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Classificação dos bens jurídicos quanto à titularidade

Não obstante haja debate doutrinário no sentido de diferenciá-las, as expressões bens jurídicos supraindividuais, coletivos, suprapessoais, transindividuais, metaindividuais, institucionais, universais e outras são utilizadas, no geral, de maneira indistinta. Tais terminologias são empregadas para classificar os bens jurídicos de titularidade não individual a partir de variados critérios, inexistindo uniformidade entre as diversas categorizações.

Hassemer e Muñoz Conde, por exemplo, preferem denominar universais todos os

bens jurídicos não individuais528. Contudo, a mesma denominação é usada por outros autores

para designar, especificamente, os bens jurídicos supranacionais do Direito Penal internacional, atingidos pelos crimes contra a humanidade, crimes de guerra e genocídio.

Com base em Mata y Martín, Marques classifica os bens jurídicos quanto ao sujeito passivo em pessoais, suprapessoais e pessoais com reflexos suprapessoais. Os bens jurídicos pessoais dizem respeito ao ser humano em si mesmo considerado, e sua titularidade, em caso de agressão ou ameaça, é perfeitamente identificável. Os suprapessoais dizem respeito à coletividade ou à universalidade de seres humanos e a sua titularidade, em caso de agressão ou ameaça, é identificada de forma vaga e imprecisa (sociedade, comunidade ou o próprio Estado). Por fim, os bens jurídicos pessoais com reflexos suprapessoais são, em essência, bens pessoais, mas cuja violação tem repercussões suprapessoais (livre iniciativa, segredo

empresarial, identidade genética, etc.).529

Tradicionalmente, os bens jurídicos supraindividuais são classificados conforme

pertençam à sociedade ou ao Estado530. Entretanto, essa divisão conflita com a visão,

adequada ao modelo democrático, de que o Estado não é titular de bens jurídicos próprios, mas mero gestor de bens jurídicos alheios. Com efeito, “Só pode ser portador de direitos quem pode exigir, para si, em prol de seu próprio interesse, alguma atitude de outro. Tudo o

528 HASSEMER, Winfried; MUÑOZ CONDE, Francisco. Introducción a la criminología y al Derecho Penal. Valencia: Tirant lo Blanch, 1989. passim.

529 MARQUES, Daniela de Freitas. Sistema jurídico-penal do perigo proibido e do risco permitido. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2008. p. 63-64.

530 HEFENDEHL, Roland. El bien jurídico como eje material de la norma penal. In: HEFENDEHL, Roland (Ed.). La teoría del bien jurídico. ¿Fundamento de legitimación del derecho penal o juego de abalorios dogmático? Madrid: Marcial Pons, 2007. p. 182. O autor considera essa distinção grosseira, mas não obsoleta.

que o Estado exige de cada um não é de seu próprio interesse, mas de interesse dos demais indivíduos”531.

Em princípio, a categoria dos bens supraindividuais abarcaria tanto os bens de titularidade difusa quanto os de titularidade coletiva. O Código de Defesa do Consumidor conceitua os interesses ou direitos coletivos como sendo “os transindividuais, de natureza indivisível e de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a

parte contrária por uma relação jurídica base”532. Os direitos coletivos não se confundiriam

com os difusos, também de natureza indivisível, cuja titularidade pertence a pessoas

indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato533.

A noção de interesse difuso ou difundido foi introduzida na ciência jurídica por Sgubbi como alternativa à tradicional categoria liberal-individualista de direito subjetivo. O autor italiano definiu interesse difuso como a aspiração informal, propagada a nível massivo, de satisfação de necessidades essenciais e participação no processo econômico. Com isso, buscava-se expressar o antagonismo político entre essa aspiração informal e massiva e as posturas jurídico-econômicas dominantes. Desde Sgubbi, foram inúmeras as tentativas de diferenciar os interesses difusos dos coletivos com base em critérios variados, como, por

exemplo, a titularidade, o grau de organização e a divisibilidade do bem.534

A doutrina brasileira, por influência da italiana, esforça-se nessa diferenciação. Para os autores nacionais, os interesses coletivos pertencem a determinada coletividade, e apenas a

ela, composta por indivíduos congregados por um vínculo jurídico535. Já os interesses difusos

são interesses informais e de massa referidos à qualidade de vida, que se caracterizam pela

conflituosidade social que contrapõe diversos grupos dentro da sociedade536.

Segundo Grinover, os interesses difusos são compartilhados por indivíduos cujo vínculo se reduz a conjunturas fáticas genéricas, acidentais e mutáveis: habitar a mesma região, consumir o mesmo produto, viver em dada condição socioeconômica, sujeitar-se a determinados empreendimentos, etc. Logo, os interesses difusos são mais abrangentes do que

531 BUSATO, Paulo César. Direito Penal. Parte geral. São Paulo: Atlas, 2013 p. 19. 532 Art. 81, parágrafo único, inc. II, do Código de Defesa do Consumidor.

533 Art. 81, parágrafo único, inc. I, do Código de Defesa do Consumidor.

534 CORIA, Dino Carlos Caro. “Sociedades de riesgo”, bienes jurídicos colectivos y reglas concursales para la determinación de la pena en los delitos de peligro.con verificación de resultado lesivo. Caro&Associados, Diciembre 2006, p. 11. Disponível em: <http://www.ccfirma.com/publicaciones/pdf/caro/Bjc-concurso.pdf>. Acesso em: 17 ago. 2015, às 10:20.

535 GRINOVER, Ada Pellegrini. A problemática dos interesses difusos. In: GRINOVER, Ada Pellegrini (Coord.). A tutela dos interesses difusos. São Paulo: Max Limonad, 1984. p. 30.

os interesses coletivos, pois podem pertencer até à humanidade inteira, caso o interesse

decorra da simples condição de ser humano.537

A doutrina hispânica, por outro lado, critica a divisão dos bens jurídico-penais em coletivos e difusos. Nesse sentido, Coria questiona se a dualidade entre bens difusos e bens coletivos não seria desnecessária no âmbito penal. Para ele, não obstante os esforços teóricos, a doutrina não obteve sucesso em indicar, com clareza, a existência de diferenças ontológicas ou teleológicas entre interesses difusos e coletivos. Isso porque a dificuldade na concreção e estruturação dos tipos penais do direito penal supraindividual advém das relações de conflito entre os múltiplos interesses subjacentes tanto aos bens difusos quanto aos coletivos, as quais afastam uma proteção jurídico-penal absoluta ou intangível, devendo resultar da ponderação de ditos interesses.538

Por isso, Coria reconhece a transindividualidade, indivisibilidade e conflituosidade social como inerentes às duas subcategorias de bens supraindividuais, concluindo que inexistem diferenças substanciais entre elas, mas somente uma diferença formal: o interesse difuso, diversamente do interesse coletivo, ainda não conta com o reconhecimento jurídico formalizado e, como consequência, a identificação dos afetados é mais plausível na hipótese de menoscabo a interesses coletivos do que a interesses difusos. Nas palavras do autor:

[...] se bem os interesses difusos surgem à margem de todo reconhecimento formal, no momento em que se ultrapassa a situação puramente fática e o ordenamento reconhece a existência do interesse difuso, estabelecendo suas condições formais, esse terá se convertido em um interesse coletivo, de sorte que não é outra coisa que “o interesse difuso juridicamente reconhecido”.539 (tradução nossa).

Portanto, para Coria, a noção de interesse difuso carece de transcendência para o Direito Penal, pois, por um lado, não acrescenta nada à noção de interesse coletivo previamente existente e, por outro, seus contornos imprecisos tornam insegura sua

operacionalização.540 Com efeito, apesar da relevância da distinção entre interesses difusos e

537 GRINOVER, Ada Pellegrini. A problemática dos interesses difusos. In: GRINOVER, Ada Pellegrini (Coord.). A tutela dos interesses difusos. São Paulo: Max Limonad, 1984. p. 30.

538 CORIA, Dino Carlos Caro. “Sociedades de riesgo”, bienes jurídicos colectivos y reglas concursales para la determinación de la pena en los delitos de peligro con verificación de resultado lesivo. Caro&Associados, Diciembre 2006, p. 12. Disponível em: <http://www.ccfirma.com/publicaciones/pdf/caro/Bjc-concurso.pdf>. Acesso em: 17 ago. 2015, às 10:20.

539 No original: “[...] si bien los intereses difusos surgen al margen de todo reconocimiento formal, en el momento en que se traspasa la situación puramente fáctica y el ordenamiento reconoce la existencia del interés difuso, estableciendo sus condiciones formales, éste se habrá convertido en un interés colectivo, de suerte que no es otra cosa que ‘el interés difuso jurídicamente reconocido’. (Ibid., p. 12).

coletivos no âmbito da tutela civil de direitos supraindividuais, para o Direito Penal se mostra mais pertinente investigar o que distingue os bens supraindividuais dos bens individuais.

Os bens supraindividuais são definidos, em contraposição aos individuais, como sendo aqueles que atendem às necessidades de todos e cada um dos membros da sociedade. Na análise de Hefendehl, os bens jurídicos individuais servem aos interesses diretos de uma pessoa ou de determinado grupo de pessoas, enquanto os supraindividuais servem aos

interesses gerais de uma comunidade541. Assim, a indicação de quem pode desfrutar ou

usufruir o bem é o principal critério de distinção entre bens individuais e supraindividuais. A descrição do bem jurídico-penal como relação de disponibilidade de um sujeito

com um objeto, realizada por Zaffaroni, põe em evidência esse critério de distinção542. A ideia

de disponibilidade é criticada por aqueles que classificam os bens jurídicos em disponíveis e indisponíveis. Ocorre que disposição não é sinônimo de destruição, mas de uso e aproveitamento. Nessa acepção, verifica-se que a vida é o mais disponível dos bens jurídicos. Logo, inexistem bens jurídicos indisponíveis, sendo que, apenas em relação aos bens jurídicos não individuais, a disponibilidade é limitada pela indestrutibilidade.

De fato, ainda que titularizado por um grupo determinado de pessoas, o bem jurídico individual é de plena disponibilidade, podendo, inclusive, ser destruído por seu(s) titular(es). O bem coletivo também é disponível por todos e cada um dos indivíduos que dele aproveitam, porém a disponibilidade é limitada a dados parâmetros, vedando-se sua destruição mesmo que de comum acordo. Isso significa que a impossibilidade daqueles que usufruem o bem dispor

dele de forma destrutiva é uma característica comum aos bens jurídicos supraindividuais543.

Diante disso, define-se bem jurídico-penal supraindividual como aquele com o qual pessoas indetermináveis ou de difícil determinação estabelecem, ao mesmo tempo, uma relação de disponibilidade limitada para a satisfação, ainda que indireta, de necessidades humanas essenciais.

Optou-se por utilizar como sinônimas as expressões bem jurídico supraindividual e bem jurídico coletivo, preferindo-se a primeira a fim de evitar a improfícua contestação sobre

541 HEFENDEHL, Roland. ¿Debe ocuparse el derecho penal de riesgos futuros? Bienes jurídicos colectivos y delitos de peligro abstracto. Revista Electrónica de Ciencia Penal y Criminología. Granada, n. 04-14, p. 1-13, 25 julio 2002. p. 3. Disponível em: <http://criminet.ugr.es/recpc/recpc_04-14.pdf>. Acesso em: 30 jun. 2015, às 21:40.

542 “En rigor, pese a que por lo común se mencionan los bienes jurídicos conforme a los objetos (patrimonio, libertad, etc.), su esencia consiste en la relación de disponibilidad del sujeto con estos objetos y no en los objetos mismos.” (ZAFFARONI, Eugenio Raúl; ALAGIA, Alejandro; SLOKAR, Alejandro. Derecho Penal. Parte General. 2. ed. Buenos Aires: Ediar, 2002. p. 489).

543 Ibid., p. 490. Em relação aos bens jurídicos individuais de reflexos transindividuais, a questão da indestrutibilidade é mais complexa e deve ser analisada caso a caso, não cabendo aqui aprofundá-la. Todavia, a regra é a plena disponibilidade, pois estamos diante de um bem individual.

a pertinência ou não dos interesses difusos. Como demonstrado pela análise de Coria, a atribuição de proteção jurídica transmuta o interesse difuso em coletivo, motivo pelo qual a dualidade de categorias se afigura inútil. Antes desse processo de formalização, os interesses difusos são excessivamente abstratos e mal delimitados, o que descarta sua utilidade como instrumento de limitação do Direito Penal.

É claro que a terminologia supraindividual não está imune a críticas. Seu emprego tem a desvantagem de transmitir a falsa mensagem de que os bens jurídicos supraindividuais estão acima dos bens jurídicos individuais, quando, na realidade, também se colocam a serviço dos cidadãos. No entanto, feito esse esclarecimento e afastado qualquer mal- entendido, nada impede o uso do predicado supraindividual, mais consagrado na literatura e na legislação nacional do que os vocábulos transindividual e metaindividual.

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