5. CIRCLE K CYCLES: O SUJEITO DIASPÓRICO NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

5.5 Os casais de “Samba Matsuri”

No último capítulo de Circle K Cycles352, intitulado “Samba Matsuri”, Yamashita parece disposta a encerrar o livro com a certeza de ter cumprido sua promessa inicial de proporcionar, por meio da obra, o retrato mais variado possível da comunidade nipo-brasileira no Japão. A narrativa tem início com a descrição de três casais: Marcolina e Paulo, Mariko e João, Marcos e Yoko. Todos estão no mesmo evento anual, o Samba Matsuri, um festival de cultura organizado pela comunidade nipo-brasileira, que inclui apresentações culturais como desfiles de escolas de samba fundadas pelos decasséguis no Japão. Nesse contexto, a autora descreve o perfil de cada indivíduo, as combinações resultantes de cada casamento e seu comportamento no grupo.

Marcolina é uma gaijin fascinada pela cultura japonesa. Desde criança, seu quarto é decorado em estilo japonês. Em São Paulo, Marcolina frequenta as lojas e os restaurantes do Bairro Liberdade: “Sukiyaki era sua comida predileta. Quando chegou o momento de namorar, ela sempre preferiu os rapazes japoneses, é claro” (YAMASHITA, 2001, p. 137).353 Marcolina, então, se casa com Paulo. Apesar de nisei, o marido nunca havia dado importância

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“Miss Hamamatsu wept at the end. It was her story too. Her mother was Japanese; her father was Italian. Her mother could have been Kyoko Tsukamoto; her father Antônio Fagundes.”

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“She felt it was her story too, the story of her Italian side. Imagine. Her grandmother could have been Letícia Spiller. Miss Hamamatsu sank into the full sensation of the novela moment; it was one of the perks of her job.”

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“Samba Matsuri” é de fato o último capítulo ficcional, mas o livro ainda traz mais três páginas de epílogo, narradas em primeira pessoa, em forma de um ensaio curto.

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“Sukiyaki was her favorite meal. Of course, when it came time to date, she always preferred the Japanese boys.”

à ancestralidade e aos valores japoneses. Quando Paulo fica desempregado, é Marcolina quem dá a ideia de irem para o Japão. Ela se adapta rapidamente, ao contrário do marido:

Paulo trabalha o dia todo e às vezes à noite em uma fábrica, pintando baterias para carros da Toyota. Ele usa uma máscara no rosto pra filtrar os gases e a fina tinta spray. Às vezes, se esquece de tirar a máscara e a usa em casa. Ele só pensa no dia em que vai poder voltar para o Brasil. (YAMASHITA, 2001, p. 138)354

A insatisfação de Paulo por estar no Japão está em contraste com a facilidade com que Marcolina se adapta àquele país, além de romper com a ideia preconcebida de que um descendente se adaptaria com maior facilidade no Japão. Nesse sentido, a máscara de pintar que Paulo usa no trabalho é bastante significativa. Ao colocar a máscara, Paulo é obrigado a assumir o papel do decasségui típico, cuja rotina inclui longas horas de um trabalho repetitivo, para uma subsidiária que presta serviços a uma multinacional como a Toyota. Por essa personagem, pode-se ver que a persona do decasségui, simbolizada pela máscara, representa uma identidade fixa que lhe é imposta no Japão, motivo de sua infelicidade. A “personagem da personagem” é um trabalhador que nada questiona, conveniente para as fábricas que fazem uso dessa força de trabalho obediente e barata. Curiosamente, Paulo continua a usar a máscara em casa, o que nos leva a crer que o papel de decasségui lhe é cobrado também fora do ambiente de trabalho, pela esposa Marcolina e pela sociedade em geral. Estendida aos nipo- brasileiros como um todo, a metáfora da máscara de Paulo nos dá a entender que muitos acabam acreditando e assumindo o papel de “peão” a eles atribuídos. Eles talvez não entendam como o estereótipo toma conta de suas vidas, mas, assim como Paulo, sentem que algo está errado, o que se confirma por seu desejo intenso de retorno e idealização do Brasil.

O segundo casal de “Samba Matsuri” é Mariko e João, dois niseis vindos do Brasil. Tanto ela quanto ele jamais haviam namorado outros niseis. Ela vai para o Japão casada com um gaijin, de quem se separa logo depois. João havia deixado uma namorada no Brasil, mas, depois de um tempo, a moça desiste de esperar a volta do namorado. Quando Mariko e João se conheceram, “uma afinidade repentina tomou conta deles” (YAMASHITA, 2001, p. 139).355 A afinidade que surge entre Mariko e João pode ser explicada a partir de sua condição, no mínimo curiosa: “Depois de alguns anos no Japão, como outros nisseis, tanto Mariko quanto João acharam-se em um limbo estranho. No Brasil, sempre receberam o rótulo de japoneses; uma vez no Japão, os japoneses os tratavam como estrangeiros, escreviam seus

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“Paulo works all day and sometimes nights in a factory painting batteries for Toyota cars. He wears a face mask to filter the fumes and the fine paint spray. Sometimes he forgets to remove the mask and wears it at home. He thinks only about the day when he can return to Brazil.”

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nomes em katakana. Quem eram eles?” (YAMASHITA, 2001, p. 139).356 Mariko e João são sujeitos diaspóricos situados em um entre-lugar duplo, enfrentando uma condição de minoria excluída, tanto no Brasil, onde eram considerados japoneses, quanto no Japão, país que os trata como estrangeiros. O katakana é uma evidência desse tratamento dispensado aos estrangeiros no Japão. É um sistema de escrita exclusivo para palavras estrangeiras, cujo uso em si implica segregar tudo e todos que não são japoneses, como os decasséguis. O questionamento identitário de João e Mariko no Japão os leva a se encontrarem um no outro, o que “talvez fosse amor” (YAMASHITA, 2001, p. 139),357 o que constitui um ponto de identificação bastante peculiar, originado de sua história e condição diaspórica.

O terceiro casal é composto por Marcos, um nissei, e Yoko, que é japonesa “pura”. Marcos havia viajado por todo o Brasil e vários países, “um homem em uma jornada sem um destino” (YAMASHITA, 2001, p. 139).358 Está no Japão há seis anos, tendo trabalhado em nove lugares diferentes. No último, conhece Yoko, secretária no escritório da fábrica. No primeiro dia de trabalho, Marcos tem que operar uma máquina que nunca tinha visto e ninguém lhe ensina como funciona. Ele começa a experimentá-la para ver se aprende sozinho. Surge então o gerente, que grita com ele, chamando-o de estúpido:

Bem, Marcos não sabia muito japonês, mas baka ele sabia e então balançou a cabeça e disse: Baka, não. Mas o gerente continuou gritando com ele e não queria retirar o baka. Marcos então começou a correr atrás dele com um cano, xingando-o com todos os palavrões japoneses e brasileiros que conhecia, incluindo um monte que inventou na hora. Outros trabalhadores intervieram, mas ele teve que deixar aquele emprego no primeiro dia. (YAMASHITA, 2001, p. 139)359

Marcos não aceita o papel de operário submisso, não permitindo o comportamento de desrespeito e autoritarismo, comum nas relações entre patrões japoneses e empregados brasileiros. Trata-se de uma personagem que questiona o próprio conceito de decasségui, com um perfil que foge aos estereótipos: “um homem em constante movimento” (YAMASHITA, 2001, p. 139).360 A mobilidade com que vive sua vida parece sugerir um

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“After a couple of years in Japan, like other nisei, both Mariko and João had found themselves in a strange limbo. When in Brazil, they were always called japonês; now in Japan, the Japanese treated them as foreigners, wrote their names in katakana. Who were they?”

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“Perhaps it was love.”

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“…a man on a journey without a destination.”

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“Well, Marcos didn’t know much Japanese but he knew baka, so he shook his head and said: Baka, não. But the manager kept yelling at him and wouldn’t take the baka back. So Marcos started to run at him with a pipe, cursing the manager with every Japanese and Brazilian cuss word he knew, including a bunch he invented on the spot. Other workers intervened, but he had to leave that job the first day.”

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maior grau de liberdade, o que resulta em um sujeito desprendido das amarras que caracterizam as relações hierárquicas entre operários decasséguis e administradores japoneses.

Esse perfil chama a atenção de Yoko. Japonesa típica, sua vida transcorre sem perspectiva de mudança. Ela realiza um trabalho de escritório na fábrica, em um ambiente em que as oportunidades melhores são reservadas aos homens. No dia em que Marcos vai embora, Yoko também deixa o emprego e o segue, trocando uma vida previsível pela possibilidade de algo “diferente, espontâneo, inventado” (YAMASHITA, 2001, p. 140).361 Para Yoko, um relacionamento com um estrangeiro, assim tão diferente dos homens que conhece, significa entregar-se ao novo e ao imprevisível, uma atitude completamente fora dos padrões japoneses. Portanto, o relacionamento de Marcos e Yoko ilustra como o sujeito diaspórico e a diáspora são capazes de trazer o novo à sociedade hospedeira, podendo, muitas vezes, reverter a tendência da maioria hegemônica transformar a minoria na comunidade diaspórica.

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 159-162)