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AQUELE QUE DECIFROU O ENIGMA FAMOSO E QUE FOI VARÃO PODEROSÍSSIMO

No documento Mulher, história, psicanálise (páginas 92-96)

Sigmund Freud nasce em 1856 (com o nome de Sigismund) em Freiberg, na Morávia, então parte do império austro-húngaro e dominantemente católica. Seu pai, Jacob, um comerciante pobre de lãs, vinte anos mais velho que sua mãe (Amalia), e no terceiro casamento, tem então dois filhos, já adultos, do primeiro casamento, que moram na mesma casa. Freud é o filho primogênito de Amalia, seguido de sete irmãos. Seu meio-irmão mais velho tem um filho quase da idade de Freud, com quem ele brinca e briga bastante quando pequeno, provavelmente inaugurando um tipo de relacionamento cambiante entre o amor e o ódio que ele manteria posteriormente com várias figuras importantes em sua vida. Freud é circuncidado, e educado no judaísmo não tradicionalista. É muito amado pelos pais, bem como por uma babá católica, que o leva a igrejas, ensina-lhe um pouco sobre o catolicismo, e talvez também sobre sexo. Esta babá será afastada ao mesmo tempo em que sua mãe se recupera do nascimento de sua primeira irmã, Anna, em quem naturalmente colocaria a partir daí grande parte de suas atenções – um outro irmão, apenas dezessete meses mais novo que Freud, morrera com sete meses de idade. Esta perda da atenção de "suas duas mães", ao mesmo tempo, é bastante traumática para Freud (Gay, 1999, pp. 22-27; Roazen, 1974, pp. 54/59 e Roudinesco & Plon, 1998, pp. 272-273/795).

Em 1859 os Freud mudam-se para Leipzig (Alemanha), provavelmente em função da declaração de guerra entre a Áustria e a Itália, e também devido à industrialização de Freiberg, que dificulta os negócios têxteis de Jacob. Depois de

1 Inscrição impressa em um medalhão oferecido a Freud por seus seguidores, em 1906, no seu aniversário

de 50 anos, e que foi retirada do Édipo Rei, de Sófocles. Freud teria ficado emocionado demais com o presente e, ao ser inquirido por Jones do porquê, respondeu que, nos seus anos de graduação na

Universidade de Viena, ele fantasiava que no futuro veria ali seu busto, com esta frase na base. Em 1955 Jones realizou o desejo de Freud (Jones, 1979b, p. 377).

firmada a paz, e não tendo conseguido modificar sua má situação econômica, mudam-se para Viena (Áustria), em 1860, indo morar em um bairro judeu, onde nasceriam mais cinco filhos. Nessa última viagem de mudança, Freud teria visto sua mãe sem roupa, o que lhe provocaria fortes desejos incestuosos. Sendo o irmão mais velho de cinco mulheres, Freud ajudaria em sua educação, decidindo, por exemplo, quais os livros que podiam ler. Posteriormente, um irmão de seu pai será preso por negócios ilícitos, e é possível que seu pai e seus meio-irmãos estivessem envolvidos nestas atividades ilegais; de qualquer forma, isto aumenta ainda mais as dificuldades financeiras da família. Ao concluir a escola secundária, Freud, influenciado por um colega mais velho, pensa em entrar para a faculdade de direito, com o intuito de tornar-se um político, uma figura pública. Mas acaba decidindo-se pela medicina. Apesar de criticar – constante e severamente – Viena, onde tem uma infância infeliz, é ali que Freud irá se instalar e ficar (Gay, 1999, pp. 22-27; Roazen, 1974, pp. 54/59 e Roudinesco & Plon, 1998, pp. 272-273/795).

Em 1873, Freud inicia seus estudos em medicina, em Viena, interessando-se muito pelo positivismo e pela biologia darwiniana. Atrasada, a revolução industrial chegava então à Áustria, quando uma grande quebra no mercado de ações leva os austríacos a utilizarem os judeus como bodes expiatórios. Freud, como todos os judeus vienenses, passa a enfrentar o preconceito racial a partir de então. O anti-semitismo convive com outras posturas políticas radicais por esta época: um feroz sectarismo, a emergência da consciência operária e o descontentamento das minorias nacionais. Apesar de não seguir os rituais judaicos, Freud, ao contrário de outros intelectuais vienenses, jamais negaria suas origens. Posteriormente, viria a valorizar a presença de não-judeus em seu meio, como forma de obter respaldo social para a psicanálise (Gay, 1999, pp. 31-32 e Roudinesco & Plon, 1998, p. 273).

Em 1876 Freud consegue uma bolsa de estudos que lhe permite estudar a vida sexual das enguias, e utiliza estas informações para a elaboração de uma teoria do funcionamento específico das células nervosas. Posteriormente, passa do instituto de

zoologia para o de fisiologia, onde recebe uma orientação antivitalista2, de seu primeiro grande mestre, Ernest Brücke. Ficaria neste instituto por seis anos. Em 1877 Freud conhece Josef Breuer, médico de sucesso, com quem estudaria doenças renais, no instituto de fisiologia. Entre 1879 e 1880, Freud é forçado a pedir uma licença para cumprir o serviço militar. Em 1881, recebe seu diploma de médico. Em janeiro de 1882, a neurologia é reconhecida como uma disciplina autônoma: é criada em Paris, França, uma cátedra da clínica de doenças nervosas, a qual será assumida por um importante médico da época: Jean Martin Charcot (Roudinesco & Plon, 1998, pp. 273-275/797).

Em abril de 1882, Freud conhece Martha Bernays, amiga de uma de suas irmãs, cinco anos mais nova que ele, e se apaixona. Apesar da resistência da mãe (viúva) de Martha, ficam noivos dois meses depois do primeiro encontro. Durante a maior parte de seu noivado, Martha mora com a mãe em Wandsbek, perto de Hamburgo (Alemanha), sendo Freud muito pobre para visitá-la com freqüência. Embora escrevendo-se quase todos os dias (Freud teria escrito cerca de mil cartas a Martha, neste período), nas raras ocasiões em que se encontram, durante o noivado de quatro anos, há apenas a troca de abraços e beijos, e nada sugere a infidelidade de Freud à noiva – o que talvez lhe tenha inspirado alguns questionamentos sobre a moral sexual da época. A zona de maior tensão entre Freud e Martha será a religião, tendo sido Martha criada na estrita observância do judaísmo ortodoxo, enquanto Freud considera estas regras um disparate supersticioso. Freud deixa claro a Martha desde o início sua pretensão em ser o chefe da família que viriam a constituir, além de mostrar-se excessivamente ciumento, desejando que ela se afaste de todos que a cercam para dedicar-se apenas a ele, o que incluiria sua mãe e seu irmão. Evidentemente, quanto a esta última exigência, Freud jamais seria atendido (Gay, 1999, pp. 51-53 e Roudinesco & Plon, 1998, pp. 265-266).

Ao comentar com Martha, em 1885, um ensaio de Stuart Mill, que havia traduzido durante seu período de serviço militar, Freud disse considerar que o autor carecia de senso para o absurdo ao afirmar que as mulheres podem ganhar o mesmo que os homens. A esse respeito, escreve Gay (1999):

2 Vitalismo: "doutrina formulada por cientistas europeus, [...] entre meados do século XVIII e meados do

século XIX, que defendia a idéia de que os fenômenos relativos aos seres vivos, como a evolução, a reprodução e o desenvolvimento, seriam controlados por um impulso vital de natureza imaterial [alma], diferente das forças físicas ou interações fisioquímicas conhecidas" (Dicionário Houaiss, 2001, p. 2873).

Isso, julgava Freud, deixava de lado as realidades domésticas: manter a casa em ordem, supervisionar e educar os filhos constituem um trabalho de tempo integral que praticamente impede um emprego da mulher fora de casa. Como outros burgueses convencionais de sua época, Freud dava grande importância à diferença entre os sexos, "a coisa mais significativa quanto a eles". [...] Ele admitia que era possível chegar um dia em que um sistema educacional diferente contribuiria para a existência de novas relações entre homens e mulheres, e que a lei e os costumes concederiam às mulheres direitos então recusados. Mas a emancipação total significaria o fim de um ideal admirável. Afinal, concluía ele, a "natureza" destinou a mulher, "através da beleza, do encanto e da doçura, a algo mais" (p. 52).

Noivo, Freud abandona a carreira de pesquisador por motivos financeiros, e torna-se clínico do Hospital Geral de Viena, onde trabalha por três anos, experimentando uma série de especialidades médicas. Ainda em 1883, torna-se assistente de um professor de psiquiatria da Universidade de Viena: Theodor Meynert, grande expoente da anatomia cerebral comparada. Em janeiro do ano seguinte, Freud dá início a seu primeiro tratamento de uma paciente com "doença nervosa". No mesmo ano, realiza algumas pesquisas com a cocaína – que utilizaria em pequenas doses em si mesmo até 1890. Em 1885, Freud obtém uma bolsa de estudos e vai a Paris, com o intuito de conhecer e trabalhar com Charcot, cujas experiências com a histeria interessam-lhe sobremaneira. Charcot fora um pioneiro na capacidade de diferenciar as doenças psíquicas das físicas, havendo diagnosticado a histeria como uma enfermidade real, que afeta tanto homens quanto mulheres, e que pode ser curada com a hipnose (Gay, 1999, pp. 57/549-61 e Roudinesco & Plon, 1998, pp. 274/797-798).

Charcot também influenciaria Freud em sua teoria sobre a etiologia sexual das neuroses, devido a um comentário que teria feito com outro médico. Ao discutir um caso de "doença nervosa" em uma mulher cujo marido era impotente, ele teria dito que, nestes casos, "a coisa é sempre genital, sempre... sempre... sempre" (Charcot, conforme citado por Freud, 1974a, pp. 23-24).

Retornando a Viena em abril de 1886, depois de passar por Berlim, onde estuda pediatria, Freud pede demissão do Hospital Geral e abre um consultório particular. Mantém o trabalho como neurologista, nesta época na Clínica Steindlgasse – primeiro instituto público de pediatria. Em setembro, Freud casa-se com Martha, com quem viria a ter seis filhos, e viveria até o fim de sua vida. Em outubro, faz uma conferência sobre histeria masculina na Sociedade Médica de Viena, tornando-se esta a primeira de muitas situações em que seu trabalho seria mal recebido. A despeito disto, em março de 1887

Freud é eleito membro da Sociedade Médica de Viena (Roudinesco & Plon, 1998, pp. 274/799).

Por essa época, Freud recebe um pedido de um professor de ginecologia, Rudolf Chrobak, para que visite uma de suas pacientes, que sofria de uma grande ansiedade e para a qual não tinha disponível no momento o tempo necessário. Teria explicado a Freud que a ansiedade sofrida pela paciente devia-se ao fato de, estando casada há dezoito anos, ainda ser virgem, pois o marido era completamente impotente. Resignado quanto aos comentários daqueles que criticavam sua incapacidade de curar tal paciente depois de tantos anos de tratamento, teria afirmado que a única receita para tal doença não podia ser prescrita, por ser a seguinte: "Pênis normal em doses repetidas!" (Chrobak, conforme citado por Freud, 1974a, p. 24).

Ainda em 1887, Freud conhece, por intermédio de Breuer, o médico alemão Wilhelm Fliess, clínico geral e otorrinolaringologista, pesquisador das relações entre o nariz e os genitais. Adepto de uma teoria sexual mística e organicista, Fliess acreditaria que a vida é condicionada por fenômenos periódicos que dependem da natureza bissexuada da constituição humana. Este homem viria a se tornar o amigo mais importante de Freud, com quem trocaria vasta correspondência, tanto íntima quanto científica. Em julho de 1889, Freud vai a Nancy, França, estudar hipnose com Hippolyte Bernheim (Roudinesco & Plon, 1998, pp. 239-240/274/799).

No documento Mulher, história, psicanálise (páginas 92-96)