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Capítulo 2. Entre a aliança e desavença: a Inglaterra

2.1. Episódios de «uma velha aliança» 411 (1294-1703)

As relações luso-britânicas são antigas e contemporâneas do processo de formação do reino de Portugal. Tiveram origem em intercâmbios comerciais, seguidos de «uma fraternidade de armas nascida de um incidente das Cruzadas»412, sendo conhecida a

intervenção inglesa no processo da reconquista do território ocupado pelos mouros, nomeadamente de Lisboa (1147) e, mais tarde, de Silves (1189), bem como no da colonização do reino. 413

O início oficial das relações diplomáticas data de 17 de fevereiro de 1294, com a celebração de um tratado de comércio que visava colmatar dissensões entre os mercadores e assegurar os interesses de ambas as partes.414 A primeira aliança não exclusivamente

comercial firmada entre as duas Coroas foi celebrada em Tagilde, em 10 de julho de 1372, entre D. Fernando I e o duque de Lencastre (representados por João Fernandes Andeiro e Roger Hoor) no contexto da disputa pelo trono de Castela, entretanto ocupado por Henrique de Trastâmara, na sequência da morte de Pedro, o Cruel.415 É com base neste tratado que, em

411 A expressão «velha aliança» aplicada às relações entre Portugal e Inglaterra é título de uma obra de Eduardo

Brazão, Uma velha aliança (1955).

412 Edgar Prestage, A aliança anglo-inglesa, trad. de A. Gonçalves Rodrigues, 2.ª ed., Coimbra, [s. n.], 1943,

p. 7. Por «incidente», o autor quer reportar-se ao acaso que, no ano de 1147, levou uma expedição de navios que rumava à Terra Santa com soldados ingleses e de outras nacionalidades a aportar no Douro e que, por solicitação do bispo do Porto seguiu para o Tejo em auxílio de D. Afonso Henriques. Naquele ano, Lisboa foi conquistada aos Mouros. A tomada de Lisboa foi pormenorizadamente descrita por um cruzado, em carta dirigida a um clérigo inglês de nome Osberno de Bawdsey, conhecida sob o título de De expugnatione

Lixbonensi. O texto, que será o primeiro testemunho conhecido que documenta as relações entre Portugal e

Inglaterra, foi traduzido e devidamente anotado por Aires Augusto Nascimento, A conquista de Lisboa aos

Mouros. Relato de um cruzado, 2.ª ed., Lisboa, Nova Vega, 2007.

413 Álvaro Dória, «Inglaterra, relações de Portugal com a», in Joel Serrão (dir.), Dicionário de História de

Portugal, vol. III, ed. cit., pp. 320-325; Eduardo Brazão historia a génese das relações entre Portugal e a Inglaterra em Uma velha aliança, Lisboa, Neogravura, 1955, pp. 17-33. Ainda sobre este assunto, revela-se bastante interessante o contributo de Jennifer Goodman Wollock, com o ensaio «A Inglaterra e a Península Ibérica medievais: uma relação cavaleiresca», integrado na coleção coordenada por María Bullón-Fernández e intitulada A Inglaterra e a Península Ibérica na Idade Média, séculos XII-XV. Intercâmbios culturais, literários e políticos, Mem Martins, Publicações Europa-América, 2008, pp. 23-39. Também o texto introdutório de

Aires Augusto Nascimento à tradução da carta que relata a conquista de Lisboa, que acima mencionámos, concorre de forma bastante elucidativa para a apreensão do contexto em que ocorreu a tomada de Lisboa. Cf. Aires Augusto Nascimento, op. cit., pp. 9-51.

414 Até 1386, ano em que se firmou o primeiro Tratado de Paz e Aliança entre os dois países, foram celebrados

outros tratados de comércio que estreitaram as relações entre Portugal e a Inglaterra, nomeadamente em 1308, reafirmando o anterior; e em 1353, com a celebração de um acordo comercial. Por ocasião da Guerra dos Cem Anos (1337-1453) procurou o rei de Inglaterra Eduardo III, nos primeiros anos desta disputa, formar uma aliança com D. Afonso IV, embora sem sucesso.

415 Assassinado pelo meio-irmão Henrique de Trastâmara, Pedro I de Castela não deixou descendentes,

suscitando a disputa do trono castelhano pelo próprio Henrique, que viria a ser coroado, por João de Gante, duque de Lencastre (filho de Eduardo III de Inglaterra e casado com Constança de Castela, filha de Pedro I), por Pedro de Aragão e por D. Fernando I de Portugal (que reclamava o trono por ser bisneto de Sancho IV de

1383, na sequência da morte de D. Fernando e da crise dinástica daí advinda, o Mestre de Avis, pretendente ao trono português na qualidade de filho ilegítimo de D. Pedro I, solicita auxílio militar a Ricardo II de Inglaterra contra João I de Castela, também ele reclamante da coroa portuguesa por casamento com D. Beatriz de Portugal. A vitória portuguesa na Batalha de Aljubarrota assegurou a independência de Portugal, para o que terá sido determinante a intervenção militar inglesa, e a aclamação do Mestre de Avis como rei. No seguimento destes acontecimentos, formalizou-se, em 9 de maio de 1386, um tratado de paz e aliança entre D. João I e Ricardo II, comummente denominado de Primeiro Tratado de Windsor, o qual estatuía:

entre os mesmos reis e seus herdeiros e sucessores e vassalos de ambos uma liga, amizade e confederação real e perpétua, e com os aliados deles, de maneira que um seria obrigado a prestar auxílio e socorro ao outro contra todos os que tentassem destruir o estado do outro, excepto, porém, contra o soberano pontífice actual, Urbano (VI), e seus sucessores, e Wenceslau, rei dos romanos e a Boémia, e João, Rei de Castela e de Leão, duque de Lancastre, tio de El-Rei de Inglaterra.416

No mesmo ano da celebração do Tratado de Windsor, a aliança foi reforçada por um pacto matrimonial que assegurava o casamento de D. João I com Filipa de Lencastre. O enlace veio a acontecer no dia 2 de fevereiro de 1387. Álvaro Dória, na sua síntese da história das relações de Portugal com Inglaterra, assinala os «benéficos efeitos» deste casamento real no decurso da história nacional: «Nunca como então foi tão grande a influência inglesa em Portugal, que se fez sentir na arte da guerra, na organização militar, nas letras e nos

Castela). Depois da celebração do tratado em Tagilde em 10 de julho de 1372 e antes de este ser ratificado pelo duque de Lencastre, Henrique da Trastâmara invadiu Portugal e cercou Lisboa, forçando D. Fernando a assinar o Tratado de Santarém em 1373, estabelecendo um acordo de paz entre Portugal e Castela que se revelaria efémero. Pelo Tratado de Tagilde, ambos fizeram promessa de «que fossem boons leaaes fieles e verdadeiros amigos pera senpre e que se amassem bem e uerdadeyramente e que em nehuum tempo non fossem huum contra o outro nem contra seus Regnos e sucessores e herdeiros», e comprometeram-se a comum auxílio «pera senpre per mar e per terra contra dom henrrique que se ora chama Rey de Castella e contra don Pedro daragom» e a nunca «fazer paz nem trégua com o dito dom henrrique nem com o dito Rey daragom sem consentimento do outro» (Sérgio da Silva Pinto, Tratado de Tagilde de 10 de Julho de 1372: subsídios para a história das

relações jurídico-políticas anglo-portuguesas, sept. de Scientia Iuridica (Ano II, fasc. 6.º, outubro-dezembro

de 1952), Braga, 1952, pp. 15-16).

416 «Tratado de 1386», in Eduardo Brazão, op. cit., p. 78. O diploma foi ratificado em 1403 por Henrique IV

de Inglaterra, ainda durante o reinado de D. João I, e consecutivamente em 1435, 1436, 1439, 1440, 1471, 1482, 1489 e 1499, segundo informação de Álvaro Dória, «Inglaterra, relações de Portugal com a», in Joel Serrão (dir.), Dicionário de história de Portugal, vol. III, ed. cit., p. 322a. Veja-se, sobre este tratado em pormenor, o breve estudo de Luís Adão da Fonseca, O essencial sobre o Tratado de Windsor, Lisboa, INCM, 1986.

costumes»417. Outro dos «benéficos efeitos» seria apontado por Camões através expressão

«ínclita geração», reportando-se aos filhos de D. João I e D. Filipa de Lencastre — D. Duarte, o infante D. Pedro, o infante D. Henrique, D. Isabel, o infante D. João e o «Infante Santo» D. Fernando —, os quais se distinguiram pela sua educação e características exemplares e inauguraram uma «idade de ouro» da história de Portugal.418

Até à unificação de Portugal à Coroa castelhana, a aliança anglo-portuguesa foi invocada e usufruída por ambas as partes em diversos momentos.419 A reforma da Igreja

operada na Inglaterra, iniciada com a separação de Roma durante o reinado de Henrique VIII em 1534 (com o cisma da Inglaterra) e concretizada pela rainha Isabel I (que por isso é considerada a fundadora da Igreja Anglicana), associada à coroação do católico Filipe II de Castela como rei de Portugal determinaram a suspensão das relações anglo-portuguesas. Enquanto permaneceu sob o domínio castelhano, Portugal foi hostilizado pela Inglaterra. Esta, por sua vez, tendo perdido o acesso aos portos portugueses, desenvolveu o seu próprio projeto de expansão marítima, concorrente com o português, que se traduziu, também, na prática da pirataria contra as frotas peninsulares. A independência de Portugal e a subida ao trono de D. João IV permitiram o reatar das relações entre os dois reinos em 29 de janeiro de 1642, com a celebração de um tratado de paz e de comércio. Nesse mesmo ano, iniciou- se uma guerra civil que opôs o rei, Carlos I, ao Parlamento, liderado por Oliver Cromwell, e que terminaria em 1649, depois da prisão e execução do rei e com o início do governo de Cromwell, elevado a Lord Protector. Esta mudança na cena política viria a transformar, igualmente, as relações entre Portugal e a Inglaterra, sobretudo depois do «incidente dos príncipes palatinos»420. De facto, o tratado de paz e aliança que se firmou em 10 de junho de

417 Álvaro Dória, «Inglaterra, relações de Portugal com a», in Joel Serrão (dir.), Dicionário de história de

Portugal, vol. III, ed. cit., p. 321b.

418 A «Ínclita Geração» mereceu de Oliveira Martins a redação de uma obra a ela dedicada: «Um caracter bem

estudado vale por um mundo visto. Quando os caracteres são como os dos filhos de D. João I, eminentemente accentuados e profundamente differenciados, a galeria torna-se um verdadeiro curso da alma individual nos seus phenomenos mais suggestivos. E quando, finalmente, a pleiade é, como esta foi para nós, a iniciadora da vida nova que tivemos na Renascença, a psychologia histórica eleva-se á altura de uma interpretação das causas determinantes do nosso heroismo passado — mais milagroso que muitos milagres perante os quaes os homens todavia ajoelham confundidos» (Oliveira Martins, Os filhos de D. João, Lisboa, Imprensa Nacional, 1891, pp. 345-356).

419 Cf. Edgar Prestage, op. cit., pp. 16-19.

420 Álvaro Dória, «Inglaterra, relações de Portugal com a», in Joel Serrão (dir.), Dicionário de história de

Portugal, vol. III, ed. cit., p. 322b. D. João IV, ao conceder proteção aos príncipes palatinos Alberto e Maurício, sobrinhos de Carlos I da Inglaterra e por isso perseguidos pelo general Blake por ordem de Cromwell, provocou um acidente diplomático que pôs em causa a antiga aliança com a Inglaterra. Leonor Freire Costa faz uma síntese explícita das relações entre Portugal e a Inglaterra durante o protetorado de Cromwell, salientando as causas e consequências da rutura consagrada com o corte de relações diplomáticas em 1650, em «Da

1654, numa altura em que Portugal enfrentava uma situação militar crítica decorrente das guerras da Restauração, acabou por se traduzir numa submissão às condições inglesas.421

A morte de Cromwell ocasionou a restauração da monarquia inglesa e o regresso dos Stuart ao trono. Em 18 de abril de 1660, numa altura em que Portugal ainda permanecia em situação instável, decorrente da ofensiva espanhola no contexto da guerra da Restauração mas também das investidas holandesas aos territórios portugueses, foi assinado um «Tratado de Aliança e de união de amizade» entre D. Afonso VI e Carlos II, o Tratado de Whitehall, cujos 14 artigos assentavam exclusivamente sobre matéria militar.422 No ano seguinte, e para

reforçar a aliança, foi firmado um tratado «de Paz mais apertada», datado de 23 de junho, cuja principal matéria era o «casamento, que se há-de fazer entre o Sereníssimo Rei da Grã- Bretanha; e a Sereníssima Princesa Infanta de Portugal», D. Catarina de Bragança, «com a maior brevidade, que tão grande negócio se podia acabar; assim para se estabelecer a paz mais firme, e de maior duração entre estas Coroas; como para se avançarem as utilidades de

Restauração a Methuen: ruptura e continuidade», in AA.VV., O Tratado de Methuen (1703): diplomacia,

guerra, política, economia, Lisboa, Livros Horizonte, 2003, pp. 32-39.

421 O Tratado de Westminster, como ficou conhecido, concedeu amplos privilégios aos ingleses, que Armando

Marques Guedes resume nas seguintes alíneas:

a) a liberdade de comércio, sem salvo-conduto nem licença em Portugal e em todos os seus domínios por

terra e sobre as águas;

b) a liberdade de consciência religiosa e de culto privado, não podendo os súbditos britânicos ser molestados

em suas pessoas e bens ou por causa de salário ou soldo, com o pretexto de professarem a religião anglicana;

c) o carácter privilegiado dos créditos de ingleses nos bens e mercadorias embargados de portugueses presos

pela Inquisição ou pelos juízes do Rei;

d) a isenção da jurisdição orfanológica das heranças jacentes e espólios, livros e contas de súbditos

britânicos falecidos em Portugal; a administração da herança ou espólio seria confiada pelo Juiz Conservador a dois ou mais mercadores ingleses residentes no lugar, depois de aprovados pelo Cônsul e de prestarem fiança idónea;

e) a isenção dos navios e bens de ingleses para usos de guerra ou para qualquer outra aplicação, sem

consentimento do Lord Protector ou dos donos de navios e fazendas, previamente avisados;

f) o tratamento de nação mais favorecida em matéria de impostos e direitos;

g) a jurisdição especial do Juiz Conservador, sem cuja autorização nenhum inglês podia ser preso ou

embargado, salvo em flagrante delito;

h) o livre direito de circulação e de propriedade privada de casa de habitação, de lojas e armazéns, e do uso

de armas ofensivas e defensivas.

A estes itens, Armando Guedes acrescenta uma ultima concessão de Portugal a Inglaterra, formalizada em artigo secreto, segundo a qual a taxa sobre o valor das mercadorias inglesas em Portugal nunca ultrapassaria os 23% (A aliança inglesa sob o signo da Dinastia de Bragança, Lisboa, Fundação da Casa de Bragança, 1958, pp. 12-13). Luiz Eduardo Oliveira explica, a respeito deste tratado, que «ao possibilitar a introdução das suas mercadorias nos portos do Brasil, permitiu que os ingleses lançassem as sementes dos frutos que colheriam no século seguinte, sobretudo depois da exploração do ouro e dos diamantes da mais próspera colónia portuguesa» (op. cit., 2014, p. 135). O Tratado de Westminster pode ser consultado na já referida obra de Eduardo Brazão,

op. cit., pp. 95-115)

422 «Tratado de 1660», in Idem, ibidem, pp. 115-119. De facto, para a celebração do Tratado de Whitehall, foi

enviado ao Parlamento da Inglaterra, como representante da Coroa portuguesa D. Francisco de Melo, membro do Conselho de Guerra de Portugal e General de Artilharia, o que demonstra que o que estava em causa era a necessidade de auxílio militar inglês.

um, e outro povo (a quem de aqui em diante convirá atentar, para os interesses de um, e outro como próprios).»423 Composto por 20 artigos seguidos de um artigo secreto, o documento

ratificava as cláusulas dos tratados anteriormente firmados e acordava a cedência definitiva «ao Rei da Grã-Bretanha, seus herdeiros e sucessores» das praças de Tânger (artigos II a IV) e de Bombaim (artigo XI), o dote de dois milhões de cruzados portugueses (artigo V), a liberdade de comércio dos súbditos ingleses na Índia e no Brasil (artigos XII e XIII) e o direito de governo e posse dos territórios que Carlos II ou súbditos seus tomassem dos holandeses e que antes houvessem pertencido à Coroa portuguesa (artigo XIV). Em contrapartida, e com consciência dos benefícios obtidos com aquele tratado, Carlos II «promete e declara que há- de trazer no coração as coisas e conveniências de Portugal e de todos os seus domínios e os há-de defender com as maiores forças suas, assim por mar, como por terra»424, dotando

Portugal de forças militares (artigo XV), assegurando a proteção e o auxílio inglês em caso de invasão ou conflito bélico (artigos XVI e XVII) e prometendo colocar os interesses de Portugal à frente de quaisquer interesses castelhanos (artigo XVIII). Por fim, com o artigo secreto, Carlos II assenta que fará o possível por concertar «uma boa e firme paz entre o sereníssimo Rei de Portugal e os Estados Gerais das Províncias Unidas»425 — no que será

bem sucedido uma vez que, ainda no mesmo ano de 1661, a 6 de agosto, viria a estabelecer- se a Paz de Haia. Atendendo às circunstâncias, apesar de o tratado beneficiar claramente a Coroa britânica, D. Afonso VI viu-se impossibilitado de recusar os termos de uma aliança que poderia assegurar a continuidade do império português. O auxílio britânico terá sido portanto fundamental para a vitória portuguesa na Guerra da Restauração, oficialmente terminada com a celebração de um tratado de paz com Espanha em 13 de fevereiro de 1668 e com o reconhecimento da independência de Portugal.

O século XVIII abre-se a Portugal com eventos que exigiriam uma delicada ação política e diplomática. A morte de Carlos II de Espanha (1700) sem sucessão direta determinou a aclamação do duque de Anjou, neto de Luís XIV de França, com o título de Filipe V, unindo na mesma família as Coroas da França e da Espanha — situação que as demais potências europeias recusaram, redundando na Guerra da Sucessão Espanhola, um conflito à escala europeia que só terminaria em 1714 com a celebração da Paz de Utrecht. Apesar da sua política inicial de neutralidade, Portugal não ficou à margem dos

423 Idem, ibidem, pp. 120-121. 424 Idem, ibidem, p. 129. 425 Idem, ibidem, pp. 132.

acontecimentos, até porque quer a sua posição geográfica quer a sempre inconstante situação fronteiriça do Brasil requeriam um cuidado redobrado.426 D. Pedro II decidiu-se, nestas

circunstâncias, a reconhecer os direitos de Filipe V ao trono espanhol e a estabelecer um acordo diplomático e militar com a Espanha, celebrado em Lisboa a 18 de junho de 1701, pelo qual, entre outras disposições, Portugal se comprometia a encerrar todos os portos às potências que se opusessem à sucessão de Filipe V e, em contrapartida, este rei se empenhava na defesa dos interesses de Portugal contra a Inglaterra e a Holanda e, como prova de amizade, renunciava ao direito sobre a colónia do Sacramento (artigo XIV).427 Todavia, D.

Pedro II logo viria a alterar o alinhamento de Portugal no cenário europeu, firmando em 16 de maio de 1703 uma «liga defensiva perpétua»428 e uma «aliança ofensiva e defensiva» com

a Grande Aliança, formada pela Inglaterra, Holanda e Áustria contra o eixo franco-espanhol.

429 A fundamentação para esta mudança surge no «Manifesto de El-Rei D. Pedro II, em que

justifica a resolução que tomára de ajudar a nação hespanhola a sacudir o jugo do dominio francez, e a pôr no throno d’aquella Monarchia El-Rei Cayholico Carlos III»430, sintetizada

por Isabel Cluny nos seguintes termos:

Em primeiro lugar a enorme insegurança causada pela possibilidade de uma união das coroas de Espanha e França, pondo em risco a estabilidade do reino e do império. Em

426 Jorge Borges de Macedo, História diplomática portuguesa — Constantes e linhas de força. Estudo de

geopolítica, 2.ª ed. revista e ilustrada, vol. I, Lisboa, Tribuna da História, 2006, pp. 249-257.

427 «Tratado de mutua aliança entre el-Rei o Senhor Dom Pedro II e D. Filipe V Rei de Hespanha, pelo qual o

primeiro se obriga a garantir o testamento d’el-Rei D. Carlos II no tocante á sucessão do segundo dos ditos monarcas á monarchia de Hspanha, assignado em Lisboa a 18 de Junho de 1701, e ratificado por parte de Portugal n’aquelle mesmo dia, e pela de Hespanha no 1.º de Julho do dito anno», in Collecção de tratados,

convenções, contratos e actos publicos celebrados entre a Coroa de Portugal e as mais potencias desde 1640 até ao presente, compil., coord. e anot. de José Ferreira Borges de Castro, t. II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1856, pp. 115-121. O tratado que então se celebrava com a garantia do rei de França Luís XIV (conforme nota na sua primeira página) previa, sobretudo, o auxílio espanhol em situação de possíveis represálias da Inglaterra e da Holanda a Portugal motivadas pelo «ódio desta aliança» (artigo IX, p. 118).

428 «Tratado de 1703», in Eduardo Brazão, op. cit., p. 134.

429 A Grande Aliança da Haia foi formada em 7 de setembro de 1701. A Inglaterra juntar-se-ia em 1702, ao

perceber que Filipe V não renunciaria aos seus direitos sobre a Coroa da França. De salientar que com a mesma data de 16 de maio de 1703 foram celebrados dois tratados: o «Tratado de liga defensiva entre o Senhor El-Rei D. Pedro II, Anna, Rainha da Gran Bretanha, e os Estado Gerais dos Paizes Baixos» (que não chegou a ser ratificado por Portugal) e um mais longo «Tratado de aliança ofensiva e defensiva entre Leopoldo, Imperador dos Romanos, Anna, Raynha de Inglaterra e os Estados Gerais dos Payses Baixos unidos por huma parte; e Pedro II Rey de Portugal, por outra parte; Para conservar a liberdade da Espanha, evitar o comum perigo de toda a Europa, e manter o direito da Augustissima Caza de Austria á monarquia espanhola». Cf. Collecção de

tratados, convenções, contratos e actos publicos celebrados entre a Coroa de Portugal e as mais potencias desde 1640 até ao presente, ed. cit, t. II, pp. 140-187.