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2 CONCEITOS FOUCAULTIANOS: SABER, PODER, GOVERNO,

2.1 Arqueogenealogia: abrindo veredas, reconhecendo tessituras,

Toda escrita tem um tom, um estilo. Por conseguinte, toda Tese há de ter um tom. Ter tessituras e matizes que a torna o que é. Ao passo que é nova é também, ela própria, marcada na história por tantas outras histórias e fruto de ideias antigas que, negadas ou reafirmadas, garantem que o novo não necessariamente seja a ausência do que já fora pensado. Essa Tese também tem seu tom. É o tom da resistência foucaultiana que entendeu que a verdade podia ser questionável, em uma insistência cética (DREYFUS; RABINOW, 2013) e que, antes de ser uma legitimidade ontológica, é forjada na história.

Entendemos que no caminhar desta Tese estão presentes os três eixos organizadores do trabalho de Foucault, que se constituem em três tons distintos, mas miscelanizados de tal forma que, aqui, encontram-se indissociados: um tom arqueológico, na medida em que lidamos com o saber e suas potências de verdade; outro genealógico, que toma o poder e sua potência subjetivante por meio dos discursos e dos dispositivos; o terceiro tom fica por conta da estética da existência, aqui mais precisamente a estética das existências dos jovens, das vidas juvenis pré-existente nos discursos.

Caracterizamos a primeira fase dessa Tese, a que se refere ao ―Marco Teórico‖, nas proximidades de uma arqueogenealogia, por suas pretensões de lidar com os registros históricos, os enunciados, historicizar o presente e atentar para as condições de possibilidade, que permitem a operação de discursos com clara proposição de captura das experiências juvenis, que no cenário das escolas configuram-se como discursos que fomentam sonhos e uma nova estética do bem viver jovem.

Buscaremos caracterizar, brevemente, arqueologia e genealogia na perspectiva foucaultiana para melhor vislumbrarmos essa miscelânea de tons. Vale ressaltar que situarmos esse primeiro momento da Tese como um movimento arqueogenealógico se dá muito mais por estarmos perdidos2 no emaranhado conceitual, do que pretensões de rito metodológico sistemático.

Vamos então ao que compreendemos por arqueologia e genealogia nesta Tese, e o

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Perdido aqui no sentido de envolvidos. Buscando não fragmentar os movimentos de construção. Sem qualquer interesse de ser ―uma coisa ou outra‖. Perdido, inebriado, enlaçado. Envolvido ao ponto de ser indistinto.

porquê de termos escolhido esse caminho inicialmente. Segundo Gregolin (2004, p. 86), o arqueólogo teria como trabalho ―apanhar o sentido do discurso em sua dimensão de acontecimento‖. A noção de acontecimento acompanha Foucault desde os seus primeiros trabalhos, ao tempo em que buscava inaugurar uma nova história, um novo caminhar investigativo. Foucault trilha um caminho diferente do estruturalismo que propunha vê os discursos como homogêneos e fechados, e passa a ver os enunciados pelo viés do acontecimento, que é, ao mesmo tempo, singular, mas impossível de separar-se do todo histórico. Buscou romper com a ideia de uma singularidade única, atentando para o momento de sua produção na história, pondo os enunciados na roda da problematização (FOUCAULT, 2008c; 2011d). É então que as eventualidades discursivas passam a ser objeto de análise sob a lente das condições históricas e sociais sob as quais se dão. Em Foucault (2011d) o enunciado ganha status de acontecimento e o arqueólogo deve então atentar para as relações do enunciado com outros enunciados (considerando-os como acontecimentos discursivos) dispersos na teia social, ainda que estes sejam divergentes ou estejam em domínios diferentes.

Não se trata de busca a origem, mas interrogar o dito. Vejamos o que diz Foucault:

(...) esse termo [arqueologia] não incita à busca de nenhum começo; não associa a análise de nenhuma exploração ou sondagem geológica. Ele designa o termo geral de uma descrição que interroga o já dito no nível de sua existência; da função enunciativa que nele exerce, da formação discursiva a que pertence, do sistema geral de arquivo de que faz parte (FOUCAULT, 2008c, p.161).

Na verdade, a arqueologia tem especificidades, dentre elas está a crítica do saber, ou seja, a investigação do que tornou possível que algo tenha sido dito em determinado campo do saber ou momento histórico (FOUCAULT, 2008c). Aqui o trabalho com documentos se faz fundamental elemento de problematização. No entanto, não é visto como algo estático, inerte e que revela a verdade do passado. O arqueólogo passa a vê-lo como séries, unidades e relações, com múltiplas rupturas (FOUCAULT, 2008c). Assim,

A descrição arqueológica pode ser caracterizada, então, como uma atividade de reescrita da história no plural, sem pretensão de tornar-se universal. Percorre o eixo prática discursiva - saber - ciência, considerando o campo discursivo científico exatamente em sua existência histórica. Debruçar-se sobre a história, e a existência histórica dos saberes possibilita, assim, o aparecimento das relações entre os domínios discursivos e não discursivos no campo da produção dos objetos de saber (CUNHA; LUZIO; PAIVA CRUZ, 2014, p. 95).

A genealogia, por sua vez, traz à tona a questão do poder e de suas relações com o saber e destes em relação entre si. (MACHADO, 2011). A genealogia configura-se como a história das transformações. Atenta para as descontinuidades, abandonando as verdades dogmáticas e essenciais para operar com deslocamentos, portanto ―é exatamente contra os efeitos de poder próprios de um discurso considerado científico que a genealogia deve travar o combate‖ (FOUCAULT, 1999b, p.14), colocando em evidência o jogo de forças que operam

na produção do regime de verdade.

A genealogia seria, nos termos de Foucault (2009b), um processo de destituição das evidências, um movimento pelo qual se ―reintroduza o descontínuo em nosso próprio ser, que faça ressurgir o acontecimento no que ele tem de único e agudo‖ (1979, p. 28), é atentar para as emergências, para a agonística. É provocar uma fissura nas relações deterministas, problematizando as relações de saber-poder que forjam as realidades, os saberes e as subjetividades (Idem).

A genealogia também abandona a busca pela origem. ―Em vez de origens, significados escondidos ou intencionalidade explícita, [ver] relações de força, funcionando em acontecimentos particulares, movimentos históricos e história‖ (DREYFUS; RABINOW, 2013, p. 145). Também a genealogia está implicada de uma tarefa crítica. De um lado, a crítica da análise se encarrega das regularidades discursivas, de suas incidências recorrentes; de outro a parte genealógica

(...) se detém, em contrapartida, nas séries da formação efetiva do discurso: procura apreendê-lo em seu poder de afirmação, e por aí não entendo um poder de negar, mas o poder de constituir domínios de objetos, a propósito dos quais se poderia afirmar ou negar proposições verdadeiras ou falsas (FOUCAULT, 2003a, p. 69-70).

A genealogia também lida com os acontecimentos. Esses são centrais em seu movimento, mas aqui são considerados a partir das mudanças em uma rede de forças. Foucault (2011d) vai nos dizer da necessidade de vermos o acontecimento como ―uma relação de forças que se inverte, um poder confiscado, um vocabulário retomado e voltado contra seus utilizadores, uma dominação que se enfraquece, se distende, se envenena e uma outra que faz sua entrada, mascarada‖ (p. 28).

Nesse contexto a palavra força entra no vocabulário foucaultiano como sendo aquilo que garante o funcionamento da engrenagem, o que possibilita um ato acontecer. Mas também remete àquilo que pode favorecer as mudanças de um ato, seja em sua direção, intensidade ou qualidade. As forças nunca se isolam, estão sempre em constante relação. É no movimento genealógico que atenta para os acontecimentos enquanto uma relação de forças, que nos depararemos com a temática do poder, que perpassará tanto a fase arqueogenealógica, como cartográfica desta Tese.

Contudo, retomando nossa compreensão acerca da genealogia, recorremos ao pensamento de Lobo (2012) quando aproxima a genealogia do fazer de detetives, uma vez que segue pistas praticamente invisíveis, imprimem no fazer genealógico a tarefa de ―esculpir rastros, traçados nos documentos, em séries, em séries de séries‖ (p. 16). Um fazer minucioso e atento, mas sem pretensões de totalidade.

Na genealogia, Foucault buscou dar ―mais atenção àquilo que condiciona, limita e institucionaliza as formações discursivas‖ (DREYFUS; RABINOW, 2013, p. 139), por isso esse movimento é tão necessário no contexto dessa Tese, uma vez que operamos a partir de discursos institucionalizados e revestidos de verdade no cenário fecundo das instituições escolares. A genealogia ―recorda o passado da humanidade para desmascarar os hinos solenes do progresso‖ (idem, p. 142).

Em suma, ―a arqueologia seria o método próprio das análises das discursividades locais e a genealogia seria a tática que, a partir das discursividades locais assim descritas, colocam os saberes em jogo, liberados da sujeição que surgem delas‖ (FOUCAULT, 1993, p. 17). Daí entendermos que as duas são complementares e potentes nesse processo investigativo. Pensar, portanto, uma fase arqueogenealógica para esta Tese é pensar um movimento que busca romper com a perspectiva linear da história, operando com a multiplicidade dos acontecimentos e suas tensões e emaranhado de forças, de seu aparato de poder, a partir de documentos e das verdades instituídas por eles.

Assim entendemos um referencial teórico: um fazer pesquisa, esculpir rastros e conectar pistas para entendermos o presente. É atentar para as condições de possibilidade que forjaram a realidade e as verdades que operam com potência de subjetivação por meio do aparato de saber-poder.