4 A COMPLEXIDADE DA ESCOLA NO HOSPITAL
4.2 CARACTERÍSTICAS DAS INSTITUIÇÕES HOSPITALARES
Convencionalmente, as instituições hospitalares, em diferentes sociedades, são vistas como locais geradores de sofrimento pela característica primeira que possuem de concentrar doenças. O hospital é concebido como um lugar do sofrimento. No entanto, o que pouco se revela é que, além da cura das doenças, coexistem nos hospitais uma infinidade de situações que tornam essas instituições bastante complexas, tanto para as pessoas que necessitam de seus serviços, quanto para os profissionais que nele trabalham, pela multiplicidade de interações, mediações e comportamentos que os envolve. Nestas
instituições, as situações mais diversas e as culturas das pessoas vão se tornando híbridas e sincréticas. Muitas histórias se cruzam e entrecruzam, assim como expectativas de vida, desejos, medos, solidariedade e partilhas. As incertezas são constantes para as pessoas internadas e seus familiares que muitas vezes se sentem impotentes diante das doenças que atravessam suas vidas. As intercorrências (o inesperado) são vividos intensamente. Neste cenário, pessoas de diferentes culturas, posições econômicas e sociais, vivem cotidianamente no mesmo espaço hospitalar com universos bastante diferenciados, o que, às vezes, torna difícil a comunicação.
A diversidade para alguns é um aspecto que permite a aproximação, por outro lado, para outras pessoas, ela promove o distanciamento e até mesmo, dificuldades de comunicação. Alguns profissionais da medicina ainda utilizam uma linguagem médica distanciada da linguagem popular dos usuários dos serviços de saúde. Além de funcionar como forma de demarcação das relações de poder da sociedade, ela não esclarece o que ocorre, favorecendo às vezes, a elaboração de imagens diversificadas e temerosas nos imaginários das pessoas e seus familiares sobre suas doenças, podendo mesmo gerar conseqüências desastrosas no tratamento. Entretanto, assim como existem esses profissionais que apregoam certo distanciamento dos enfermos, também existem aqueles profissionais que buscam modificar as relações existentes, procurando promover uma maior integração com a população atendida.
Nas enfermarias dos hospitais públicos de nosso país, crianças, adolescentes e familiares das mesmas cidades e dos mais diferentes lugares se encontram, compartilham dores, angústias, tristezas, mas também alegrias. É comum trocarem informações sobre suas vidas, seus problemas e criarem identidades, como se as diferenças e o mundo fora do hospital se dissolvessem e fossem criados novos elos identitários. As subjetividades dialogam entre si e os conhecimentos vão sendo construídos a partir destes diálogos e experimentações, da mistura de traços, valores, onde se elaboram culturas particulares e dissonantes sobre a forma de viver neste ambiente. Os familiares e enfermos acabam aprendendo neste contexto, que é preciso aprender a lidar com o que se desconhece, com o inesperado, para poder fazer a vida acontecer.
Utilizando o pensamento de Morin (2003) para analisar a complexidade desta instituição, é possível compreender as contradições presentes nos hospitais a partir da junção de diferentes prismas que se articulam dialeticamente como a questão da ordem e da desordem, da dor e do prazer, dos determinismos e dos acasos, das incertezas, das perplexidade, da autonomia, da dependência, da emoção e da lucidez.
Morin (2003, p. 38) considera que o pensamento complexo rompe com a simplificação quando se analisa os fenômenos de maneira articulada, relacionando os fatos e contextualizando-os. O pensamento complexo pressupõe que as análises das ações humanas não sejam simplificadas, todavia procura meios para compreender a simplicidade dessas ações para analisá-las na sua totalidade, nos seus aspectos muldimensionais, assim como na sua incompletude. A origem da palavra complexidade está associada ao movimento de entrelaçamento dos fatos:
Do ponto de vista etimológico, a palavra “complexidade” é de origem latina, provém de complectere, cuja raiz plectere significa trançar, enlaçar. Remete ao trabalho da construção de cestas que consiste em entrelaçar um círculo, unindo o princípio com o final de pequenos ramos. A presença do prefixo “com” acrescenta o sentido de dualidade de dois elementos opostos que se enlaçam intimamente, mas sem anular essa dualidade. Por isso, a palavra
complectere é utilizada tanto para designar o combate entre dois guerreiros,
como o abraço apertado de dois amantes. Em francês, a palavra complexo aparece no século XVI, vem do latim complexus, que significa abraçar, particípio do verbo complector, que significa eu abraço, eu ligo. (MORIN, 2003, p. 43)
Quando as pessoas procuram os hospitais estão procurando a salvação de suas vidas e um lugar onde se sintam protegidas, recebam atenção, um pouco de conforto diante de uma situação que lhes é desconfortável e procuram também, de certa forma, serem acolhidas, abraçadas. Entretanto, o acolhimento oferecido nos hospitais para as pessoas das classes populares ao longo da história assumiu diferentes significados.
O filósofo Foucault (2000) enfatizou como em diferentes sociedades a segregação dessas pessoas nas instituições hospitalares era explícita. Ele apresentou questões interessantes sobre a mudança na concepção dos hospitais de “morredouros a nascedouros”. Ao descrever a história dos hospitais na humanidade, retratou que estas instituições não foram criadas com os objetivos da cura. Para ele, a finalidade principal destas instituições era a de segregar a população carente, afastando-a do contato da população considerada “sadia”. Deste forma, ele descreveu que:
Antes do século XVIII, o hospital era essencialmente uma instituição de assistência aos pobres. Instituição de assistência, como também de separação e exclusão. O pobre como pobre tem necessidade de assistência e, como doente, portador de doença e de possível contágio, é perigoso. Por estas razões, o hospital deve estar presente tanto para recolhê-lo, quanto para proteger os outros do perigo que ele encarna. O personagem ideal do hospital, até o século XVIII, não é o doente que é preciso curar, mas o pobre que está morrendo. É alguém que deve ser assistido material e espiritualmente, alguém a quem se deve dar os últimos cuidados e o último sacramento. Esta é a função essencial do hospital. Dizia-se correntemente, nesta época, que o hospital era um morredouro, um lugar onde morrer. (FOUCAULT, 2000, p. 101)
Essa característica de internamento, exclusão, espaço de transformação espiritual e de morredouro nas instituições hospitalares teria sido modificada, segundo Foucault, quando foram iniciadas as discussões sobre os efeitos nocivos que o hospital acarretava. Outro aspecto que contribuiu para a modificar essa representação existente foi quando a intervenção médica começou a atuar com maior força neste contexto, pois, até o século XVIII, os hospitais eram dirigidos por pessoas leigas ou religiosas que possuíam uma noção muito restrita do hospital como um espaço de cura e terapêutica. A concepção predominante possuía caráter assistencialista.
O atendimento médico dedicado às crianças nas sociedades ocidentais, segundo Cunha (2000), até 1889 era realizado sob dois enfoques: existia uma corrente de estudos voltada para transferir conhecimentos nos estudos dos adultos e adaptá-los às crianças e outra corrente voltada para a prevenção de doenças desde a infância, biologia e patologia do desenvolvimento humano e a parte genética que tiveram influência nas investigações pediátricas. Somente quando as patologias das crianças e adolescentes começaram a ser tratadas com suas características próprias é que vieram as preocupações com os aspectos afetivos, biológicos e cognitivos dessas pessoas e foi- se configurando a área da pediatria.
Ranña (1988), ao estudar os aspectos psicossociais do tratamento de crianças, ele descreve que as primeiras enfermarias pediátricas surgiram por volta de 150 anos. Elas foram criadas de forma harmônica entre as famílias e as instituições hospitalares. Mas alguns fatores condicionariam mudanças nesta abordagem. O ambiente era próximo do ambiente doméstico, os pais transitavam pelas enfermarias, com relações bem próximas aos filhos. Os médicos e enfermeiras vestiam-se com roupas comuns. A partir do séc. XIX, este ambiente familiar das enfermarias foi sendo modificado. Pasteur descobriu a influência dos micróbios como causas das doenças e começam a surgir, então, as normas de internação. O medo das infecções hospitalares fez que os pais passassem a ser vistos como agentes contaminadores das enfermarias, constituindo-se em perigos para os hospitais. As rotinas nos hospitais começaram a mudar: regras rígidas em relação às vestimentas foram adotadas e restringiram-se a presença de objetos de uso pessoal da criança, roupas e brinquedos nestas instituições. Aos poucos, as enfermarias pediátricas foram se tornando ambientes higiênicos e assépticos, e, do ponto de vista das relações sociais foram considerados ambientes frios e pouco acolhedores. As crianças eram separadas em boxes, com rigorosa assepssia, evitando-se o contato físico com pais e outras pessoas da instituição. Esta conduta foi considerada adequada durante muito tempo do ponto de vista da higienização, porém, do ponto de vista humano, o ambiente
tornava-se artificial e antibiológico, pois a doença acabava privando a criança do seu contato com os familiares.
Este contexto fazia com que a recuperação da criança acabasse tornando-se mais tardia, pois elas não estavam tendo o desenvolvimento adequado no que se refere às questões de socialização, aos seus aspectos físicos, afetivos e cognitivos. As normas hospitalares, portanto, baseavam-se em princípios rígidos do ponto de vista da questão da contaminação. A condição ambiental que caracterizava uma determinada organização social nas instituições hospitalares gerava o denominado “hospitalismo”, que tinha conseqüências sérias para a criança. Durante muito tempo, a psicologia definiu o hospitalismo como um fenômeno conseqüente à falta de contato social nos primeiros anos de vida. A estadia prolongada de crianças no hospital mostrava diferentes implicações como perturbações físicas, de contato social e até mesmo no desenvolvimento da inteligência. (BARROS, 1993, p. 98)
No final dos anos 70, Sarti (apud RANNA, 1988. p. 60), realizou uma revisão sobre o papel da ausência das mães nos hospitais pediátricos e procurou enumerar as reações infantis, tanto na esfera somática, como na esfera psicoafetiva e listou as seguintes reações: retardo do crescimento e desenvolvimento, susceptibilidade a infecções, perturbações digestivas e nutricionais, dermatoses (eczemas), manifestações psicossomáticas, distúrbios do sono, distúrbios da linguagem, manifestações de desadaptação, hipermotilidade e variações de humor, diminuição da afetividade, desorientação, distúrbios de comportamento e perturbações de personalidade e perturbações motoras.
Torres (1990) também afirmou que as conseqüências de uma internação traumática para as crianças eram diversas desde o ataque à sua identidade, decorrente das alterações do seu esquema corporal provocados pela doença, até a própria degradação do sujeito, que deixava de ser o que ele era, para tornar-se um sujeito passivo. Aspectos como longos períodos de internação, hospitalização sem a presença de um acompanhante, submissão somente a procedimentos dolorosos, dificuldade de estabelecimento de vínculos dos profissionais de saúde exercidos sobre as crianças, geravam muitas ansiedades e angústias.
Em princípio, as discussões da psicologia, voltavam-se para denunciar as privações humanas e materiais das crianças hospitalizadas e os efeitos que produziam no desenvolvimento infantil. Tempos prolongados de internação e privações eram aspectos considerados como elementos que afetavam tanto os aspectos sociais, afetivos, como de estruturação da linguagem e da própria cognição, que refletiam nas modificações de hábitos e nas relações interpessoais das pessoas enfermas. Em um segundo momento, as reflexões
começaram a abordar formas de enfrentamento desta situação, valorizando a importância da mãe no acompanhamento do seu filho como elemento mediador importante no processo de recuperação deste.
Bowlby (1995) considerava que a presença da mãe era uma vantagem tanto para a criança, como para o hospital e para as próprias enfermeiras que ficavam com mais tempo para atender aos enfermos. Atualmente, alguns hospitais têm aceitado a presença dos pais como um elemento importante deste processo e até mesmo de irmãos, maiores de dezesseis anos e pessoas próximas da família para auxiliar nos cuidados. Alguns programas, como do Hospital Pequeno Príncipe em Curitiba, por muito tempo denominados de “mãe –
acompanhante ”, modificaram a nomenclatura e as concepções de interações neste contexto.
Passaram a ser denominados de “família - acompanhante” e defendem a idéia da importância de múltiplas interações sociais para dividir e complementar responsabilidades.
Cabe destacar que, no caso dos hospitais, embora algumas instituições reconheçam a importância dos pais neste período, nem todos os hospitais têm esta atitude de propiciar às crianças hospitalizadas a oportunidade de interagirem com diferentes pessoas quando estão internadas. Alguns até proíbem a visita de irmãos. Na grande maioria dos hospitais públicos, muitas crianças são internadas, sem nenhum acompanhante e outras até mesmo são abandonadas nos hospitais por seus próprios pais.
Os hospitais encontram maneiras diversas de resolver esta situação. Muitas instituições tratam este problema como se fosse um fenômeno natural e não buscam meios para promover uma responsabilidade maior dos pais em relação a seus filhos, durante ou após o tratamento. Alguns hospitais até preferem que pais não estejam presentes durante a internação dos filhos, pois alegam que tem possibilidade de agir com mais “liberdade” no ambiente. Outras instituições defendem a presença dos pais ou acompanhantes, porém somente para utilizá-los como ajudantes na ausência ou precariedade de profissionais de saúde no atendimento. E também existem as instituições que priorizam a participação dos pais e acompanhantes neste contexto, tratando-os como pessoas que estão vivenciando momentos delicados em suas vidas, mas que, também estão se constituindo neste espaço enquanto seres aprendizes de novas relações e podem ser elementos ativos e auxiliares na recuperação mais rápida da saúde de seus filhos.
Há de se considerar que na sociedade brasileira atual nem todos os pais que trabalham podem permanecer tempo integral com seus filhos durante o período de internação, principalmente nos hospitais públicos. Também existem os casos em que os pais têm outros filhos em casa e não podem permanecer no hospital. Essa situação é muito freqüente e, os
pais, irmãos das crianças e amigos, acabam tendo horários restritos à visitas. Portanto, dessa maneira, muitas crianças e adolescentes ficam a maior parte do tempo sozinhos nos leitos, interagindo com os profissionais do hospital e principalmente as enfermeiras que na maior parte das instituições são sobrecarregadas de trabalho e têm poucos momentos para se dedicar aos cuidados afetivos, sociais e até mesmo lúdicos destas crianças.
No Hospital da Criança da OSID, a presença dos pais e acompanhantes era um direito conquistado para as crianças e adolescentes hospitalizados. Entretanto, mesmo com a presença dos pais, algumas crianças relatavam que sentiam falta de seus lares, muito embora, em alguns casos, eles fossem mais “desconfortáveis” do que os hospitais. Foi possível verificar esta situação no depoimento de Rut16, uma menina de 9 anos de idade que estava há dois dias internada e que se mostrava saudosa de sua casa e avessa as regras hospitalares:
Porque no hospital, a gente... a gente.. Não se.. É A gente não sente como nossa casa. A gente.. a gente..a gente.. O lar da gente é melhor. Porque mesmo que a gente durma no chão, o lar da nossa casa é melhor. Por quê? Lá a gente tem sossego, tem alívio. E aqui. Toda hora tem que toma remédio. Remédio é ruim. Eu não vou mentir. Não fica solt.. Aqui tem que ficar preso.. Porque se..se... A gente não pode comer bala. Não pode. Faz mal. Não pode descer dali. Dali. Nem do primeiro andar prá.. Não pode. Aqui não tá podendo imagine no primeiro andar?” (Ruth, dia 06/05/2003)
Neste depoimento, Rut17 demonstrava sentir que estava confinada no hospital com
muitas de suas ações cerceadas mas, neste período ela também aproveitou para refletir e escrever uma poesia sobre sua condição de criança hospitalizada e da representação da escola no hospital. (Anexo Z).
Embora existam diferentes programas para melhorar a qualidade do atendimento e acolher as crianças enfermas, o processo de adoecimento e internação para algumas crianças representa uma situação de enclausuramento, pois elas têm que se submeter a regras que não estão acostumadas, a medicações, a privação de liberdade, situações complexas com as quais algumas crianças e adolescentes têm dificuldades para se adaptar.
A escola no Hospital da Criança da OSID foi idealizada com a finalidade de acolher às crianças e os adolescentes neste período de suas vidas, promover-lhes conforto e liberdade, bem como possibilitar a continuidade de seus estudos. No entanto, diferentes concepções representavam o projeto o que retratava um quadro complexo sobre sua existência e as questões a respeito da educação no hospital.
16 Os nomes dos atores e atrizes do trabalho foram alterados para preservar as identidades. O nome das crianças
será expresso pelas três letras iniciais e das professoras e idealizadoras do projeto - nomes de flores.
4.3 O PROJETO “VIDA E SAÚDE” NO HOSPITAL NA CONCEPÇÃO DE SUAS