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A MELODIA DAS CRIANÇAS – de Huldra – voou em asas invisíveis e sumiu novamente no silêncio.

Anna aplaudiu; não pôde evitar. Afinal, a pequena Huldra não parecia perigosa.

– Isso foi incrível! – ela exclamou. – Qual é o seu nome?

Por um momento, Huldra pareceu encarar Anna sob a luz brilhante, os olhos luminescentes perfurando os dela, e então caiu para trás do cristal.

– Não! – Anna disse enquanto corria para verificar se a pequena Huldra não tinha se machucado nos cristais.

Mas, ao contornar o cristal que era do tamanho de um tronco de árvore, ela viu que Huldra não estava mais ali. A criança tinha desaparecido, mas ainda era possível ouvir o som de passos batendo na passagem escura à frente. Sem pensar duas vezes, Anna correu.

– Anna! – Elsa a chamou. – Espere! Devagar! Você está indo rápido demais!

– Anna! – Kristoff gritou. Seus avisos ecoaram pelas rochas ao redor deles, mas Anna discordou dos dois: estava indo muito devagar.

A Huldra era rápida – Anna não tinha certeza se o que estava seguindo eram passos ou apenas o gotejamento silencioso de estalactites a distância.

Ainda assim, eles estavam ali para procurar os Huldrefólk, os únicos que poderiam ajudá-los a encontrar a Lâmina Revoluta, os únicos mitos que poderiam salvar todos eles do terrível erro de Anna. Assim, Anna continuou correndo, se esquecendo de desviar de algumas ocasionais pedras baixas. De repente, Huldra gritou. Parecia assustada, e Anna torceu para que ela não estivesse em apuros.

– Espera aí! – Anna gritou. Ela corria cada vez mais rápido e, então, seu pé ficou preso em uma pedra, um tronco ou uma raiz – estava escuro demais para dizer –, e ela caiu no chão, com as mãos esticadas para amortecer a queda.

A dor estalou nas costelas de Anna ao atingir a rocha sólida. Ela ficaria com um hematoma gigante em uma hora. Tudo doía. Tudo, menos o braço direito, que ela havia atirado muito à frente para tentar impedir sua queda.

E, quando Anna olhou para o bracelete de vaga-lumes que pendia de seu pulso, ela viu o porquê: o braço direito não atingira nenhuma pedra. Tudo o que a mão acertara fora o ar. Anna estava feliz por já estar deitada no chão, porque pensou que poderia desmaiar se ainda estivesse de pé. Ela seguiu Huldra – e quase caiu de um penhasco.

Ainda podia ouvir o choro de Huldra. O aviso de Tuva no armazém ressurgiu. Eles são complicados. Às vezes, eles ajudam. Outras vezes, atraem os seres humanos para os caminhos menos seguros. E talvez, Anna pensou, eles atraiam humanos para abismos. Sempre havia uma chance de a criança Huldra ter feito isso de propósito – talvez ela tivesse a intenção de afastar Anna, Elsa e Kristoff do lar dos Huldrefólk.

Mas, mesmo quando esses pensamentos sombrios se reuniram em uma nuvem, Anna avançou de bruços, seguindo o choro de Huldra. Não importava quais eram suas intenções – o que importava era que Huldra estava presa e assustada. Assim que se segurou na borda, Anna inclinou o queixo e olhou para baixo. Huldra havia caído, mas, por alguma sorte ou milagre, se prendera em uma pequena saliência a um metro e meio de altura. Seria fácil para Kristoff se inclinar e alcançá-la, mas, enquanto Anna observava, a borda rochosa desmoronava com o peso da criança.

– Elsa! Kristoff! Ajudem! – Anna gritou enquanto avançava ainda mais, deixando-se cair sobre a borda com a mão estendida. – Pegue minha mão!

– Ela clamou.

Huldra levantou a mão, mas Anna ainda estava muito longe. Ela tinha que se aproximar. Movendo-se para a frente, abaixou-se um centímetro.

Um pouco mais… Esticou os dedos para a frente, desejando que eles se alongassem – e foi aí que sentiu a terra ruindo sob seu próprio peso. O que antes era terra firme se transformou em cascalho, e Anna derrapou para a frente, de cabeça no abismo escuro. Ela gritou.

Entretanto, antes que pudesse passar pela Huldra e mergulhar no vasto vazio, dois pares de mãos agarraram seus tornozelos por cima. Kristoff!

Elsa!

Ela parou, cara a cara com a pequena Huldra de olhos de gato, que ainda estava encoberta pelas sombras e que, se Anna tivesse que apostar em um palpite, parecia aterrorizada.

– Oi – disse Anna, tentando com esforço acalmar a voz trêmula. – Meu nome é Anna e não vou machucar você. – Ela estendeu a mão. – Venha comigo!

A Huldra hesitou um momento, depois agarrou a palma da mão de Anna. A pele da criança era lisa e seca, como um dos pequenos lagartos que haviam povoado os desertos de Chatho, conforme ela havia lido. Mas, ainda que a Huldra estivesse tão perto dela, era difícil vê-la direito. Era quase como se a criança tivesse sido feita de sombra ou esculpida em um espelho. Tentar decifrar os detalhes era como tentar segurar firme uma barra de sabão: quanto mais se apertava, mais o sabão deslizava; quanto mais se observava, mais rápido a Huldra parecia desaparecer.

Segurando a criança com todas as suas forças, Anna gritou:

– Nos levantem!

Houve um grunhido e, então, Anna e a Huldra foram erguidas em segurança, logo depois a pequena saliência se deteriorou no nada. Ela e a criança foram arrastadas de volta para a rocha sólida. Antes que Anna tivesse a chance de se soltar da Huldra, Elsa e Kristoff envolveram-na em um abraço apertado, e ela se inclinou para sentir o calor deles.

– Anna – disse Elsa, a voz tensa. – Não consegui…. Quero dizer, você quase…

– Palavra-chave: “quase” – Kristoff atravessou a conversa com uma piscadela.

Anna sorriu para ele. Ele sempre parecia entendê-la, parecia saber que, se ela pensasse demais no que acabara de quase acontecer, ela ficaria ali sentada para sempre e se transformaria em fóssil.

– Estou aqui – disse Anna. Ela poderia ficar lá para sempre nos braços deles, mas a Huldra se agitou, ainda segurando sua mão.

A criança se jogou para fora do grupo e caiu no chão – longe o suficiente para que Anna realmente pudesse distinguir um cotovelo pontudo, com mais detalhes do que antes. Agora Anna podia ver que a pele da Huldra era da cor exata da rocha azulada que enchia as minas. Anna fez uma careta. Quando a vira pela primeira vez, pensou que a pele dela era de um branco esfumaçado, semelhante ao cristal em que Huldra estava sentada. Uma ideia engraçada e emocionante surgiu na mente de Anna: ela estivera certa duas vezes. A Huldra tinha um branco esfumaçado e depois um cinza azulado. O corpo dela parecia liso, depois tão áspero quanto a parede de pedra. Talvez os Huldrefólk fossem como polvos nas profundezas dos Mares do Sul, capazes de mudar não apenas sua cor, mas também sua textura.

– Uau – disse Anna, tentando se recompor, mesmo quando uma corrente de pensamentos rápidos percorreu sua mente.

Primeiro pensamento: Isso é tão legal! Ela se emocionou ao descobrir essa maravilhosa característica dos Huldrefólk. O segundo pensamento veio rápido, logo após o primeiro: se pudesse mudar de cor e textura, iria para a galeria de retratos, ficaria na frente de todas as suas pinturas favoritas e sentiria, por uma tarde, como era ser o tenente Mattias, o velho oficial da guarda arendelliana de seu pai. E, finalmente, seu terceiro pensamento: na última vez que estivera no castelo, vira o lobo e tudo mudara. Um arrepio percorreu sua espinha.

Elsa se ajoelhou diante da criança.

– Olá, pequena. Eu sou Elsa. Qual o seu nome?

A pequena Huldra explodiu em lágrimas, que brilhavam como pedras preciosas.

– Oh, não. – Elsa recuou. – Aqui! – Ela conjurou um floco de neve e mostrou para ela.

– Elsa – Anna assobiou. – Sem mágica, lembra?

O floco de neve explodiu em gotas de água. As bochechas de Elsa ficaram rosadas e suas mãos se apertaram ao lado do corpo.

– Sinto muito – ela sussurrou. – Esqueci. – Era triste que Elsa tivesse passado a maior parte de sua vida tentando omitir sua mágica. Ela era realmente uma parte de Elsa, tão natural quanto respirar e piscar. Ter que se abster de usá-la de novo era algo que provavelmente levaria certo tempo para se assentar.

Anna sentiu pena. Respirou fundo. Eles tinham que sair dali. Tinham que encontrar a Revoluta e derrotar Nattmara, não apenas por Arendelle, mas por sua irmã. Ela não podia deixar Elsa se fechar novamente.

– Opa! – Elsa gritou.

Olhando para baixo, Anna viu a trança grossa de sua irmã ser apertada com força em um punho gordinho.

– Opa, opa! – Repetiu a pequena Huldra e deu outro puxão, como se a trança de Elsa fosse uma corda.

– Opa, opa, opa, opa! – Elsa desenrolou o cabelo dos punhos da criança.

– Eu não sou um cavalo.

– Cavalo! – disse a pequena Huldra. – Cavalo! Cavalo! Cavalo!

Elsa suspirou enquanto Anna cobria a boca para esconder uma risadinha. Ela entendeu o fascínio de Huldra pela trança de Elsa. Quando

era pequena, também fingia que Elsa era um cavalo de corrida, ordenando que a irmã subisse e descesse pelos corredores do castelo. Uma vez, ela conseguiu até mesmo fazer com que Elsa relinchasse.

A pequena Huldra soltou o cabelo de Elsa e foi até Kristoff.

– Cavalo! – proclamou a criança.

– Ei – protestou Kristoff enquanto a Huldra corria ao seu redor. – Olha só quem fala.

– Ei! Ei! Ei! – disse a pequena Huldra. – Fala, fala, fala! – Embora Huldra estivesse correndo em círculos ao redor de Kristoff, ela corria de lado, a longos galopes, mantendo as costas viradas para a parede o tempo todo.

Para esconder a cauda! Anna percebeu com prazer. Talvez ela finalmente pudesse descobrir a resposta para sua pergunta da infância: se todos eles tinham rabos.

– Eles são um pouco… hiperativos? – Elsa puxou sua capa para que ela ficasse ordenadamente no lugar de novo.

– Não mais do que qualquer outra criança – disse Anna, pensando nas crianças que costumava encontrar na aldeia. – Mas a maioria não sabe como contornar uma caverna, enquanto essa pequenina aqui pode ser capaz de nos levar aos Huldrefólk mais velhos, que podem nos ajudar.

Ajeitando o cabelo de volta em sua trança, Elsa parecia duvidosa:

– Talvez?

Tomando nota do que aconteceu com Elsa, Anna empurrou o próprio cabelo para trás, para garantir que não ficasse acessível, antes de se joelhar, apoiando as mãos no chão.

– Oi – disse ela. – Você se lembra do meu nome?

– Anna! Anna! Anna! – Huldra gritou.

Anna piscou. Ela não esperava tanto entusiasmo.

– Sim, está certo. Qual é o seu nome?

– Qual é o seu nome? – repetiu Huldra.

– Anna – disse Anna.

– Anna – repetiu Huldra.

– Espere. – Anna coçou a testa. – Seu nome é Anna também?

– Espere. – Huldra a imitou novamente. – Seu nome é Anna também!

– Como eu disse – falou Elsa, contraindo os lábios. – Hiperativa.

– Eu posso estar errado – observou Kristoff –, mas acho que eles apenas repetem tudo o que você diz.

– Hiperativo! Tudo o que você diz! – Huldra ecoou de volta.

Respirando fundo, Anna falou o mais rápido que pôde, não dando a Huldra chance de repetir suas palavras até terminar:

– Oi, eu sou Anna! Minha casa é Arendelle, como a sua, mas acima do solo.

Huldra olhou para ela com total espanto.

– Casa?

Anna assentiu.

– Sim, casa. Onde você mora? Gostaríamos de conhecer sua família.

Huldra olhou para Anna e depois assentiu.

– Casa! – E então Huldra partiu, correndo de costas tão facilmente que era como se tivesse olhos na parte de trás da cabeça. E talvez tivesse.

Afinal, Anna sabia, com base nas antigas histórias de ninar, que ninguém nunca tinha visto as costas de um ou uma Huldra.

– Vamos lá! – Anna se levantou. – Temos que segui-la!

Huldra correu impossivelmente rápido – e, ao contrário de Anna e dos outros, ela era baixa o suficiente para evitar pedras suspensas sobre suas cabeças, enquanto Kristoff precisava correr agachado. Subindo, descendo e subindo novamente, eles correram através de aparentemente intermináveis corredores de cristais e rochas cintilantes. Anna não conseguia entender como Huldra – Dash, como a apelidou mentalmente, da mesma forma como Olaf faria – conseguia diferenciar os diversos túneis. Talvez fosse algum truque especial dos Huldrefólk. Afinal, eles sempre encontravam coisas perdidas. Talvez isso significasse que eles nunca se perdiam.

Um pensamento estranho passou por sua mente, e ela se perguntou se isso significava que os Huldrefólk sempre sabiam o que deveriam fazer em seguida. Quão fantástico isso seria? Talvez tivesse sido assim que Dash os encontrara. Ou talvez Dash os tivesse encontrado porque Anna, Elsa e Kristoff eram as coisas perdidas.

Anna balançou a cabeça. Ela tinha tantas perguntas e havia tão pouco tempo para respondê-las.

Mas havia uma coisa que ela podia fazer.

– Kristoff? Elsa? – Anna esperou até que ambos olhassem para ela e então disse: – Acho que sei o que aconteceu aos trolls desaparecidos. Li na torre de Sorenson que eles sempre fogem da terra quando Nattmara aparece.

Anna ouviu Kristoff soltar um grande suspiro de alívio.

– Bom – ele disse. – Então isso significa que estão seguros.

Logo, outro som começou a soar sob o som desajeitado dos passos deles. Um som estranho, como um chiado de pés se arrastando.

– Vocês ouviram isso? – Anna falou entre as suas respirações.

– Sim – disse Kristoff. – Você acha que…?

– Talvez – respondeu Anna, diminuindo o passo. Ela não precisava que ele terminasse a frase para saber o que estava pensando: Nattmara.

– Devemos parar – disse Elsa. – Vamos tirar um minuto para descobrir o que está acontecendo. Os Huldrefólk podem ser maliciosos…

Especialmente se pensarem que estamos aqui para pegar algo que não nos pertence.

– Mas se pararmos – disse Anna – perderemos Dash!

Os cantos dos olhos de Elsa se enrugaram em confusão enquanto ela caminhava em torno de uma grande pedra sobre a qual Anna estava.

– Dash? – ela perguntou.

– A Huldra – explicou Anna. Ela se virou para ver se Kristoff precisava de ajuda com a pedra, mas ele simplesmente a empurrou para o lado, abrindo caminho.

– Tarde demais – disse ele. – Nós já a perdemos.

Nos dois segundos em que Anna tirou os olhos de Dash, a criança sumiu de vista.

– Não – Anna respirou fundo. – Temos que continuar! – Ela começou a correr novamente, com um medo que lhe fornecia uma velocidade até então desconhecida. – Dash não sabe sobre Nattmara!

Contudo, enquanto Anna contornava a última curva, ela viu de onde vinha o som: de uma cidade subterrânea esculpida na própria rocha.

O lar secreto dos Huldrefólk.

Assim como o mundo acima, também havia um mundo abaixo. Casas aconchegantes tinham sido esculpidas em uma pedra cinza-azulada e uma luz laranja jorrava delas, tão acolhedora quanto um sorriso. As ruas ladeadas de seixos eram iluminadas por vaga-lumes, então era fácil ver o que vários carrinhos de minas puxavam: um segurava uma pilha de estalactites agrupadas como lenha, outro estava cheio até a borda com cogumelos brilhantes do tamanho de chapéus de sol e outro estava repleto de pedras transparentes que Anna imaginou serem grandes diamantes.

E havia os Huldrefólk. Os adultos pareciam altos, sua estrutura era mais similar à de árvores jovens do que de pessoas; eles tinham longos

membros e pescoços compridos. E, assim como Dash, eles eram difíceis de ver à luz do reino subterrâneo.

A luz não era a mesma que a do sol, brilhante e reveladora, mas era de um tipo suave que Anna associava a jantares românticos à luz de velas. Ela iluminava ao mesmo tempo que escondia, lançando sombras que ajudavam a obscurecer os Huldrefólk. Ainda assim, mesmo na penumbra, Anna podia afirmar que eles se camuflavam no que quer que estivesse próximo, do preto ônix ao mármore branco e em todas as tonalidades intermediárias. Alguns dos Huldrefólk pareciam roxos, outros alaranjados e verdes com uma pele brilhante e com veias negras. Os Huldrefólk – o povo oculto – podiam se misturar a qualquer ambiente.

Isso era ótimo, Anna pensou, mas o mais importante: eles eram reais.

Criaturas reais que teriam respostas reais sobre onde eles poderiam encontrar a verdadeira espada perdida de Aren. Era a parte do mito que eles precisavam para salvar o dia.

– Uau – Elsa sussurrou. – Que bonito. E pacífico.

– Se Sven estivesse aqui – disse Kristoff –, aposto que ele comeria todos aqueles cogumelos e provavelmente os dentes dele brilhariam por uma semana.

Sven. Anna desejou que a rena estivesse com eles. O caminho para a vila parecia íngreme e Sven era bom em encontrar o caminho mais seguro por uma montanha escarpada. Ela examinou a lateral da rocha, procurando um caminho para as habitações. Em algum lugar lá embaixo, ela tinha certeza de que eles encontrariam as respostas para fazer com que tudo desse certo, para curar Sven e o resto de Arendelle da influência de Nattmara.

Enquanto se inclinava para ver melhor, Anna sentiu algo afiado cutucar suas costas.

– Kristoff – ela disse, passando a mão atrás de si –, pare com isso. Eu só estou tentando ver.

– Não estou fazendo nada – disse Kristoff, de pé à esquerda dela, longe para poder cutucá-la.

A nuca de Anna formigou.

Elsa estava à sua direita, com o rosto pensativo enquanto observava a cidade abaixo deles.

De repente, Anna teve a sensação de que alguém a estava observando.

Ou talvez até mesmo alguéns.

– Oh – ela ouviu Elsa dizer em surpresa.

Anna se virou, apenas para se deparar com uma lança. E não apenas uma lança.

Muitas lanças.