Ethos e direitos humanos:
2 ETHOS: LIBERDADE E DIVERSIDADE
Pensar ou refletir sobre o ethos e sua relação com os direitos humanos implica necessariamente entender os (des)dobramentos e (des)contextos da sociedade em que vivemos. Isso mostra que devemos pensar a sociedade a partir e com a diversidade cultural. Não é possível pensar ou entender o ethos sem os pressupostos dessas diversidades – na perspectiva de sua liberdade. Todos devem ser respeitados nas suas mais diversas manifestações.
A liberdade é um direito imanente a todos, por isso, fundamen- tal na construção de uma sociedade justa e solidária. Esse princípio está explicitado na Constituição Federal (BRASIL, 1988, art. 5º, VI), que estabe- lece ser “inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegu- rado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias”. Ainda no art. 5º, inciso VIII, este documento declara que “ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se
as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei”.
A definição de ethos oferecida por Dussel (1997) referenda um sistema de atitudes derivado dos valores ou visões de mundo, em que as religiões têm um lugar significativo. Um exemplo citado pelo autor pode auxiliar a compreender a relação de interdependência entre ethos e reli- gião. O relato busca responder à pergunta: Quais as atitudes de um hindu e um asteca perante um prisioneiro?
[...] um hindu, por sua visão do mundo, por sua noção do maya, por sua tensão a confun dir-s e diante d o Brama, indiferentemente, deixará aquele homem em liberdade, e com grande tolerância não tentará faze-lhe nada, já que o fundamento de sua atitude é matar seu desejo, para liberar-se do individual; enquanto que o asteca, que pensa que esse prisioneiro lhe transmitirá a vitalidade de seu sangue ao deus, para que aquele subsista, o sacrificará. Um terá uma atitude agressiva, outro de sumo pacifismo. Estas atitudes são regidas por princípios; são estes princípios fundamentais objetivos, visões de mundo, que vão dar origem a um sistema de atitudes. (DUSSEL, 1997, p. 74).
O exemplo coloca a religião em dois âmbitos, ou seja, dos valores e visões de mundo, quando os alimenta com sua doutrina explicativa e, no ethos ou sistema de atitudes, quando a religião, pelo rito, materializa es- sas atitudes. Dito de outra forma, o ethos, por meio de um sistema de atitudes e, através de símbolos, objetos, ritos e lugares sagrados, é a ma- nifestação concreta de um sistema de valores ou visão do mundo. A interdependência entre valores e atitudes é evidente e a correlação entre ethos e religião é visível. Nessa compreensão, a ameaça ao sistema de atitudes de um determinado grupo é a ameaça do seu sistema de valores e visão de mundo. Portanto, se faz mister entendermos o sentido do con- ceito de liberdade usado nesse contexto.
A liberdade pressupõe três critérios fundamentais: a) para se con- figurar uma ação como sendo livre, o ser humano deve querer determina- das ações, ou seja, ele quer fazer ou realizar determinados atos; b) além do querer, deve saber o que fazer. Quer realizar determinados atos, mas sabe o que vai fazer para realizar isso. Aqui está a consciência do sujeito da ação, ele sabe exatamente o que fazer e como fazer para realizar deter- minados atos de modo livre; c) querer fazer e saber o que fazer o remete
para o próximo passo: ele pode fazer aquilo que quer e sabe o que fazer? Este terceiro requisito é exatamente o momento no qual devemos parar e pensar nas consequências dos atos – isso é liberdade.
Percebemos, assim, que liberdade não é a ausência de dever, mas exatamente o contrário, a liberdade é essencialmente responsabilidade. Nesse contexto, direitos humanos e diversidade cultural e religiosa estão implicadas diretamente. Não podemos pensar os direitos humanos sem a liberdade, nem o ethos sem as diversidades de expressões religiosas e não religiosas, sem o respeito às diferenças. A liberdade é um valor que per- passa o reconhecer e ser reconhecido pelo Outro, daquilo que cada um representa e expressa na vida, como máxima da dignidade humana, dos direitos e dos deveres.
O ethos seria, então, o ponto de partida que oferece pistas para a organização das diversas relações das pessoas, mas também se (re)configura frente aos novos desafios que exigem a construção de sem- pre outros critérios que orientem o agir humano em liberdade. Corresponde à ética realizar esse exercício. O seu caráter reflexivo e sistematizador lhe permite “investigar os valores e as normas [...] e depurá-los para que pos- sam inspirar e guiar da melhor forma possível a vida humana tendo em vista a sua realização plena” (AGOSTINI, 1993, p. 23).
Entretanto, a moral é a encarregada de especificar os costumes e as normas que conduzem as relações humanas num espaço e tempo de- terminado. Ela
[...] pode ser concebida como um conjunto fechado de normas ou como a busca responsável de organizar e sistematizar valores e regras que sejam válidas num determinado tempo e espaço ou que tenham incidência e valor mais abrangente. (AGOSTINI, 1993, p. 23).
Mediante a articulação dinâmica desses três elementos (os valo- res; as normas e suas depurações) se constrói em cada tempo e espaço (cultura), um modo próprio de sustentar e promover a vida. O ethos é uma segunda natureza, ou natureza moral; também a morada interior; o habitat espiritual do ser humano (seu horizonte espaço-temporal); o modo de ser costumeiro; a qualidade do viver; a forma de ser; a disposição ou atitude perante o mundo e os outros; o caráter do ser humano: sua liberdade, seu ser ético. Isso significa que o ethos configura o humano como um ser relacional e toda relação é ética, o que implica num (re)pensar toda ação
humana como uma ação responsabilizadora pelo passado, presente e fu- turo da humanidade. Tudo que fazemos deve ser pensado nas suas reais consequências para o mundo – para o nosso habitat.
Segundo Hall (2005, p. 88), há dois movimentos na busca de uma construção e entendimento do ethos: o de tradição e de tradução. O pri- meiro aponta para as tentativas de construir um ethos puro, a fim de res- taurar a coesão, a unidade e a consolidação perante a indeterminação e o relativismo procedente das culturas híbridas. O segundo movimento, tra- dução, assinala a experiência daquelas pessoas que transpassam as fron- teiras sem nunca poder retornar. O vínculo com seus lugares e tradições de origem permanece, mas são obrigadas a negociar com os novos ethos nos quais vivem, sem serem assimiladas e perderem totalmente sua iden- tidade de ethos.
Contudo, essas pessoas não ficarão divididas, elas serão unificadas, mas não no sentido antigo. Elas “são, irrevogavelmente o produto de várias histórias e culturas interconectadas, pertencem a uma e, ao mesmo tem- po, a várias ‘casas’ (e não uma casa em particular)” (HALL, 2005, p. 89). Este hibridismo, fusão entre diferentes tradições culturais, é entendido como uma poderosa fonte criativa, produzindo novos ethos.
Entretanto, outro movimento está em andamento: uma interação consciente e premeditada entre o micro e o macro ethos. Essa é uma pers- pectiva presente nos trabalhos, por exemplo, de Hans Küng (1993), cuja proposta final é a de moldar e nutrir um macroethos (o ethos mundial), a partir dos impulsos do microethos. Em um mundo caracterizado pela di- versidade de crenças e convicções religiosas e não religiosas, o microethos pode ser pensado para além das religiões. Todo ser humano deve ser com- preendido a partir de sua dignidade, enquanto humano, não enquanto natureza supostamente religiosa, pois “[...] pessoas não religiosas também estão imbuídas de orientações éticas fundamentais e que levam uma vida moralmente orientada” (1993, p. 60).
É preciso reconhecer na história da humanidade, a existência de inúmeras pessoas não religiosas engajadas na defesa da dignidade huma- na, que demostraram corresponsabilidade para consigo, o Outro e o mun- do.
É inegável, pois que muitas pessoas secularizadas vivem hoje uma moral, que se orienta pela dignidade de qualquer pessoa humana. [...] fazem parte hoje a razão, a autonomia, a liberdade
de consciência, a liberdade religiosa e os demais direitos da pessoa humana como foram sendo conquistados no decorrer da história. [...] é de grande importância que as pessoas religiosas – sejam elas judias, cristãs, muçulmanas, hindus, sihks, budistas, confucionistas, taioístas ou seja lá o que for – reconheçam que pessoas não religiosas, quer se entendam como “humanistas” ou “marxistas”, a seu modo, também se engajam pela dignidade humana e pelos direitos humanos.
(KUNG, 1993, p. 61).
Neste sentido, uma educação em/para os direitos humanos deve reconhecer os distintos microethos, religiosos ou não, para uma convivên- cia em e com dignidade em uma sociedade caracterizada pela diversidade cultural.