Espaço literário e prosa diaspórica

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 168-173)

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

6.1 Espaço literário e prosa diaspórica

Esta tese teve como objetivo a investigação de duas obras de Karen Tei Yamashita, interpretadas com o auxílio da teoria da diáspora. A análise foi coordenada por dois eixos: o coletivo e o individual. No primeiro, discutimos questões inerentes aos laços e interesses coletivos que constituem características diaspóricas, encontradas nas duas obras. No segundo eixo, tivemos a individualidade do sujeito diaspórico como objeto de estudo. Valendo-nos de um procedimento comparativista, realizamos um estudo relacional que envolveu diferenças e semelhanças entre Brazil-Maru e Circle K Cycles, visando a articular a investigação com o social, o político e o cultural. Embora trabalhem temas semelhantes, essas obras são distintas em importantes quesitos, como em gênero e em estrutura literária. Aplicar a teoria da diáspora em objetos de pesquisa que são semelhantes por um lado e diferentes por outro nos obrigou a sair de uma zona de conforto analítico, lançando-nos em um universo de particularidades que precisaram ser escrutinizadas.

A diáspora, como opção teórico-interpretativa principal, mostrou-se útil, favorecendo um debate acadêmico que trouxe à tona discussões que envolveram relevantes conceitos e teorias. Nos dois capítulos iniciais, o estudo da diáspora foi aprofundado por meio de questões sobre etnicidade, Estado-nação, comunidades imaginadas, culturas nacionais, raça e entre-lugar. No quarto capítulo, recorremos à identificação, identidade cultural, o sujeito do Iluminismo rousseauniano e o sujeito fragmentado segundo Stuart Hall. O quinto capítulo foi respaldado por teorias como globalização, fluxos culturais globais, conectividade complexa, posicionamento do sujeito subject positioning e hibridismo. Aplicados nas análises de

Brazil-Maru e Circle K Cycles, esses conceitos proporcionaram, em cada capítulo, a abstração

de novos significados, que se originaram de evidências no material textual, o componente principal daquilo que pretendemos designar como espaço literário de Karen Tei Yamashita.

A noção de “espaço literário” varia no campo das Letras. Para Paulo Astor Soethe (2007), espaço literário é o:

Conjunto de referências discursivas, em determinado texto ficcional e estético, a locais, movimentos, objetos, corpos e superfícies, percebidos pelas personagens ou pelo narrador (de maneira efetiva ou imaginária) em seus elementos constitutivos (composição, grandeza, extensão, massa, textura, cor, contorno, peso, consistência), e às múltiplas relações que essas referências estabelecem entre si. Esse conjunto constitui o entorno da ação e das vivências das personagens no texto e surge sob a visão mediadora de um ou mais sujeitos perceptivos no interior da obra. (SOETHE, 2007, p. 223)

A definição de Soethe (2007) nos fornece uma percepção de espaço na literatura que remete às referências feitas ao longo da tese, em que os espaços foram analisados com o objetivo de interpretar e expandir o sentido da obra de Yamashita, em sua relação com o tema diáspora. Assim, em sintonia com Soethe (2007), uma complexa rede espacial é formada, por exemplo, entre a horta mantida por Haru, a Comunidade Esperança e o Brasil, em Brazil-

Maru. A sala de aula de Tia Célia, o Condomínio Homi Danchi e o Japão são espaços que se

justapõem em Circle K Cycles, constituindo relações de troca permanente, em que são agentes transformadores e são transformados ao mesmo tempo, com resultados imprevisíveis.

Entretanto, a expressão “espaço literário”, conforme desejamos utilizar, deve designar mais que o conjunto de atributos percebidos no conteúdo das obras, que fazem parte dos espaços literariamente representados, ficcionais ou não. Em “Espaços literários e suas expansões”, Luis Alberto Brandão (2007) lista três modos de abordagem do espaço na literatura, além da representação do espaço: “espaço como forma de estruturação textual; espaço como focalização; espaço da linguagem” (BRANDÃO, 2007, p. 208). Essas dimensões, em nosso ver, devem ser somadas ao espaço “para” a representação, isto é, os espaços concretos construídos para acolher o imaginário: se o teatro e o palco são projetados para a encenação de peças, os livros são produzidos para dar existência material ao texto.

Portanto, a análise do espaço de representação na obra de Yamashita, nestas considerações finais, leva em conta a forma, os recursos e os gêneros literários, além da estrutura material do livro e sua composição espaço-textual. Esses elementos são empregados como estratégias produtoras de sentido, tão importantes quanto o conteúdo das narrativas. Congregadas na categoria espaço de representação, essas dimensões não apresentam

demarcações que as separem objetivamente nem dos espaços representados nas obras e nem entre si mesmas. Tampouco é nosso objetivo tentar estabelecer tais fronteiras. Georges Perec (1998), por sinal, alerta-nos para a impossibilidade de tal tarefa. No livro Species of Spaces, Perec (1998) dedica-se, dentre outras coisas, ao estudo da página, uma reflexão que é útil para compreender como espaço representado e espaço de representação estão intimamente ligados na obra literária. O autor reflete sobre o espaço físico da página, a folha branca de papel. Suas ponderações evoluem no sentido da ocupação da página, que passa a ser coberta de palavras, letras e linhas. Perec (1998) então afirma que “em um momento ou outro, quase tudo passa por uma folha de papel [...] um ou outro dos variados elementos que compreendem o quotidiano chegam a ser inscritos” (PEREC, 1998, p.12).373 Ao se referir ao ato de escrever como o espaço do tudo, Perec (1998) conclui que o alfabeto é o aleph de Jorge Luis Borges, uma espécie de lugar de onde se pode ver o mundo todo simultaneamente.

Inspirados pelo status elevado que Perec (1998) confere ao papel, entendido como o espaço do escrever, encerramos esta tese buscando reconhecer e interrogar os aspectos do espaço de representação, relacionados à forma, que se fundem ao espaço representado, encontrado no conteúdo. O elemento comum dessa interseção entre forma e conteúdo é a diáspora, já que argumentamos que o aparato estrutural do espaço literário de Yamashita constitui, na realidade, um espaço literário diaspórico. Entretanto, que noções formais de diáspora se entrelaçam à diáspora como conteúdo, explicitamente desenvolvido na literatura de Yamashita? Quais são os aspectos diaspóricos no estilo da autora, que podem ser combinados às diásporas retratadas? Se existe, de fato, uma poética da diáspora ou “diaspoética” na obra da autora, como podemos caracterizá-la?

Nesta tese, mencionamos importantes referências teóricas sobre diáspora, sendo que algumas apresentam seu argumento sustentado por meio de exemplos da literatura. Entretanto, os trabalhos mencionados não ofereceram uma definição e uma caracterização daquilo que possa vir a ser chamado de literatura diaspórica. Por isso, é necessário fazer referência a Vijay Mishra (2007), Sandra Ponzanesi (2008) e Shaleen Singh (2008).

Singh (2008) assim identifica o surgimento de uma literatura diaspórica: “seu sentimento de anseio pela terra natal, um apego singular às suas tradições, religiões e línguas dão à luz a literatura diaspórica que é primariamente preocupada com o apego do indivíduo ou

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“At one time or another, almost everything passes through a sheet of paper [...] one or another of the miscellaneous elements that comprise the everydayness of live comes to be inscribed.”

da comunidade à terra natal” (SINGH, 2008, p.1).374 A perspectiva de Singh (2008) é centrada na questão da terra natal, o que faz dela um ponto de partida apenas, pois as questões da terra natal constituem somente um entre vários aspectos da condição diaspórica. Além disso, o mito e o desejo de retorno são superados por muitos sujeitos na diáspora. A terra natal também está entre os aspectos destacados por Mishra (2007), para quem a “escrita diaspórica frequentemente evoca um momento de trauma na terra natal” (MISHRA, 2007, p.12).375

Porém, Mishra (2007) não destaca somente a questão do trauma. Segundo esse autor, uma literatura diaspórica deve conter um imaginário diaspórico, uma poética diaspórica e uma “mobilidade incrustada no romance” (MISHRA, 2007, p. 5).376 Ponzanesi (2008) elabora seus princípios para uma literatura diaspórica a partir da história diaspórica do escritor, que vai influenciar o desenvolvimento de um estilo de narrativa “fragmentado, em camadas e nômade” (PONZANESI, 2008, P. 123).377 A autora também vê, em uma literatura diaspórica, referências à diáspora como a dispersão e a relocação de personagens, uma linguagem figurada diaspórica, em tempos e espaços diaspóricos. O último elemento diaspórico, para Ponzanesi (2008), seria a “disseminação do romance em outra forma de mídia” (PONZANESI, 2008, p. 131),378 exemplificado pela adaptação fílmica de O paciente

inglês, de Michael Ondaatje.

No tocante à literatura diaspórica, os trabalhos de Mishra (2007), Ponzanesi (2008) e Singh (2008) funcionam como importantes desencadeadores para uma discussão que ainda necessita ser aprofundada. Na ausência de uma sistematização teórica específica para a literatura diaspórica, surgiu a necessidade de se reunir um conjunto de aspectos elementares à literatura diaspórica, que desenvolvemos a partir dos textos inspiradores de Mishra (2007), Ponzanesi (2008) e Singh (2008), mas, principalmente, com base em nossa própria pesquisa. Sendo assim, apresentamos a seguinte sistematização como um ponto de partida para futuras discussões, sustentado pelos exemplos da prosa de Yamashita, disseminados por toda a tese. Partimos da premissa de que a prosa diaspórica inclina-se a uma articulação da noção de diáspora em âmbitos que vão do literário ao extraliterário, passando por níveis de transição entre um e o outro. Assim, a prosa diaspórica:

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“Their sense of yearning for the homeland, a curious attachment to its traditions, religions and languages give birth to diasporic literature which is primarily concerned with the individual's or community's attachment to the homeland.”

375

“Diasporic writing often recalls a moment of trauma in the homeland.”

376

“mobility embedded in the novel.”

377

“fragmented, layered and nomadic.”

378

a) versa sobre comunidades na diáspora, com personagens que representam sujeitos diaspóricos;

b) está imbricada de ideias de movimento e cruzamentos de fronteiras, articuladas à dispersão diaspórica que tem início na terra natal;

c) tem por tema a dispersão diaspórica e o fator, ou fatores, que a causaram, frequentemente um trauma na terra natal, geralmente apresentado logo na exposição;

d) tende a apresentar o enredo de forma não-linear, combinando a imprevisibilidade dos fatos exteriores, ocorridos na terra estrangeira, com os fatores psicológicos, interiores aos personagens e, portanto, emocionais.

e) tem como espaço predominante o enclave diaspórico, um entre-lugar em que a história se passa, situado geograficamente fora da terra natal, mas que simbolicamente traz referências a ela, em meio a influências espaço-culturais do país hospedeiro;

f) privilegia o tempo psicológico, pela tendência da narrativa a inserir os impulsos emocionais do narrador ou dos personagens, que frequentemente vão se referir ao passado na terra natal;

g) explora o conflito e a intriga, externos ou internos às personagens, surgidos devido ao deslocamento diaspórico e ao convívio na terra hospedeira;

h) prioriza um clima tenso, recorrente na condição diaspórica, quer seja por razões sociais, morais, econômicas, políticas ou psicológicas, girando em torno da relação da diáspora com o país hospedeiro e a terra natal;

i) realiza-se por meio de um estilo narrativo fragmentado ou disperso, estratificado ou superposto em camadas;

j) em termos discursivos, tende a apresentar narradores e personagens que fazem uso de uma linguagem que caracteriza a diferença cultural na diáspora, sendo frequente o emprego de vocábulos, expressões e até mesmo textos inteiros em mais de uma língua e, muitas vezes, misturando e fundindo as línguas da terra natal e do país hospedeiro, constituindo uma conjuntura linguística híbrida;

k) está propensa a apresentar influências de uma tradição literária de origem, uma “terra natal literária”, cujas referências estão presentes na formação do escritor diaspórico, e podem estar visivelmente marcadas em seu trabalho ou se manifestar simbolicamente;

l) explicita um posicionamento político, já que narrativas diaspóricas geralmente dão voz a minorias geralmente ignoradas ou silenciadas;

m) é produzida por um escritor cuja história pessoal e familiar é diaspórica, ou que opta por um estilo de vida diaspórico, tendo, com frequência, interesse em escrever sobre a

terra natal, o país hospedeiro e, sobretudo, sobre questões pertinentes à comunidade diaspórica em si.

Os aspectos supracitados são, por cautela, arrogados à literatura diaspórica em prosa, já que nosso foco de pesquisa não incluiu poesia ou drama diaspórico. São características originadas do percurso acadêmico trilhado na elaboração desta tese: a leitura, a interpretação e a análise dos textos teóricos e do texto literário de Yamashita revelaram várias faces da diáspora. Por este motivo, as características que levantamos não podem ser vistas como absolutas ou exclusivas da prosa diaspórica, tampouco são válidas para qualquer situação, mas devem estar abertas às especificidades literárias de escritores diaspóricos de tradições variadas.

Alguns desses elementos, que atribuímos a uma construção textual diaspórica, merecem um comentário final, para que o espaço literário diaspórico de Karen Tei Yamashita possa ser vislumbrado de maneira mais efetiva. Explanamos esses aspectos inspirados nas categorias organizadas por Brandão (2007), aqui adaptadas e desdobradas em: espaço de estruturação textual e perspectiva, espaço de estruturação paratextual, espaço de inserção da autora e espaço da língua.

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 168-173)