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Características do catolicismo popular-devocional

No documento elamdealmeidapimentel (páginas 55-59)

PARTE I – A CONSTRUÇÃO DO OBJETO

2 A CONSTRUÇÃO DA DEVOÇÃO AOS SANTOS NO CATOLICISMO POPULAR-

2.4 Características do catolicismo popular-devocional

Azzi (1976, p. 95) caracteriza catolicismo popular a partir de cinco pressupostos principais: “é luso-brasileiro, leigo, medieval, social e familiar”.

É luso-brasileiro porque as instituições religiosas portuguesas foram transportadas para o Brasil9, trouxeram elementos oficiais e populares que foram ganhando contornos brasileiros com a evolução histórica.

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Através das atividades das ordens, como os jesuítas – atuando com o espírito reformador – e dos leigos – atuando nas irmandades (QUIOSSA, 2006, p. 37)

É leiga no que se refere às práticas cotidianas, com a introdução das devoções, construção dos oratórios e ermidas e incentivando a fundação de irmandades para o culto aos santos.

É medieval ao refletir uma religiosidade nascida na Idade Média e tradicionalmente vivida em Portugal. Azzi (1976) relata que três aspectos da influência medieval estão presentes no Brasil colonial: as romarias, as bruxarias e as blasfêmias10.

É social, pois o catolicismo era apoiado na vida da sociedade, fazendo a religião parte da vida cultural do povo. É familiar porque cada família tinha seu oratório com seu santo protetor e, às vezes, até uma capela, havendo a prática da devoção em família.

As características históricas citadas (luso-brasileiro, leigo, medieval, familiar, social) expressam uma religiosidade espontânea e direta com o sagrado, visualizando um mundo e um tempo que ultrapassam a relação entre o homem e o sagrado. Isto é justificado por Passos (2002, p. 184) quando ele fala que a integração entre o social e o sobrenatural tem suas raízes no passado histórico, em que tudo se guiava pela religião. As diversas instituições, família, leis, política, eram legitimadas pelo religioso, mais especificamente pelo catolicismo.

Isso deixou marcas na cultura brasileira e atualmente persistem ainda, principalmente na zona rural, onde o paternalismo e o clientelismo estão presentes nas relações sociais e políticas.

A cultura brasileira foi formada pelo vínculo entre colonização e evangelização e, por meio dos símbolos, gestos e representações, a religiosidade foi se misturando com a experiência de vida da população e, assim, sentimentos como alegria, esperança, anseios, dor eram, e são hoje ainda, amenizados por intermédio das festas, novenas, cantos e santos que vão compondo o catolicismo. O catolicismo popular devocional torna-se assim um elemento consolidador da vida: “Deus sabe o que faz”, “Deus nos ajuda”.

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Romaria está sempre veiculada à promessa, à fé em um santo particular que se quer homenagear, indo ao seu santuário para pedir ou para agradecer a graça alcançada. As bruxarias também fizeram parte da mentalidade popular no período colonial. Segundo tal mentalidade, as mulheres bruxas possuíam forças e poderes extraordinários por intervenção do demônio. As blasfêmias eram formas de protesto indireto contra a falta de liberdade para uma plena expressão de fé popular, dirigida contra Deus e contra os santos (AZZI, 1978, p. 54, 55 e 57).

O catolicismo popular devocional é um sistema religioso que se apresenta como uma experiência que permeia a vida e a cultura (STEIL, 2001, p. 21). Desse modo, esta modalidade de catolicismo é impregnada no cotidiano de seus praticantes, que procuram dar sentido à existência, buscando entender e explicar os diversos problemas.

Passos (2002, p. 181) diz que o catolicismo popular é uma forma de exprimir os sentimentos e as emoções. “Torna presente o ausente no cotidiano da vida”. (PASSOS, 2002, p. 181). Assim, o catolicismo popular devocional é o meio que os devotos utilizam para conquistar seu espaço, organizar e recriá-lo. É a maneira de fazer valer seus valores, seus desejos e utopias, isto é, fazer valer sua história de vida.

M. Certeau (1994, p. 55) afirma que “de uma forma disseminada através da lista do dia-a-dia, se constatava a permanência de uma consciência política no sentido global, um sentimento de injustiça, a convicção de que a situação presente era intolerável, enfim, uma paciência, uma reserva na ação”.

Nesse tipo de catolicismo, reforça-se o espírito comunitário. Predominam em suas manifestações o motivo da comunidade e a participação de todos. O motivo pode ser a memória, o louvor de um santo ou também “um mistério de Jesus Cristo, num ambiente de partilha, alegria e gratuidade” (PASSOS, 2002, p. 185). Brincadeiras, comidas típicas, fogueiras e quermesses compõem esse cenário.

Sabe-se que as religiões recebem influências sociais e culturais e, assim, a consciência humana molda “modos de pensar e representar” (PASSOS, 2002, p. 178). Mitos, fantasias, crendices, medos vão surgindo.

Steil (2002, p. 29) diz que,

quando comparamos os mitos e lendas em torno dos santuários brasileiros, nos damos conta de que há um padrão de signos, símbolos e narrativas que se repete, apontando para uma estrutura comum que ordena a cultura brasileira. Em outras palavras, esses mitos e lendas não devem nos prender na singularidade do episódio narrado, mas sim nos conduzir, como guia, por caminhos que nos levem a uma melhor compreensão da tradição que subjaz à nossa cultura.

As narrativas míticas, as lendas populares são recursos importantes dos quais os grupos sociais se utilizam para guardar a memória do passado e prescrever comportamentos nos cultos de sua devoção.

Outra característica do catolicismo popular devocional é o “elo pessoal” (DAMATTA, 2000, p. 114) existente na comunicação entre os devotos e os santos, os protetores e os padroeiros. A relação pode ter formas diferenciadas, mas a sua lógica estrutural é a mesma. É uma relação pessoal, fundida na simpatia, na lealdade e principalmente na fé. É uma comunicação que permite aos devotos falar e ser ouvido pelos santos, e ter uma resposta de Deus, pois, segundo Damatta (2000, p. 116), “que é o milagre senão uma resposta dos deuses a uma súplica desesperada do homem”. É a prova de um ciclo de troca que envolve pessoas e entidades sobrenaturais em forma de desejos, motivações, sentimentos.

Para Damatta (2000, p. 116), essa “pessoalidade” existente entre o devoto e a entidade é singular, pois parece produzir no plano religioso “a mesma ênfase que produz nas relações pessoais que dão um sentido profundo no mundo social”.

Este referido catolicismo se exprime também através do sacrifício e da penitência, em que o enfrentamento da dor, do cansaço não diminui a alegria, o prazer do devoto ao participar de uma romaria, ao subir escadas pagando promessas, ao viajar a pé em busca de um encontro com o sagrado.

Exprime também o catolicismo popular devocional a representação de Deus como única divindade onipotente, que governa o mundo conforme os seus desígnios, estando o culto aos santos revestido de uma obrigação moral, obrigação de gratidão dos homens para com seus protetores celestes (OLIVEIRA, 1985, p. 120).

É um tipo de catolicismo em que, mesmo quando o santo não é reconhecido oficialmente pela Igreja Católica, o clero pode assumir a devoção de um santuário e incentivar seu culto, conforme o culto a padre Cícero, mencionado por Steil (2001, p. 34).

Outra característica do catolicismo popular devocional, segundo Oliveira (1985, p. 114), é o domínio prático de culto por todos os fiéis, em conjunto ou individualmente, independentemente de qualificação institucional, isto é, os santos estão ao alcance de qualquer fiel sem que intervenha alguma mediação institucional entre eles.

Em síntese, pode-se dizer que o catolicismo popular devocional atua nos níveis histórico, eclesial, devocional, milagreiro, psicológico, econômico e político. Nele, o leigo é presença ativa, dinamizando as rezas, as festas, as

devoções. É marcado também por uma fidelidade ao passado. Através do seu aspecto afetivo e festivo, permite que seus praticantes interpretem, criem e recriem sua cultura, dando-lhe um significado.

O catolicismo popular devocional é o que Brandão (1992, p. 8) diz ser a agência religiosa de oferta pura e simples de bens de salvação entre a fé e a magia e também é um sistema cultural comunitário, pois pode fundamentar a legitimidade da ação religiosa na eficácia simbólica produzida por um grupo comunitário.

Ao escrever as características do catolicismo popular devocional, não se teve a intenção de apresentar uma análise parcial dos aspectos apresentados, pois o objetivo foi refletir para se definir qual o enfoque deste catolicismo seria adotado no presente estudo e o escolhido foi “a devoção aos santos” que será apresentado no item que se segue.

No documento elamdealmeidapimentel (páginas 55-59)