Capítulo IV Diversidade religiosa
3 BASES MÍTICAS DA RELIGIOSIDADE AFRO-BRASILEIRA
As religiões afro-brasileiras têm como uma de suas bases a con- fluência entre divindades e natureza, construindo uma totalidade. Lody (1987) descreve como a Roça do Ventura, na Bahia, mantém em equilíbrio a natureza no qual se instala: árvores e rios são moradas de divindades,
5 Além da sobrevivência cultural em si, temos que considerar a dinamicidade das culturas,
ou seja, quando entram em relação, as formas culturais tendem a assimilar elementos umas das outras, mas não aprofundaremos este aqui este aspecto.
folhas sagradas (e medicinais) são plantadas e mantidas, a mata abriga a memória dos “voduns”6 e as construções são feitas basicamente com ma-
teriais rústicos, além dos animais criados soltos e integrados. No Can- domblé não há representação de elementos da natureza, mas as divinda- des são os próprios elementos da natureza7. A movimentação corporal, as
danças, a arte, os objetos, tecidos, comidas e todo um vasto conjunto de elementos simbólicos articulam-se na busca da integração à natureza, ou seja, às divindades.
O Candomblé, originário da África e que adquire feição própria em solo brasileiro, é uma congregação de sobrevivências étnicas que teve grande disseminação e reinterpretação como cultura afro-brasileira em nosso país, uma produção cultural que constrói a aliança entre os planos do sagrado e do humano. A sociedade do Candomblé é controlada e pro- tegida por dois elementos fundamentais: a natureza, o meio ambiente, corporificada e santificada nos orixás e as expressões dos antepassados. A música, dança, canto, gestos e alimentos emanam a força vital e as másca- ras, esculturas, adornos e pinturas contribuem na unidade do grupo so- cial, simbolizando seus ciclos e passagens.
Assim, a energia da natureza e os heróis e reis divinizados são alguns dos principais motivos do plano do sagrado, íntimo e cotidiano para o homem africano. Esta presença está na casa, no santuário, no comércio, nas tarefas, nos campos, nos rios, no mar, no desenvolvimento das técnicas ar tesanais desenhando dessa maneira o próprio ser cultural. (LODY, 1987, p. 9).
De modo geral, as religiões afro-brasileiras têm como um dos pilares fundantes míticos a harmonia com a natureza. Por esta representa- ção inspirada na natureza, sofrem os impactos da degradação desta e pas- sam a alterar progressivamente seu desenvolvimento ritualístico e até mesmo dogmático visando à adaptação (TRAMONTE, 2002).
6 Vodun, dito também vodu, refere-se ao nome genérico das divindades Jeje,
correspondendo ao orixá do Nagô (CACCIATORE, 1977).
7 Como ilustração, podemos citar no Candomblé Gêge-Nagô as seguintes correspondências
entre orixás e elementos naturais: Exu, fogo; Ogum, fogo, ar, ferro, minerais; Oxóssi, mata; Obaluaiê, terra; Ossaim, folhas, plantas; Oxumaré, arco-íris; Xangô, raio, trovão; Oxum, água doce; Iemanjá, água salgada; Iansã, vento, tempestade; Oxalá, ar (SILVA, 1994).
Em períodos históricos anteriores8, quando o processo de urba-
nização não havia se intensificado como no final do século passado, o povo-de-santo buscava estabelecer os terreiros em áreas com vegetação pujante onde pudesse desenvolver os rituais de oferecimento e homena- gem ao santo. Com o escasseamento dessas áreas e consequente valori- zação imobiliária, tornou-se impossível manter nesses locais as casas de culto, e estas passam a sediar-se nas habitações dos sacerdotes, geral- mente localizadas em áreas urbanas com pouco espaço livre para o cultivo de elementos da natureza, tanto de árvores sagradas, como das plantas essenciais à manutenção espiritual dos rituais e do grupo.
As consequências desta transformação são inúmeras, gerando preocupações entre o povo-de-santo. O desaparecimento de espécies es- senciais, principalmente da flora, e a degradação em geral dos elementos naturais estão entre as mais mencionadas. Sobre isso, diz o Babalorixá Juca:
A gente vê com muita preocupação porque a hora que acabar Oxum no nosso planeta acabou tudo. O ouro de Oxum é água potável. Aí vão morrer as árvores, animais, consequentemente ou o homem vai migrar para outras esferas porque já destruiu aqui mesmo, ou vai ter uma consciência de preservação muito grande. A situação está ficando difícil. O que quero de folhas eu tenho, mas tem plantas que só tem lá prá cima porque o clima é mais quente. E se acabar a de lá? Substitutas existem, mas têm as imprescindíveis, aí o elo perdido se acabará.
(TRAMONTE, 2002, p. 480).
A urbanização, que resulta em estreitamento dos espaços e de- gradação dos recursos naturais, é vista como uma das responsáveis pelas rupturas: no plano espiritual, implicando em profundas alterações da es- sência dos preceitos; no plano material, resultando no fechamento de ter- reiros e consequente enfraquecimento da religião. A urbanização surge, assim, como um desafio, diante do qual alguns sentem-se impotentes, como declara o Babalorixá Pai Leco:
8 Registros históricos informam a existência de Calundus no século XVIII, que teriam
O rapaz comprou terreno onde passa cachoeira, vai construir o barracão dele. Só que já estão cercando. A CASAN9 já cortou,
não tem mais queda d’água. São coisas que o desenvolvimento está tirando e a gente não sabe como impedir. Temos que fazer o amaci10 de madrugada, fazer as rezas, ir prá mata, pedir
a Ossanha e recolher as ervas, no sereno, energizadas. Se já apanhou as ervas há muito tempo, não tem mais vida, acabou. (TRAMONTE, 2002, p. 481).
Ao mesmo tempo em que os rituais sofrem transformações advindas da deterioração ambiental, a religião é responsável também por estruturar a visão ecológica desta população. Nesse sentido, contribui para uma preocupação maior com a questão, já que a busca permanente pela harmonia entre ser humano e naturezalhe é inerente. Esta procura cons- tante sobrevive nas adversidades, dinamicamente, transformando-se de forma contínua, agregando novos membros, redefinindo valores e postu- ras e confrontando espiritualidades ancestrais com novas exigências. Pro- va desta contribuição é que na Bahia, nos anos de 1980, entre as conquis- tas do “povo-de-santo” daquele Estado, está a inclusão na Constituição Estadual da obrigatoriedade de preservação de mananciais, flora e sítios arqueológicos vinculados à religião afro-brasileira.
Mesmo diante das inúmeras dificuldades para manter a relação entre religião e natureza, o povo-de-santo demonstrou estar consideran- do esta como um eixo fundamental, que articula as dimensões espiritual e material. A vida no planeta e a regência dos orixás estão densamente in- terligadas nos elementos naturais, de maneira que interdependem para sobrevivência ou para desintegração (TRAMONTE, 2002).
Pela centralidade que a ecologia cumpre na espiritualidade afro- brasileira, a religião é responsável por estruturar a visão do povo-de-san- to e, em alguns casos, resulta em iniciativas no cotidiano ritual e material as quais visam à maior preservação. Compreende-se que a falência dos elementos naturais resulta em falência espiritual e religiosa. Neste caso, entendemos que os terreiros têm uma função educativa, normatizando hábitos e criando valores éticos junto a seus integrantes.
9 Companhia de Água e Saneamento, Florianópolis, Santa Catarina. 10 Amaci = líquido preparado com folhas sagradas (CACCIATORE, 1977).