CAPÍTULO X – RESPONSABILIDADE CIVIL NOS CONTRATOS BENÉFICOS
10.1. A RESPONSABILIDADE CIVIL E A EVOLUÇÃO DO DIREITO PRIVADO
O estudo da evolução da responsabilidade civil pressupõe a análise do elemento da culpa. São duas as principais correntes: a psicológica e a normativa.226 Divergem na especificação dos requisitos do comportamento capaz de gerar responsabilidade. Na concepção subjetiva da época liberal a culpa é vista a partir da violação de um dever pré-existente, com indispensável presença da manifestação da vontade, livre e consciente, do agente, ao que corresponde um juízo moral de reprovação da conduta. Ao elemento subjetivo da vontade, é acoplado o requisito da previsibilidade do resultado, pressuposto lógico e psicológico de sua prevenção. Com tais elementos são consolidadas as noções de culpabilidade e de imputabilidade, fundamentais para a estrutura do liberalismo jurídico, pautado na autonomia plena dos indivíduos. Culpa, dano e nexo causal formam a tríade da responsabilidade no sistema liberal.
Os interesses econômicos que caracterizaram a ascensão da burguesia, especialmente os da garantia de absoluta liberdade de ação e de blindagem jurídica contra interferências das forças do regime anterior, explicam a utilização desses elementos como verdadeiras barreiras à responsabilização do agente. As provas do
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MORAES, Maria Celina Bodin de. Danos à pessoa humana: uma leitura civil-constitucional dos danos morais. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2003. p. 209.
caráter culposo e do nexo de causalidade representaram filtros da responsabilidade
civil, com proposital função seletiva das demandas indenizatórias merecedoras de
acolhimento.227
As dificuldades inerentes à prova judicial dos elementos da culpa subjetiva e do nexo de causalidade entre a conduta e o resultado danoso, refletem um sistema de responsabilidade civil montado para a proteção do agente, e não da vítima. Os postulados do regime liberal mantinham a responsabilidade civil subjetiva mais a serviço dos fatores de produção do que dos lesionados. Naquele contexto histórico, maior acesso a indenizações poderia atingir os agentes, em veloz ascensão. O sistema liberal exerceu o controle das vítimas da atividade produtiva, por meio de óbices à concretização do direito de reparação.
No curso do Século XX, os fatores de evolução do sistema jurídico impactaram na teoria subjetiva da responsabilidade civil. Surgiu a corrente normativa, com a culpa fundada no erro de conduta, contrário a um dever geral de não lesar ninguém, ao lado de deveres previstos em lei ou em contratos. A culpa decorre de um desvio de padrão de conduta representado pela “boa-fé e pela diligência média”.228
Tornou-se possível a obtenção de proporção entre a conduta e o respectivo dano, com individualização da sanção. Foi facilitada a demonstração da culpa no caso concreto.
Ambas as correntes impõem a presença do ato ilícito, entretanto, muda a maneira pela qual é analisado. A corrente psicológica vincula a culpa à violação de um dever específico e preexistente, na esfera contratual ou extracontratual. A corrente normativa remete a culpa a descumprimento de padrão geral de conduta de boa-fé ou de diligência normal, verificada a partir de circunstâncias do caso concreto. A culpa é relativizada de acordo com standards ou parâmetros de avaliação, dentro
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SCHREIBER, Anderson. Novas tendências da responsabilidade civil brasileira. Revista Trimestral de Direito Civil. Rio de Janeiro: Padma, v.22, jan./mar. 2003, p. 45.
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de categorias de relações humanas, para confrontar a transgressão do padrão de conduta socialmente aceito.229
A solidariedade social e a dignidade humana redimensionaram a autonomia privada, na defesa da eficácia dos direitos fundamentais. Juntamente com o contrato, a responsabilidade civil é, assim, revista, a partir de nova dimensão axiológica. O ser humano passa a ser não apenas o valor estruturante, mas a própria razão de ser da responsabilidade civil. Em razão disso, aumentou a atenção do sistema jurídico com o dano sem indenização, dissonante da pretensa justiça social.
A sociedade atual precisa de novas respostas da teoria da responsabilidade civil. A transformação do processo produtivo acarreta maiores e diferentes perigos à sociedade. O sistema capitalista precisa que o processo produtivo seja aperfeiçoado constantemente, não apenas para a confiabilidade do mercado consumidor, como para a própria expansão desse mercado. A responsabilidade civil é potente instrumento de controle dos agentes produtivos.
Cresce a mentalidade reparatória; e a evolução econômica fomenta a mudança da responsabilidade civil para o sentido da objetivação. A complexidade e a velocidade de atuação dos agentes econômicos tornam os perigos exponenciais. A objetivação da responsabilidade civil encontra, nos riscos das atividades, regra matriz de incidência. As atividades que criam riscos para terceiros incorrem em responsabilidade pelo simples fato danoso, independentemente da culpa.
A responsabilidade civil objetiva deixa de ser exceção, porque os lucros da atividade econômica podem ser ainda mais alcançados num mercado em expansão, inserto em corpo social onde paire a sensação de expectativas normativas correspondidas. O mercado crescerá, na proporção da estabilidade das relações produtivas e da confiabilidade dos consumidores em aparente proteção, de si e do meio envolvente. O avanço da responsabilidade civil objetiva não pode ser compreendido fora do fenômeno da crise do sistema jurídico: “o Direito sobrevive às crises, porque tem
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MULHOLLAND, Caitlin Sampaio. A responsabiliade civil por presunção de causaliade. Rio de Janeiro: GZ Editora, 2009, p. 44.
capacidade de renovar-se”.230
A objetivação da responsabilidade é elemento regenerativo do sistema jurídico, em função das relações de produção que constituem a sua base material. Mas as vantagens sistêmicas da responsabilidade subjetiva não podem ser desprezadas. A liberdade de atuação, mesmo contingenciada, precisa remanescer. Ao mesmo tempo em que o sistema de produção exige instrumentos de controle, não pode desestimular a iniciativa dos agentes. A completa supressão da responsabilidade civil subjetiva seria intolerável pela inibição da atividade econômica.
A solução para essa tensão interna sistêmica é a coexistência dos dois modelos de responsabilidade civil. A responsabilidade por culpa não foi abandonada, continua presente no Código Civil de 2002. Na observação de Carlos Roberto Gonçalves, isto significa que a responsabilidade objetiva não substitui a subjetiva, “mas fica
circunscrita aos seus justos limites”.231 Atualmente, portanto, o ordenamento jurídico brasileiro segue o modelo dualista de responsabilidade civil.