Capítulo 2. Entre a aliança e desavença: a Inglaterra
2.3. A Inglaterra aliada
2.3.2. A Inglaterra como paradigma: representações
2.3.2.4. Apesar do Ultimatum de
668 O autor crê que a união de Portugal e Espanha, qualquer que fosse a forma política empregada, ditaria o fim
da independência nacional: «Para nós os portuguezes um tal pacto seria a perda da independencia, e uma diminuição de liberdade. Desappareceria por essa fórma o direito que nos dá a nossa soberania nacional. Podemos dar aos homens publicos, que em Hespanha formam o desejo de ver constituida uma federação, um
dualismo das duas nações peninsulares, uma breve resposta. — Vivemos e temos vivido sempre tendo interesses políticos completamente separados dos da Hespanha. (João de Andrade Corvo, Perigos, Lisboa, Tipografia
Universal, 1870, p. 103-104).
669 Veja-se, a respeito do valor da aliança luso-britânica para a estratégia colonial gizada por Andrade Corvo
enquanto manteve a pasta dos Negócios Estrangeiro, a dissertação de mestrado de Maria Leonor Avilez, subordinada ao tema João de Andrade Corvo e a aliança inglesa (1998).
670 Idem, ibidem, pp. 147-148.
671 Cf. Idem, ibidem, p. 159: «Então a grande nação, convencida de que a paz é necessária á prosperidade do
mundo, de que no direito está a grande força dos povos livres, tomará, esperamol-o, o seu logar e porá a sua grande auctoridade e o seu grande poder ao serviço da causa da civilisação. Na Inglaterra, assim despertada pela angustiada voz dos povos, Portugal encontrará sempre a sua poderosa e fiel alliada de tantos seculos.»
Os acontecimentos que confluíram no fatídico dia 11 de janeiro de 1890 frustraram as esperanças de João de Andrade Corvo, não só relativas à representação de Portugal no centro de decisão europeu mas também quanto aos esforços encetados enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros no sentido de fortalecer a aliança com a Inglaterra. A indignação e o sentimento de humilhação causados pelo Ultimatum britânico deram origem a uma série de movimentos e de escritos de feição patriótica e antibritânica. No entanto, os gritos de guerra, de ódio e de vingança não ocorreram em uníssono. Algumas vozes destoantes, como as de Antero de Quental e de Eça de Queirós, clamaram pela «expiação» das culpas próprias e pela regeneração nacional.
«Expiação»672 é, pois, o título do artigo em que Antero de Quental, em 1890, reflete
sobre a reação nacional ao Ultimatum. Além de alertar para a ação inteligente e para o «ato de contrição da consciência pública», censura a atitude nacional de culpabilização do outro: «O nosso maior inimigo não é o inglês, somos nós mesmos. Só um falso patriotismo, falso e criminosamente vaidoso, pode afirmar o contrário.» 673 Não querem estas palavras
significar que o poeta-filósofo iliba a Inglaterra de qualquer responsabilidade. Em discurso apresentado à Liga Patriótica do Norte, na sessão de 7 de março daquele ano, Antero contesta «o insulto e a vilania da Inglaterra», mas acrescenta que de nada valem os «ímpetos da indignação» ou o «protesto violento e estéril» se nenhuma lição se retirar do sucedido e se a exaltação patriótica não for dirigida a um processo de emancipação, de reconquista da independência e de ressurgimento nacional.674
De conteúdo semelhante é o artigo «O Ultimato», de Eça de Queirós, publicado na Revista de Portugal sob o pseudónimo de João Gomes. Apesar de não poupar críticas ao imperialismo britânico, no que concerne ao Ultimatum a sua atitude é moderada, tratando a questão de forma singular, desapaixonada, racional e realista, na linha dos textos reunidos nas Crónicas de Londres e nas Cartas de Inglaterra, ou seja, distanciando-se do nacionalismo exacerbado e analisando a questão não apenas do ponto de vista português mas com maior abrangência. Depois de elogiar o movimento nacional suscitado pelo ultimato, reflete sobre as «direções desviadas, transversais, inúteis» que o mesmo movimento poderá seguir em consequência de uma ação irrefletida e emocional: «Quando porém professores
672 Texto publicado em número extraordinário do jornal Província, 26 de janeiro de 1890. 673 Antero de Quental, «Expiação», in Prosas sócio-políticas, ed. cit., pp. 447-448.
674 Antero de Quental, «Discurso lido na sessão de 7 de março da Liga Patriótica do Norte pelo seu presidente
dos Liceus reclamam, como defesa nacional, que se elimine a língua inglesa do ensino das línguas vivas — estamos já diante, não de um ato de patriotismo, mas de ignorantismo. E quando as atrizes dos teatros, para mostrar como Portugal sabe repelir um ultraje, resolvem por declaração pública retirar do palco os seus sorrisos desde que surja na plateia um espetador inglês — estamos diante de um ato positivamente risível.»675 Eça desafia os
portugueses a definirem, racionalmente, a direção que pretendem seguir para o despertar da nação, considerando que a injúria, o ódio ou o boicote à Inglaterra não farão Portugal ultrapassar a grave crise que então atravessa, servindo apenas para agravar o atual estado de dependência dos mercados. Apela, assim para a realidade: a Inglaterra é «o mais forte dos Impérios» e Portugal um «frágil Reino», pelo que se os portugueses desejam conquistar o respeito, devem abandonar as ações pueris («chamar nomes») e o ódio «que nada cria e tudo esteriliza».676 À semelhança de Antero, observa o escritor que a única forma de vingar
Portugal é pela sua regeneração, gerando riqueza, fundando indústrias, reformando o ensino e criando «hábitos de energia e disciplina, ordem, força, perseverança».677 Em escritos
anteriores a esta data, Eça de Queirós já mostrara a ambiguidade da sua relação com a Inglaterra. Embora não poupasse críticas à sua política externa, bem como ao clima, à culinária e aos caracteres britânicos, expressava todavia profunda admiração pela sua cultura e vida intelectual, conforme demonstra em carta a Mariano Pina: «Eu detesto a Inglaterra, mas isso não impede que ela seja, como nação pensante, talvez a primeira»678; ou no artigo
«O francesismo», afirmando ser a literatura inglesa «incomparavelmente mais rica, mais viva, mais forte e mais original»679 do que a francesa.
Também o insuspeito Oliveira Martins se rendeu, mesmo que comedidamente, à superioridade britânica. No livro onde reuniu as suas cartas de viagem à Inglaterra, A Inglaterra de hoje (1893), embora predomine a crítica aos costumes e instituições britânicas, descobre-se um tímido elogio à grandiosidade da sua capital, a determinados aspetos da sua
675 Eça de Queirós, «O Ultimato», in Cartas inéditas a Fradique Mendes e mais páginas esquecidas, 2.ª ed.,
Porto, Livraria Lello & Irmão, 1929, p. 279.
676 Idem, ibidem, p. 285. 677 Idem, ibidem, p. 295.
678 Carta de Eça de Queirós a Mariano Pina, escrita em Bristol em 7 de junho de 1885, in Eça de Queirós,
Correspondência, org. e notas de A. Campos Matos, vol. I, Lisboa, Editorial Caminho, 2008, p. 367.
cultura, nomeadamente da arquitetura, da pintura e da educação inglesas, e, mais entusiasticamente, às feições das suas crianças e mulheres.680
É indubitável que a aliança anglo-lusa sobreviveu ao Ultimatum. Para esse facto concorreu, necessariamente, o papel desempenhado por D. Carlos no reforço das relações diplomáticas, em ordem a assegurar a presença de Portugal nos centros de decisão europeus e internacionais. Como sinal da vitalidade da aliança, em 14 de outubro de 1899, através de uma declaração secreta, foram ratificados os tratados de 1642 (Paz e Comércio) e de 1661 (Paz e Amizade) e, em 16 de novembro de 1904, foi celebrado o segundo Tratado de Windsor, pelo qual se reafirmava a aliança e a amizade anglo-lusas e se acordava a submissão de ambas as partes ao Tribunal Permanente de Arbitragem para a resolução de qualquer litígio ou divergência, de maneira a «desviar quanto possível de suas mútuas relações tudo o que possa concorrer a entibiar ou enfraquecer tal amizade e aliança»681.
Apesar do número exponencial de textos de censura e ataque à Inglaterra dados à estampa depois do memorando de 11 de janeiro de 1890, o facto de perdurarem discursos onde a admiração pela Inglaterra está bem presente não pode deixar de ser sintomático da ambivalência das representações daquela nação na literatura. O tipo de discurso que vigorará no início do século XX acentuará, cada vez mais, a superioridade moral e intelectual da Inglaterra, em detrimento das demais potências europeias, na linha das considerações tecidas por Augusto Fuschini no termo do século XIX, em O presente e o futuro de Portugal. É sobretudo nos planos da educação e do respeito pelas liberdades que a Inglaterra assume, nesta obra, o título de «nação-modelo». A título de exemplo, ao refletir acerca da importância da educação cívica para o progresso moral e científico de uma nação, o escritor dá o exemplo do sistema britânico, que considera exemplar:
A educação ingleza n'este sentido é, talvez, a mais completa. O respeito pelos direitos individuaes e pelo self-government — traduzamos: o exercicio da fracção de soberania inherente a cada individuo — applicado a todas as funcções sociaes de caracter administrativo ou politico, o culto das tradições nacionaes, conservadas quasi com espirito religioso, o proprio ensino das sciencias estadisticas, fazem da familia ingleza, principalmente nas classes preponderantes que constituem a poderosa
680 Oliveira Martins, A Inglaterra de hoje (cartas de um viajante), Lisboa, Livraria de António Maria Pereira,
1893.
oligarquia d'aquela grande nação, excellente modelo do primeiro grau da educação civica.682
Intimamente relacionada com a educação cívica está o exercício da cidadania, concretizada na participação em atos públicos e na livre discussão e partilha de ideias. A este respeito, o autor enaltece a prática inglesa do meeting, a reunião ou assembleia pública, enquanto primeiro sinal de liberdade de opinião e de discussão de ideias, ou seja, de uma sã vida política, que considera inexistente em Portugal, mas que sobeja, uma vez mais, na Inglaterra:
Todos os que teem viajado em Inglaterra, paiz por excellencia de opinião publica, ou estudado os seus costumes politicos, admiram, por certo, o amplo direito de reunião garantido aos cidadãos inglezes. [...].
Assim, se manifestam, desenvolvem e fortalecem as qualidades excepcionaes do caracter inglez, o respeito profundo pelas liberdades individuaes e collectivas, alliado ao amor das tradições nacionaes, a tendencia de cada um se considerar elemento autonomo, independente e activo, sem invadir a esphera de actividade de outrem, a disciplina moral, o espirito de methodo e de ordem, o próprio orgulho de raça e de nacionalidade, se quizerem, que fizeram de cada homem um cidadão e do conjunto dos cidadãos poderosa individualidade nacional.683
Em outro capítulo da extensa obra, numa reflexão sobre as «nações moribundas», anuncia assertivamente ser a Inglaterra, se não a mais viva, a mais poderosa entre as demais, «pela atividade e energia do espirito, pela grandeza dos dominios, pela infinita riqueza dos capitaes, pela excepcional situação geographica e pelos colossaes recursos da forma armada»684.
O discurso conduzido por Augusto Fuschini, denunciador do atraso ou estado de decadência de Portugal mediante a comparação com outras nações europeias, particularmente com a Inglaterra, terá continuidade nos decénios seguintes, sendo partilhado por intelectuais distintos que, apesar das respetivas idiossincrasias, também pensaram o passado, o presente e o futuro de Portugal, como Fernando Pessoa e António Sérgio.
2.4. A reconfiguração da aliança no século XX
682 Augusto Fuschini, O presente e o futuro de Portugal, Lisboa, Companhia Tipográfica, 1899, p. 326. 683 Idem, ibidem, pp. 332-333.