Um Brasil em Brazil-Maru: a história em meio à ficção

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 74-79)

3. UM JAPÃO NO BRASIL E UM BRASIL NO JAPÃO: A DIÁSPORA (RE)IMAGINA

3.3 Um Brasil (re)imaginado: democracia racial, história e cultura nacional

3.3.1 Um Brasil em Brazil-Maru: a história em meio à ficção

Brazil-Maru possui um maior número de referências ao Japão, mas o Brasil tem

cinco “participações especiais” no romance, que estão relacionadas ao espaço geográfico nacional, a fatos históricos do século XX e à crise econômica da década de 80. A primeira

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“She was the stunning mixture of Euro and Asian that feeds the filmic imagination. Her features represented the full measure of occidental beauty, all gracefully accented in the exotic. To top it off, she carried these venus- like qualities with an easy Brazilian charm…”

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“After a couple of years in Japan, like other nisei, both Mariko and João had found themselves in a strange limbo. When in Brazil, they were always called japonês; now in Japan, the Japanese treated them as foreigners, wrote their names in katakana. Who were they?”

delas diz respeito à vastidão territorial brasileira, que é inevitavelmente comparada às proporções diminutas das ilhas japonesas: “Imagine, sessenta acres de terra para uma família! Quanto dá isso? Mais que uma vila inteira, e ainda há duzentos lotes disponíveis – mais de 120.000 acres!” (YAMASHITA, 1992, p. 6),151 exclama o imigrante Kiyoshi Terada. Para o então jovem Kantaro, em seu cavalo, “há espaço infinito para o espírito e a imaginação” (YAMASHITA, 1992, p. 6),152 em uma terra que impressiona também pela fertilidade: “Tudo cresce mais e com maior rapidez aqui. Não é impressionante?” (YAMASHITA, 1992, p.17).153 O otimismo e as expectativas dos imigrantes são acentuados pelo contraste com o Japão que deixam para trás: um país de desemprego e altos impostos, passando por uma explosão demográfica. O Brasil, ao contrário, vive uma fase de expansão da agricultura, com necessidade de mão de obra, sendo, portanto, imaginado como uma terra de oportunidades, em que a grande disponibilidade de espaço certamente contribuirá para uma vida mais próspera. A expectativa em torno do sucesso é ilustrada pelo nome escolhido para a comunidade, Esperança, somado ao audacioso projeto: “Poderemos criar uma nova civilização” (YAMASHITA, 1992, p 6).154 Com o desenrolar do enredo, entretanto, observa- se que a amplitude espacial em si, como instrumento gerador de prosperidade, não se confirma. A maioria dos habitantes de Esperança sequer tem acesso à vastidão do espaço brasileiro, já que seus líderes impõem um confinamento, como forma de controle e dominação.

Entretanto, a principal estratégia de Yamashita para relacionar o Estado-nação brasileiro com a diáspora japonesa é a inserção de três relevantes fatos históricos na narrativa, que se entrelaçam às histórias de seus personagens: a Revolução de 1930, o impacto da Segunda Guerra Mundial e a ditadura militar. Nessas ocasiões, o Estado-nação brasileiro é uma força externa que interfere, de forma inesperada e esporádica, na rotina dos colonos japoneses de Esperança. A relevância de tais interferências parece aumentar com o desenrolar do enredo.

No contexto da Revolução de 1930, a deposição de Washington Luís e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder são costurados ao polêmico casamento dos personagens Kantaro e Haru e à fuga de Kimi e Yogu. Passando pela região, uma tropa de revolucionários exige comida e confisca o cavalo de Kantaro, que tinha relevante significado para o grupo: “Naqueles primeiros anos, nós todos lutávamos juntos como uma comunidade; acho que

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“Imagine, sixty acres of land for one family! How much land is that? More than an entire village, and then there are two hundred such lots available — more than 120000 acres!"

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“… there is infinite space for the spirit and the imagination.”

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“Everything grows quickly and bigger here. Isn't it something!”

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Kantaro, indo de um lugar para outro em seu cavalo, com seu jeito particular e fala otimista, de alguma forma nos uniu trazendo informações e ajuda mútua” (YAMASHITA, 1992, p. 18).155 O cavalo de Kantaro é o único disponível na colônia. O animal lhe proporciona mobilidade e poder e, aos poucos, Kantaro vai se tornando um líder comunitário. Mas o cavalo é também um símbolo de liberdade, um fator de união entre os diferentes núcleos de colonos, como narra Ichiro. Meses após a revolução, conta o narrador, “representantes do novo governo vieram com estoques de comida em agradecimento à nossa ‘contribuição’ para a causa, mas nós nunca mais vimos o cavalo de Kantaro” (YAMASHITA, 1992, p. 59).156 Nesse episódio, a disputa de poder que caracteriza o contexto histórico da época marca de forma negativa a relação entre a comunidade diaspórica e o Estado-nação. O cavalo confiscado de forma autoritária é, simbolicamente, uma ameaça à liberdade de ação dos colonos que, em contrapartida, se isolam ainda mais dentro dos limites de Esperança.

Na década seguinte, o Estado-nação brasileiro vai novamente intervir na vida dos colonos. A lembrança dos acontecimentos é outra vez associada com um casamento, mas agora a narrativa é de Haru, na segunda seção do romance. O contexto histórico é a Segunda Guerra Mundial, em que o Estado brasileiro, depois de se posicionar ao lado das Potências Aliadas, dá início a uma perseguição aos imigrantes de origem japonesa. Medidas radicais são impostas, como a proibição do idioma japonês, de reuniões e de viagens, confisco do dinheiro, prisões e interrogatórios, como o de Naotaro Uno:

― Nós viemos aqui para morar. O Brasil é o nosso lar agora. [...]

― O senhor professa lealdade ao imperador japonês? [...]

― O senhor professa lealdade ao Estado japonês? O senhor renunciaria à sua cidadania japonesa?

― Eu sou um cidadão do mundo.

― Japonês doido! Do que é que ele está falando? (YAMASHITA, 1992, p. 97)157

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“In those early years, we all struggled together as a community, and I think Kantaro, wandering about on his horse with his personal ways and his positive talk, somehow bound us together by bringing news and collective help.”

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“… representatives from the new government came with stores of food in return to our “contribution” to the cause, but we never saw Kantaro’s horse again.”

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“We have come here to live. Brazil is our home now.” [...]

“Do you profess loyalty to the Japanese Emperor?” [...]

“Do you profess loyalty to the Japanese state? Would you renounce your Japanese citizenship?” “I am a citizen of the world.”

Ordenada pelo governo, a sindicância promovida pela polícia brasileira ilustra a tensão que surgiu entre o Brasil e o Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Para o policial, a figura de Naotaro encarna o “inimigo” japonês, enquanto para Naotaro, o policial é o representante de um Estado ameaçador para ele e para a sua comunidade. Por isso, em sua argumentação, ele tenta, da melhor forma, dissociar sua imagem do Japão. Naotaro não nega sua filiação àquele país, mas também não a assume. Seu argumento de cidadania mundial, que não faz o menor sentido para o inquisidor brasileiro dos anos 40, tem o efeito prático desejado: ao final de três dias, Naotaro é libertado.

A narrativa avança no tempo, sustentada por uma complexa teia de fatos que evoluem no contexto local, da comunidade, até a época da ditadura militar brasileira. O leitor tem acesso a essa conjuntura por intermédio de vozes narrativas mais jovens. Nascidos no Brasil, Genji e Guilherme narram a quarta seção e o Epílogo de Brazil-Maru, respectivamente. Genji, filho de Befu, líder de Esperança, vai morar no bairro Liberdade, em São Paulo. Genji é um personagem que possibilita a Yamashita entrelaçar diferentes dimensões espaciais: a comunidade agrícola interiorana onde nasceu, o bairro de maioria japonesa no maior centro urbano brasileiro, a cidade de São Paulo e o país. Mimado e imaturo, Genji não está preparado para lidar com a complexidade urbana e caótica de uma metrópole, em plena ditadura militar, situação tão distante do ambiente rural em que vivia. Apesar de nascido no Brasil, Genji não fala português e por isso apresenta dificuldades de entender as novas dimensões espaciais simbólicas que se apresentam em sua vida: “O que é o Japão? Igualzinho a Esperança, eu achava. Igualzinho a esse bairro japonês, esse Liberdade. Mas Guilherme dizia que isso não é o Japão, isso é o Brasil. Você é brasileiro, dizia” (YAMASHITA, 1992, p. 221).158 A confusão mental de Genji não é superada nem com a ajuda do amigo Guilherme que, com frequência, o convoca a começar a “viver no Brasil”.

Conhecido reduto da comunidade de japoneses e nipo-brasileiros na capital paulista, o bairro Liberdade é o berço de uma diáspora mais integrada à sociedade brasileira, incrustado na maior região metropolitana do país. Em Brazil-Maru, o bairro Liberdade é contrastado com o isolamento de Esperança, figurando como um reduto mais moderno e progressista, cujos habitantes, durante a ditadura militar, se opõem ao governo brasileiro no combate ao autoritarismo. Nesse contexto, o nome Liberdade adquire um significado especial. É nesse cenário que a autora apresenta a personagem Guilherme, antítese de Genji. Guilherme é um jovem nipo-brasileiro, filho do jornalista Shigeshi Kasai, cuja história de vida lhe

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“What is Japan? Just like Esperança, I thought. Just like this Japanese bairro, this Liberdade. But Guilherme said that this is not Japan. This is Brazil. You are Brazilian, he Said.”

garante plena capacidade de abstrair o significado do Estado-nação brasileiro: “Eu morava na cidade e fui criado como brasileiro. Meus amigos eram misturados, muitos deles não japoneses” (YAMASHITA, 1992, p. 245).159 A busca de Guilherme é por uma identidade brasileira, que o situa contra a ditadura militar. Atuante no grêmio estudantil da universidade que frequenta, ele tenta conscientizar Genji, envolvendo-o nos protestos e movimentos contra a ditadura. Mas o alienado Genji não compreende o momento político e sua gravidade nem mesmo no dia em que vê de perto a repressão do Estado, durante uma panfletagem política ilegal na Praça da República. A polícia, em ação típica do período militar persegue, fere e prende:

Eu não sabia dizer o que aconteceu. Acertaram-me o estômago com um cassetete. As pessoas começaram a correr. A voz no alto-falante estava gritando. Então houve tiros como fogos de artifício e o ar se encheu de um fedor. Meus olhos ardiam. Queria vomitar. Corri em volta procurando Guilherme. Tropecei em algo e caí. Quando olhei, tinha uma mulher embaixo de mim. O vestido ensopado de sangue. Eu olhei bem para o sangue vindo do pescoço e do peito dela. (YAMASHITA, 1992, p. 223)160

A violência deixa Genji impressionado, mas não o mobiliza para a luta. Ao contrário, afasta-o ainda mais do Brasil que Guilherme tentava lhe mostrar. Genji, então, decide retornar ao isolamento de Esperança onde, pouco tempo depois, tenta suicídio, incapaz de se adaptar. Ao mesmo tempo, Guilherme é obrigado a se exilar para escapar da tortura e da prisão.

No epílogo de Brazil-Maru, Guilherme deixa de ser uma descrição na voz de Genji e passa a ser o narrador. Mais maduro, casado, pai de dois filhos e recém-chegado do exílio político, ele revê o passado com certo cinismo: “Eu era jovem, cheio de idealismo, preparado feito um bobo para lutar pelo meu país” (YAMASHITA, 1992, p. 245).161 Guilherme é o único entre os cinco narradores que trata o Brasil como “seu” país. De forma estratégica, Yamashita marca essa diferença dando ao personagem um nome brasileiro, ao contrário de Ichiro, Haru, Kantaro e Genji. Além disso, sua mulher Jacira é uma gaijin, cujo nome indígena acentua sua brasilidade.

A descrição que o jovem Guilherme faz do Brasil, que gira em torno do contexto político nacional, muda de foco na fase adulta, narrada no epílogo do romance. No período pós-ditatorial, ele destaca o contexto social brasileiro por meio da história de Ichiro Terada, preocupado com a neta, arquiteta desempregada, que “é uma entre mais de 150.000 nipo-

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“I lived in the cited and was raised a Brazilian. My friends were mixed, many of them non-Japanese.”

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“I couldn’t tell what happened. I got punched in the stomach with a stick. People started to run. The voice in the bullhorn was screaming. Then, there were shots like firecrackers and the air stank. My eyes stung. I wanted to vomit. I ran around looking for Guilherme. I tripped over something and fell. When I looked, there was a woman beneath me. Her dress was soaked in blood. I stared at the blood coming from her neck and her chest.”

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brasileiros que estão atualmente no Japão, desempenhando trabalhos servis” (YAMASHITA, 1992, p. 248).162 Com esse desfecho, Brazil-Maru ilustra a crise econômica do Brasil nos anos 80 por meio de uma perspectiva até então insólita, a da minoria nipo-brasileira. O comentário final de Guilherme apresenta ainda a alternativa que se abriu para os nipo-brasileiros, que iniciam um intenso fluxo migratório para o Japão. Esse episódio faz parte de um fenômeno de dispersão brasileira mais abrangente, uma diáspora com registros de imigração em massa também para os Estados Unidos e países da Europa. Além disso, a abordagem da questão decasségui no capítulo final de Brazil-Maru funciona como um elo que liga a outro projeto literário da autora, o então futuro Circle K Cycles.

A Revolução de 1930, a Segunda Guerra Mundial e a ditadura militar são três referências históricas ao Brasil que apresentam relações conturbadas entre o Estado-nação brasileiro e a diáspora japonesa de Brazil-Maru. Marcadas pelo autoritarismo, tais relações desmancham a ingênua antevisão de Kiyoshi Terada que, nos anos 20, dizia aos filhos o quanto o Brasil era um lugar “perfeito para se criar um lar”. No final do romance, os momentos históricos de conflito político dão lugar à crise econômica da década de 80, que leva milhares de nipo-brasileiros ao Japão, como o já mencionado caso da bisneta de Kiyoshi Terada: mesmo formada com honra e distinção em arquitetura, ela não consegue um emprego estável no Brasil. As três referências históricas retratam o Estado como promotor de atitudes repressoras que cerceiam a liberdade e a cidadania. Já na crise econômica, apesar do momento histórico de abertura democrática, o foco recai sobre a incapacidade do país em gerar empregos dignos, mesmo para cidadãos com escolaridade superior.

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 74-79)