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ENQUANTO ANNA, ELSA E KRISTOFF observavam a vila, parecia que uma nuvem de chuva havia se formado.

Mas não havia nuvens de chuva nas minas e elas não eram capazes de segurar uma lança no pescoço de alguém. Não. As formas pretas e mutantes em volta deles eram nada menos do que guerreiros Huldrefólk.

Como a pequena Dash, esses também se escondiam nas sombras. Sob a luz, Anna conseguia ver só um olho aqui, uma mão ali. No entanto, ela não precisava ver seus rostos para saber o que eles pensavam sobre os três humanos invasores na sua cidade secreta: eles não estavam nem um pouco felizes.

– O-o-oi – Anna gaguejou, olhando para as pontas das lanças, tentando lembrar o que as regras de etiqueta diziam para encontros com um novo grupo de pessoas. Não era exatamente a mesma coisa que encontrar o primeiro-ministro Torres, mas ela sabia que dignitários eram sensíveis, então ser educada parecia ser a melhor opção.

Primeiro passo: se apresente e diga que é amiga.

Ela fez uma reverência.

– Meu nome é Anna de Arendelle, e essa é a minha irm…

Uma ponta de lança chegou mais perto e Anna ficou em silêncio.

– Pare – disse uma Huldra. – Não fale mais nada, ladra.

– E-eu acho que é um engano – Anna disse, forçando um sorriso no rosto. – Viemos pedir ajuda. Não estamos aqui para roubar…

– Roubar – a mesma Huldra falou novamente, imitando Anna. – Roubar, roubar, roubar!

– Não – Kristoff disse, com as costas encostadas às de Anna. – Não estamos aqui para roubar. Seguimos um pequeno…

– Roubar um pequeno – a Huldra repetiu e Anna conseguia sentir a fúria na voz da criatura. – Roubar um pequeno! – O choro foi repetido por outra Huldra, e depois outra, até que todos os guerreiros repetiam juntos como um cântico.

Anna estava com um mal pressentimento. Um péssimo pressentimento.

– Acho que eles estão nos acusando de tentar roubar Dash – ela sussurrou.

– Ah – Kristoff disse, em voz baixa. – Bom, não foi bem assim.

– Espere! – Anna disse para os Huldrefólk, levantando a mão. – Não estamos tentando sequestrar ninguém.

O canto dos Huldrefólk mudou.

– Mentirosa, mentirosa, só mentiras!

Anna chacoalhou a cabeça, tentando entender.

– Não somos – Elsa falou, com a voz suave como gelo, embora Anna conseguisse ouvir o atrito sob a superfície. – A pequena nos encontrou.

Estávamos cantando e minha irmã salvou a criança de cair de um abismo escuro…

– O abismo! – outra Huldra com a voz mais aguda interrompeu. – O abismo! Cair no abismo! Cair no abismo! Mentirosa, mentirosa, só mentiras!

Oh-oh.

– Hum – Anna disse, engolindo seco. – Acho que eles querem que a gente…

– Querem nos jogar do abismo? – Kristoff completou – É, eu entendi.

– Espere! – Anna tentou novamente. – Tem um lobo gigante lá fora que entrará aqui em breve… – A sua frase foi interrompida por um guerreiro que correu e amarrou o que parecia um lenço em volta da boca dela, impossibilitando-a de gritar.

Mas mesmo que pudesse, ajudaria? Eles estavam tão abaixo do solo, e os aldeões que ainda estavam acordados estavam longe demais, de preferência a bordo do navio real de Elsa. Sorenson havia sumido, havia sido deixado para lutar contra Nattmara. E, perto dela, Elsa e Kristoff também estavam amordaçados. Raízes duras pressionavam a pele macia dos pulsos de Elsa e suas mãos estavam amarradas para trás.

Depois de verificar que o nó estava apertado, a Huldra que a amarrou assentiu.

– Marchem.

Em fila única, eles caminharam à frente dos Huldrefólk. Anna olhava fixo para a trança de Elsa, que balançava, e ficou grata quando Kristoff acidentalmente pisou em seu calcanhar. Isso a fez se sentir melhor, sabendo que ambos estavam lá.

Anna pensou que os Huldrefólk os levariam para longe da cidade escondida, de volta para o abismo de onde tinham resgatado Dash, mas, em vez disso, os guerreiros marcharam por um caminho estreito, longe do abismo e dos jardins fluorescentes cheios de vaga-lumes. A sensação ruim de Anna se tornava cada vez mais insistente à medida que se afastavam da cidade. O suor se acumulava em sua testa, e sua caixa torácica parecia apertada demais quando ela respirava o ar velho e sufocante.

Quão abaixo da terra eles estavam? Um cheiro de ovo podre tomou conta de seu nariz e seus olhos lacrimejaram. Era cheiro de enxofre, ou então os Huldrefólk tinham sérios problemas de encanamento. O ar ficava cada vez mais abafado até que pareceu emitir um brilho rosado. Uma luz vermelha dançava nas paredes à frente deles, com uma cor diferente que costumava ser vista no mais lindo pôr do sol ou na ferraria de Tuva e Ada, ou… não. O coração de Anna disparou.

Ou no centro de um vulcão ativo. Mentirosa, mentirosa, só mentiras mais abismo aparentemente resultavam em jogar o grupo de humanos invasores de Arendelle na lava.

O brilho vermelho ficava cada vez mais forte e, embora os Hukdrefólk parecessem tão frios quanto sorvete no meio de um inverno eterno, o suor escorria pelo corpo de Anna. Ela pensou que se ficasse mais quente, suas sobrancelhas derreteriam em seu rosto. Mesmo se Elsa pudesse usar sua mágica aqui – mesmo se isso não atraísse Nattmara até eles –, que chance o frio do inverno tinha contra os poderes derrete-dores do magma vermelho e quente?

Agora estava na frente deles: um círculo vermelho que pulsava como um coração. Anna tropeçou para tentar parar, mas os Huldrefólk a empurraram. Embora ela não acreditasse que seria possível, sentiu mais calor ainda.

– Pare – Anna falou amordaçada, com sua mente pulando do segundo para o décimo degrau na escada da diplomacia. – Daremos chocolate para vocês! – As palavras saíram abafadas.

Não era uma das regras de etiqueta – na verdade, suborno não estava nem na lista – e nada nas suas leituras a havia preparado para a possibilidade de ser jogada em um rio de lava por uma nação hostil.

Mas não funcionou. Eles a empurraram mais para a frente. Aquele lugar era mais quente do que a sauna de Oaken, e Anna ficou paralisada quando viu a bota de Elsa à beira do abismo, com o dedão vermelho. Lutou mais

forte. Se eles sumissem nessa sua missão, ninguém saberia como Nattmara aparecera ou como poderia ser impedida. Ninguém sobreviveria. Se fossem jogados na lava, não significaria somente o fim de Kristoff, Elsa e Anna – significaria o fim de Arendelle. Eles falhariam. Ela falharia. O vazio abocanhou Anna, ameaçando engoli-la inteira.

Tudo que ela queria – tudo que ela sempre quis – era fazer mais. E por amor a sua irmã, queria ajudá-la.

O reino inteiro vira Anna salvar sua irmã três anos atrás e, desde então, ela se perguntava quem não salvaria uma irmã. E, ainda assim, Anna não conseguia superar que fora ela quem fizera Elsa lançar um inverno eterno e agora era ela quem chamara Nattmara para a cidade. Ela nunca mais daria uma cenoura para Sven. Nunca mais ouviria a filosofia acolhedora de Olaf sobre a vida. Nunca mais teria a chance de aprender com Sorenson sobre os mundos naturais e celestiais. E era tudo sua culpa.

Com o canto dos olhos, ela viu Elsa jogar a cabeça para trás tão rápido que sua trança bateu no nariz da Huldra que a aprisionara, pegando-os de surpresa, enquanto Kristoff se arremessava para trás, lançando seu captor na parede. Os dois conseguiram tirar as vendas dos olhos no processo.

Vamos lá! Anna disse para si mesma. Eles ainda estão lutando. Você também consegue! Ela queria torcer para eles, mas precisava poupar o fôlego. E, além disso, ainda tinha uma mordaça em sua boca. Seu guardião a empurrou para a frente, para mais perto da borda de lava, enquanto Anna soltava as mãos.

ALTO LÁ! – Uma voz grossa reverberou nas pedras, fazendo a terra tremer.

Mas Anna não iria parar de lutar, de jeito nenhum. Ela se jogou para o lado, libertando-se da Huldra e rasgando sua mordaça. Correu para longe antes de perceber que não estava sendo perseguida. Em vez disso, os Huldrefólk se ajoelharam no chão quando um quarto Huldra apareceu.

Esse parecia ser o mais alto de todos, seu cabelo era tipo uma juba selvagem e negra em volta de sua face, e ele segurava uma argola brilhante na mão. Anna demorou um pouco para perceber que era ouro.

O líder dos Huldrefólk.

E nos ombros do Huldra líder havia uma pequena figura familiar sentada.

– Cavalo! – Dash puxou o cabelo do Huldra líder.

Anna fez uma reverência, tossiu para Kristoff e ele também se curvou.

Elsa, entretanto, continuou ereta como um sincelo, condizente com seu posto.

– Psiu! Regra número um – Anna sussurrou alto o suficiente para Elsa ouvir.

Elsa assentiu e falou:

– Saudações. Sou a rainha Elsa de Arendelle e essa é a minha irmã, princesa Anna e seu… ãhn, nosso guardião, Kristoff Bjorgman de Nenhum Lugar em Particular. Os saudamos em amizade.

Anna prendeu a respiração, pensando se o líder aceitaria.

– Amizade – o líder Huldra repetiu. E, então, para a surpresa de Anna, o Huldra continuou em frases completas. – Desculpe pela minha família.

Eles podem ser um pouco superprotetores. – Na luz fraca, Anna viu o Huldra acariciar o joelho de Dash. – A jovem Echo, porém, esclareceu o mal-entendido, e ela e eu damos as boas-vindas a vocês. Eu sou o rei dos Huldrefólk.

– Você não está repetindo tudo – Elsa disse, claramente surpresa demais para se preocupar com bons modos.

O majestoso rei Huldra inclinou a cabeça.

– Gostamos de usar as palavras das outras pessoas para podermos nos enrolar nelas e nos esconder. É muito raro para os Huldrefólk terem que compor algo novo. Esse é parte do motivo de Echo ter encontrado vocês:

ela queria captar sua música. Músicas são fáceis de lembrar. Ficam ecoando na sua cabeça.

– Echo! – Dash, agora Echo, repetia as palavras de seu poleiro.

Anna sabia que ela provavelmente deveria deixar apenas Elsa falar, mas sua curiosidade era demais.

– Por que você fala com suas próprias palavras? – perguntou.

– Porque além de ser o rei, sou bibliotecário – disse o Huldra líder. – Passei anos visitando o mundo acima, colecionando itens e histórias, e tenho palavras o suficiente ao meu dispor. Sendo assim, gostaria de pedir desculpas novamente pelo jeito que foram recebidos. – O Rei Bibliotecário pegou Echo e a colocou no chão.

– Só isso? – Kristoff explodiu. – Quase fomos jogados em um rio de lava e tudo o que você pode dizer é “desculpa”?

– Desculpa! – Echo repetiu, se aproximando de Kristoff.

– Fica melhor se dissermos “sentimos muito mesmo”? – o Rei Bibliotecário perguntou. – Geralmente, os únicos humanos que chegaram aqui queriam roubar pedras preciosas e joias da nossa montanha, ou capturar um membro da nossa família e fazê-lo encontrar depósitos de minério de ferro para suas armas.

– Não estamos procurando pedras, joias ou ferro – Elsa disse. – Estamos procurando uma espada de um mito, a Lâmina Revoluta. Vocês podem nos ajudar?

Os olhos do Rei Bibliotecário brilharam.

– “Lua revoluta e sol giratório forjaram uma lâmina crescente. Da luz e da escuridão dentro do coração, a espada polida foi remanescente.” – Ele olhou para o grupo. – Essa, certo?

Anna assentiu, sentindo que era um bom sinal.

– E imagino que isso tenha alguma coisa a ver com a Nattmara que veio para Arendelle?

Anna ficou boquiaberta.

– Como você sabe da Nattmara?

– Só porque vocês não conseguem nos ver, não significa que não estamos sempre aqui. – O Rei Bibliotecário olhou para eles mais um pouco. Era impossível decifrar qualquer expressão no rosto do líder. A pele texturizada havia assumido a aparência dos riachos rachados de lava e era difícil ver debaixo do pano de fundo derretido. Mas ele devia ter feito algum sinal secreto, porque os guardas se curvaram na frente deles e correram para longe, virando as costas para Anna e seus amigos. Só precisaram de poucos passos para desaparecerem completamente, embora Anna soubesse que eles ainda estavam por lá, já que eram os mestres da camuflagem.

O Rei Bibliotecário se virou.

– Agora, venham comigo.

O coração de Anna disparou. Pelo menos ela não havia os levado para o caminho errado!

– Nem sempre sabemos a resposta, mas sabemos onde encontrá-la – o Rei Bibliotecário continuou.

Deixando os humanos andarem à sua frente, o Rei Bibliotecário e Echo escoltaram Anna, Elsa e Kristoff para longe do lago de lava, em direção a um afluente tranquilo onde jangadas trombavam umas nas outras.

Anna olhou para Elsa e Kristoff na escuridão e um sorriso se espalhou pelo seu rosto.

– Pode ser isso! – ela sussurrou. – Podemos finalmente ter encontrado a espada!

– Vamos esperar para ver – disse Elsa, sempre congelando a empolgação.

Echo puxou a túnica de Kristoff e eles começaram a jogar pedras na água.

– Minha assistente vai ajudar. Ela vai levá-los à Biblioteca das Coisas Perdidas – o Rei Bibliotecário disse. – Se meu povo já encontrou a espada lendária, estará lá. Isso se ela realmente existir.

Elsa olhou para Anna, e Anna mordeu o lábio. Ela torcia muito para que existisse.

– Nós sentimos muito por trazer Nattmara para cá – Elsa disse. Anna percebeu que sua irmã usara a palavra nós.

O Rei Bibliotecário balançou a cabeça.

– A Nattmara é um dos vários inimigos naturais dos Huldrefólk; ambos buscamos reinar no escuro. Mas, enquanto os Huldrefólk amam a noite pela privacidade e silêncio, Nattmara prefere usar a escuridão como uma arma. Não temam: ela não consegue passar pelas fronteiras do nosso território. Enquanto estiverem no reino de Huldrefólk, a Nattmara não pode pegar vocês. Somos os seres que se escondem. Sempre estamos escondidos e, agora que estão conosco, esconderemos vocês também.

Anna se sentiu aliviada e um pensamento surgiu.

– Humm, tenho uma pergunta para você – ela disse. – Perdemos um membro do nosso grupo. É possível que os Huldrefólk o tenham achado?

Ele é baixinho e forte, e tem uma barba prateada que arrasta no chão, e também é rabugento. – Anna fez uma pausa e adicionou: – Ele é legal!

O Rei Bibliotecário inclinou a cabeça.

– Como vocês sabem, os Huldrefólk procuram coisas perdidas. Somos colecionadores. Se o seu amigo ainda estiver livre da Nattmara, tenho certeza de que podemos encontrá-lo.

– Terra à vista!

Anna olhou para a água, onde uma jangada cinza deslizou na frente deles e bateu na margem. Uma Huldra animada (pelo menos Anna pensou ter visto um sorriso na luz fraca dos vaga-lumes) acenou para eles e se apoiou na longa vara que estava usando para virar a jangada.

– Olá! Olá! Olá! – Echo falou, e parou de saltar pedras com Kristoff para entrar na jangada e pular nos braços da nova Huldra.

– Essa é a minha assistente, Obscuren – O Rei Bibliotecário anunciou. – Ela irá ajudá-los a achar o que procuram e será sua guia em meu território.

Anna entrou desajeitada na jangada, sentando-se ao lado de Kristoff. Só então ela percebeu o material estranho do barco. Jangadas geralmente eram feitas de madeira, mas essa parecia ser feita de uma espécie de pedra flutuante. Ao olhar mais de perto, ela viu pequenos buracos perfurando a superfície, fazendo a textura da jangada parecer mais um pão do que uma pedra.

– Acho que é uma jangada de pedra-pomes – Anna disse para Kristoff, que assentiu.

– É sim – ele disse. – Pedra do vulcão.

Anna sentiu um puxão no cabelo enquanto Echo subia em seu colo, cantando baixinho.

– Reme, reme, reme sua jangada!

– Diga adeus – o Rei Bibliotecário disse para Echo. – Está na hora do seu jantar.

Os olhos da pequena Huldra se encheram de lágrimas.

– Ficar!

– Gostaria que você pudesse – Anna disse, surpresa, quando entendeu o que ela realmente quis dizer.

A Montanha dos Mineradores era linda, cheia de surpresas e amizades inesperadas. Ela gostava da pequena Huldra e sua tendência de voar o mais rápido possível. Anna apostava que Echo poderia lhe mostrar várias coisas – cristais brilhantes, cavernas de gelo e até mesmo alguns morcegos dormindo –, mas precisava corrigir seu erro antes de explorar mais as belezas da montanha.

– Além disso, você ficaria entediada se viesse com a gente – Anna disse.

– Não vamos cantar mais. E se você estiver em uma jangada não tem como correr por aí.

Com a cabeça inclinada, a pequena Huldra considerou essa realidade sem graça e, então, saiu da jangada para juntar-se a um dos guardas Huldrefólk que parecia ter aparecido de repente.

– Tchau! – Echo falou acenando da margem. – Tchau, tchau, tchau!

O coração de Anna apertou.

– Te vejo mais tarde. Fique longe de abismos escuros, certo? Elsa foi a última a entrar na jangada. Arrumou a capa em volta de si, olhou para o Rei Bibliotecário e disse:

– Obrigada por toda a sua ajuda. Prometo que guardaremos o seu segredo e manteremos as minas fechadas. Sua cidade continuará escondida.

O Rei Bibliotecário se curvou em agradecimento e, então, Obscuren os empurrou pela superfície do rio.

A jangada se balançava enquanto eles navegavam pela hidrovia subterrânea. O ar estava mais fresco agora.

Obscuren percebeu que eles estavam cansados.

– Vocês podem dormir – ela disse. – Sei como navegar pelo rio. Como o Rei Bibliotecário disse, vocês estão escondidos aqui comigo, até da Nattmara.

– Você tem certeza… – O que Kristoff iria dizer se perdeu em um bocejo.

– A Nattmara não consegue encontrar nosso território – Obscuren os lembrou. – Estamos ocultos. Vocês podem descansar aqui, seguros, sem medo de se perderem sob a influência dela. Durmam. Descansem.

Acordarei vocês quando chegarmos.

Obscuren mal tinha terminado de falar e Kristoff soltou um ronco. Logo em seguida, Elsa também já estava dormindo. Anna, entretanto, continuou acordada. Embora ela estivesse sonhando com o momento em que poderia dormir, não conseguia fechar os olhos. Sempre que o fazia, sua barriga doía demais. Porque a cada momento dormindo, era um momento que ela não estava consertando seu grande erro: trazer a Nattmara acidentalmente para Arendelle com um feitiço. Então, a voz de Obscuren interrompeu seus pensamentos.

– Desculpe, o quê? – Anna perguntou.

– Eu disse – a Huldra repetiu – que você deveria dormir também. – Obscuren puxou o remo e a água fez barulho enquanto a jangada a cortava.

O rio passava por túneis com bastante vento e tetos baixos e, embora algumas pequenas praias surgissem no meio da água, Anna pensou ver uma ou duas Huldras de longe os observando. Mais perto de uma Huldra que não queria matá-la, ela finalmente conseguiu ver melhor a sua forma volátil.

Obscuren, de maneira geral, parecia praticamente humana, mas tinha orelhas pontudas e a sua pele ficava se transformando. Naquele momento, seus olhos estavam laranja, uma cor que fazia Anna lembrar do fim do outono ou começo da primavera. Eles pareciam ver tudo em volta e, quando Obscuren olhava para Anna, ela se perguntava se a buscadora de coisas podia encontrar o segredo mais profundo de Anna em seus olhos.

– Obscuren – Anna disse –, você sabe como Nattmara veio para Arendelle? Acho que eu sei, mas não tenho certeza. A ferrugem branca começou antes da Nattmara chegar. Estou um pouco confusa.

Ela prendeu a respiração, esperando que Obscuren dissesse, de alguma forma, as palavras que estavam gritando tão alto dentro dela quanto um pastor tocando tungehorn:2 o feitiço. Só podia ter sido o feitiço, mesmo que não fizesse sentido o fato de os animais e as plantações ficarem doentes antes que ela o tivesse lançado. Mas, depois de lançar o feitiço, o lobo apareceu. Disso Anna tinha certeza, assim como tinha certeza de sua culpa.

Obscuren estava quieta, mas não era o silêncio de quem estava ignorando. Era um silêncio de quem estava pensando, como se ela formulasse cada palavra antes de falar.

– A Nattmara não aparece de repente – a Huldra disse. – Ela é formada por acontecimentos da vida de uma pessoa que ficam tão grandes que ela não consegue mais guardar para si, e o medo torna-se tão grande que cria vida própria.

Anna assentiu. Sim, era isso o que Sorenson havia dito. O medo era grande demais para manter dentro de si.

– Entãooo – Anna disse –, você não acha que alguém pode, não sei… – Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Digo, um feitiço, ou alguma coisa, pode ter atraído Nattmara até Arendelle?

– Entãooo – Anna disse –, você não acha que alguém pode, não sei… – Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Digo, um feitiço, ou alguma coisa, pode ter atraído Nattmara até Arendelle?