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A população realojada no Bairro Casal da Mira é oriunda de vários bairros de habitação degradada do município da Amadora, nomeadamente, do Bairro da Azinhaga dos Besouros. Quer nos bairros de barracas, quer nos de habitação social predominam famílias pobres, havendo a tendência para a constituição de “círculos de pobreza”124

que

124 A pobreza gera um círculo que impede a satisfação de necessidades básicas e a participação plena das

pessoas na sociedade, dificultando o desenvolvimento das suas capacidades. Estes lugares não dispõem dos meios e oportunidades para que as pessoas saiam deste ciclo. Constituem territórios de exclusão que são estigmatizados e considerados reprodutores de situações de pobreza. Incluem uma multiplicidade de situações e de problemáticas – limitações de recursos económicos, baixas qualificações escolares e profissionais, precariedade de emprego, redes de marginalidade, mercados paralelos, dependências aditivas, entre outros – conducentes a diversos mecanismos de reprodução de condições de pobreza

funcionam numa lógica de auto-reprodução das condições de desfavorecimento. Verifica- se, assim, a concentração de indivíduos e famílias pobres em bairros de habitação social, o que contribui para uma grande densificação espacial e a emergência de inúmeros problemas sociais. Daí que a abordagem do fenómeno da pobreza e exclusão social seja pertinente.

Em Portugal, foram as reflexões de Manuela Silva e de Bruto da Costa que mais influenciaram o conceito de pobreza nos últimos anos, sendo esta entendida como uma situação de insuficiência de recursos, numa perspectiva multidimensional125 que inibe uma participação no padrão de vida dominante na sociedade. (Bureau Internacional do Trabalho, 2003: 20).

Trata-se de um fenómeno “gerado pelo próprio sistema económico e socio- político orientado este como está, para a eficácia económica, a competitividade e a maximização da rentabilidade do capital financeiro no curto prazo, num horizonte de globalização da economia, forte desenvolvimento tecnológico, capital intensivo e total fluidez dos capitais” (Silva, 2000: 44)126.

A globalização das economias, as mutações registadas no mercado de trabalho, os fluxos migratórios e as alterações na composição e papel da família tornaram mais complexa a problemática da pobreza, quer através do surgimento de novas manifestações do fenómeno, quer do seu agravamento, em certos contextos.

A exclusão social pode ainda ser analisada enquanto caso extremo de um fenómeno mais amplo e preocupante que é o da desigualdade crescente e da elevada concentração do rendimento e da riqueza, que são inerentes às lógicas de funcionamento das economias contemporâneas, industrialmente avançadas.

Segundo Paugam (2003), o conceito de exclusão social sintetiza o conjunto heterogéneo de manifestações, caracterizando-se por três dimensões: a primeira é económica, incluindo as formas de precariedade ou de exclusão face ao emprego e a insuficiência crónica ou repetida de recursos, marca clássica da pobreza. Esta dimensão da pobreza é manifestada no discurso de muitas mulheres, quando se referem à mudança persistente pela dificuldade em romper com teias da exclusão” (Plano Nacional de Acção para a Inclusão: 2006, 13 e 14).

125 Com implicações em todas as áreas de existência das pessoas, das famílias e dos grupos.

126 Comunicação no Colóquio Internacional “Portugal na transição do milénio”, realizado em 2000,

resultante do realojamento, que nalguns casos agravou a situação, com o aumento das despesas:

“Financeiramente, mudou para pior por causa da renda. A reforma do meu marido é baixa e eu, há dois anos que estou só com quatro horas de trabalho…...já pedi redução de renda……. O que vale é a ajuda de família, tenho duas irmãs fora, nos Estados Unidos, que me têm ajudado ……..tenho que apertar o cinto e de que maneira! Há 4 meses atrás tive de pedir ajuda de fora, sem nunca poder pagar, não conseguia, de maneira nenhuma ". (Ermelinda, 51 anos)

A segunda dimensão é a do não reconhecimento de direitos sociais, mas também dos direitos civis e políticos. Esta dimensão pode expressar-se na situação de uma mulher, vítima de violência doméstica, mãe de três filhos, impossibilitada de trabalhar e sem acesso ao Rendimento Social de Inserção:

“…..devido ao acidente não posso trabalhar e como não tenho documentos não tenho direito ao rendimento mínimo” (Adelina, 34 anos)

A terceira dimensão é a das relações sociais, que remete para as formas agudas de desestruturação social e física que a crise económica e as situações de não direito desenvolvem nos indivíduos, nas famílias ou nos grupos sociais. Esta dimensão manifesta- se em particular na «desafiliação»127, que constitui a forma extrema da exclusão social. Este tipo de situações não aparece nos testemunhos das mulheres, mas existe no bairro Casal da Mira, havendo algumas situações de homens isolados que atingem esta dimensão do conceito de pobreza.

Assim, para Paugam (2003) nas sociedades modernas, a pobreza não é somente o estado de uma pessoa que tem falta de bens materiais, corresponde igualmente a um estatuto social específico, inferior e desvalorizado que marca profundamente a identidade dos que a experimentam. A pobreza é apreendida de forma negativa, como símbolo do fracasso social e traduz-se, muitas vezes, em termos da existência humana, por uma degradação moral (Paugam, 2003: 23, 24).

De acordo com este conceito, como refere Bruto da Costa (1998) podem observar- se vários tipos de exclusão social: de tipo económico (pobreza: privação por falta de recursos), de tipo social (solidão), de tipo cultural (minorias étnico-culturais), de origem patológica (do foro psíquico) e comportamentos auto-destrutivos (toxicodependência,

127 Ruptura entre o indivíduo e o contexto social, analisada por Robert Castel (1995). A exclusão social

significa a desintegração social, ao retirar a possibilidade de uma participação activa na sociedade, significando o não reconhecimento do indivíduo nessa mesma sociedade e inviabilizando o seu acesso ao exercício dos direitos humanos.

alcoolismo, etc.) Para este autor, o conceito de exclusão social relaciona-se com o de cidadania, cujo exercício pleno implica o acesso a um conjunto de sistemas sociais básicos, compreendendo diversos domínios: o social, o económico, o institucional, o territorial e o das referências simbólicas. A exclusão social será o ponto último de um processo de afastamento indivíduo/sociedade (Costa, 1998: 14).

Como formas de exclusão mais persistentes pode referir-se: o desemprego estrutural; a ausência de rendimentos de indivíduos e famílias; a insuficiência dos esquemas de protecção e de segurança social e hábitos culturais; no entanto, algumas das formas de exclusão social não constituem situações de pobreza, o que leva a concluir que o conceito de exclusão social inclui o de pobreza, mas é mais amplo.

O fenómeno a que se chama hoje “nova pobreza” evoca mutações económicas e sociais da sociedade industrial do fim do século XX. O desemprego de longa duração, as dificuldades de acesso a um emprego estável para franjas crescentes da população e também as situações de isolamento ligadas a alterações dos modelos familiares explicam o aparecimento de novas categorias da pobreza nas sociedades. A modificação profunda dos modelos familiares, designadamente, o aumento de famílias monoparentais e a existência crescente de pessoas a viverem sós, é acompanhada com frequência de dificuldades de inserção social e profissional. A presença de famílias monoparentais no bairro é bastante significativa128, constatando-se, no discurso das mulheres, alguns problemas relacionados com essa situação:

“Não tive coragem de aguentar aquela vida. Ele não me dava nada para o meu filho, nada para mim, e fazia-me a vida negra.” (Joaquina, 36 anos)

A pobreza pode, também, ser vista em duas perspectivas. Por um lado, a perspectiva culturalista e, por outro lado, a perspectiva socioeconómica.

A culturalista, ou “culturas de pobreza”, teorizada por Oscar Lewis129

(1985), corresponde aos modos de ser, de fazer e de sentir das pessoas, famílias ou grupos pobres. Sendo um resultado das condições materiais e sociais de vida interiorizada por esses grupos, contribuindo para sociedades muito fechadas, com padrões típicos de organização

128 Vide caracterização socio-demográfica da população do bairro Casal da Mira /Tipos de famílias, no

capítulo 1- Contextualização do Estudo.

129 Oscar Lewis (1914-1970), antropólogo social norte-americano estabeleceu o conceito de cultura de

familiar e integração comunitária, formas de ocupação do espaço, percepções do tempo, formas predominantes de relacionamento com as instituições, sistemas de valores e orientações de vida peculiares, esquemas de gosto e de percepção específicos, modelos de consumo e de relacionamento com rendimentos escassos e irregulares, incapazes de sustentar projectos de vida alternativos, que simultaneamente permitem a adaptação à dureza das situações vividas e tendem a reproduzi-las. As teorias da cultura de pobreza partem do pressuposto da desorganização familiar, a desintegração do grupo, os valores da resignação e fatalismo como causas da pobreza persistente.130

A perspectiva socioeconómica assenta na privação ou insuficiência de recursos. Pode ser absoluta quando fundamentada nas necessidades básicas, ou relativa, quando baseada em padrões de rendimento. Nesta perspectiva, Bruto da Costa (2008) distingue três conceitos de pobreza: o conceito absoluto de pobreza procura definir um padrão de vida mínimo, considerado como suficiente para satisfazer as necessidades identificáveis pelos conhecimentos científicos existentes na altura, acerca das necessidades humanas básicas. Parte da identificação, por via normativa; O conceito relativo de pobreza parte do estado de desenvolvimento dos países, definindo-se uma linha de pobreza dada pelo rendimento médio das famílias e o conceito subjectivo de pobreza não tem linhas de pobreza quantificadas. É pobre, todo aquele que se sente como tal. Constitui uma ferramenta para se ter em conta o conceito de pobreza, que grupos relevantes da sociedade, e a sociedade em geral têm e a sua noção de necessidades básicas.

A vulnerabilidade à pobreza é, também, um aspecto a salientar. Não constitui, apenas a probabilidade objectiva de percursos de empobrecimento. Ela é também, com

130 A teoria da cultura de pobreza tem sido alvo de muitas críticas. Pilar Monreal, no seu livro “Antropologia y pobreza urbana”(1996), sistematiza essas críticas, referindo que, do ponto de vista teórico, a teoria da cultura de pobreza não hierarquiza as características do fenómeno nem analisa o modo como cada factor ou elemento actua. Para os autores mais críticos, a pobreza deve ser definida em função da privação económica, da escassez de recursos ou da posição no mercado de trabalho e não em função dos valores culturais ou cognitivos. Confundem e não distinguem as características, efeitos e causas da cultura da pobreza (Eame y Goode, 1980; Leackoc, 1971; Valentine B, 1978;). Leacok (1971) questiona não só o conceito de pobreza, mas também a relação entre o indivíduo e a cultura, pois contrariamente à teoria da cultura de pobreza, considera que o indivíduo, não só se adapta à cultura, como a transforma num processo contínuo, ao longo da vida. Roberts (1980) centra as suas criticas na subestimação que a teoria tem relativamente à actividade e participação dos pobres na vida económica, política e social das cidades, considerando aqueles incapazes de

alguma frequência, a aprendizagem da “desqualificação social”131 e, por vezes, a habituação inicial à estigmatização e à inferiorização, à perda de dignidade e de estatuto, o que quer dizer que a pobreza objectiva e a subjectiva nem sempre se articulam, a mera situação de vulnerabilidade já tende a reagir sobre representações e comportamentos e a ter, por vezes, efeitos de conformismo e confirmação.

Na abordagem da pobreza e exclusão social consideram-se vulneráveis à pobreza as pessoas classificáveis nas categorias sociais e sócio-económicas mais atingidas pelo fenómeno. (Capucha, 1998) distingue-se, genericamente, dois tipos de categorias. As categorias que geralmente integram a chamada “pobreza tradicional”, normalmente integrada e conformista: camponeses da agricultura tradicional; idosos pensionistas; trabalhadores desqualificados e pior remunerados da agricultura, da indústria e dos serviços, principalmente quando se inserem em sectores informais da economia e por estarem em situação de precariedade relativamente aos seus dos vínculos contratuais. As categorias que geralmente integram os fenómenos típicos da “nova pobreza”, geralmente mais problemática e excluída e que é influenciada pelas conjunturas: desempregados de longa duração; jovens à procura do primeiro emprego; as famílias monoparentais; os membros de minorias étnicas; os doentes crónicos; pessoas com deficiência; toxicodependentes; alcoólicos; as pessoas sem abrigo; os “meninos de rua”; os reclusos e ex-reclusos; os “jovens em risco” e as pessoas que vivem em situações de marginalidade ou pré-marginalidade. (Capucha, 1998:6),

A pobreza pode, assim, ser considerada como um fenómeno multidimensional que não se confina nem se esgota na escassez de rendimentos, manifestando-se de forma diferenciada consoante o contexto económico-social e assume especificidades próprias, em determinados grupos populacionais.

Em termos demográficos, o fenómeno da pobreza não é neutro. De facto, é possível identificar subgrupos da população particularmente vulneráveis à pobreza, quer em termos de idade – as crianças e os idosos – como em termos de género – as mulheres.

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Conceito desenvolvido por Serge Paugam (2003), que sublinha o estatuto social inferior e desvalorizado que marca profundamente a identidade dos que experimentam a exclusão social e que influencia o modo como o indivíduo se relaciona com a sociedade. A pobreza é apreendida de forma negativa, como símbolo do fracasso social e traduz-se, muitas vezes, em termos da existência humana, por uma degradação moral.

A importância da pobreza no feminino, quer pela sua dimensão como pelas suas implicações, sugere a necessidade de um conhecimento deste fenómeno.

A feminização da pobreza, noção introduzida por Diana Pierce, em 1978132, chamou a atenção para a realidade da pobreza no feminino que, paradoxalmente, se traduz por um agravamento da situação das mulheres, contrariamente ao que se passa com os homens, embora se verifique uma crescente participação destas na actividade económica. Esta realidade sublinhou, inevitavelmente, a importância da perspectiva do género nos estudos sobre a pobreza.É neste âmbito que se insere o estudo de Pereirinha e al (2007)133. Os autores do estudo, tendo como referência a PAP134 e a multidimensionalidade do fenómeno da pobreza adoptaram um conceito de mulher pobre transversal a vários domínios. Assim, “a pobreza no feminino passa a ser entendida não só em termos de ausência ou falta de recursos económicos (pobreza monetária), mas em função de múltiplos aspectos do bem-estar que integram especificidades associadas à mulher. Desta forma, é possível encarar a pobreza como um estado de privação135 em termos de bem- estar” (Pereirinha e al, 2007:7).

Portugal apresenta, no contexto da UE, uma das maiores taxas de actividade feminina. Em termos de profissão, as mulheres desempenham sobretudo funções nos sectores tradicionais do comércio, do alojamento, da restauração e nos serviços sociais e pessoais.A par da participação crescente das mulheres na actividade económica, assiste-se ao desenvolvimento de formas contratuais mais flexíveis e de vínculo precário.

132 In Pierce, Diana (1978), The fiminization of poverty, women, work and well fare, Urban and Social

Change Review, pg. 28-36

134 PAP – Plataforma de Acção de Pequim, adoptada pelos países na IV Conferência Mundial sobre as

Mulheres, organizada pelas Nações Unidas, realizada em 1995.

135 Os estudos clássicos sobre a pobreza centram-se na observação do agregado familiar. Exploram

exaustivamente o conceito de pobreza de cariz monetário, resultante da escassez de recursos monetários, negligenciando outras áreas de carácter material ou imaterial ou mesmo de cariz subjectivo que, conjuntamente com o rendimento, traduzem o carácter multidimensional do fenómeno da pobreza. Tal como é referido por Pereirinha e al (2007), os trabalhos de Peter Towsend, a partir dos anos 70 vieram introduzir o conceito de privação, constituindo uma nova vertente nos estudos sobre a pobreza, a partir da análise directa das condições de vida dos indivíduos, realçando a pluridimensionalidade do fenómeno da pobreza e exclusão social.

Muitas mulheres residentes no bairro Casal da Mira apresentam uma realidade em tudo semelhante136, com uma elevada taxa de actividade, baixas habilitações literárias e, no que se refere às profissões, destacam-se o sector das limpezas e o comércio informal137. Os rendimentos são bastante baixos, existindo muitas situações em que são elas que auferem o único rendimento na família. Para assegurarem o sustento da família, muitas delas trabalham em vários locais, o que as obriga a sair de casa, muito cedo e regressar muito tarde. A precariedade e as más condições de trabalho caracterizam a realidade profissional de muitas mulheres residentes no bairro.

Outro aspecto assinalado no estudo de Pereirinha e al (2007), é o facto do número de famílias monoparentais138 ter vindo a crescer, no nosso país. Estes agregados são particularmente vulneráveis à pobreza, uma vez que muitos deles dependem exclusivamente do rendimento materno.

O mesmo acontece, no Casal da Mira, o número de famílias monoparentais (mãe com filhos) é muito significativo. No universo do bairro é de cerca de 23% e relativamente à amostra do estudo, das 23 mulheres entrevistadas, 9 integram famílias monoparentais.

A ilustrar estas situações, apresentam-se alguns testemunhos de mulheres, residentes no Casal da Mira, alvo da pesquisa:

136 Vide caracterização da amostra do estudo no Capítulo 1.

137 A economia informal predomina nestes contextos. Muitas mulheres dedicam-se à venda de produtos,

designadamente a venda de peixe, como forma de angariar rendimentos para a sua subsistência e dos filhos ou como complemento do rendimento proveniente do trabalho em limpezas.

138

De acordo com o Karin Wall e Cristina Lobo (1999), família monoparental é um núcleo familiar onde vive um pai ou uma mãe sós (sem conjugue) e com um ou vários filhos solteiros. A expressão “família monoparental” surgiu em França, em meados dos anos 70, introduzida por sociólogas feministas que adaptaram o conceito “lone parent”, já trabalhado nos países anglo-saxónicos desde os anos 60. O emprego da categoria “família monoparental”/família de pai ou mãe sós” teve consequências importantes, nomeadamente, a introdução nas estatísticas de recenseamento de uma rubrica “famílias monoparentais” chamou a atenção para a importância numérica deste tipo de agregado doméstico e permitiu uma nova abordagem da maternidade fora do casamento, contribuindo para fazer sair as famílias de mães sozinhas do anonimato e para as colocar a um nível idêntico ao das famílias conjugais tradicionais; Ao dar mais visibilidade jurídica aos pais e mães sós, veio encorajar a adopção de medidas de política social e familiar para este tipo de famílias. A generalização do conceito levou também ao desenvolvimento de uma área de pesquisa, neste âmbito.

“…….…na parte da tarde, ganho 200 e tal €, pago renda, pago água, pago luz, vou a correr fazer umas horas, às vezes há uma senhora na Alameda e há outra em Queluz e há outra em Algés……...corre muito….….nunca tive férias” (Sabá, 45 anos)

“ ….Tenho a minha irmã que me dá 40€, todos os meses, pois tenho de pagar luz, tenho de pagar água….Quando vem o dinheiro da baixa tenho de pagar as despesas. A minha irmã também ajuda quando precisa de remédios para o coração, que eu não pode estar sem eles.” (Domingas, 47 anos)

“Em Cabo Verde trabalhava na Embaixada, no arquivo, em Portugal trabalhei sempre em limpezas….neste momento eu estou mais limitada por causa das dificuldades financeiras. A despesa aqui foi de tal maneira que não dá!” (Benvinda, 58 anos)

Estas três situações reflectem vários problemas, que se prendem com a insuficiência de rendimentos, trabalhos precários e a tempo parcial, e, por vezes trabalhando em mais do que uma empresa ou patrões. No caso de Benvinda, a situação agravou-se porque foi-lhe aplicada uma renda muito elevada - 309,70€139.

Nas famílias economicamente mais carenciadas, a preponderância do poder dos homens é também notória, o que se traduz, num número significativo de casos de violência doméstica. A título de exemplo, uma mulher do Casal da Mira referia:

“Tenho sofrido muito…..Agora, aqui está muito complicado, porque estou assim sem poder trabalhar e como não tenho documentos não posso pedir o rendimento mínimo, dependo do que ele dá, quando dá para os filhos” (Adelina140, 34anos)

“ …..sempre que eu preciso de dinheiro antes do fim do mês, porque com dois filhos, às vezes o dinheiro não chega até ao fim do mês, os patrões dão sempre adiantado…..às vezes é um bocadinho atribulado; recebo, não recebo, às vezes há atrasos nos pagamentos, mas temos que superar.” (Genoveva, 24 anos)

139 O valor das rendas é calculado, no momento do realojamento, em função dos rendimentos de todos os

elementos do agregado familiar. Quando o valor calculado ultrapassa o preço técnico, aplica-se este. Neste caso há uma filha adulta que consta do agregado, cujo vencimento foi contabilizado à data do

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