ERA MUITO TARDE, e Anna estava com fome.
Foi pegar um prato com queijo, biscoito de água e sal e fatias de maçã na cozinha, e aproveitou para conversar com os cozinheiros do castelo para se atualizar das últimas fofocas: quem provavelmente iria conseguir cultivar a maior abóbora de toda a aldeia naquele ano, quantas pessoas viriam para a festa anual da colheita e quem teria comprado um anel de noivado na loja de joias.
Normalmente, Anna teria adorado ficar ali conversando, mas sabia que quanto mais tempo passasse ali embaixo, menos tempo teria para pesquisar. Assim, pediu licença com seu prato de queijos e apressou-se em direção ao seu quarto quentinho. Enfiou-se nos seus pijamas mais confortáveis e começou a ler.
Os segredos dos detentores de magia era mais do que uma coleção de histórias. Era quase um guia de campo, como se alguém tivesse perambulado pela vastidão selvagem, coletando informações sobre inúmeras criaturas mitológicas, enquanto também juntava ingredientes para transformar flores em sapos. Havia histórias de florestas encantadas e escritos que pareciam receitas. E ainda que diversas passagens não estivessem traduzidas pela sua mãe, muitas outras estavam.
Anna seguiu a escrita da mãe como um pássaro faminto atrás de migalhas de pão. Mastigando ruidosamente seus biscoitos, ela leu sobre metamorfos reais que viviam com bandos de renas; árvores que falavam;
draugs; e garotos que não eram maiores do que um dedão. Havia páginas e mais páginas de uma língua desconhecida e frequentemente uma ilustração acompanhava os símbolos. Anna imaginou se Kristoff saberia algo sobre as runas ou se ele já havia visto algo do tipo no Vale das Rochas Vivas que poderia ajudar. Será que eram runas dos trolls das montanhas?
Ou outra coisa?
Sua mãe devia ter pulado a tradução de algumas páginas com esboços repulsivos. Anna passou por desenhos de um homem que parecia agonizar, de outro deitado em uma mesa de pedra, enquanto uma fumaça azul saía de sua cabeça e um troll pairava em pé ao seu lado, com os braços
apontando para cima. Por fim, parou em uma página que, segundo as ilustrações, era um detalhe da Saga de Aren.
As características físicas do herói lendário eram muito mais fáceis de identificar neste livro que no retrato que Elsa descobrira. Aren tinha um cabelo desgrenhado e amarelo e uma barba loira luminosa, com trancinhas. Seu rosto era mais quadrado do que redondo, e seu nariz torto fez Anna se lembrar de uma águia. Ainda que houvesse apenas runas na página – sem tradução –, Anna reconheceu alguns dos seus feitos mais famosos. No canto, havia um esboço de cachoeira, a quem Aren enganara para que ela o ajudasse a respirar embaixo d’água. À direita, havia um desenho do sol e em cada raio cintilava uma espada com um diamante amarelo em seu pomo, assim como a famosa Lâmina Revoluta. No último canto, na parte inferior à direita, havia um dragão. Anna virou a página e se encolheu.
Era um desenho de um lobo tão realista que Anna imaginou quase sentir seu hálito quente saindo das páginas e vindo em sua direção. Sua mãe parecia ter chegado somente ao início da página e traduzido apenas uma única palavra: Nattmara. Anna arqueou as sobrancelhas. Mais uma dessas palavras-conhecidas-hoje-esquecidas de sua infância. Frustrada, virou a página. Já estava cansada de não saber – e cansada daquele pesadelo recorrente e assustador que tinha desde os cinco anos.
O capítulo seguinte que a fez parar foi uma receita. Era uma página solta, simplesmente retirada da encadernação, mas que havia sido nomeada de maneira organizada pela escrita de sua mãe: FAZER SONHOS VIRAREM REALIDADE. Havia outra palavra rabiscada nas margens com a mesma letra de mão: FEITIÇO? Os dedos de Anna tracejaram a palavra
“feitiço”. Não era uma receita – era magia.
Ela nunca havia conhecido alguém, além de Elsa, que podia usar magia, e sua irmã certamente não entoava palavras ou feitiços para criar ou manipular neve e gelo. A mágica era parte de Elsa. Estava dentro dela. Um pouco depois do reencontro das duas, Anna perguntara a Elsa o que ela sentia quando movia as mãos em círculos. Elsa descrevera que era uma emoção intensa, um sentimento que eventualmente crescia tanto a ponto de encontrar uma maneira de se libertar de determinada forma.
– Como quando você quer chorar, mas se segura porque não quer que os outros vejam? – Anna perguntou.
– Sim – disse Elsa –, mas não só chorar. Às vezes, é como sentir uma risada gigante presa em um momento que você deveria supostamente estar quieta, como em uma capela. Parece que, se eu escutar o sentimento e a magia, e soltá-la, eu posso controlá-la.
Um poema em um livro não parecia o tipo de mágica que Elsa possuía, mas não significava necessariamente que essas palavras não tinham nenhum poder. Essas palavras. Esse feitiço. A emoção fazia Anna vibrar.
Quanto mais olhava para as palavras, mais certeza tinha de que tudo que elas precisavam estava logo ali, na pesquisa de seus pais. Ela só desejava saber que conhecimento residia por trás das seções sem tradução. Anna observou atentamente os símbolos, como se só ao encará-los pudesse compreendê-los. Porém, não veio nada além de um sono pesado.
Ela ponderava se Kristoff havia encontrado algo de útil em seu caminho para o vale. Ela se perguntava se SoYun ainda estava no campo, tentando manter o rebanho acordado durante a noite. Mas, acima de tudo, se perguntava o que seus pais teriam feito nessa situação.
Anna e Elsa, sempre confiem uma na outra quando precisarem de ajuda, dizia seu pai. Ele provavelmente queria que ela contasse a Elsa sobre o feitiço, mas antes precisava descansar seus olhos. Seus pensamentos começaram a escapar e passar uns pelos outros como peixes velozes, enquanto suas pálpebras ficavam mais pesadas, mais pesadas, mais pesadas… Ela precisava dar um jeito na ferrugem branca…
A Corte de Royaume estava tão bonita quanto nos sonhos de Anna, e ela sabia que estava sonhando – não só porque nunca estivera em Royaume antes, mas também porque tudo parecia demasiadamente perfeito e frágil para ser real. Além disso, Elsa jamais seria vista dançando na vida real, e ali ela estava, rodopiando na pista de dança, com os braços abertos como se quisesse tentar abraçar o lustre suspenso no teto acima.
Anna sorriu.
– Você se parece com uma árvore pega em um vendaval! – gritou por cima da música alta de violinos e flautas.
– E parece que você está zonza – disse Elsa.
Anna discordou:
– Zonza? Por que… Ah!
Antes que pudesse terminar sua pergunta, Elsa a pegou pela mão e começou a girá-la, enquanto sua saia branca translúcida se espalhava em volta como uma geada de neve brilhante.
Anna jogou a cabeça para trás e riu, pensando na imagem que elas formavam na pista. Vestida com lantejoulas brancas e pérolas, Elsa era a personificação do inverno; já o chapéu de Anna e suas saias douradas a ajudavam a se disfarçar de verão.
O grande salão estava ficando borrado ao redor, como manchas de tinta. Sua cabeça começou a doer, mas era tão raro ver Elsa boba e despreocupada que ela não queria parar. Em vez disso, fechou os olhos, tentando prender aquele momento, mesmo que fosse de mentira… mas será que era?
Ela estava se sentindo realmente zonza agora. Não importava o quão divertido fosse para Elsa, era hora de parar.
– Ei, Elsa? Já pode parar! – Anna abriu os olhos e suspirou.
Sua irmã não estava mais girando com ela.
No lugar de Elsa, estava parado em pé um homem estranho, alto, vestindo um fraque e uma máscara prateada de lobo.
Anna deteve-se.
– Com licença. – Ela tirou a mão. – Preciso encontrar a minha irmã.
O dançarino fez uma reverência, e a máscara prateada de lobo quase caiu pelo seu nariz.
– Como quiser, princesa Anna.
O sangue em suas veias transformou-se em gelo. Anna conhecia aquela voz. Era uma voz que ela não queria escutar novamente. Hesitante, espiou sobre os buracos dos olhos da máscara.
– Príncipe… príncipe Hans?
– O próprio. – Um anel de diamante subitamente se materializou em sua mão. – Sua irmã disse que eu deveria lhe entregar isso quando fosse pedir sua mão.
– Mi-minha mão?
Hans segurou seu pulso e empurrou o anel em seu dedo.
– Sua mão em matrimônio, é claro. Sua irmã nos deu sua bênção. Você não tem nenhuma utilidade para ela.
Anna puxou a mão com força.
– Não acredito nisso – ela disse, esticando o pescoço para ver se conseguia encontrar sua irmã naquele saguão brilhante. Mas não havia ninguém lá. As decorações, os músicos, os dançarinos… tudo tinha sumido, deixando-a completamente sozinha com o príncipe das Ilhas do Sul, seu quase-marido vilão, que a enganara, juntamente ao restante do
reino, antes que Anna descobrisse seus planos horríveis de matar Elsa e dominar Arendelle.
Hans riu, um som terrível, que ficou muito pior quando se transformou em um uivo no final. Enquanto Anna assistia, o cabelo prata de sua máscara de lobo fazia ondas no ar, como se fosse pelo de verdade. Seu nariz se alongou, ficando cada vez mais parecido com um focinho.
Cada vez mais parecido com um lobo.
Até que de repente não havia mais Hans, só um grande lobo branco com olhos âmbar e dentes do tamanho de facas de jantar. Era o mesmo lobo que a perseguia em seus sonhos de infância. Porém, diferente da maior parte das coisas da infância, que costumam parecer menores quando se cresce, este lobo, na verdade, havia crescido com Anna. Ele era ainda mais aterrorizante agora. Estava ainda mais faminto.
O lobo lambeu os dentes e avançou.
Acorde, Anna, ela pensou freneticamente, tropeçando em sua saia, enquanto tentava recuar. Acorde! Acorde! Acorde…
– Acorde! – Anna se sentou na cama.
O som de sua própria voz acabou com o pesadelo. O alívio, quente e doce como mel fresco, fluiu pelo seu corpo. Fazia muito tempo desde a última vez que ela tivera esse sonho em particular, esse pesadelo em particular, e o medo que ele havia criado era, infelizmente, tão familiar quanto a dor da falta de seus pais. E, dessa vez, sua mãe não estava lá para lhe contar uma história que a distraísse, tampouco seu pai para lhe trazer chocolate quente.
Sempre confiem uma na outra quando precisarem de ajuda.
Inclinando-se para a frente, Anna pegou Os segredos dos detentores de magia, que havia escorregado para o pé da cama. Ela o segurou próximo ao peito e correu para o antigo quarto de seus pais. Não porque pensava que eles estariam ali, mas porque Elsa havia se mudado para lá após a coroação, abandonando seu quarto de infância. Contudo, ao observar o cômodo e as brasas se apagando, Anna se perguntou por que Elsa ainda não havia retornado. Ela se tranquilizou dizendo para si mesma que às vezes os deveres de uma rainha poderiam durar a noite toda.
Voltou para o seu quarto. Antes de subir na cama, parou perto da penteadeira e ficou olhando o caderno de desenhos de seu pai. O rei Agnarr era um artista talentoso e empunhava seu lápis e espada com destreza. Nos dias ruins, quando Anna se sentia mais sozinha, ela gostava
de abrir o caderno e ver o mundo como ele vira uma vez. Havia imagens do castelo de Arendelle, assim como das terras longínquas que ele vislumbrara em sua grande viagem.
Elsa partiria para a sua grande viagem em apenas quatro – não, três – dias, e se Anna conseguisse curar os animais antes disso talvez ainda existisse uma possibilidade de poder navegar com Elsa.
Ao voltar para a cama, Anna decidiu que acordaria muito mais cedo no dia seguinte para mostrar o feitiço a Elsa. E, assim, com o caderno de desenhos de seu pai de um lado do travesseiro e o livro de sua mãe do outro, ela por fim atreveu-se a fechar os olhos.
O lobo não retornou.