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ANNA SEGUROU O FÔLEGO, enquanto Elsa pegava a folha, de olhos arregalados, e lia linha por linha.

– Anna, você viu essa pequena observação aqui embaixo?

– Não – respondeu Anna, corando. – Por quê? O que ela diz?

Elsa moveu o papel na frente dela, juntamente à lupa de gelo que ela havia criado.

Observando através do gelo, Anna leu:

O FEITIÇO NÃO GARANTE SER EXATAMENTE O QUE VOCÊ DESEJA.

SE NÃO FOR REVERTIDO, SERÁ IMPLANTADO DE MANEIRA PERMANENTE EM SEU TERCEIRO NASCER DO SOL.

– Ah – disse Anna. – É, eu… definitivamente não vi isso.

Elsa mordeu o lábio, seus olhos reluziam.

– Desculpe-me – Anna sacudiu a cabeça, esperando poder sacudir as palavras para longe. – Eu só estava tentando ajudar.

Elsa suspirou:

– Eu sei. Não posso ficar chateada com você por isso.

Havia algo nas palavras de Elsa que faziam com que Anna quisesse se enrolar e chorar. Ela quase preferiria ver Elsa gritando com ela do que suspirando da forma como fez. Se tivesse gritado, talvez significasse que pensasse em Anna como alguém que tinha a habilidade de moldar o futuro do reino, mas aquele suspiro… era o mesmo som que seus pais fizeram quando a Anna de cinco anos acidentalmente quebrou uma estátua de argila de salamandra que ficava em cima da lareira. “Eu achei que era um dragão” foi a desculpa que Anna contou a eles. “Pensei que ele ia voar!”

Está tudo bem, eles disseram. Você não sabia.

– Anna!

O grito de Kristoff cortou o pensamento sinuoso de Anna. Ela encarou os pés. Kristoff nunca havia gritado daquele jeito. Nem mesmo quando ela queimara seu trenó para salvá-los de uma alcateia de lobos normais, do tipo não mágico.

– Qual o problema? – ela perguntou. Porque algo devia estar errado para ele soar dessa maneira.

– Sven. – Os olhos de Kristoff estavam descontrolados. – Ele adormeceu. Não quer acordar.

Anna correu de trás do balcão, consciente de que Elsa a seguia logo atrás. De fato, os olhos de Sven estavam fechados e a lateral de seu corpo se erguia com uma respiração penosa.

Kristoff esfregou as bochechas de Sven com a parte de trás da mão.

O que fazer, o que fazer, o que fazer?

Mas não havia nada que Anna pudesse fazer, exceto…

– Elsa! – Ela se virou para a irmã. – Nós temos que encontrar esse tal de Sorenson… ele pode ser a única chance de Sven!

– Mas…

– Podemos perguntar a ele sobre… você sabe. – Anna estava um pouco relutante com a palavra “feitiço”, pois ainda não queria admitir para todos que era justamente a responsável pelo lobo. – E podemos ver se ele sabe como curar a ferrugem branca!

Ao menos a ferrugem branca não era culpa dela. Isso tinha acontecido antes de Anna lançar o feitiço, mas ainda assim… era curioso que ambos, a ferrugem branca e o lobo, provocassem sintomas similares: um tipo estranho de sono e olhos que mudavam de cor. Era como se ela estivesse olhando para um quebra-cabeça cuja imagem mudava. Eles poderiam estar relacionados, mas Anna não tinha certeza sobre como.

– Oaken, onde é exatamente a montanha onde Sorenson mora? – Elsa perguntou, enquanto Anna se apressava de volta para o balcão.

Oaken tirou um mapa e o espalhou devagar na frente do caixa. Então, tracejou o caminho para o leste, para a Montanha dos Mineradores. Ele apontou o dedo para a base da montanha.

– Sigam o Rio dos Rumorejos, passem pelas Montanhas Negras até verem sinais de minas abandonadas. Cuidado, elas são perigosas.

Kristoff se inclinou para a frente a fim de enxergar melhor.

– Perigosas como?

– Elas são conhecidas pelos terríveis desmoronamentos e deslizamentos de terra – disse Oaken.

– E pelos Huldrefólk, que moram no coração da montanha – adicionou Tuva. – Eles são difíceis. Às vezes, ajudam. Em outras, enganam os humanos para afastá-los dos caminhos seguros.

Wael revirou os olhos.

– Os Huldrefólk não são reais, sabe. São apenas histórias para dormir, uma desculpa para aqueles que não seguem direções e um bode expiatório para quando as coisas se perdem.

– Os Huldrefólk são perigosos – continuou Tuva, ignorando Wael. – Você conhece as histórias. Eles gostam de se esconder nas sombras. Eles são ladrões, roubam coisas. – A ferreira lançou um olhar para Elsa. – Acho que seria mais sábio se você se apressasse, Majestade. Talvez outro país tenha a resposta e possa ajudar.

Anna estava assustada demais para falar. Ela não podia acreditar que Tuva estava sugerindo que elas deixassem seu lar quando mais precisavam delas. E, de acordo com a cara de Elsa, ela sabia que a irmã pensava o mesmo.

– Obrigada pelo conselho. – Elsa se levantou para pegar sua capa. – Agradeço. Mas é meu dever permanecer em Arendelle com todos e encontrar uma solução, com ou sem Huldrefólk. Eu irei agora.

Anna ficou calada.

– Você não quer dizer que nós iremos agora?

Com um movimento, Elsa colocou a capa sobre os ombros.

– Não, Anna. Você os escutou. É perigoso demais. Acho que seria melhor se todos vocês partissem no navio real, pelo menos até que as coisas voltem ao normal. Eu posso me proteger.

Anna mal podia escutar o que estava sendo dito. Ela não abandonaria Arendelle em tal estado de perigo.

– Não é sobre proteção – ela disse, com os pensamentos voando rapidamente, tentando trazer um bom argumento que pudesse convencer Elsa. – É sobre… sobre… – Ela olhou para baixo, para a caneca em sua mão. – É sobre manter você acordada! – ela terminou. – Você precisa de ao menos uma pessoa com você, que possa mantê-la acordada…

– E outra que saiba o caminho das montanhas – adicionou Kristoff.

Anna percebeu com grande satisfação que ele já havia colocado nas costas a mochila de viajante e adicionado um rolo de corda ao cinto, ainda que olhasse com certa preocupação para seu amigo adormecido. Anna imaginava como devia ser se separar de Sven, adormecido e doente, mas sabia que seria ainda mais difícil para Kristoff nem ao menos tentar ajudar. Era como ela se sentia também, além de ser parte da razão pela qual ela o amava tanto.

Olaf pulou da cama de cobertores de Sven.

– E um boneco de neve que adora abraços quentinhos!

Por um momento, Elsa ficou imóvel, como se tivesse sido esculpida em gelo. Anna já havia começado a planejar como ela fugiria de fininho do navio real se a sua irmã ordenasse que partisse, mas finalmente Elsa levantou as mãos, rendendo-se.

– Tudo bem. Anna e Kristoff virão comigo. Oaken – ela falou, virando-se para ele –, você poderia levar os outros para o navio real? Parta para o sul o mais rápido que puder, e fique lá até que eu avise.

– E se nós não tivermos notícias? – Wael perguntou.

Anna ergueu o queixo.

– Prometo que você… você vai.

Oaken levantou um dedo grosso e apontou para a janela.

– Então eu sugiro que você parta agora. A manhã está quase acabando e você vai querer alcançar Sorenson antes que a noite caia. E lembre-se:

cuidado com os Huldrefólk!

Enquanto Elsa e Kristoff faziam uma verificação final de seus suprimentos, Anna estava impaciente com seu feitiço amassado dentro do bolso de sua capa. Ele podia ter causado problemas, mas era algo que sua mãe havia tocado, e esse pensamento a confortava. Apertando a capa, Anna foi até Olaf, que estava enfiando mais algumas cenouras dentro da sua própria mochila de viajante.

– Estou indo também! Sou um boneco aventureiro! Um bonetureiro!

Anna sorriu e colocou a mão nas costas de Olaf. Ao menos a bravura existia em seu amigo de neve, mesmo que estivesse em falta nos outros.

– Sei que você é, mas Olaf… eu preciso pedir que você fique aqui.

O sorriso de Olaf sumiu de seu rosto.

– Você… não quer que eu vá?

– Eu quero – disse Anna e era verdade. Olaf podia ser bobo e podia perder a cabeça de vez em quando, mas ele era sábio nos caminhos do coração e sabia trazer calor para os lugares frios. E Anna tinha a sensação de que logo eles precisariam de abraços quentinhos mais do que nunca. Na verdade, ela precisava de um agora. Mas as pessoas em pé, na frente dela, precisavam dele ainda mais. Ela pegou seu nariz de cenoura e o colocou no lugar. – Kristoff precisa que você fique aqui e vigie Sven, e Elsa e eu precisamos de você aqui para ajudar os aldeões a ficarem acordados

enquanto eles carregam Sven e sobem no navio. – Anna arrumou seu cabelo de ramos.

– Ah, eu já tenho inúmeras ideias de como mantê-los acordados! – Olaf lhe disse, muito alegre. – A pergunta é: como vou escolher qual ideia? – Ele começou a marcar seu repertório com os dedos. – Eu poderia cantar músicas de ninar calmas, fazer uma dança interpretativa das folhas de outono caindo, recitar nomes de todas as melhores praias na ordem alfabética…

– Lembre-se – Kristoff interrompeu ao se aproximar com sua mochila de viajante repleta de suprimentos de Oaken –, você deve tentar fazer com que eles não durmam. Não fazê-los adormecer.

Anna pisou na bota de Kristoff com seu pé.

– Shiuuu! – ela sussurrou.

– Vou começar despertando-os com um jogo de charadas. Ou não. Que tal piadas? – disse Olaf. – Todos amam piadas. Eles estarão rindo demais para dormir. Ahm-ham. – Ele arrumou seu botão de carvão. – O que bonecos de neve comem no almoço?

– O quê? – perguntou Oaken.

– Na verdade, não tenho muita certeza. Bonecos de neve não comem, o que é um pouco doido. Teve uma vez que eu tentei comer bolo de frutas, mas ele meio que passou direto através de mim.

Kristoff levantou uma sobrancelha enquanto Anna ria.

– Perfeito. Viu, Olaf? Você vai se sair bem! – disse Anna. Porém, conforme ela seguia Elsa e Kristoff pela porta, a risada dentro dela começou a sumir. Coisas perigosas estavam à espreita para além dessas portas e nas montanhas. Coisas perigosas estavam à espreita em livros também. Um poder perigoso, ao que tudo indicava, também estava à espreita em algum lugar dentro de Anna.

Mas havia uma chance de consertar as coisas. Aí estava a chance de provar seu valor para Arendelle. De provar seu valor para Elsa. E, se não conseguisse, se não pudesse, o pesadelo se completaria.

O lobo engoliria o mundo, começando por aqueles que ela amava.