sua mente confusa pelo sono, Anna recordou uma lição que Gerda havia lhe ensinado sobre como a terra era uma camada de sujeira flutuando em cima de magma quente, e que algumas vezes pequenas bolsas de calor espirravam água morna das pedras. Embora esses túneis dentro das minas nunca tivessem visto a luz do sol, eles pareciam um toque do verão – eram como praias com pedras beijadas pelo sol. Tudo o que Anna queria era espreguiçar os músculos cansados e dormir ali.
– Anna! – De longe, ela ouviu alguém chamando seu nome. – Anna, levanta!
– Só mais uns minutinhos – Anna murmurou.
Um tapa de ar gelado bateu nela. Anna se levantou rapidamente.
– Ei! – Ela limpou da bochecha o que pareciam ser os restos de uma bola de neve.
– Por que fez isso? – Kristoff protestou, também com neve no rosto.
– Estou salvando a vida de vocês – Elsa disse. Em seguida, formou outra bola de neve e fez malabarismos com ela. – Fiquem em pé ou jogarei mais gelo na cara de vocês. Combinado?
– Blé! – Kristoff reclamou. – Só nos deixe dormir!
– Sinto muito, mas não posso fazer isso – Elsa chacoalhou a cabeça. – Anna! Ah, pelo amor de Deus.
Anna sentiu outro tapa gelado de neve e ergueu a cabeça.
– Desculpe, desculpe – ela murmurou, com a língua parecendo grossa demais para sua boca. A neve brilhava nas pontas dos dedos de Elsa e algo surgiu na mente de Anna. Era importante. Estava relacionado com Elsa e sua mágica. Mas o que era?
Enquanto Elsa girava o braço, pronta para jogar outra bola de neve em qualquer um deles, Anna se lembrou. Ela se esticou, quase pulando.
– Elsa, pare!
Sua irmã derrubou a bola de neve no chão, que caiu fazendo um barulho suave.
– Promete ficar acordada agora? Porque tem mais neve de onde veio essa.
Mas Anna não estava mais com sono. Longe disso.
– Você não pode mais usar sua mágica – ela disse. – No deque de observação, percebi que sempre que você usava, Nattmara crescia.
– Ah. – Elsa cruzou os braços na frente do peito. – Ótimo.
Anna fuçou na mochila de Kristoff e pegou o livro. Em seguida, folheou as páginas para confirmar sua teoria, mas ele havia molhado no lago e as palavras estavam indecifráveis. Ela suspirou.
RONCCC!
As irmãs olharam para baixo e viram os olhos de Kristoff fechados novamente. Um ronco abafado escapava, como se sua cabeça tivesse escorregado por seu peito.
– O que faremos com ele? – Elsa perguntou.
– Ãhn…
Anna buscava uma ideia, qualquer ideia. Geralmente, elas vinham cheias de certeza, mas o sono estava deixando-a confusa. Tudo que conseguia focar eram suas sombras na parede oposta, causadas pelos vaga-lumes. Sombras. Sombras parecidas com os fantoches de Zaria. Ela havia lido que os marionetistas eram famosos como cantores e enchiam teatros com suas apresentações. Se algum dia eles derrotassem Nattmara e tudo voltasse ao normal, talvez ela convidasse algum marionetista para fazer uma apresentação em Arendelle. Todo mundo havia gostado da apresentação do musical de Kristoff no ano anterior…
– É isso! – Anna gritou. É isso, isso, isso. Suas palavras ecoaram pelos corredores rochosos. Agachando-se para ficar na mesma altura dos cílios inquietos de Kristoff, ela começou a cantar: Dedos de elfos são feios, e rabos de Huldra são fofos, mas você nunca me verá varrer uma de suas…
patas!
Era uma música boba que Kristoff inventara para o último festival de primavera. As crianças na vila adoraram e a apresentaram para o reino inteiro sob o olhar encorajador de Kristoff. Quando Anna conheceu o homem das montanhas, ele estava coberto de neve e só lhe dirigiu algumas palavras. Ela nunca imaginara que embaixo daquele exterior durão e uma ou duas camadas de sujeira, sua verdadeira paixão fosse a música.
Kristoff tinha o dom da melodia e, embora não se preocupasse com a estranha mancha de sopa em sua camiseta nem com a diferença entre um garfo de salada e de sobremesa, ele era sensível com letras de música.
Particularmente, músicas de sua autoria.
– Ãhn? – Os olhos de Kristoff se abriram. – Deveria ser “varrer um de seus pés”!
Com os olhos brilhando, Elsa cantou o verso seguinte:
– Elfos gostam de comer muito, e Huldras gostam de cantar, mas você nunca encontrará uma com penas… no nariz!
– Não! – Kristoff ficou em pé. – Isso não rima! E o que seria um nariz com penas?
– Agora o pegamos – Anna sussurrou para sua irmã, segurando a mão dele. – Vamos, Kristoff, cante para nós?
E Kristoff – o pobre, exausto e triste Kristoff – cantou.
Juntos, os três seguiram em frente escuridão adentro, com as vozes ecoando tanto que pareciam um coral inteiro em vez de apenas três amigos cansados tentando sobreviver, tentando salvar o reino que Anna amava mais do que qualquer outra coisa. Ela se entregou para a música, deixando a melodia carregá-la.
Eles cantaram sobre os Huldrefólk. Cantaram sobre Aren e sua espada.
E depois cantaram uma música boba sobre um ganso que se apaixonou por um pato.
Ao chegarem ao fim da música, Anna pensou o quão linda era a voz de Elsa. Ela não sabia que sua irmã atingia notas tão altas ou harmonizava tão bem. Anna parou de cantar, tentando ouvir melhor. E foi aí que percebeu que Kristoff havia parado de cantar… e Elsa também.
Na verdade, os três estavam em silêncio, mas a música continuava. A melodia escalava cada vez mais alto.
Era como se as pedras estivessem cantando. Mas isso não era possível…
ou era?
Elsa apontou para uma passagem à esquerda.
– Está vindo daqui.
Anna virou-se para onde Elsa apontara.
– Espera aí! – Elsa disse. – O que faz você achar que vamos para essa direção?
– Por que não iríamos? – Anna questionou. – Estamos perdidos e precisamos de ajuda. Aliás, algo tão lindo não pode ser perigoso!
Elsa a encarou.
– Você não aprendeu nada do seu noivado com o Príncipe…
– Shiu! – Kristoff interrompeu. – A cantoria parou.
E tinha parado mesmo.
Anna se virou para Elsa.
– Perdemos alguém que podia nos ajudar!
– Ou talvez perdemos alguém que poderia nos comer – Elsa disse.
Kristoff engoliu seco.
– Ou talvez ela esteja atrás de você.
– Muito engraçado, Kristoff – Anna disse.
– Não – ele respondeu. – Estou falando sério. Vejam.
Enquanto Anna falava com Elsa, eles tinham entrado em um novo lugar.
Diferente dos outros caminhos, esse nunca tinha visto a ponta de uma picareta. Porque tudo em volta estava recoberto de cristal – e não qualquer cristal. Todos eram maiores do que Kristoff e mais largos do que um tronco de árvore. Eles saíam das paredes e do teto, angulados de uma maneira que formava uma floresta de pedras brilhantes. Cada cristal era esbranquiçado, como se, ao se formarem, tivessem sido preenchidos de fumaça.
Mas não era o tamanho ou a cor estranha dos cristais que havia feito Anna engasgar e Elsa apertá-la tão forte que Anna sentiu as unhas de sua irmã se enterrando em seu ombro. Em cima de um cristal do tamanho de um pônei, uma criança se sentava com uma perna de cada lado.
Pelo menos Anna achava que era uma criança, já que a figura era definitivamente do tamanho de uma criança, como se tivesse três anos de idade. Na fraca luz da pulseira de vaga-lumes que usava, ela só conseguia enxergar o brilho de um olho e calças macias e cinzentas que brilhavam suavemente quando a criança mexia as pernas.
Ela recomeçou a cantar, embora a melodia não tivesse palavras.
Somente notas redondas e claras.
Com um suspiro, Anna começou a correr na direção dela, batendo os dedos nas pedrinhas que estavam penduradas. Ela não se importava. Tudo o que importava era que tinha uma criança sozinha embaixo da montanha.
E Anna nunca quis que alguém se sentisse sozinha ou abandonada – nunca.
Não se ela pudesse fazer algo para ajudar.
A preocupação passou por seu corpo, seguida de culpa. Ela não tinha ouvido falar de nenhuma criança desaparecida na vila. Sabia que estava distraída com a iminente grande viagem de Elsa, mas não podia estar tão ocupada assim para não saber que uma criança estava desaparecida. Ela se perguntou há quanto tempo aquela criança estava lá, onde estavam seus
guardiões, ou – percebeu, de repente – talvez a pergunta certa fosse: o que havia acontecido com eles? Nattmara os pegara também?
Mas, antes de se aproximar mais da criança, ela sentiu alguém encostando em sua capa, puxando-a para trás.
– Anna… – Elsa sussurrou o mais baixo possível. – Você está vendo as orelhas?
Anna semicerrou os olhos, tentando ver o que Elsa via. Primeiro, não viu nada, já que os cachos do cabelo da criança ficavam em cima de onde as orelhas costumam ficar, só que…
Anna apertou os olhos tão forte que agora enxergava seus próprios cílios.
E então, ela viu: as orelhas da criança tinham pontas finas, como a ponta das asas de uma libélula.
De repente, lembrou-se de uma história de ninar antiga, de quando ela e Elsa dividiam o quarto. Elas são todas altas e fortes, com orelhas afiadas.
E são sensíveis. Por isso, pequena Elsa, a mãe dissera isso cutucando a bainha dos pijamas de Elsa, se você vir uma, nunca fale sobre seu rabo! É falta de educação.
E se você falar, uma jovem Anna apareceu atrás do seu castelo de travesseiros, com uma careta assustadora e fazendo garras com as mãos, elas podem te comer!
Elsa começou a rir, o que só fez Anna enrugar mais o rosto e rugir uma vez.
Certo, já deu, sua mãe disse, pegando Anna com um braço para colocá-la na cama ao colocá-lado de Elsa, antes de se sentar perto das duas. Abracem forte. Venham aqui.
Anna deixara seu rosto voltar ao normal, mas manteve os dedos curvados como garras, enquanto se aconchegava perto de sua mãe e irmã e perguntava:
Mamãe, como é o rabo delas?
Ninguém sabe, sua mãe disse, colocando uma fita no rabo de cavalo de Anna. Elas o escondem dentro das saias ou ficam sempre com as costas na parede.
Mas eu quero sabeeeer, Anna reclamou, e sua mãe beijou o topo de sua cabeça, rindo.
Todo mundo tem seus segredos. Especialmente as pessoas que se escondem.
As pessoas que se escondem.
Ou, como os Arendellianos chamavam…
– Huldrefólk – Anna respirou. E ao falar o nome em voz alta, as palavras de Oaken vieram à sua mente.
Cuidado com os Huldrefólk.