UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO MESTRADO EM LETRAS NEOLATINAS
A REPRESENTAÇÃO DO ETHOS DO ESPANHOL PENINSULAR EM FILMES DE ALMODÓVAR: IMAGENS DA MULHER ATRAVÉS DE PEDIDOS
LUZIA DE CASSIA ALMEIDA PASSOS DA SILVA
A REPRESENTAÇÃO DO ETHOS DO ESPANHOL PENINSULAR EM FILMES DE ALMODÓVAR: IMAGENS DA MULHER ATRAVÉS DE PEDIDOS
Por
LUZIA DE CASSIA ALMEIDA PASSOS DA SILVA Departamento de Letras Neolatinas
Dissertação de Mestrado apresentada ao
programa de pós-graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de janeiro.
Orientador: Professora doutora Leticia Rebollo Couto
Co-orientadora: Professora doutora Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold
Faculdade de Letras, UFRJ Rio de Janeiro
A REPRESENTAÇÃO DO ETHOS DO ESPANHOL PENINSULAR EM FILMES DE ALMODÓVAR: IMAGENS DA MULHER ATRAVÉS DE PEDIDOS.
Luzia de Cassia Almeida Passos da Silva
Orientadora: Leticia Rebollo Couto
Co-orientadora: Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold
Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos mínimos para a obtenção do Título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola)
Aprovada por:
______________________________________________________________________ Presidente, Profª. Doutora Leticia Rebollo Couto
_____________________________________________________________________ Profº. Doutor Paulo Antônio Pinheiro Correa – UFF
_____________________________________________________________________ Profª. Doutora Maria do Carmo Leite de Oliveira – PUC-RJ
_____________________________________________________________________ Profª. Doutora Maria Zulma Moriondo Kulikowski – USP
Suplente
_____________________________________________________________________ Profª. Doutora Célia Regina dos Santos Lopes – UFRJ
Silva, Luzia de Cassia Almeida Passos.
A representação do ethos do espanhol peninsular em filmes de almodóvar: imagens da mulher através de pedidos/ Luzia de Cassia Almeida Passsos da Silva – Rio de Janeiro: UFRJ/FL, 2011.
144f.: 31 cm.
Orientadora: Leticia Rebollo Couto.
Co-orientadora: Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold
Dissertação (mestrado) – UFRJ/ FL/ Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas (Língua Espanhola), 2011.
Referências Bibliográficas: f. 120-126.
AGRADECIMENTOS
A Deus, por ter me dado força e determinação para a conclusão deste trabalho;
A meu marido, Aime Júnior pela compreensão e pelo compaheirismo de sempre;
A minha família, que sempre esteve ao meu lado;
À professora doutora, Letícia Rebollo Couto pela orientação e pela confiança;
À professora doutora, Maria Mercedes Sebold pelo incentivo, pela força e pelas
sugestões que muito me ajudaram;
À professora doutora da PUC, Maria do Carmo Leite Oliveira pelas aulas brilhantes e
pelas dicas valiosas;
Aos meus amigos, que me apoiaram e não me deixaram desistir;
RESUMO
A REPRESENTAÇÃO DO ETHOS DO ESPANHOL PENINSULAR EM FILMES DE ALMODÓVAR: IMAGENS DA MULHER ATRAVÉS DE PEDIDOS.
Luzia de Cassia Almeida Passos da Silva Orientadora: Leticia Rebollo Couto
Co-orientadora: Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold
Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos mínimos para a obtenção do Título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola)
RESUMEN
A REPRESENTAÇÃO DO ETHOS DO ESPANHOL PENINSULAR EM FILMES DE ALMODÓVAR: IMAGENS DA MULHER ATRAVÉS DE PEDIDOS.
Luzia de Cassia Almeida Passos da Silva
Orientadora: Leticia Rebollo Couto
Co-orientadora: Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold
Resumen da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos mínimos para a obtenção do Título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola)
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
1. POLIDEZ, PEDIDOS E ETHOS: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.1 Pedidos ...13
1.1.1 Os Atos de Fala: a questão da indiretividade ... 14
1.1.2 Atos de fala diretivos e Polidez ... 22
1.1.3 Atenuação: construção da imagem polida ... 30
1.1.4 Intensificação: reforço da imagem de autonomia ... 34
1.2 Ethos do espanhol peninsular ... 38
1.2.1 O Ethos na sociedade espanhola peninsular ... 40
1.2.2 Ethos da mulher espanhola nos filmes de Almódovar ...43
2. SEQUÊNCIAS CONVERSACIONAIS E DIÁLOGOS DRAMÁTICOS NO CINEMA: METODOLOGIA 2.1 Considerações sobre o texto dramático e o discurso cinematográfico ... 55
2.2 Estratégias linguísticas de atenuação e intensificação ... 59
3. AS FORMULAÇÕES DE PEDIDOS 3.1 Imperativo ... 65
3.2 Presente do indicativo ... 81
3.3 Enunciados interrogativos ... 93
3.4 Frases nominais ... 102
3.5 Outras formas verbais 3.5.1 Condicional, presente do subjuntivo e futuro simples e composto ... 110
3.5.2 Pretérito perfeito e imperfeito ... 114
CONCLUSÃO ... 117 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
INTRODUÇÃO
Esta dissertação tem como objetivo analisar as formulações de pedidos verificando
como as escolhas por tipos de formulações ou por diferentes estratégias linguísticas de
atenuação ou intensificação desses atos de fala são influenciadas por variáveis
extralinguísticas como o gênero (masculino e feminino), as relações funcionais (pessoais e
transacionais) dos interlocutores ou tipos de pedidos (pedidos de informação, pedidos de ação,
pedido de objeto e pedido de mudança de comportamento).
Segundo Kerbrat-Orecchioni (1994) as práticas discursivas resultam da interação entre
indivíduos, que é construída dialogicamente e é marcada subjetivamente seguindo formas e
graus variáveis. Por isso, quando escolhemos uma estratégia para formular um ato de fala, por
exemplo, não o fazemos aleatoriamente, pois a partir de nossas escolhas linguísticas podemos
dizer quem somos, sendo assim, a imagem que o locutor faz de si no discurso revela certa
identidade a partir das marcas de subjetividade. No entanto, há hábitos locucionais
influenciados por normas sociais partilhadas por membros de uma sociedade que para a autora
podem delinear um perfil comunicativo – ou ethos –dessa sociedade.
A construção do perfil comunicativo de uma sociedade pode ser determinada a partir
de formulações e estratégias de atos de fala?
Kerbrat-Orecchioni (1994) estabelece que os componentes do ethos podem ser caracterizados na concepção das relações interpessoais como ethos de proximidade vs ethos
de distância, ethos de igualdade vs ethos de hierarquia e ethos de conflito vs ethos consensual.
A nossa hipótese é que a análise dos atos de pedidos e seus contextos de interação podem
dar-nos pistas do perfil comunicativo, isto é, do ethos feminino espanhol, que já foi descrito por
alguns estudiosos como Haverkate (2002), Hernández Flores (2002) e Bravo (2005) como
ethos de confiança, podendo haver uma tendência maior a formulações de pedidos, já que esse
sociedade que valoriza a formulação de pedidos pode estar relacionada à construção de uma
imagem de afiliação e a um ethos de confiança, o que pode corroborar a tolerância da sociedade espanhola peninsular pelo uso da diretividade nos pedidos. Faremos um repertório
de todas as formulações de pedidos nas sequências conversacionais das personagens
analisadas, verificando a frequência e a utilização de recursos estratégicos para atenuação ou
intensificação desses atos e a variação dessas formulações e estratégias em função das
relações interpessoais e tipos de pedidos.
Optou-se por fazer o estudo dos pedidos, por serem atos de fala que só trazem benefícios a quem “manda” executar a ação, portanto trata-se de um ato que poderia ser
considerado potencialmente invasivo do território do outro. Sendo assim, os falantes
precisam ter mais cuidado ao selecionar uma formulação pragmaticamente apropriada para
alcançar seu objetivo.
As relações interpessoais influenciam nas escolhas das formulações de pedidos e
estratégias de atenuação e intensificação desses atos de fala?
Este trabalho poderá nos dar pistas de como a sociedade espanhola peninsular formula
os atos de pedidos de acordo com as diferentes relações interpessoais. Trata-se de um estudo
baseado em dados obtidos através das transcrições de sequências conversacionais de três
personagens dos filmes de Pedro Almódovar: “Mujeres al borde de un ataque de nervios”
(1988), “Tacones lejanos” (1991) e “Volver” (2006). Repertoriaremos as formulações de
pedidos das três personagens principais (Pepa, Rebeca e Raimunda), destacando as estratégias
mais frequentes nas sequências conversacionais ficcionais dessas três personagens,
verificando se as diferentes relações interpessoais de gênero (masculino e feminino) e
funcionais (pessoais e transacionais), e os tipos de pedidos (pedidos de ação, pedidos de
Briz (2005) afirma que a atenuação é uma operação linguística de minimização do que
é dito e do ponto de vista e a intensificação reforça a verdade do que é expresso e para fazer
valer sua intenção de fala. A nossa hipótese, em relação às estratégias de atenuação e
intensificação, é que a atenuação ocorra para minimizar a força ilocutiva do pedido que tenha
um alto custo para o interlocutor, e a intensificação apareça para intensificar a força ilocutiva
do pedido, principalmente em relações de + poder para – poder, o que reforça a imagem de
autonomia do falante.
Esse trabalho tem como base duas perspectivas pragmáticas: pragmalinguística e
sociopragmática. A pragmalinguística se refere às estruturas linguísticas específicas que as
diferentes línguas utilizam na realização de um ato de fala determinado, nesse caso os
pedidos. Foi realizado um levantamento das formulações e das estratégias encontradas nas
diversas sequências conversacionais das personagens. A sociopragmática trata das regras
culturais que governam a eleição dessas formulações e estratégias de acordo com as relações
interpessoais. Dessa forma, pode-se afirmar que os falantes poderão adotar estratégias
linguísticas (atenuação e intensificação) coerentes com a relação interpessoal (mais próxima ou distante, mais “à vontade” ou respeitosa com o território alheio etc) a fim de conseguir
uma eficácia pragmática (Briz, 2005).
A escolha por representações conversacionais cinematográficas como contexto para
análise da pesquisa deve-se ao fato de que tal atividade de fala, embora ficcional, representa
uma prática social cotidiana de comunicação, dialógica, emocional, com finalidade
interpessoal e que reconhece uma espontaneidade, o que possibilita analisar o comportamento
lingüístico de falantes de uma determinada cultura e a construção da imagem de uma
sociedade, como afirmam alguns autores como Quaglio (2010), Richardson (2010) e Metz
Segundo Maingueneau (1996) no texto dramático acontecem várias encenações de
atos de fala, de contratos de comunicação também determinados por componentes
psicossociocomunicacionais, porém ficcionais, o que ele chama de encenações fingidas.
Os seres que se encarregam de materializar o discurso dramático assumem posições
simbólicas de sujeitos comunicantes que acionam sujeitos enunciadores para atingir sujeitos
interpretantes, que construirão o ethos do sujeito comunicante a partir da voz que foi criada
em seu discurso (Maingueneau, 1996).
A escolha pela transcrição das sequências conversacionais das personagens Pepa,
Rebeca e Raimunda nos respectivos filmes “Mujeres al borde de un ataque de nervios” (1988), “Tacones lejanos” (1991) e “Volver” (2006) como corpus para análise ocorreu porque
ainda que tais sequências conversacionais sejam consideradas ficccionais, há a recriação da
língua falada e a presença de uma representação da linguagem coloquial. Um filme ainda que
seja previamente escrito apresenta estruturas lingüísticas e discursivas próprias da interação
verbal cotidiana, sendo assim há fortes indícios de alocução como o uso de atos de fala que
Searle (1969) define como unidades básicas conversacionais.
A escolha por essas personagens específicas é porque elas assim como todas as
mulheres almodovarianas são mulheres emblemáticas, que representam a liberdade adquirida
pelos movimentos feministas, têm sua liberdade sexual, são independentes, mães solteiras, e
mesclam vários estereótipos que as tornam mulheres com personalidades complexas e que
representam um paradoxo, pois não são boas e não são más, sofrem, mas também são felizes.
Esta dissertação poderá contribuir para posteriores pesquisas sobre estudos da
linguagem e pragmática intercultural, e poderá contribuir também tanto para os profissionais
de língua espanhola formados ou em formação, porque ao ensinar, aprender ou traduzir uma
A seguir será apresentada a forma como está estruturada esta dissertação. O capítulo 1
se estrutura na fundamentação teórica da pesquisa, em que há um esboço dos conceitos
básicos sobre os atos de fala e a teoria da polidez, diálogo com alguns conceitos acerca dos
pedidos, apresentação do contexto conversacional preferido para análise e considerações
sobre ethos. O capítulo 2 é dedicado à exposição da metodologia de pesquisa, que consiste na
descrição do método de análise da pesquisa. O capítulo 3 é destinado à análise dos dados de
pesquisa. E para finalizar, a última sessão da conclusão está reservada para sintetizar
1. POLIDEZ, PEDIDOS E ETHOS: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.1 PEDIDOS
Considerando a classificação de Searle (1984), os pedidos pertencem à categoria de
atos de fala diretivos, nos quais se tenta fazer outrem fazer coisas. Os pedidos são atos de fala
em que o falante usa alguém para fazer algo que ele deseja (Yule, 1995: 54).1 Quando o
locutor realiza um pedido, ele espera que seu interlocutor o realize, tanto que se o ouvinte se
opõe a executar o que foi pedido poderá haver um “mal estar” na interação, portanto o sucesso
da ação dependerá de diversos fatores e não somente da simples produção de um enunciado
com uma intenção específica. Ao proferir um pedido, o falante poderá estar invadindo o
território do outro e suprimindo sua liberdade de ação, pois o outro se vê com a
responsabilidade de executar determinada ação, sendo assim o pedido é um potencial ato de
invasão de território. No entanto, segundo Blum-Kulka (1989) a classificação de Searle não é
aceita universalmente. Alguns autores criticaram os princípios desta classificação, enquanto
outros criticaram a afirmação mesma de que os atos de fala operam de acordo com princípios
pragmáticos universais, demonstrando em que medida os atos de fala variam entre diferentes
culturas e línguas.
Optamos por fazer o estudo desse ato de fala, para verificarmos quais estratégias para
sua formulação são utilizadas já que se trata de um ato de fala potencialmente invasivo ao
território do outro, e a partir disso obtermos pistas sobre o perfil comunicativo da sociedade
espanhola.
1.1.1 Os atos de fala: a questão da indiretividade
Os atos de fala podem ser definidos como o próprio nome sugere como a ação do
falar, isto é, o fazer pelo simples fato de dizer. Os pedidos são atos de fala cujas formulações e
emprego dependem das relações sociais que estarão de acordo com as normas socioculturais
de uma sociedade, o que permite analisar situações representativas do funcionamento
sociopragmático dessa determinada sociedade. Apesar de autores mais modernos denominarem “atos do discurso” ou “atos de linguagem”, definiremos nosso objeto de estudo
como “atos de fala” pertencente a corrente da filosofia da linguagem de Austin e Searle
(1984).
O filósofo da linguagem Austin lançou sua teoria sobre os atos de fala em que dá a um
ato um valor que determina seu significado. Embora essa teoria pareça sofrer influências dos jogos de linguagem de Wittgenstein, cuja tese central é: “descrever o sentido de um
enunciado, é descrever o ato que eles permitem realizar” (Kerbrat-Orecchioni, 2005: 19),
Levinson (2007) diz que Austin pareceu ter desconhecido esse trabalho, podendo tratar a sua
teoria como autônoma.
Na teoria austiniana, encontra-se o questionamento à visão de linguagem que colocava
as condições de verdade ou falsidade como centrais para a compreensão da linguagem
(Levinson, 2007: 289). Dessa maneira Austin desarticula a questão do verdadeiro e do falso
atribuída aos enunciados chamados pelo filósofo de constativos, que descrevem, constatam
um certo tipo de ação que executada ou não no momento da enunciação da frase será julgada
como falsa ou verdadeira (como no exemplo: Eu abro a porta).
O grande marco da teoria de Austin foi a descoberta dos atos performativos, que
executam uma ação pelo simples ato da enunciação da frase, ou seja, dizer é fazer
Exemplo: Eu prometo vir
O falante pode não cumprir com o que ele promete, mas a partir do momento em que o
enunciado é formulado há a realização efetiva de um ato de fala, nesse caso o ato de prometer.
O enunciado não pode ser considerado falso ou verdadeiro, já que ele promete efetivamente,
mas pode ser considerado sincero ou insincero (feliz ou infeliz, terminologias usadas por
Austin) se o falante tiver a intenção de não cumprir. Com base nisso, Austin produziu uma
tipologia das condições que as sentenças perfomativas devem cumprir para serem “felizes” ou “infelizes”, as quais ele chamou de “condições de felicidade”. As três principais categorias
das condições apropriadas para o êxito dos perfomativos são (apud Levinson, 2007: 291):
A. 1 Deve existir um procedimento convencional com um efeito convencional.
2 As circunstâncias e pessoas precisam ser apropriadas, conforme especificado no
procedimento.
B. 1 O procedimento precisa ser executado corretamente.
2 O procedimento precisa ser executado completamente.
C. 1 As pessoas precisam ter os pensamentos, sentimentos e intenções exigidos - como
especificado no procedimento.
2 Havendo condutas consequentes especificadas, elas devem ser requeridas pelas
partes.
Quando algumas dessas condições não são cumpridas, ocorrem, segundo o filósofo,
falhas (as ações pretendidas simplesmente deixam de dar certo) ou abusos (as ações são
A teoria de Austin não se manteve linear, o que começa com o estudo das enunciações
perfomativas, termina com uma teoria geral que diz respeito a todos os tipos de enunciações
(Levinson, 2007: 293). Austin se deu conta que assim como se pode dizer “Eu lhe ordeno que feche a porta” para realizar o ato de ordenar, pode-se também dizer “Feche a porta” para se ter
o mesmo ato, portanto, ele reconhece que todos os enunciados, inclusive os constativos, vêm
a ser considerados como dotados de uma força ilocutória (Kerbrat-Orecchioni, 2005). Desse
modo, a dicotomia entre perfomativos e constativos dá lugar a uma teoria geral dos atos de
fala, que mais tarde foi aprofundada por seu sucessor, Searle.
Austin caracteriza três tipos de atos:
a) Ato locutório: é o que se realiza pelo simples fato de dizer algo, isto é, produção de
uma expressão lingüística com significado;
b) Ato ilocutiva: é o que se realiza ao dizer algo (ordem, promessa, conselho etc);
c) Ato perlocutório: é o que causa efeito no destinatário por meio da enunciação.
A partir da elaboração de um ato ilocutório, espera-se um ato perlocutório, que muitas vezes pode contrariar a expectativa do locutor. O enunciado “Você não pode fazer isso” pode
se transformar em atos ilocutórios de conselho, protesto etc e produzir um efeito perlocutório
que nem sempre é o esperado (deter a ação do destinatário, irritá-lo etc) (Levinson, 2007).
Austin e Searle afirmam que todos os enunciados além de significar o que quer que
signifiquem, executam ações específicas por terem forças específicas (Levinson, 2007: 299).
Searle chama essa força de ilocutiva. Segundo ele, para que um enunciado constitua uma
força ilocutória de um ato específico é necessário seguir algumas condições de adequação dos
atos na comunicação:
i) Condições de conteúdo proposicional: referem-se às características significativas da
deve haver algum comando direto ou indireto que leve o destinatário a realizar o que lhe foi
solicitado.
ii) Condições preparatórias: são preparatórias todas aquelas condições que devem
existir para que haja sentido no ato ilocutivo. Nos pedidos, há de se considerar que o que está
sendo solicitado é possível de se realizar e/ou que o ouvinte tenha condições físicas ou
psicológicas de executar a ação. Um falante ao pedir a seu ouvinte que feche a porta, é
necessário que a porta esteja aberta e que o ouvinte esteja com suas mãos livres para levar a
cabo a ação.
iii) Condições de sinceridade: estas condições se centram no que o falante sente ou
deve sentir ao realizar o ato ilocutivo. Para realizar um pedido, o falante deve realmente
desejar que seu ouvinte realize algo.
iv) Condições essenciais: são aquelas que caracterizam tipologicamente o ato
realizado. Para que um ato seja considerado um pedido, deve levar o ouvinte a realizar a ação
proposta por seu emissor.
Searle (1984) propõe cinco tipos básicos de ação que alguém pode executar ao falar,
ou seja, atos ilocutórios:
• Assertivos: Dizer a outrem como são as coisas;
• Diretivos: Tentar mandar outrem fazer coisas;
• Promissivos: Comprometer-se a fazer coisas;
• Expressivos: Expressar sentimentos e atitudes;
• Declarações: Provocar mudanças no mundo através de enunciações.
Kerbrat-Orecchioni (2005) afirma que um mesmo ato de fala pode se realizar de
diferentes maneiras, mas também, uma mesma estrutura linguística pode expressar valores
que intervenham simultaneamente diferentes fatores na interpretação dos enunciados, fatores
linguísticos e paralinguísticos, mas também fatores contextuais. Um mesmo ato de fala, como
os pedidos, pode ser realizado de forma direta ou indireta.
Há diversas incertezas no que convém admitir ser uma formulação direta de um
determinado ato de fala (Kerbrat-Orecchioni, 2005: 52). Austin (1975) considera como atos
de fala diretos os performativos explícitos, que denominam o ato realizado ao mesmo tempo em que o realizam: “Ordeno que você saia”, esse enunciado deixa explícito que se trata de
uma ordem, e os casos das formas de frase (afirmativa, interrogativa, imperativa etc): “Parta”,
forma imperativa que marca a ordem. Mas, Kerbrat-Orecchioni (2005) questiona a
convencionalização da diretividade desses atos, pois considera o uso dos performativos
restrito, já que não há formulações específicas para todos os atos de fala e também considera
que as formas de frase podem ser polissêmicas e dependendo do contexto em que são
formuladas podem adquirir uma outra força ilocucionária. A autora ainda acrescenta outras
formas de enunciação direta à fórmula performativa e à forma de imperativa, no caso da
ordem, como nos exemplos abaixo dados por ela:
• Infinitivo prescritivo: “apagar a luz ao sair da sala”;
• Fórmulas elípticas: “Dois chopes na pressão”;
• Certas formas declarativas: “Quero que você feche a porta”, “Você deve ir embora”
etc.
A diretividade na enunciação embora possa demonstrar um alto grau de imposição e
de impolidez, está adequada em determinados contextos.
Nesse trabalho, será considerado como direto todo ato que apresente em sua forma a
força ilocucionária específica e como indireto todo ato que apresente uma força ilocucionária
Sendo assim, podemos considerar como pedidos mais diretos, os formulados com as
seguintes categorias pragmalinguísticas como: imperativos e presentes do indicativo ou
subjuntivo.
(01) Pepa – Candela: “Candela/ tráeme algo de beber.”
(02)Pepa – Carlos: “Y de paso arreglas el teléfono.”
(03)Pepa – Iván: “Es urgente que hablemos de ello antes de irte de viaje.”
Já em relação ao ato de fala indireto, o consideraremos como o ato de linguagem que
possui um significado ambíguo no contexto e que é diferente de seu significado literal (Brown
e Levinson, 1987: 137), mas que só pode ser compreendido como um ato específico se estiver
contextualizado dentro do processo interativo.
Como observou Searle (1984), há diferentes tipos de realizações de atos de fala
indiretos, sendo assim convém mencionar os seguintes:
a)Atos indiretos convencionais: no enunciado “Você pode me passar o sal?”, os
interactantes já têm internalizado que se trata de um pedido, tanto que se a pergunta for
interpretada como tal pode-se considerar que o destinatário é um provocador ou que
não domina as regras da língua.
b) Atos indiretos não convencionais: já no enunciado “Está com pouco sal”, o
destinatário pode entender o enunciado como uma asserção (“para mim, está bom
assim”), sem ser acusado de trair a língua (poderia eventualmente levantar suspeita de
agir de má fé ao interpretar ao pé da letra o enunciado que lhe é endereçado). Nesse
caso o valor de solicitação aqui é não convencional.
Sendo assim, no ato de fala indireto convencional do exemplo citado em (a) há o
apagamento do conteúdo literal (pergunta) em proveito do conteúdo derivado (pedido) que se
conteúdo derivado (pedido) não substitui totalmente o valor literal (constatação), mas sim se
acrescenta a ele sob a forma de uma derivação alusiva (Kerbrat-Orecchion, 2005: 56).
Para Kerbrat-Orecchioni (2005) essa noção de indiretividade pode variar de uma
cultura para outra. E a interpretação do ouvinte sobre o que o falante deseja comunicar em
muitas das vezes só poderá ser validada quando conjugada ao contexto que é reinterpretado na
conversa, sendo construído social e interacionalmente.
Portanto, para entender que o enunciado acima mencionado: “Você pode me passar o sal?” não é uma pergunta, mas sim um pedido, o destinatário vai levar em consideração toda a
situação comunicativa para perceber que o valor de pergunta não é pertinente e dessa maneira
entender a verdadeira intenção de seu interlocutor.
Essa canalização de interpretação se realiza por implicaturas conversacionais2
conceitualizadas por Grice (1989) baseadas em expectativas convencionalizadas que os
falantes usam para sinalizar suas intenções comunicativas e os ouvintes usam para inferir as intenções conversacionais de seu interlocutor. Tais traços são denominados “pistas de
contextualização” que podem ser quaisquer traços de formas linguísticas, paralinguísticas ou
prosódicas que contribuem para assinalar as pressuposições contextuais (Gumperz apud
Telles Ribeiro, 1998).
Quais são as estratégias de indiretividade e seus fatores condicionantes nas
formulações de pedidos feitos por mulheres espanholas contemporâneas em filmes de
Almodóvar? Em nosso corpus consideraremos pedidos com tom indireto as categorias pragmalinguísticas: frases nominais (exemplo 04), condicional (exemplo 05), enunciados
interrogativos e marcadores conversacionais (exemplo 06), pois essas categorias podem
modificar o pedido internamente ou externamente deixando-o menos coercitivo ou com
menos força ilocutiva, como descrito por Marquez Reiter (2002), a força ilocutiva do ato está
2 Interpretações dos significados das expressões e não dependem do significado convencional das palavras
implícita na enunciação do ato e o ouvinte a interpreta como pedido devido ao que já está
convencionalizado em sua língua.
(04) Pepa – taxista: “Castellana 31.”
(05) Raimunda – Sole: “Es que Paco viene esta noche a casa, quiere que hablemos, me gustaría estar sola”
(06) Rebeca – Juiz: “Oiga ¿me da un cigarillo?”
Observam-se acima exemplos de pedidos indiretos. No exemplo 04 a formulação de
um pedido ritualizado em prestações de serviço em que há a omissão da forma verbal e há a
referência somente ao objeto que se deseja, no exemplo 05 a formulação do pedido está
centrada no desejo do falante e espera-se que ouvinte entenda esse desejo e o realize, no
exemplo 06 o pedido de objeto está na pergunta que dá ao ouvinte a liberdade para realizar ou
não. Para Searle (1984), a maior motivação para a existência das formas indiretas
convencionais para formular pedidos é a polidez.
1.1.2 Atos de fala diretivos e polidez
Uma das perguntas de nossa pesquisa é saber se as diferentes relações interpessoais
influenciam nas formulações dos pedidos. Para entender melhor esse assunto, teremos que
nos ater à teoria da polidez, que é um ramo da pragmática que busca descrever o
funcionamento dos atos de fala que estão relacionados a papéis sociais. As teorias fundadoras
da polidez surgem do princípio de cooperação de Grice (1989), que é um conjunto de
suposições mais amplas que guiam a conduta conversacional (Levinson, 2007), a partir de
então surgiram diversas teorias acerca da polidez, mas para Bravo (2004) sem dúvida a teoria
da polidez que maior influência exerceu nos estudos da área foi a apresentada por Brown e
duas faces (imagem social), uma imagem positiva e uma imagem negativa3. Os pedidos são
atos que ameaçam tanto a imagem negativa do receptor quanto a imagem positiva do emissor
nas sequências conversacionais, objeto de estudo deste trabalho. Para evitar ou minimizar tais
ameaças, os autores sugerem algumas estratégias, como a estratégia de polidez, que aparece
como um meio de conciliar o desejo mútuo de preservação das faces (Kerbrat-Orecchioni,
2005: 87). Brown e Levinson (1987) afirmam que essas estratégias podem ser utilizadas a
partir de representações linguísticas do tipo: indiretividade convencional, suavização da força
ilocucionária, ênfase no poder relativo do ouvinte etc.
No entanto, o que se deve considerar quando se fala em estratégias de polidez nos
pedidos é a avaliação do contexto no qual esses atos estão sendo empregados, pois um tipo de
estratégia pode não surtir efeito se for elaborada em contextos diferentes.
Nesse estudo, a polidez é vista como forma de “salvar a imagem”, imagem esta que é
baseada no conceito de face de Goffman (1967). Este conceitua face como uma imagem de si
próprio delineada em termos de atributos sociais aprovados (p. 306). Segundo o autor,
proteger a face é uma condição da troca comunicativa, em que o falante tem que salvar sua
própria imagem e proteger a de seu interlocutor, para evitar consequências desagradáveis na
interação, obtendo uma harmonia interpessoal.
Brown e Levinson tomam esta idéia de face, mas fazem prevalecer a figura do
indivíduo frente a do grupo social e o papel social do ouvinte frente a do falante (Bravo,
2004). Os autores consideram que a interação é uma troca entre agentes humanos e racionais,
isto é, cada indivíduo possui um modo de racionalização que lhe faz escolher os meios
adequados para atingir o que deseja.
3
Segundo Brown e Levinson (1987), todo indivíduo possui duas faces: Face Negativa e
Face Positiva. Entende-se por face negativa o desejo de ter liberdade de ação e face positiva o desejo de ter a imagem apreciada. Durante uma interação os falantes têm o desejo de
preservar ou construir uma face, e essa face é construída através de ações em relação ao outro,
no entanto esse desejo de face é frequentemente contrariado, já que segundo os autores a maior parte dos atos de fala elaborados pelos falantes são potencialmente “ameaçadores de
face” conhecidos como FTAs (Face Threatening Acts, ou atos ameaçadores da face), sendo
assim, serão necessárias estratégias para minimizar o grau de ameaça desses atos, estratégias
estas que Brown e Levinson chamam de polidez. As estratégias de polidez surgem como
forma de resguardar a imagem pública e são caracterizadas como: polidez negativa, que
consiste em evitar a produção de um FTA ou em suavizar sua realização, buscando não
limitar a liberdade de ação do interlocutor e a polidez positiva, que consiste em atender os
desejos de face positiva do outro, buscando proteger a imagem do interlocutor.
Do ponto de vista dos autores, o nível de polidez que se emprega depende dos seguintes
fatores:
a) Distância social: grau de familiaridade entre os participantes. Eixo horizontal.
b) Poder: relação de poder entre os participantes. Eixo vertical.
c) Grau de imposição: teor de ameaça à imagem pública.
Apesar de todas as suas vantagens e contribuições aos estudos da linguagem, esta teoria
foi muito questionada, principalmente no que se diz respeito à universalidade. Blum-kulka
(1989) diz que os desejos de face não são universais, mas sim determinados culturalmente.
Arndt e Janney (1985) afirmam que a polidez não está ligada às variáveis sociais, mas às
emoções humanas. Já Kerbrat-Orecchioni (2005) diz que a polidez serve para fortalecer as
relações sociais e não somente para suavizar a ameaça à face como defendiam Brown e
conhecidos como FFAs (Face Flattering Acts, ou atos bajuladores da face) frente aos atos
ameaçadores de face, os FTAs. Sendo assim, todo ato de fala pode ser descrito como um
FTA ou um FFA. Segundo Bravo (2004), esta distinção parece ser útil para a descrição das
particularidades da polidez do espanhol peninsular, já que atos conhecidos como ameaçadores podem aparecer como “valorizadores da imagem” nessa cultura. Para a autora, é de extrema
relevância o fator sociocultural para o estudo da cortesia:
“Em um corpus de fala natural, o tema, os papéis sociais, a experiência anterior e o modo no qual os participantes mesmos definem a situação comunicativa, influenciam a interpretação dos „efeitos de cortesia‟. No entanto, esta consideração não somente não exclui a influência de fatores socioculturais, mas também que são este tipo de considerações as que fazem compreensível a interpretação de se determinados comportamentos, são ou não, percebidos como „corteses‟ „justamente nessa‟ situação comunicativa”. (Bravo, 2004: 27)
Nesta dissertação, verificaremos se as diferentes situações extralinguísticas em que os
interlocutores estejam inseridos, como as diferenças de gêneros (masculinos e femininos) e as
diferentes relações funcionais (pessoais e transacionais) influenciam nas formulações de
pedidos considerados mais polidos ou menos polidos.
A partir de tais afirmações, não há como descartar a contextualização nas sequências
conversacionais. E, por isso, vamos traçar algumas considerações sobre este tema.
A noção de situação comunicativa ou contexto é vista nas teorias de Searle (1984) e de
Grice (1989) como um “conhecimento de mundo idealizado”, limitando-se ao conceito de
intencionalidade (coloca a intenção do falante como o critério definitivo do significado) e ao
fato de que o ouvinte é um indivíduo também idealizado, que existe como um ser passivo e
não como um participante com a possibilidade de guiar a interação (Martins, 2002). Já nos
estudos interacionistas, a visão de contexto é mais ampla, considerando-o não só como “conhecimento de mundo” mas também como “situação”, ou seja, os fatores sócio-culturais
e ativo, sendo assim, o contexto é uma forma de práxis interacionalmente constituída
(Martins, 2002: 5).
De acordo com a teoria sócio-interacionista, o objeto de estudo deixa de ser as frases
descontextualizadas para dar lugar ao discurso atualizado em situações concretas de comunicação, por isso o conceito de “enquadre”4
(Bateson, Goffman apud Martins, 2002) é
central à discussão de contexto. Goffman (1967) afirma que o significado das ações sociais é
definido em função dos enquadres, que governam e organizam os eventos sociais. Portanto,
numa interação os participantes formulam seus atos, avaliam as intenções dos falantes e
elaboram suas respostas de acordo com o enquadre. Sendo assim, o papel social que um
interlocutor desempenha no momento da interação pode determinar a maneira como ele vai
compor seu ato de fala e influenciar a reação do ouvinte, em uma determinada cultura.
Kerbrat-Orecchioni (2006) descreve contexto levando em consideração os seguintes
elementos:
• O quadro espacial: aspectos físicos do lugar onde se desenvolve a interação (loja,
restaurante, sala de aula etc) e função social e institucional (tribunal de justiça não
mais como edifício, mas como lugar de exercício da função judiciária); • O quadro temporal: o momento da interação;
• objetivo da interação;
• os participantes: número, características individuais (idade, sexo profissão etc),
relação mútua (grau de conhecimento); • diferentes tipos de receptores:
a) “reconhecidos”: fazem oficialmente parte do grupo conversacional.
4Tradução do termo: “
b) “espectadores”: são somente as testemunhas da troca, da qual estão, em
princípio excluídos;
• Os papéis interacionais: papel representado no momento da interação,
médico/paciente, professor/aluno etc. O conjunto de papéis interacionais define o
contrato de comunicação ao qual estão submetidos os participantes num tipo
determinado de interação, numa determinada cultura.
Sendo assim, pode-se dizer que é a partir do contexto que um falante de uma língua
atribui a uma situação interacional a qualidade de “polida”, “não polida”, ou a uma pessoa a característica de “cordial”, “mal-educada” etc. Para Bravo (2004), uma grande parte da
comunicação interpessoal aparece estreitamente relacionada ao conhecimento dos falantes do
conjunto de conteúdos sócio-culturais que a integram. Com isso ela questiona a dualidade de
imagem social estabelecida por Brown e Levinson (1987), afirmando principalmente que a
imagem negativa não parece coincidir em todas as sociedades, justamente porque não está
configurada do mesmo modo e exemplifica com a descrição da sociedade espanhola
peninsular que prioriza a autoafirmação como forma de manter a individualidade e que é
respeitada entre os demais. Em conseqüência, Bravo (2005) estabelece dois novos conceitos
para caracterizar a imagem social: a imagem de autonomia, que é aquela a qual um integrante de um grupo adquire um “contorno próprio”, ou seja, o indivíduo possui características
próprias que são necessariamente iguais a do grupo em que está, e imagem de afiliação, que
se plasma em comportamentos que tendem a ressaltar os aspectos que fazem uma pessoa
identificar-se com o grupo, ou seja, o indivíduo possui características que o inserem no grupo.
Se o desejo de autonomia deve ser concebido como a necessidade de liberdade de ação,
denominado por Brown e Levinson (1987), depende dos conteúdos socioculturais fixados em
a) Premissas ligadas à autonomia: ver-se ou ser visto
Como um indivíduo que se autoestima, que reconhece o próprio valor,
mostrando-se capaz de exibir ou ratificar suas boas qualidades e originalidade. Esta
autoestima se relaciona com a necessidade de autoafirmação do indivíduo e faz
parte do ser social. A autoestima é merecedora do interesse, admiração e apreço,
dentro do grupo.
Como um membro competente da sociedade, não ser crítico, não ser indiferente,
não improvisar.
Como um indivíduo que não aceita facilmente que se questione seu valor.
b) Premissas ligadas à afiliação: ver-se ou ser visto
Como um indivíduo capaz de demonstrar afeto, tolerância, sinceridade através de
comportamentos próprios da intimidade familiar e da amizade.
Como um indivíduo que busca a confiança do outro.
Como um indivíduo que se importa com o apreço interpessoal, o qual conduz ao
consenso e à manutenção da coesão do grupo.
Levando em consideração que todo ato de fala pode ser descrito como FTA ou FFA,
Kerbrat-Orecchioni (2004) reconhece e caracteriza dois tipos de polidez, uma mitigadora,
motivada por um possível risco de ameaça ao interlocutor e que se dirige a evitá-las ou
repará-las; e uma valorizante, na que não existe possível risco de ameaça e seu uso é para
produzir atos polidos, portanto o uso da polidez está diretamente ligado à imagem do
interlocutor (Albelda Marco, 2004), no quadro abaixo há a descrição desses tipos de polidez
Risco de ameaça à de autonomia polidez
imagem do ouvinte de afiliação mitigadora POLIDEZ
Não ameaças à de autonomia polidez
Imagem do ouvinte de afiliação valorizante
Briz (2005) afirma que a atenuação tem uma função pragmática e age como uma
atividade estratégica, é uma operação lingüística de suavização do que é dito, da força
ilocutiva do ato. Ele afirma que cada cultura subjetiviza o uso de certos mecanismos
lingüísticos para atenuar a força ilocutiva de um ato. Portanto, pode-se dizer que algumas
formas de polidez podem estar internalizadas em cada língua ou cultura. Sendo assim, Briz
propõe dois tipos de polidez verbal na conversação: polidez codificada (convencionalizada),
que está regulada antes da interação, submetida a convenções socioculturais, e polidez
interpretada, que é avaliada no decorrer da interação de acordo com as reações dos
participantes. O autor propõe esses dois conceitos para demonstrar que não se pode tratar da
polidez como uma manifestação lingüística com fórmulas fixas. Há estratégias de polidez que
podem estar convencionalizadas ou não, com isso, um pedido com verbo em imperativo (“tráeme un vaso de agua”) pode ser mais ou menos polido, mais ou menos impolido, mais ou
menos atenuado, depende da interpretação da situação, da mesma forma que uma forma
linguística possa associar-se convencionalmente a uma estratégia polida, mas que numa
determinada interação seja interpretada como impolida. Portanto, a atenuação da força
ilocutiva dos atos de fala e a função social destes, só podem ser medidas dialogicamente no
A denominação do comportamento linguístico polido ou impolido nas interações
depende da interpretação, do contexto comunicativo, pois nem sempre o que está codificado
na língua como impolido poderá ser interpretado dessa forma.
A seguir descreveremos a atenuação e veremos que situações e que objetos de pedidos
podem favorecer o uso de recursos atenuadores.
1.1.3 Atenuação: construção da imagem polida
Segundo Briz (2005), a conversação é uma negociação, dar argumentos para chegar a uma conclusão, para conseguir um acordo ou a uma “eficácia pragmática”. Para atingir essa
meta, o falante poderá empregar em seu discurso formas lingüísticas entendidas como
estratégias adequadas, efetivas e eficazes. As categorias pragmalinguísticas são formas
associadas a uma atividade estratégica e estão ligadas ao valor intencional, à força ilocutiva e
que podem algumas vezes regular as relações interpessoais e sociais dos participantes de uma
interação. A atenuação, como categoria pragmalinguistica, é uma operação lingüística
estratégica de minimização do que é dito e do ponto de vista, sendo assim, está vinculada à
atividade argumentativa e de negociação do acordo, que é o fim de toda conversação (Briz,
2005: 56). Assim como existem algumas categorias pragmalinguísticas específicas que
podem ser empregadas como recurso de atenuação, há também atos de fala preparatórios, que surgem como “adornos” ou “envolturas sociais” (Van Dijk, 1980), que também podem sugerir
uma atenuação ou intensificação da força ilocutiva do ato global.
Nessa pesquisa, foram consideradas como categorias pragmalinguísticas estratégicas
para atenuação as seguintes formas:
acerca da denominação, mas nesse trabalho utilizaremos o termo
marcador conversacional por se tratar de uma análise no âmbito
conversacional) é um rótulo amplo que recobre construções que atuam
tanto no plano textual, estabelecendo elos coesivos entre partes do
texto, como no plano interpessoal, mantendo a interação falante/ouvinte
e auxiliando no planejamento da fala (Marcuschi, 1989): “Anda/ suelta”
“Bueno anda Letal ya está”
2- Formas de tratamento nominal: constituem o conjunto de formas de
formas que os falantes possuem de uma variedade lingüística para se
dirigir ao destinatário e fazer referência a uma 3ª pessoa e a si mesmo
na mensagem Rigatuso (2011). Segundo a autora as formas nominais
segundo seriam as seguintes:
Termos de tratamento:
a) termos de parentesco: formas nominais utilizadas pelo emissor ao referir-se
as relações familiares (padre, madre, hijo, etc);
b) termos gerais: formas nominais empregadas para pessoas não familiares
(señor, señora, joven, caballero, etc.);
c) termos de ocupações: formas nominais relacionadas as profissões (doctor,
profesor, camarero, etc);
d) termos de amizade, cordialidade e afeto: formas nominais empregadas a
pessoas amigas e com expressão de afeto (amigo, cariño, querido, tesoro, etc.);
e) termos honoríficos: forma nominal para dirigir-se ao interlocutor de acordo
Nomes pessoais:
a) nome de batismo ou hipocorísticos: nome de batismo - se refere aos nomes
próprios das pessoas (Esperanza ,Catalina, Belén, etc.), aos diminutivos
(Carmencita, Pablito, etc.) ou alterações dos nomes (formas abreviadas), sejam
próprios ou comuns, que se usam de forma carinhosa ou familiar (Pepe, Gabi,
etc.).
3- Justificativas: asserção constatativa como causa do pedido.
4- Minimizadores: elementos, como o sufixo diminutivo, que se
apresentam para reduzir a ameaça que o ato constitui
(Kerbrat-Orecchioni, 2006:88).
5- Apreciação positiva.
Por se tratar de uma estratégia que tem como intenção principal: suavizar, atenuar a
força ilocutiva do ato, reparar, esconder a verdadeira intenção etc, pode-se dizer que a
atenuação tem uma função social, a de preservação da imagem, sendo assim, a atenuação
pode aparecer muitas das vezes como uma forma de estratégia de polidez, mas nem sempre
ela exerce essa função e pode funcionar como uma estratégia de negociação para o equilíbrio
da interação.
(07) Pepa – Candela: “Espera/ hija que no será tan urgente”
No exemplo acima, Pepa se dirige a Candela utilizando um recurso de atenuação para conseguir “o acordo” com seu pedido, nesse caso há uma atividade de imagen, mas não uma
imagem de polidez.
Briz (2005) diz que os atenuadores estrategicamente polidos são evidentes em
(08)Pepa – Carlos: “¿te importa quedarte hasta que yo vuelva? Somos demasiadas mujeres para un
ático tan grande”
Nesse exemplo, Pepa tenta conseguir “o acordo” através de uso de atenuadores
(interrogação e justificativa) que se codificam como fórmulas de polidez, nesse caso o falante
não só quis buscar o equilibrio de ambas imagens, mas também intensificar sua imagen de
afiliação, já que não apresenta uma relação muito próxima com seu interlocutor. Para Briz
(2005) a eficácia linguística depende da eficacia social, e é aquí que surge a atividade
atenuadora estrategicamente polida.
Há termos ou expressões que podem ter um grau menor ou maior de atenuação em
cada língua, sendo assim, elementos como: marcadores conversacionais, justificativas, formas
de tratamento nominal etc podem ter uma escala maior de diminuição estratégica da força
ilocutiva. Tais escalas podem vir ordenadas a partir do conhecimento de mundo, dos
conhecimentos compartilhados coletivamente, por isso o excessivo uso de atenuadores na
interação coloquial espanhola entre amigos pode parecer estranho, já que a negociação é
muito mais direta (Briz, 2005: 72). Na sociedade espanhola, pode haver enunciados diretos
com tão pouca força ilocutiva, que seria incompreesível o uso de atenuadores. Briz aponta
que os fatores mais relevantes para a presença de maior atenuação na interação coloquial
espanhola são a presença de temas polêmicos e delicados que produzem conflitos individuais
e sociais, quando há a invasão da intimidade de alguém, quando há um pedido delicado ou
difícil para realizar, entre outros.
Assim como a atenuação, a intensificação é vista como uma estratégia linguística, mas
de reforço do que é dito. A seguir descreveremos a intensificação e veremos que situações e
1.1.4 Intensificação: reforço da imagen de autonomia
A intensificação, assim como a atenuação, é uma categoria discursiva manifestada
através de elementos linguísticos, não é uma função social em si mesma, mas sim categoria
pragmalinguística, que pode ser empregada para conseguir um fim social (Albelda Marco,
2005). Entende-se a intensificação como categoría pragmática, relacionada com a atividade retórica do falante, quem a emprega com um propósito determinado “reforçar a verdade do
que é expresso e para fazer valer sua intenção de fala” (Briz, 1998).
Segundo Albelda Marco (2005), uma das principais funções da polidez é manter e
estreitar relações sociais entre os interlocutores e ainda segundo a autora, na cultura espanhola
peninsular a frequência de meios lingüísticos que valorizam o tu é muito significativa. Sendo
assim, pode-se dizer que a intensificação da imagen do tu seria uma forma de reforçar as relações sociais nessa cultura. Os atos corteses podem realizar-se mediantes estratégias
discursivas de atenuação e intensificação.
Para a autora em questão, a intensificação opera em distintos níveis da linguagem em
função da finalidade a que se oriente: Intensificação no nível da força ilocutiva, no nível
argumentativo e no nível das relações sociais (2005: 96):
A intensificação no nível ilocutivo: Aumenta a força ilocutiva do enunciado, o
que pode valorizar o que é dito de tal forma que reforça a implicação do falante
na comunicação.
A intensificação no nível argumentativo: Tipo de reforço do que é dito mediante
a argumentos, de modo que se intensificam ideias ou opiniões próprias ou do
outro interlocutor, como por exemplo, insistindo em algo, oferecendo diferentes
perspectivas de uma mesma ideia ou opinião etc.
A intensificação no nível das relações sociais: As estratégias de intensificação
Pode-se intensificar ou fortalecer a relação quando há um agradecimento por
algo, quando há elogios a alguém etc.
Na sociedade espanhola peninsular, como já foi afirmado por Bravo (2004), há uma
preferência pela imagem de autonomia, o que sugere que a presença da intensificação dos
enunciados no nível ilocutivo seja vista como algo esperado e valorizado e não como uma
ameaça. Para Bravo (2005), um dos conteúdos da autonomia é a autoafirmação, que se refere
ao desejo da pessoa por se distinguir do grupo e se ver frente a ele como alguém original e
consciente de suas qualidades sociais positivas, que lhe permitirão se destacar do grupo e
expresar suas opiniões persuasivamente e com força. De outro lado está a imagem de
afiliação que não pode ser vista como oposta à imagem de autonomia, pois aquela demonstra
a confiança, a proximidade, sendo assim, o reforço à imagem de autonomia também pode ser
um reforço à imagem de afiliação, e à intensificação dos enunciados no nível ilocutivo pode
representar a autoafirmação do falante a fim de fortalecer sua imagen de autonomia e também,
em alguns casos, fortalecer sua imagem de afiliação.
Nessa pesquisa, foram consideradas como categorias pragmalinguísticas estratégicas
para intensificação seguintes formas:
1- Marcadores conversacionais
2- Formas de tratamento nominal:
3- Justificativas
Esses três primeiros coincidem como categorias de atenuação parcialmente ou totalmante.
4- Modalizadores adverbiais.
a) Insulto: forma que opera uma predicação axiologicamente negativa
colocada de forma explícita sobre o alocutor por uma designação,
enunciada com a intenção de criar tensão sobre a face do alocutor,
recebida como tal por ele, e, realizadas dentro de condições de sucesso
apropriadas (Giaufret, 2011: 54)
b) Predicação negativa
c) Captação da benevolência
d) Ameaça: Kerbrat-Orecchioni (2006: 90) denomina como “agravantes”
cuja função é reforçar o ato de fala, em vez de abrandá-lo.
Um dos objetivos de nosso trabalho é repertoriar as estratégias de intensificação no
nível ilocutivo dos pedidos e a partir daí repertoriar o tipo de imagem que se deseja construir e
assim se ter pistas do funcionamento conversacional e do comportamento social da sociedade
espanhola peninsular, representrados nesses três filmes de Almodóvar, podendo assim nos dar
1.2 ETHOS DO ESPANHOL PENINSULAR
Segundo Kerbrat-Orecchioni (1994), as práticas discursivas resultam da
interação entre indivíduos, que é construída dialogicamente e é marcada subjetivamente
seguindo formas e graus variáveis. Por isso, quando escolhemos uma estratégia para formular
um ato de fala, por exemplo, não o fazemos aleatoriamente, pois a partir de nossas escolhas
linguísticas podemos dizer quem somos, sendo assim, a imagem que o locutor faz de si no
discurso revela certa identidade a partir das marcas de subjetividade. No entanto, há hábitos
locucionais ou formulações linguísticas influenciadas por normas sociais partilhadas por
membros de uma sociedade que para a autora podem delinear um perfil comunicativo – ou
ethos –dessa sociedade. Sendo assim, pode ser considerado um ethos “coletivo” em que as pessoas o portam como uma referência involuntária, pois a imagem não seria objeto de
escolhas subjetivas, mas sociais.
Brown e Levinson (1987) definem ethos como o estilo interacional característico de uma sociedade, e em algumas culturas pode ser amigável, afetuoso, em outras pode ser
formal, deferencial e em outras pode ser caracterizado como individualista, ostensivo e ainda
distante e até hostil. Kerbrat-Orecchioni (1994) afirma que o ethos é uma etiqueta para indicar
a qualidade da interação que categoriza um grupo, ou categorias sociais de pessoas, em
particular na sociedade. A autora afirma que para identificar o ethos de um grupo ou sociedade seria preciso tentar agrupar fatores relevantes de diferentes níveis a fim de
descobrir o seu sistema. Brown e Levinson (1987) assinalam ser necessário correlacionar os
níveis de distância, e poder, o tipo de atenção à face e o tipo de estratégias de polidez, na
elaboração dos atos de fala. Segundo eles, em sociedades em que há um alto nível de poder,
distância e imposição, a polidez positiva é quase inexistente. Dessa maneira, pode-se
Na sociedade espanhola peninsular, segundo Placencia e García (2007), há uma
tendência a usar menos mitigadores e uma tolerância para diretividade, o que a faria ser
considerada impolida, se fosse levada em consideração a teoria da universalidade de polidez
assumida por Brown e Levinson (1987). Porém, muitos estudiosos do campo da pragmática
intercultural e da sociopragmática contradizem essa teoria e têm classificado a sociedade
espanhola peninsular como uma cultura de polidez positiva. Haverkate, Hernández Flores e
Bravo sugerem que isto é devido à composição sociocultural específica da face de autonomia
(representada pela autoafirmação) e a face de afiliação (representada pela confiança)
(Placencia e García, 2007).
São as estratégias nas elaborações dos atos de fala nas interações de diferentes
sociedades que podem caracterizar seu ethos. Há diferentes e específicas maneiras de produzir atos de fala em cada sociedade, levando em consideração mais ênfase nas relações de
poder ou distância social.
Kerbrat-Orecchioni (1994), de acordo com que Brown e Levinson (1987) estabelecem,
afirma que os componentes do ethos estão:
1- na concepção das relações interpessoais:
– Ethos de proximidade versus distância:
Marcadores : comportamentos proxêmicos, frequência do contato ocular e corporal,
formas de tratamento, facilidade que se permite aceder a seu teritório privado
– Ethos igualitário versus hierárquico:
Marcadores: formas de tratamento (nominais, verbais e pronominais), forma
honoríficas, distribuição dos turnos de fala, realização dos atos do discurso, formas
de polidez ou cortesia, bem como outros «taxemas».
– Ethos de enfrentamento/conflito versus consensual:
Marcadores : realização dos desacordos e negações
Os diferentes marcadores, porém, nem sempre assinalam a mesma direção. Uma
sociedade pode apresentar o mesmo ethos que uma outra, mas podem apresentar
marcadores com dimensões diferentes.
2- na concepção da polidez:
– Noção de face: imagem social se refere à auto imagem que a pessoa quer
apresentar ante os outros na interação (caráter público e interpessoal)
– Polidez negativa (afiliação) e polidez positiva (autonomia).
1.2.1 Ethos da sociedade espanhola peninsular
Nos estudos sociopragmáticos pode-se observar que os falantes do espanhol peninsular
têm uma preferência pelo uso do imperativo nas elaborações de seus atos diretivos, o que
reduz a liberdade de ação de seu interlocutor, mas que no entanto representa uma sociedade
onde predomina a solidariedade e a confiança, sendo assim a teoria universal de Brown e
Levinson sobre os FTAs entra em contradição nesse tipo de sociedade, pois essa escolha de
de impolidez. Assim, um pedido direto é mais previsível em um contexto de proximidade
social, na interação interpessoal, em um contexto como o espanhol peninsular em que tal ato
de fala não seja visto como ameaçador (Briz, 2004, 73).
Por isso, as categorias de autonomia e afiliação desenvolvidas por Bravo (2004)
apresentaram grande relevância nesse tipo de estudo, pois essas categorias não incorporam
significados de como deve ser especificamente a imagem social, mas sim, como um indivíduo
deseja ver-se e ser visto diferente do grupo (autonomia) ou ver-se e ser visto parte do grupo
(afiliação), o que o converte em algo dependente de um contexto sociocultural.
Portanto, a imagem da sociedade espanhola é caracterizada por Bravo ( 2004) como:
Imagem de autonomia: necessidade de ter um contorno próprio frente ao grupo (originalidade), auto estima, auto afirmação, necessidade de sentir-se
orgulhoso de suas próprias qualidades e competências.
Imagem de afiliação: necessidade de identificar-se com o grupo, confiança,
consideração, afeto.
Imagem de estima: característica da mentalidade hispânica, representação
do indivíduo como pessoa digna de estima pela sua posição hierárquica na
sociedade, noção de orgulho, el honor, auto afirmação e confiança.
Uma característica fundamental na imagem de afiliação é o valor da confiança,
Hernández Flores (2002) descreve o termo a partir das seguintes situações:
Falar com confiança: estilo comunicativo que supõe falar abertamente, sem rodeios, com franqueza.
Fazer algo porque se tem confiança: atuar livremente, sem medo de ofender o outro e sabendo que essa atitude será recebida com naturalidade.
Ser alguém de confiança: ser muito próximo do outro e conhecê-lo bem.
Segundo a autora, a confiança é uma característica da imagem afiliativa espanhola, e
que não se pode incluir na categoria de imagem positiva de Brown e Levinson (1987), pois a
afiliação supõe o desejo de buscar ou reafirmar a proximidade social entre as pessoas, e não o
desejo de ser aprovado socialmente, e ela ainda diz que o não ser polido, seria caracterizado
pelo abuso de confiança, que haveria em relações em que não há esse contrato social
(desconhecimento pessoal ou falta de proximidade entre os interlocutores) ou por pessoas que
usam a existência de uma relação de confiança para falar ou atuar com um grau tão acentuado
de franqueza que possa ofender os demais.
Portanto, segundo Albelda Marco (2004), na cultura espanhola peninsular o conflito
pode ser uma manifestação de confiança e de reforço dos laços sociais, inclusive pode reduzir
a possível distância existente ou igualar mais as relações hierárquicas, e não representa uma
ameaça à face e consequentemente um ato impolido como defendem Brown e Levinson, e ao
contrário do que estes afirmavam, em casos de estreita relação interpessoal, se um falante se
demostra ser muito polido com seu interlocutor, este último pode sentir-se ofendido ou
advertir uma falta de confiança.
Sendo assim, esse trabalho tem por objetivo observar se o ethos de confiança
(construção da imagem de afiliação) como tendência na sociedade espanhola favorece a
formulação de pedidos e se essas formulações apresentam estratégias mais/menos atenuadas
ou mais/menos intensificadas de acordo com as relações interpessoais. Analisaremos essas
Almodóvar, que como Quaglio (2010) afirma são uma mostra de interação que resulta em
sobreposições, interrupções, trocas de turnos semelhantes à conversação natural.
1.2.2 Ethos da mulher espanhola nos filmes de Almódovar
Pedro Almodóvar é um diretor e roteirista espanhol que se tornou conhecido em seu
país e internacionalmente por produzir filmes intensos e polêmicos. Nasceu em uma cidade
pequena chamada Cidade Real, em uma família humilde e cercado de mulheres, o que talvez
o tenha influenciado a escrever sobre o universo feminino de maneira tão peculiar que passou a ser considerado um “diretor de mulheres” e se tornou um dos maiores cineastas do cinema
espanhol. A figura da mulher tem presença certa nos filmes de Almodóvar em papéis
principais ou secundários, elas estão presentes até mesmo em muitos dos títulos de seus filmes direta ou indiretamente (“Mujeres al borde de un ataque de nervios”, “Tacones
lejanos”, “Hable con ella”, entre outros) e sempre apresentando seus dramas, conflitos,
tensões, paixões etc (Strauss, 2008).
Para criar este universo feminino, o diretor explora uma diversidade de gêneros
discursivos. Alguns críticos afirmam que seu estilo de narrativa se baseia em colagens e
combinações enigmáticas (semelhantes a um quebra-cabeças) e híbridas entre referências e
citações. Ao combinar motivos tradicionais da cultura espanhola com hábitos e gostos
transnacionais, Almodóvar utiliza uma explosão de cores e tipos de personagens que se
assemelha a uma carnavalização da vida. Se lembrarmos que o carnaval é o lócus
privilegiado da inversão, pode-se dizer que é essa inversão que possibilita que a mulher deixe
de ser coadjuvante e ocupe o centro da cena, seja para representar o fraco ou o forte, o que dá