• Nenhum resultado encontrado

A rotina da professora e os etnométodos utilizados

4 A COMPLEXIDADE DA ESCOLA NO HOSPITAL

5 OS ETNOMÉTODOS DAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DAS PROFESSORAS NO HOSPITAL

5.3 A EDUCAÇÃO INFANTIL NO HOSPITAL E SUAS CRIANÇAS

5.3.3 A rotina da professora e os etnométodos utilizados

Nas observações do cotidiano das aulas de Violeta, foi possível verificar que ela construiu modos próprios de organização de sua aula. Seus etnométodos estavam voltados para a continuidade de algumas atividades que, em uma espécie de ritual, se repetiam quase todos os dias da mesma maneira. Ela elaborou algumas formas estratégicas para fazer com que as crianças se sentissem em uma escola de Educação Infantil com uma proposta pedagógica similar das que ocorrem na maioria das pré- escolas (4 a 6 anos), que buscam alfabetizar as crianças com intuito de prepará-las para a escola básica.

É preciso destacar também que, nas aulas observadas, como a presença das mães não era muito constante, às vezes a professora se sentia sobrecarregada quando tinha que executar algumas tarefas de cuidados físicos para com as crianças como: levá-las até o banheiro, auxiliá-las quando o soro acabava e mesmo auxiliar aquelas que não estavam se sentindo bem. Em contrapartida, em alguns momentos, também foi possível presenciar situações onde algumas mães ajudavam bastante a professora, a seus filhos, bem como aquelas crianças que as mães ou acompanhantes não estavam presentes.

Para descrever o cenário da sala de aula, não se pode deixar de mencionar um dos aspectos diferenciais desta proposta pedagógica no hospital que ocorria no início da aula, quando professora visitava as crianças nas enfermarias e as chamava para irem à sala de aula. Era a professora que se dirigia até as crianças e não as crianças até ela. Esta chegada da professora no hospital era sempre bem recebida pelas crianças que geralmente vinham abraçá-

la logo que ela aparecia. A professora, de leito em leito, chamava as crianças que já a conheciam para irem até a escola e, aquelas que ainda não a conheciam, ela se apresentava e dizia os objetivos da escola. Na maior parte das vezes, as crianças aceitavam seu convite e iam para a escola de forma bem tranqüila.

Violeta priorizava a realização das mesmas atividades e pouco modificava seu planejamento, não ousando alterar as atividades e avaliar os efeitos de ações diversificadas.

5.3.4 A roda de conversa

A professora sempre iniciava suas aulas reunindo as crianças na sala fazendo uma roda com as cadeirinhas. Ela ficava na frente das crianças, ao centro, sentada em um sofá. Em algumas aulas, ela começava o dia perguntando sobre como as crianças haviam passado a noite, se estavam bem, se tinham tido algum problema, dor ou desconforto.

No dia 22/11/200229, a professora iniciou a aula perguntando às crianças se estava tudo bem e se alguém havia sentido alguma coisa. As crianças em coro repetiram: Não. Violeta perguntou a uma criança: E aí Glei, você acordou a noite? Glei: Eu dormi um pouquinho e acordei. Violeta: Acordou por quê? Glei: Porque eu tava com dor no braço. Violeta: E melhorou já? Glei balançou a cabeça que não. Violeta: Não melhorou ainda não? Dá o bracinho aqui. Ela pegou no braço dele e disse: Mas vai passar, viu? Fica aqui trabalhando prá passar um pouquinho a dor.

Esse momento inicial era percebido pelas crianças como uma forma carinhosa de aproximação da professora com os mesmos. Algumas crianças se sentiam muito acolhidas pela professora quando conseguiam contar e expressar suas angústias e dores da noite. Em outros dias, porém, foi possível observar que algumas crianças não queriam falar sobre si e suas patologias. No caso desta criança, observa-se que a mãe intermediou a voz do filho:

Na aula do dia 04/04/200330, a professora começou perguntando às crianças se haviam dormido bem. Violeta: Como foi a noite? E as crianças responderam em coro: Bem. Violeta: Bem? Violeta: Quem sentiu alguma coisa de noite? Criança: Eu não senti nada. Outra criança: E eu também. Violeta: Quem teve febre de noite? Violeta: Não sentiu nada? Que ótimo. Beleza! Uma mãe disse que seu filho teve febre. Violeta: Ian, você teve febre

29 Participaram da aula da Profa. Violeta dia 22/11/2002 Crianças. Luc (5 anos, SSA, Jardim 3, Pneumonia), Gra

(2 anos, Serrinha, Creche, Síndrome Nefrótica), Glei (5 anos, SSA, Jardim 1, Pneumonia e Anemia Falciforme), Graz (6anos, SSA, Alfabetização, Pneumonia), Cle (8 anos, Iraquara, 1a série, Pneumonia), Ela (5 anos, Iraquara, creche, Pneumonia), Ede (5 anos, Serrinha, Jardim 1, Osteomelite), Reb (4 anos, Madre de Deus, não estudava, Síndrome Infecciosa)

30 Participaram da aula da Prof. Violeta, dia 04/04/2003 Crianças = Ian (2 anos, SSA, creche, síndrome

infecciosa), Jac (6 anos, Candeias, 1a série, pneumonia), Ama (6 anos, SSA, 1a série, anemia), Mic (2 a, Serrinha,

Creche, BCE), Mat ( 2 anos, SSA, não estava na escola, pneumonia e síndrome inefcciosa), Ben ( 5 anos, SSA, Jardim 1, Anemia Falciforme

Ian? Teve? Ficou quentinho? Tomô remédio? Tomô? Ele ficou quieto e não respondeu. Depois ela perguntou para outras crianças. Quem sentiu alguma coisa, dor.. Crianças: Não.

A roda de conversa era iniciada a partir da fala da professora e as crianças ficavam atentas, prestando atenção no que iria ser proposto. Alguns aspectos da caracterização da rotina desta professora eram muito próximos dos evidenciados na pesquisa de Galvão (1996) quando estudou sob a ótica walloniana, as adequações das exigências e propostas do meio escolar na Educação Infantil. Galvão centrou-se na questão específica do movimento das crianças na pré-escola, mas também levantou elementos importantes de análise deste cotidiano escolar, retratados na seguinte afirmativa:

Quando o dia começava com a rodinha, atividade que visava proporcionar momentos de conversa entre o grupo, as crianças sentavam-se no chão, formando um círculo na área livre de mobiliário. Geralmente era a professora quem lançava o tema de conversa, simplesmente iniciando um assunto ou então lendo um livro ou notícia de jornal (...) Era a professora quem coordenava a participação das crianças na roda, garantindo a sua organização e o espaço na fala de cada um. Nos dias em que não havia roda, sentavam-se diretamente nas cadeiras e esperavam a professora anunciar o que iriam fazer.(GALVÃO, 1996, p. 61)

Na escola do hospital, também era a professora que garantia a fala de cada criança. A roda era sempre formada pelas cadeirinhas nas mesmas posições, mas nunca as crianças sentavam no chão, pois no hospital a infecção hospitalar é um perigo constante. Quando as crianças se dirigiam para a aula, sempre aguardavam a professora arrumar as cadeiras e iniciar a aula.