rev bras reumatol.2017;57(6):620–622
ww w . r e u m a t o l o g i a . c o m . b r
REVISTA
BRASILEIRA
DE
REUMATOLOGIA
Relato
de
caso
Doenc¸a
de
Lyme
e
artrite
idiopática
juvenil
–
Relato
de
caso
clínico
pediátrico
夽
Lyme
disease
and
juvenile
idiopathic
arthritis
–
A
pediatric
case
report
Mário
Correia
de
Sá
a,∗,
Catarina
Moreira
b,
Cláudia
Melo
c,
Álvaro
Sousa
ce
Sónia
Carvalho
caCentroHospitalarVilaNovadeGaia/Espinho,Servic¸odePediatria,VilaNovadeGaia,Portugal bUnidadedeSaúdeFamiliarRibeirão,VilaNovadeFamalicão,Portugal
cCentroHospitalardoMédioAve,Servic¸odePediatria,VilaNovadeFamalicão,Portugal
informações
sobre
o
artigo
Históricodoartigo:
Recebidoem2demarçode2015 Aceitoem14deagostode2015
On-lineem26desetembrode2015
Introduc¸ão
Adoenc¸adeLyme(DL)éumadoenc¸ainfeciosacausadapor bactériasespiroquetasdogêneroBorreliaetransmitidapela mordeduradecarrac¸a.
Aapresentac¸ãoclínicadaDLdivide-seemtrêsfases dis-tintas:adoenc¸alocalizadainicial,caracterizadapeloeritema migrans(EM);adoenc¸adisseminadainicial,compossível aco-metimentodosistemanervosocentraledocorac¸ão;eafase tardiada doenc¸a,comartritemonoarticularou oligoarticu-lardasgrandesarticulac¸ões.Otratamentoindicadodurante afaselocalizadainicialéaantibioterapiaoralenocasode doenc¸adisseminadacomacometimentoneurológicoou car-díacoestáindicadaantibioterapiaendovenosa.AartritedaDL (fasetardia)devesertratadainicialmentecomantibioterapia
夽
EstudoconduzidonoServic¸odePediatria,CentroHospitalardoMédioAve,VilaNovadeFamalicão,Portugal. ∗ Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](M.C.Sá).
oralduranteummês.Otratamentoendovenosoficalimitado aosdoentescomdoenc¸agraveoupersistente.
Foijáapontadoemváriosestudosapossívelinfluênciade váriosagentesinfeciosos,notadamenteaBorrelia,na etiopa-togeniadaartriteidiopáticajuvenil(AIJ).1
Relato
de
caso
Crianc¸adeseisanos,sexofeminino,semantecedentes pesso-aisderelevância,residenteemambienteurbanonoNortede Portugal,contudocomvisitasregularesaparentesresidentes emambienterural,ondecontactavacomcães.Os anteceden-tesfamiliareseramirrelevantes.
Foi referenciada à consulta de reumatologia pediátrica porqueixasdedoreedemadasarticulac¸õesinterfalângicas
http://dx.doi.org/10.1016/j.rbr.2015.08.003
0482-5004/©2015ElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/
rev bras reumatol.2017;57(6):620–622
621
Figura1–Articulac¸õesinterfalângicasproximaiscom sinaisinflamatóriosobservadasemconsultade reumatologiapediátrica.
proximais (IFP) das mãos, dos punhos e das articulac¸ões tibiotársicas bilateralmente com vários meses de evoluc¸ão eagravamentoprogressivo.Eranegadafebreouhistóriade traumatismo. Existiareferência tambéma múltiplaslesões eritematosas circinadas, com progressão hilofugal, com 2 a5cmdediâmetro,comevoluc¸ãodecincomeses,refratáriasa tratamentoantifúngicooraletópico.Aoexameobjetivo apre-sentavasinaisinflamatórioselimitac¸ãoàmobilizac¸ãoativa epassivadetodasasarticulac¸õesIFPdasmãos(fig.1),dos joelhos,dasarticulac¸õestibiotársicasedospunhos bilateral-menteeainda lesões eritematosascircinadas, com formas irregulares,múltiplas,dispersasnotronco,membros superio-reseinferioreseregiãocervical(fig.2).
DadooquadroclínicosugestivodeDLfoiinstituído trata-mentoantibióticocomamoxicilinap.o.1,5g/diaeibuprofeno 30mg/kg/diadurante21dias.
Figura2–Lesõeseritematosascircinadascomformas irregulares,múltiplas,dispersasnotroncoemembros superioresemconsultadereumatologiapediátrica.
A investigac¸ão laboratorial demonstrou hemograma e bioquímicaalargada(func¸ãorenal,TGO/TGP,fosfatase alca-lina,func¸ãotireóidea,ionograma)semalterac¸ões,velocidade de sedimentac¸ão 24mm/1a
h, proteína-C-reativa 1mg/dL, estudoimunológicocomANA,Ancaefatorreumatoide nega-tivos,C3eC4ligeiramenteaumentados(184mg/dLe46mg/dL respetivamente),serologiaemarcadoresvirais(VIH,CMV,EBV, toxoplasma,VDRL,reac¸ãodeWeil-Felixereac¸ãodeWright) negativos.OestudoserológicoparaBorreliaburgdorferifoi posi-tivo(imunofluorescênciaindireta,IgG53.30UA/mL,positivo >10UA/mL; IgM:1,7, positivo >1,09). Confirmou-se assimo diagnósticodeEMeartriteemcontextodadoenc¸adeLyme. Nãoapresentavaalterac¸õesnoníveldoexamecardíacoe oftal-mológico.
Apesar do tratamento instituído, a crianc¸a manteve as queixasdeartralgiaeaparecimentodenovaslesõesdeEM. Foientãoinstituídociclode28diasdeceftriaxonee.v.2g/dia, comdesaparecimentocompletodaslesõescutâneas.
Aresoluc¸ãodasintomatologiaarticularfoiapenas transi-tóriacomreagravamentodequeixasdeartralgiaelimitac¸ão da mobilidade dos punhos e das articulac¸ões IFP cerca de dois meses depois.Outros sinais de artrite ou EM não recorreram.
Pelapersistênciadossinaisesintomasdeartritecrônicafoi iniciado tratamentoanti-inflamatóriocom deflazacortep.o. (7.5mg/dia)e naproxeno p.o. (500mg/dia) e imunossupres-são com metrotrexato p.o. (14.5mg/m2/semana). A crianc¸a apresentou melhoria progressiva das queixas álgicas, mas manteve ligeira limitac¸ão à extensão dos punhos. Analiti-camente nãoforam observadasnovas alterac¸ões.Adoente mantém-se no momento em remissão, dependente dessa terapêutica,comcomportamentoerespostaàterapêuticaem tudoidênticoàdaAIJ.Constatou-seagravamentodasqueixas quandotentadaasuareduc¸ão.
Discussão
ADLépredominantemente causadapelasespécies Borrelia burgdorferie,sobretudonaEuropa,BorreliaafzeliieBorrelia gari-nii.Consideradaumazoonose,étransmitidapelamordedura deumacarrac¸a,comumenteIxodesricinus.
AincidênciadeDL,quevariadeformaimportanteentre diferentesáreas geográficas,tem aumentadodeforma sus-tentada nos últimos anos.2 Em Portugal a incidência é de 0,3casopor100.000habitantes,próximadosrestantespaíses europeus.3
Adoenc¸alocalizadainicialapresenta-sesetea14diasapós ainoculac¸ão4ecaracteriza-sepeloEMepelasintomatologia sistêmica.Amáculaeritematosanolocaldapicadaprogride, senãotratada,paralesãoanulareritematosanãopruriginosa demaioresdimensões(5a70cm)eporvezescomaclaramento central.
Senão forinstituídotratamento segue-seadoenc¸a dis-seminadainicial,caracterizadaporlesõesde EMmúltiplas, sintomatologia neurológica, como meningite ouparesia de nervoscranianos,ecardite.
622
rev bras reumatol.2017;57(6):620–622sintomatologia articular foi já extensamente descrita. O acometimentoarticular inicia-se numa grandearticulac¸ão, maisfrequentemente ojoelho,maso edemaeorubor são maismarcadosdoqueadorassociada.Aartriteé frequen-tementemigratóriaenocasodenãoseriniciadotratamento antibiótico,asqueixasmantêm-seporváriassemanascom resoluc¸ão espontânea,contudorecorrefrequentemente em diferentearticulac¸ão.6
Evoluc¸ões não habituaisforam jádescritas por diferen-tesautores,notadamenteaevoluc¸ãoparaacronicidadedas queixasarticularesnumaimportanteproporc¸ãodosdoentes pediátricos7eapresenc¸adeartropatiaerosivaemcrianc¸asem respostaaotratamentoantibiótico.8
Apresenc¸adeEMempessoaqueresideouviajou recente-menteparaáreaendêmicaésuficienteparaserestabelecido odiagnósticodeDL.Contrariamente,emcasode sintomato-logiacompatívelcomdoenc¸adisseminadaoudoenc¸atardia, deveráserfeitaconfirmac¸ãoserológicapréviaàinstituic¸ãode tratamentoantibiótico.4
Aantibioterapiaindicadanadoenc¸alocalizadaédoxicilina, amoxicilinaoucefuroxima-axetilp.o.,14a21dias.A antibio-terapiaendovenosaestáindicadaemcasodemanifestac¸ões cardíacasouneurológicas,comexcec¸ãodaparalisiafacial iso-lada. Aartritede Lymepode sertratadacom sucessocom doxicilinaouamoxicilinap.o.duranteummês.Contudo,por vezesénecessáriotratamentoendovenoso.4
Foijáapontadaaassociac¸ãoentreaAIJeváriose fato-res ambientais, tais como infec¸ões, aleitamento materno, imunizac¸õesetc.9 Acredita-seentão queapresenc¸ade um oumaisfatoresderisco,talcomoainfec¸ãoporBorrelia,em indivíduo geneticamente suscetível, poderá desencadear o quadroclínicodeAIJ.1 Contudo,sãoaindanecessáriosmais estudosparaserestabelecidaumarelac¸ãoseguraentreesse fatorambientaleaAIJetambémparaserdeterminadoqual overdadeiropapelpatogênicodosdiferentesfatoresderisco ambientaisnodesencadeardadoenc¸a.
Nestecaso,acrianc¸afoiobservadacom lesõescutâneas sugestivasdedoenc¸adisseminada;contudo,aevoluc¸ãopara artritepoliarticular não écaracterística da artritede Lyme (essaétipicamentemonoarticularouoligoarticular), masé fortementesugestivade AIJpoliarticular.Asmanifestac¸ões cutâneasdesapareceramapósotratamento,persisteapenas
aartritecrônica,controladacomanti-inflamatóriose meto-trexato.
Aevoluc¸ãoapresentadaapontaparaumaforte probabili-dadedeainfec¸ãoporBorreliaterdesencadeadonessacrianc¸a aAIJ.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
r
e
f
e
r
ê
n
c
i
a
s
1.AslanM,KasapcopurO,YasarH,PolatE,SaribasS,CakanH,
etal.Doinfectionstriggerjuvenileidiopathicarthritis?
RheumatolInt.2011;31:215–20.
2.CentersforDiseaseControlandPrevention.Final2012reports
ofnationallynotifiableinfectiousdiseases.MMWRMorband
MortalWklyRep.2013;62:669.
3.LopesdeCarvalhoI,NúncioMS.LaboratorydiagnosisofLyme
borreliosisatthePortugueseNationalInstituteofHealth
(1990-2004).EuroSurveill.2006;11:257–60.
4.WormserGP,DattwylerRJ,ShapiroED,HalperinJJ,SteereAC,
KlempnerMS,etal.Theclinicalassessment,treatment,and
preventionoflymedisease,humangranulocyticanaplasmosis,
andbabesiosis:clinicalpracticeguidelinesbytheInfectious
DiseasesSocietyofAmerica.ClinInfectDis.2006;43:1089.
5.SteereAC,MalawistaSE,SnydmanDR,ShopeRE,
AndimanWA,RossMR,etal.Lymearthritis:anepidemicof
oligoarticulararthritisinchildrenandadultsinthree
Connecticutcommunities.ArthritisRheum.1977;20:7–17.
6.ChristenHJ,HanefeldF,EiffertH,ThomssenR.Epidemiology
andclinicalmanifestationsofLymeborreliosisinchildhood.A
prospectivemulticentrestudywithspecialregardto
neuroborreliosis.ActaPaediatrSuppl.1993;386:1.
7.BentasW,KarchH,HuppertzHI.Lymearthritisinchildrenand
adolescents:outcome12monthsafterinitiationofantibiotic
therapy.JRheumatol.2000;27:2025–30.
8.HendrickxG,DeBoeckH,GoossensA,DemanetC,
VandenplasY.PersistentsynovitisinchildrenwithLyme
arthritis:twounusualcases.Animmunogeneticapproach.Eur
JPediatr.2004;163:646–50.Epub2004Jul28.
9.EllisJA,MunroJE,PonsonbyAL.Possibleenvironmental
determinantsofjuvenileidiopathicarthritis.Rheumatology.