QUANDO OBSCUREN ACORDOU ANNA, ela estava descansada como há muito tempo não se sentia.
Perto dela, Kristoff se alongava, com metade do cabelo amassado contra a bochecha sobre a qual ele se deitara.
– Vamos seguindo em frente – Kristoff disse, bocejando.
Elsa, porém, ainda conseguia parecer majestosa, mesmo que Anna visse poros de pedra-pomes em seu rosto. Anna riu, apontando para a bochecha da irmã.
– Você deveria se olhar no espelho – Elsa resmungou, com um meio sorriso.
Anna olhou seu reflexo no rio. Com certeza ela estava como sempre que acordava: um pouco como uma criatura da floresta com problema de baba.
Ajeitou os cabelos rebeldes com a água do rio e ficou satisfeita em ver como algumas coisas continuavam iguais. Elsa sorriu para ela, e Anna adivinhou que ela deveria estar pensando na mesma coisa.
– Chegamos – Obscuren disse conforme deslizavam até um poste.
Enquanto esperavam Obscuren prender a jangada, Anna olhou em volta.
Mas, mesmo com sua pulseira de vaga-lumes, não conseguiu ver nenhum sinal da biblioteca… ou de onde ela poderia estar. As margens do rio subterrâneo eram estreitas, não mais largas do que trinta ou sessenta centímetros e, pelo que podia perceber, nada havia sido esculpido na superfície das pedras, exceto algumas pegadas.
– Onde está? – Anna perguntou.
Foi bom dormir, mas estar acordada novamente significava que ela estava mais atenta ao fato de que o tempo estava se esgotando. Eles tinham somente mais um dia de sol e uma noite antes que o terceiro nascer do sol tornasse Nattmara permanente, assegurando que o feitiço realmente fora o que a trouxera para Arendelle para começo de conversa. Obscuren não achava que era possível, mas Anna não conseguia esquecer as palavras de Sorenson. Todos os mitos possuem um pouco de verdade. O feitiço podia não ter sido mágica de verdade, mas não significava que o aviso não era verdade. De qualquer maneira, Anna não estava disposta a arriscar.
– Vamos seguindo em frente – Obscuren disse, parecendo se acomodar confortavelmente nas palavras dos outros, como se a conversa da noite anterior tivesse sido um pouco difícil para ela.
Elsa saiu da jangada primeiro, seguida por Kristoff. Quando ele se virou para oferecer a mão a Anna, ela ignorou e pulou para o lado. Obscuren indicara com a cabeça que deveriam tirar as pulseiras de vaga-lumes e deixá-las no poste. Com um suspiro melancólico, Anna a retirou e a acariciou em forma de agradecimento.
– Eles ficarão bem aqui? – ela perguntou.
– Lar é onde o coração está – Obscuren disse. Quando Anna olhou para pedir uma explicação, a assistente do Rei Bibliotecário explicou: – Vou levá-los de volta comigo. Eles não serão necessários onde estamos indo.
E com isso, Obscuren deixou a jangada para trás e caminhou em direção à escuridão, silenciosa, enquanto a lua navegava pelo céu.
Anna, Elsa e Kristoff a seguiram, não tão graciosamente quanto ela, mas conseguiram chegar ao pé das escadas. Começaram a sentir por onde deveriam subir, encostando nas pedras, seguindo a trilha esculpida que abria caminho para o teto da caverna.
– Parem por um momento – Obscuren disse. Eles ouviram várias batidas rápidas e um rangido enquanto a Huldra empurrava uma portinhola quadrada no teto. A luz saía de dentro.
Semicerrando os olhos por conta da claridade inesperada, Anna emergiu do chão de terra de uma sala redonda com paredes de pedra esculpidas com runas e janelas bloqueadas por tufos de grama. Ela viu um pouco de azul na janela. Seu coração disparou.
– É o céu? – perguntou.
– Estamos em uma casa feita de grama – disse Elsa, tirando a capa e o cachecol da mãe antes de se afastar do alçapão para dar espaço para Kristoff subir ao lado deles.
Claro! As casas de grama pontilhavam o deserto desalinhado de bétulas e abetos. Elas eram feitas de um buraco fundo e eram grandes o suficiente para alguém morar ali dentro, além de serem cobertas por um teto feito de grama. Havia casas de grama de todos os tamanhos e formas, mas as preferidas de Anna eram as que pareciam Gigantes da Terra afundados no solo, com o teto de grama verde parecendo cabelo de troll. Anna olhou em volta, torcendo para ver uma fileira organizada de livros.
– Hum, Obscuren, você tem certeza de que essa é a sua biblioteca?
Não parecia muito com uma biblioteca; estava mais para uma loja de presentes cheia demais. Claro, havia alguns livros espalhados pelo lugar, com capas desbotadas que pareciam ter sido esquecidos havia muito tempo e deixados para desbotar no sol. Mas a maior parte das coisas ali eram coisas.
Havia cadeiras arrumadas uma do lado da outra em cima de tapetes enrolados, perto de uma pilha de espelhos. Havia um monte de ferramentas de jardinagem, estatuetas de barro quebradas e muitas chaves velhas e enferrujadas. E havia várias meias – várias e várias meias sem par.
– Bem-vindos à Biblioteca das Coisas Perdidas – Obscuren disse. Acima do solo e sob a luz quente da casa de grama, a Huldra parecia menos uma rocha e mais uma árvore, com folhas brotando suavemente de onde antes havia a textura áspera de um pedregulho.
– Antes que você diga algo, nós não roubamos nenhuma dessas coisas.
Nós simplesmente achamos coisas perdidas e damos uma casa para elas.
Isso inclui tudo, desde óculos até elástico de cabelo e espadas lendárias.
Por favor – a Huldra continuou, dando um passo para o lado –, sintam-se livres para olhar tudo.
– Obrigada! – Anna disse, feliz.
– A Nattmara pode nos achar aqui? Ou ainda estamos escondidos e tal?
– Kristoff perguntou, espiando pela janela.
– Comigo, vocês ainda estão escondidos da Nattmara – Obscuren disse.
– Ufa! – Kristoff falou.
– Que alívio – Elsa disse, olhando a bagunça de objetos.
– É melhor nos separarmos – Anna falou, olhando para Elsa. – Certo?
Elsa assentiu e os três começaram a procurar.
Alguns dos objetos perdidos eram lindos. Havia vasos de bronze de outra era e até mesmo um colar com safiras pesadas que Anna pensou que combinariam com os olhos de Gerda – se conseguisse fazê-los voltar ao normal, claro. Ela colocou o colar de volta no lugar e correu para a pilha seguinte. Então, pegou um espelho redondo. Era pequeno o suficiente para ser colocado no bolso e fechado de um jeito inteligente para parecer uma concha. Ela o abriu e depois deixou de lado. Era bonito, mas não era o que estava procurando.
Olhando pelo cômodo, Anna procurou algo de metal, tentando encontrar alguma coisa que pudesse ser a espada do mito. Afastou uma cadeira
bamba e uma montanha de meias perdidas para o lado e tentou controlar a decepção, mas ela continuava aumentando, como uma bexiga que alguém não para de encher. Tinha que haver alguma coisa nessa biblioteca. Então, os pensamentos de Anna pararam. Ela viu uma estátua no meio do cômodo. Era uma menina humana com um vestido azul da mesma cor do céu, em que estava desenhado um trem brilhante, e uma trança bem loira.
Sua altura parecia chegar nos joelhos de Elsa e a menina se parecia muito com ela.
Ofegante, Anna se aproximou. Era uma estátua de Elsa.
Especificamente, aquela que as irmãs haviam instalado no relógio de cuco da cidade alguns anos atrás. Na última primavera, a estátua sumira em uma tempestade, carregada pelos ventos estranhamente fortes. Anna encarou a estátua.
Uma pequena guirlanda verde com velas estava empoleirada no topo da réplica de Elsa e Anna teve a impressão de que ela parecia mais confortável ali, cercada por outras coisas maravilhosas, do que em exposição para o povo, dia após dia. Ela ficou feliz que os Huldrefólk tivessem encontrado uma nova casa para a estátua e continuou procurando.
Mas não importava o quanto procurassem, eles não encontravam a cobiçada espada na casa de grama.
O mais perto de uma espada mística que acharam foram alguns escudos e capacetes do tempo do rei Runeard, mas não havia nada mais velho do que isso. Os ombros de Anna se curvaram. Se os Huldrefólk não tivessem a Revoluta, se Sorenson estava perdido e se os trolls fugiram da Nattmara… o que eles fariam? Estavam ficando sem ter onde procurar respostas.
– Não tem espada nenhuma nessa biblioteca – Elsa disse para Obscuren uma hora depois, quando a turma se sentou na frente de uma grande lareira para comer o que tinha na mochila de viagem de Kristoff.
Obscuren suspirou.
– É o que parece. – A pele da Huldra havia imitado o padrão das runas nas paredes da casa de grama, e falar com ela agora era quase como falar com uma sopa de letrinhas. Ela parecia exausta e estava claro para Anna que Obscuren não estava acostumada a ter que conversar tanto.
– Por que não? – Kristoff perguntou. – A história de Arendelle parece estar cheia de espadas, até onde eu sei. Por que os Huldrefólk nunca encontraram uma? Talvez esteja em outro lugar?
– Às vezes – Obscuren disse, deitando-se no chão sujo para descansar –, as espadas são enterradas com seus heróis.
AHHHHH!
O coração de Anna disparou enquanto um choro, que parecia uma gaivota, reverberava pela casa de grama. Com os olhos arregalados, Anna se virou para ver o que havia feito um barulho tão horrível, esperando ver a Nattmara ou uma multidão de aldeões de olhos amarelos vindo na direção deles, mas tudo que encontrou foi Elsa parada em pé.
– Ah, que ótimo! – Os olhos azuis de Elsa piscaram e suas bochechas ficaram vermelhas. Pela primeira vez em muito tempo, Anna pensou que sua irmã parecia visivelmente chateada.
– O que foi? – Anna se levantou também. – Só precisamos saber onde Aren foi enterrado.
Elsa grunhiu, e era um som tão estranho vindo dela que Anna ficou em silêncio.
– Não vamos conseguir encontrar onde ele foi enterrado. – Elsa começou a andar. – Você não lembra da história? Aren foi engolido por um dragão!
Anna piscou.
– Ele foi?
Ela havia se esquecido disso. Olhou para Kristoff, que estava encarando Elsa em choque, sem acreditar que a calma e contida Elsa estava em pânico.
– Sim – Elsa disse, furiosa. – Um dragão veio até o fiorde e ameaçou comer todo mundo! Então Aren, nosso maior líder, além do rei Runeard, que amava sua casa e seu povo mais do que qualquer coisa, decidiu enfrentar o dragão… – Elsa pausou e mudou para a sua voz mais dramática. – Que mora onde o mar é o céu, e nunca mais voltou. – Elsa respirou fundo. – Porque o dragão o engoliu. E dragões não existem, assim como essa espada, e Anna, eu tentei te ouvir, mas não há nada que possamos fazer!
– Curioso – Obscuren falou. Durante o desabafo de Elsa, a Huldra tinha ido até uma parede de pedra. – Não é isso que todas as histórias dizem. – Ela mostrou as paredes em volta deles. – Há muito tempo, quando os Huldrefólk e os humanos estavam mais confortáveis uns com os outros, a gente se encontrava aqui, em um lugar entre a terra e o céu. Cada
comunidade escrevia suas histórias nessas paredes. E aqui o mito de Aren muda um pouco.
A Huldra apontou para uma runa que parecia um S deitado.
– Aqui. De acordo com a nossa lenda, um grande perigo surgiu das águas e, para salvar sua casa e o povo que amava, Aren saiu em um barco e nunca mais foi visto.
– E como isso é melhor? – Elsa perguntou. Anna estava chocada ao ver o pé de sua irmã tremer, como se ela estivesse segurando a vontade de bater o pé no chão. – Isso só significa que a Revoluta provavelmente está em algum lugar no fundo do oceano e, mesmo se fosse possível vasculhar o oceano inteiro, nós não teríamos tempo suficiente. – Elsa se virou bruscamente, fazendo sua trança bater nas costas e quase atingir o nariz de um Kristoff perplexo. – Então, como você pode perceber – ela falou para Anna –, nós nunca encontraremos a Revoluta!
Mas na verdade… Anna havia percebido algo.
Ela abriu a boca:
– Elsa…
– A Nattmara ainda está por aí, a ferrugem branca está destruindo a terra e todos os nossos amigos provavelmente estão presos em um pesadelo!
Kristoff se encolheu diante de suas palavras.
– Você queria visitar os Huldrefólk porque supostamente eles conseguiriam nos dizer alguma coisa – Elsa continuou –, para nos mostrar o caminho até uma espada de mentira. Tem mais alguma coisa, alguma outra pista…
– Elsa…
Sua irmã jogou as mãos para o ar.
– O povo está contando comigo!
– ELSA!
O furor de Elsa parou e, ofegante, ela olhou para Anna, que sorriu.
– Como você consegue ficar calma em um momento como esse? – Elsa falou, e Anna teve que parar de rir.
– Estou calma porque aprendi com a melhor professora – Anna disse, e ela conseguia sentir a esperança crescendo em seu peito. – E porque eu sei onde a Revoluta está.