• Nenhum resultado encontrado

5 OS MAPAS DO PROCESSO: UMA PROPOSIÇÃO DE PRODUÇÃO

5.2 Nas pegadas dos Discursos Oficiais que demarcam as vivências no

5.2.2 Agenciamentos entre neoliberalismo e Protagonismo Juvenil

Retomemos um pouco os fundamentos apresentados no PPP para melhor problematizarmos seus elementos, que apontam para o que estamos aqui argumentando. Passaremos a percorrer e descrever tais fundamentos presente no cenário da Escola Profissional por nós investigada, e sua operacionalização no cotidiano, que, se configura, conforme consta no PPP, mas que também fora trazida inúmeras vezes pelo diretor da escola, como sendo uma espécie de herança da Escola de Pernambuco.

Iniciamos pelo Protagonismo Juvenil, que no âmbito desta proposta educacional

o jovem como partícipe em todas as ações da escola e construtor do seu projeto de vida. Neste sentido, a equipe da Escola Estadual de Educação Profissional (núcleo gestor, professores e demais servidores) deve criar condições para que o jovem possa vivenciar e desenvolver suas competências: cognitiva (aprender a aprender); produtiva (aprender a fazer); relacional (aprender a conviver); e pessoal (aprender a ser) (PPP, 2017, p. 11).

Sobre os Pilares da Educação para o Século XXI, já falamos como esta proposta se configura como projeto de subjetivação por meio do aprender a ser. Mas, nesse contexto, o que gostaríamos de indagar é: como os jovens se tornaram alvo do discurso do protagonismo? Ou como os jovens toraram-se protagonistas no contexto social? Certamente a ideia de uma aprende a aprender, a fazer, a viver junto para aprender a ser (UNESCO, 1998), carregam as marcas dessa autonomização (SEVERIANO, 2015) que fomenta também as proposições protagonistas. No intuito de melhor adentrarmos por essa vereda, consideramos necessário abrir razoável parêntese teórico, mas de grande relevância para nós no percurso desta produção de dados. Esperamos que não prejudique a compreensão do leitor.

A partir das configurações da sociedade moderna, e sua organização geopolítica, um deslocamento da ideia de protagonismo foi tomando o tecido social, sobretudo na segunda metade do século XX. Assim, o conceito de protagonista, que vem do grego proto, quer dizer o primeiro, o principal e Agon significa luta, agonista, lutador. Protagonista, literalmente, quer dizer o ―lutador principal‖ (COSTA, 2019, s.p.), e foi tomando forma social por meio das evocações por participação e construção da realidade por meio de atores sociais. Isso também se deu por movimentos de resistência. Tanto que se fala de protagonismo feminino, protagonismo negro, protagonismo rural, e protagonismo juvenil, dentre outros.

No nosso caso, ou seja, no campo da educação, o termo protagonismo juvenil designa a atuação dos jovens como personagem principal de uma iniciativa, atividade ou projeto voltado para a solução de problemas reais. O cerne do protagonismo, portanto, é a participação ativa e construtiva do jovem na vida da escola, da comunidade ou da sociedade mais ampla. (COSTA, 2019, s. p.).

Mas, de alguma forma, e em meio aos conflitos que circundam a ideia de juventude (conceito social, histórico, e ainda bastante atrelado a rebeldia e a incompletude), esta foi convocada ao protagonismo por forças neoliberais. No entanto, para compreendermos como o discurso do protagonismo, advindo das peças gregas para se referir ao ator principal, em torno do qual girava toda narrativa da história e aquele que tinha maior atuação, chega aos jovens e opera como dispositivo de captura destes, é preciso considerar também que,

se pensarmos no contexto político e social, mutatis mutandis, o protagonista é aquele que intervém em um espaço social onde outros atores também atuam. Desse modo, as relações de poder – seguindo uma perspectiva foucaultiana – se dariam nas relações de força entre diversos atores inseridos em um cenário social, que é constituído, produzido e organizado pelas suas próprias relações/ações (GOULART; SANTOS, 2014, p. 130).

forças. Por isso não há uma pacífica naturalização do discurso, mas uma agonística. Para melhor compreendermos as forças que se engendram no processo de subjetivação dos jovens como protagonistas, é fundamental entendermos como o jovem surge como categoria social de interesses neoliberais.

O discurso do Protagonismo Juvenil encontrou um território fecundo para sua propagação a partir do início do processo de industrialização, onde a ideia sobre juventude era, exclusivamente, como sendo uma fase de transição, corroborando com a ideia de preparação para a vida adulta, discurso que se conforma aos interesses da sociedade industrial (SOUZA, 2006b).

No caso específico do Brasil, no final do século XX, alguns episódios sociais foram corroborando para a ideia de salvação dos jovens por meio do ―empowerment/ empoderamento‖, termo adotado pelas ―Agências de Cooperação Internacional (Organização das Nações Unidas, Banco Mundial, UNESCO, etc.)‖ (GOULART; SANTOS, 2009) e do novo disfarce de super-herói, chamado Protagonismo Juvenil, sendo este termo relacionado a ―um tipo de ação de intervenção no contexto social para responder a problemas reais onde o jovem é sempre o ator principal‖ (COSTA, 1999, s.p.). Foi uma empreitada por salvar os jovens tornando-os salvadores do mundo, mas, sobretudo, de si mesmos.

Nos anos de 1990 alguns acontecimentos chamaram atenção da sociedade brasileira e ―pasmaram‖ a classe politica fazendo surgir políticas públicas de juventude: os massacres de Vigário Geral e Candelária (1993), as rebeliões na Fundação Estadual de Bem-estar do Menor (FEBEM) e o lamentável episódio do assassinato do Índio Galdino por jovens brasilienses em 1997 (CASTRO, 2008). Vale ressaltar que as políticas públicas para juventude, categoria pouco entendida e aceita como sujeito social, surgiram na década de 1990 já transformando os jovens em responsáveis por si e por seu futuro uma vez que tais políticas já se arquitetavam sob a égide do Protagonismo Juvenil, a partir das propostas da UNESCO, como nos aponta Castro (idem).

Se antes a juventude era um público a ser protegido, agora passa a figura como uma categoria de atores políticos, estratégicos para os avanços sociais e desenvolvimento do país, num desdobramento que evoca uma cartilha sobre o que é ser jovem e o que dele se espera, e o que ele mesmo deve esperar de si, performatizando os corpos (PINTO, 2013) e apontando para uma estética do viver, ou para melhor dizer, do bem viver jovem.

Durante um dos grupos de problematização, alguns enunciados fora surgindo como indicadores desta cartilha do Jovem empreendedor:

Aluna 05 – Responsáveis. Aluna 09 – Protagonista.

Aluna 02- Saber o que a gente quer já. Aluna 09 – saber dar exemplo, ser exemplo. Aluna 03- Modelo de cidadão.

Aluna 02- Eu acho que na escola eles tentam mostrar um padrão pra gente poder seguir (GRUPO DE PROBLEMATIZAÇÃO, 04.11.2019).

Do jovem protagonista é esperado uma performance que beira a redenção. Afinal ele é o futuro da nação. É dele as condições de melhorar o mundo e garantir a construção de uma ―humanidade mais humana‖.

No grupo de problematização que tratamos sobre o protagonismo, pedimos aos jovens que desenhassem um alvo, que representaria cada um deles, e as flechas, que seriam os discursos que incidem sobre eles. Gostaríamos de trazer algumas dessas representações que traduzem um pouco de como os jovens vão percebendo, em seus corpos, as incidências dos discursos.

Figura 4 – Representação sobre as flechas do discurso

Figura 5 – Representação sobre as flechas do discurso

Figura 6 – Representação sobre as flechas do discurso

Fonte: Aluno durante Grupo de Problematização

Figura 7 – Representação sobre as flechas do discurso

Figura 8 – Representação sobre as flechas do discurso

Fonte: Aluno durante Grupo de Problematização Fonte: Aluno durante Grupo de Problematização

Enquanto as políticas públicas dizem que as novas configurações sobre a juventude busca ―dar voz‖ a estes ―sujeitos‖, o que vemos é um movimento de reverberação encarnado nos modos de vidas dos jovens que, ao encarnarem em si tal discurso o fazem novamente ecoar, numa espécie de ecolocalização subjetiva, para que possam, a partir deste discurso exterior interiorizado, dizer quem são, o que querem, de que gostam e qual a melhor vida para ser vivida, uma vez que as políticas públicas, ao inscreverem os jovens como protagonistas sociais, produzem estratégias de governo por meio da legitimação dos modos de vida desta população (GONZALES; GUARESCHI, 2007)

Daí, entendemos que o Protagonismo Juvenil se constitui como técnica de governo (FOUCAULT, 2010b) que e essas tecnologias para a produção de humanos que, para Rose (2001, p.38) é ―qualquer agenciamento ou qualquer conjunto estruturado por uma racionalidade prática e governado por um objetivo mais ou menos consciente‖.

Aqueles que eram vistos como baderneiros, incorrigíveis, jovens problemas, os simplesmente jovens, agora eram convocados a serem os protagonistas de um novo mundo. Houve (e há) um movimento que buscou (e busca) legitimar os jovens como sendo o futuro da humanidade, isto quando se torarem adultos, enunciando que neles reside o sonho de um futuro ―melhor‖ e, embora esta visão de jovens coexista com de que eles ainda são os rebeldes e baderneiros, uma nova configuração discursiva parece operar na atualidade por meio do apelo de que, este futuro seja agora e invita os jovens a serem a salvação hoje, num jogo de ―o futuro começa agora‖. Os diferentes modos de subjetividade dos jovens coexistem, no entanto atentamos, neste trabalho, para as condições de possibilidade de se forjar uma subjetividade neoliberal a parir de discursos potentes de captura dos jovens, como os do protagonismo juvenil e empreendedorismo, que nos parecem operar de forma lógica e produtiva neste cenário.

O Protagonismo Juvenil chega às escolas já em 1998, por ocasião da publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – DCNEM (BRASIL, 1998) que buscam implementar as inovações sugeridas pelas Agências de Cooperação Internacional. Mas foi no cenário das discussões sobre o Plano Nacional da Juventude, no ano de 2003, que ainda tramita no congresso, e da aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 042/2008 que deu origem à Emenda Constitucional nº 065/2010, que a política publica pra juventude se entrelaça definitivamente às políticas públicas de educação.

O Plano Nacional da Juventude47, prevê, por exemplo, ações no âmbito da educação

47

Disponível no site da Câmara Federal: <

que incentive a emancipação, a garantia do emprego, o exercício da cidadania por meio do protagonismo, incentivo à formação permanente e ao empreendedorismo juvenil. Bem sabemos que este plano ainda não está em vigor, mas suas perspectivas se encontram capilarizadas nos discursos e são retroalimentas na sociedade profusamente inventiva e nutrida de discursos.

Nessas perspectivas o jovem teria que se inventar num cenário cuja principal habilidade necessária seria a de negociar as condições de vir a ser um cidadão, um sujeito (SOUZA, 2006b).

Costa (2011) ainda nos dirá que alguns preceitos difundidos na essência do conceito de juventude e fazendo surgir suas vidas, foram se configurando com o tempo. Esses preceitos estavam relacionados com o imediatismo, ―a fim de garantir um futuro promissor aos jovens; um horizonte de aprendizagem ininterrupta e infinita, que possa atualizar suas demandas particulares contiguamente aos interesses coletivos‖ (p. 246). Estas seriam as condições para a fabricação do jovem cidadão.

Segundo Souza (2006b) o Protagonismo Juvenil se constitui numa modalidade discursiva que busca construir um modelo de cidadania que abarca e coloca na vanguarda os jovens, num contexto neoliberal que ―convida‖ os jovens a se tornarem atores das ações política e econômicas transformadoras da realidade.