O SOL BRILHOU intensamente no céu, formando um disco achatado brilhante que cintilava no esplendor colorido das folhas de outono.
Normalmente, não havia nada que Anna amasse mais do que dias ensolarados de outono – aquelas tardes em que o céu ficava tanto azul quanto frio, e tudo em volta se tornava dourado. Normalmente. Hoje, contudo, o sol estava brilhante demais. Ele mostrava coisas demais: suas pegadas no caminho, suas sombras rastejando pelo chão, o brilho deslumbrante do cabelo de Elsa. Tudo isso estava tão visível quanto poderia estar. Eram como faróis para o lobo, que praticamente gritavam:
“REFEIÇÕES DELICIOSAS FORAM POR ESSE LADO”.
Ainda que eles tivessem imaginado que o lobo não se moveria durante o dia, pois ainda estava preso no castelo, não havia uma forma real de ter certeza. Então, mantiveram-se longe do caminho dos trilhos dos vagões que seguiam o Rio dos Rumorejos e fixaram-se no interior da floresta, escolhendo trilhas por cima de troncos e tropeçando contra pedras escondidas em pilhas de folhas. Anna tropeçou algumas vezes em raízes rebeldes. Caminhar de fininho pelos bosques enquanto imaginava um lobo a perseguindo lhe era familiar demais.
Depois de um certo tempo, Anna, envergonhada, admitiu para Kristoff o que tinha feito. Em vez de ficar chateado com ela, ele a abraçou.
Compreendeu que tudo que ela queria fazer era ajudar e estava se sentindo otimista com o plano para salvar Sven.
– Não entendo – disse Anna, tentando falar baixo para não atrair atenção, mas alto o suficiente para que Kristoff e Elsa a escutassem por cima do ruído das folhas sendo pisadas. – Tenho bons sonhos o tempo todo, já sonhei que estava voando e morando em um castelo de chocolate, e também já sonhei com unicórnios e…
– E comigo, obviamente – Kristoff sugeriu com um sorriso atrevido.
Anna deu uma cotovelada no seu braço.
– Foco – ela disse, tentando soar séria, sabendo que suas bochechas estavam rosadas.
– Só estou feliz que você não sonhou com nada realmente assustador, como um tubarão errante – ele disse.
Anna sorriu.
– É esse o pesadelo mais assustador para você?
– Não. – Kritoff fez um sinal negativo com a cabeça. – Quando eu era pequeno, tinha pesadelos com Bulda tentando me dar sopa de cogumelos com uma colher.
Anna parou para soltar sua capa de um arbusto espinhoso.
– Isso não é nem um pouco assustador!
Kristoff ajustou sua mochila de viajante.
– Você alguma vez já deixou um troll te dar alguma coisa com uma colher?
Anna riu e virou-se para Elsa, em uma tentativa de convidá-la para a conversa, mas Elsa não esboçou sorriso nenhum. Ela estivera em silêncio praticamente desde que eles deixaram o armazém de Oak, e Anna suspeitava que sua irmã estava chateada com ela.
– E-e você, Elsa? – Anna tentou manter o tom leve e arejado. – Qual é o seu pior pesadelo?
Elsa afastou um galho.
– Eu não tenho pesadelos.
Pelo canto do olho, Anna viu Kristoff aumentando o ritmo. Ele procurava evitar brigas sempre que podia. E, assim como Anna, podia detectar uma discussão efervescendo.
– Vamos lá, Elsa. – Anna deu um passo rápido para o lado, para que o galho não batesse de volta em sua direção, pois Elsa o havia soltado. – Todo mundo tem pesadelos. Eu sou sua irmã. Você pode me contar. Todos vocês conhecem meu pesadelo agora: um lobo gigantesco que persegue garotas.
Elsa arrumou o cachecol de sua mãe sobre os ombros.
– Não sei o que dizer a você, Anna, exceto que não tenho pesadelos.
A suspeita profunda de Anna parou de se aprofundar, pois havia chegado no fundo do poço e se ancorado na boca do seu estômago. Elsa definitivamente estava chateada com ela, e a pior parte – absolutamente a pior parte de todas – era que Anna não a culpava. Ela também estava um pouco furiosa consigo mesma.
Flocos de neve flutuavam nos raios de sol que atravessavam as árvores.
Anna olhou para cima. O céu ainda estava azul como nunca, o que
significava que só poderia haver uma outra fonte de neve.
– Elsa, por que você está soltando rajadas? – Anna manteve o dedo reto para capturar um cristal de gelo minúsculo. – Nós não podemos ter neve.
Vamos deixar pegadas. Mais do que aquelas que já deixamos na lama.
Elsa parou para encará-la.
– Não sou eu.
– Então o que é isso? – Anna mostrou o floco em seu dedo.
Ela observou o floco e suas bochechas pálidas ficaram ainda mais pálidas.
– Isso não é neve.
– Anna! Elsa! – Kristoff gritava à frente. Ele estava parado em cima de uma colina arborizada, olhando para baixo, para algo do outro lado. – Venham rápido!
Eles pararam de se preocupar com quem ou o quê poderia escutá-los e correram, alcançando Kristoff. Anna ficou surpresa. A floresta acabava no topo da colina e uma casa vermelha de fazenda estava diante deles, repleta de campos de trigo; o trigo estava todo branco, até mesmo translúcido, sob a luz cortante do sol. Anna ficou observando e uma brisa se espalhou rapidamente pelo campo, removendo os grãos e levantando algo que crescia, algo que se parecia com cinzas.
A ferrugem branca estava se espalhando.
– Não podemos nos demorar – disse Kristoff, e Anna sabia que ele estava pensando em Sven e seu pelo branco, que combinava com o terrível pó branco. – Isso de correr e desviar está tomando muito tempo. Nós temos que ir mais rápido! – Ele estava certo. Mas Anna não sabia o que fazer.
Mesmo dessa distância, ela podia ver pequenos círculos brancos no meio dos campos. Vacas adormecidas. Cavalos caídos na pista. Qualquer animal que pudesse levá-los para mais longe ou de forma mais rápida estava doente. A única coisa que parecia normal naquela paisagem de outono descolorido era o fio azul-marinho do Rio dos Rumorejos se movendo em seu caminho para a base da Montanha dos Mineradores, a distância.
– Você consegue congelar o rio? – perguntou Anna a Elsa. – Assim nós poderíamos atravessá-lo, talvez.
– Hum. – Elsa inclinou a cabeça. – Essa é uma boa ideia! Talvez isto possa ajudar também.
Elsa moveu as mãos e Anna sentiu como se tivesse crescido uns sete centímetros. Olhando para baixo, para seus pés, percebeu o porquê: Elsa havia transformado as botas de trilha de Anna em um par de patins de gelo. Anna desequilibrou-se, mas Kristoff a segurou pelos cotovelos, mantendo-a ereta.
Elsa gesticulou para o rio que percorria o local.
– Nós podemos patinar no gelo.
Não era isso que Anna tinha em mente. Ela hesitou. Era uma boa ideia, mas Elsa era a patinadora, não ela. E quando Anna patinava, preferia patinar no chão liso, sólido. Em um rio, havia sempre a chance de o gelo quebrar, lançando-a nas águas gélidas.
– Nós seremos vistas no rio – Anna disse devagar. – Não conseguiremos nos esconder.
– Felizmente – disse Elsa, descendo a colina em direção à margem do rio –, você está viajando com uma expert em gelo. Posso tornar o gelo fino o suficiente para aguentar o nosso peso, mas qualquer coisa mais pesada que isso, como um lobo gigante, vai fazê-lo quebrar e afundar. – E tendo dito isso, ela pisou na água.
No momento em que a ponta dos patins de Elsa tocou a superfície, cristais de gelo desabrocharam pelo rio. A cobertura de cristal dobrou, quadruplicou e, então, multiplicou ainda mais, até que a superfície inteira do rio se transformou em um lençol de flores de gelo, refletindo e refletindo e refletindo novamente no sol ofuscante do meio-dia.
Isso era, Anna admitiu para si, mais uma das grandes ideias e criações mágicas de Elsa. Apenas não era o tipo de mágica que ela realmente gostava, mas, ainda assim, confiava na irmã e, por isso, foi até a beirada do rio. O gelo era tão fino que ela podia ver através dele, como se fosse a vidraça delicada da janela de seu quarto.
– Vamos lá, Anna – disse Kristoff –, estamos perdendo tempo! – Ele pulou no rio com seus patins. O lençol de gelo fez com que ele quicasse como em um trampolim, mas o manteve seguro, como Elsa prometera.
– Não vou deixar nada acontecer com você, Anna – disse Elsa, lendo a expressão preocupada de sua irmã. – Essa é a nossa melhor chance, porque não temos muito tempo para consertar esse pesadelo.
Elsa tinha razão. Anna os havia colocado nessa bagunça. E agora ela precisava consertá-la. Respirou fundo e pisou no gelo. Elsa foi na frente;
cada batida dos seus pés espalhava cristais de gelo por toda a superfície.
Cercado em ambos os lados por árvores em seu esplendor outonal, o rio parecia um colar de diamantes posicionado contra uma almofada vermelha. E, conforme Anna sentia seus pés abaixo do corpo, seu coração ficava um pouco mais leve. O ruído das folhas carregadas pelo vento era semelhante ao som de aplausos. Ela tomou coragem com esse som. Era como se Arendelle estivesse torcendo por ela, querendo seu sucesso. E ela também queria. E não iria parar até que Arendelle estivesse segura.
Horas se passaram. O vento emaranhava o cabelo de Anna e o sopro apressado e constante do vento gelado fazia com que seu nariz começasse a escorrer. Seus pés estavam inchados. Os patins mágicos de Elsa normalmente calçavam corretamente, mas dessa vez estavam um pouco apertados demais, como se Elsa tivesse esquecido que Anna crescera.
Desiludida pelo pensamento, tentou sacudir a melancolia para longe.
Bateu em um buraco e tropeçou. Antes que desse com o nariz no gelo, uma mão agarrou seu braço.
– Você está bem aí, Pés Cintilantes? – perguntou Kristoff.
– Totalmente – disse Anna. – Eu tive a intenção de fazer isso. – Ainda que suas habilidades de patinação no gelo tivessem melhorado muito desde sua primeira lição com Elsa, ela não ganharia nenhuma competição.
– Desculpe – disse Kristoff. – Eu não quis atrapalhar a super-profissional da patinação no gelo.
Erguendo o nariz, Anna inalou para limpá-lo.
– Acho que eu posso te perdoar.
Kristoff sorriu, enquanto sua mão se encaixava aos poucos na dela.
– Você tem certeza?
E então ele patinou para trás o mais rápido que pôde, puxando Anna com ele. O mundo em volta parecia um borrão e ele a rodopiava com tanta confiança no gelo quanto no chão sólido. Ele patinava rapidamente, equilibrando-se no limite do controle. À frente deles, Elsa movia-se com cuidado, sem perceber que eles estavam balançando, escorregando, voando, até que…
– Cuidado!
Anna gritou quando o rio fez uma curva inesperada. Mas o aviso foi tarde demais. Kristoff não teve tempo de puxá-los para uma nova rota e
eles derraparam para fora do rio em direção a uma pilha alta de folhas de bordo. Deitada, Anna observou um redemoinho de folhas douradas caírem em volta deles.
– Essa foi a minha intenção – disse Kristoff.
– Uhum. Da mesma forma como eu quis ser uma superprofissional? – ela perguntou.
Ele concordou:
– Exatamente.
– ANNA! – A voz de Elsa cortou o ar.
– Estou aqui! – Anna levantou-se e deu batidinhas na capa para retirar as folhas grudadas. – Foi só um passo em falso. Como você pode perceber, esse deslize deu até um gelo na barriga!
As lâminas dos patins de Elsa espirraram um pó sobre eles, pois ela parou subitamente na frente dos dois.
– Isso não é hora para brincadeiras e trocadilhos!
O mundo como Anna conhecia moveu-se devagar e então congelou.
Mesmo que Elsa não tivesse feito nenhuma mágica – ainda que não houvesse nenhum movimento de sua mão, nenhuma rajada de gelo, nenhum caco de vidro se enterrando no coração de Anna –, as suas palavras congelaram algo lá no fundo de Anna. Sua esperança. E as coisas que congelam… podem se estilhaçar. Anna podia sentir os estilhaços de sua esperança fragmentada despencando através dela como vidro quebrado, fazendo com que a cada respiração, a cada piscar de olhos, ela sentisse dor sempre que olhasse para sua irmã, a rainha de Arendelle, que não tinha mais lugar para as suas palhaçadas tolas.
– Eu sei que não é hora para brincadeiras – Anna contestou.
– Não parece que você sabe – disse Elsa, cuja voz estava cuidadosamente controlada.
Anna queria sacudir sua irmã perfeita, para ver se ela cederia de alguma forma, para lhe mostrar que elas eram iguais. Mas aquele tom – aquele tom decepcionado – revelou exatamente o que Elsa pensava de Anna, o que a fez se sentir mais magoada, anestesiada, congelada. Ela ficou furiosa.
– Eu não sou uma criança – disse Anna. Ela estava feliz que as lâminas dos patins a deixavam mais alta que o normal. – Você acha que eu não sei?
– A cada palavra, sua voz ficava mais alta e mais alta até que ela estivesse praticamente gritando. – Você acha que eu não tenho tentado?
E antes que pudesse escutar a resposta de Elsa, Anna saiu deslizando pelo gelo.
Cavando as lâminas cada vez mais profundamente, ela empurrou e empurrou, indo cada vez mais rápido. Anna sentia demais. Ela estava sendo demais. Esse era o problema. Ela era muito distraída. Muito despreocupada. Muito ridícula para que qualquer um – até mesmo sua irmã – visse como ela poderia ser útil para o reino.
O vento era tão forte que arrebatou a capa de trás dela, mas ela se inclinou, querendo sentir o gelo fresco contra sua pele quente de raiva. Por um momento, pensou ter escutado Elsa a chamando, mas não parou.
Queria sair deslizando para longe de tudo. Para longe daquele tom decepcionado da voz de Elsa, para longe da bondade gentil de Kristoff, que ela não merecia, e para longe de suas próprias emoções bagunçadas e confusas.
Para longe daquele erro gigante, amaldiçoado.
O gelo rangia abaixo dos seus pés, suas lâminas raspavam uma nota fúnebre da qual Anna não conseguia escapar. Mais rápido, mais rápido, mais rápido! Se ela simplesmente soubesse patinar tão rápido quanto o vento, talvez se fundisse nele e fosse levada para longe de tudo que havia feito.
E foi quando o gelo quebrou.