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Com o crescimento populacional exponencial na década de 1950, a população brasileira tornou-se em sua maioria urbana, o que gerou novas formas de territorialidade, com o crescimento horizontal e vertical das cidades. Mesmo com o fenômeno da urbanização, o Brasil continua abrigando heterogeneidades de crenças, modos de vida e sentimentos.

Ao nos voltarmos para a realidade rural, o camponês resiste e reinventa-se no seu espaço de vida, de onde tira o seu sustento e perpetua sua família. A terra torna-se o seu território econômico, social e, acima de tudo, espaço de íntima relação com a natureza. Entretanto, qual o significado de território aplicado ao campo e quais são as questões territoriais existentes quando o capital avança sobre o meio rural, territorializando-se e, por consequência, desterritorializando os antigos donos?

Primeiro há de se entender que o território é o suporte para a convivência social, como exalta Castro (2006). É esse território, portanto, a expressão de simbolismos alimentados pelas relações do homem com o meio, o que gera distintas organizações socioespaciais. O território do camponês é assim resultado do seu trabalho, da convivência familiar e da concretização do seu imaginário na sua terra: o elo deste homem do campo é tão forte que o faz criar raízes no seu pedaço de chão.

Como expôs Marques (2006), o camponês tem uma complexa trajetória e comprometimento com sua terra. Existe um senso de comunidade e de trabalho agrícola particulares que caracterizam a ruralidade desses indivíduos, que prezam pelas relações sociais e o fortalecimento da inscrição local.

Marques (2002) ainda destaque que o lavrador e sua comunidade devem ser entendidos pelas suas particularidades, pois o meio rural comporta relações que são complexas e diversificadas.

Ademais, essas dicotomias existentes no campo criam novas “economias” ou formas de lidar com a vida local. Com isso, Escobar (2005) exaltou que os conhecimentos adquiridos na prática valem mais em comunidades rurais, por exemplo, do que um sistema formal de conhecimentos compartilhados. A natureza, nesse ponto, é fator decisivo na evolução dos grupos sociais que dela dependem.

Certifica-se dessa maneira que a comunidade camponesa é um aglutinado de histórias, de vivências, de medos e de sonhos, concretizado através de ações que esses indivíduos executam na natureza.

Escobar (2005, p.9) adverte que esses ideários populares são constantemente invadidos por outras formas modernas de conhecimento. No caso dos camponeses, isso pode ser contextualizado, por exemplo, com a chegada de máquinas e empresas capitalistas no ambiente rural.

Certamente, o “lugar” e “o conhecimento local” não são panacéias que resolverão os problemas do mundo. O conhecimento local não é “puro”, nem livre de dominação; os lugares podem ter suas próprias formas de opressão e até de terror; são históricos e estão conectados com o mundo através de relações de poder, e de muitas maneiras, estão determinados por elas [...]. Será necessário, porém, estender a investigação ao lugar, para considerar questões mais amplas, tais como a relação do lugar com economias regionais e transnacionais; o lugar e as relações sociais; o lugar e a identidade; o lugar e os limites e os cruzamentos de fronteiras; o híbrido; e o impacto da tecnologia digital, particularmente a Internet, no lugar. Quais são as mudanças que se dão em lugares precisos como resultado da globalização? Por outro lado, quais formas novas de pensar o mundo emergem de lugares como resultado de tal encontro? Como podemos compreender as relações entre as dimensões biofísicas, culturais e econômicas dos lugares?

Ou seja, é importante rememorar que, muito anterior à mecanização da agricultura, o camponês já vivia em seu tempo lento e praticando agricultura de acordo com conhecimentos passados de pai para filho. Como assinalaram Santos e Silveira (2013, p.30), quando a necessidade de produção de alimentos em grande escala não se fazia aparecer no campo brasileiro, “o reino da necessidade balizava a reprodução harmoniosa com a natureza”

e o tempo da natureza sobrepujava o humano, acompanhado pelos ponteiros do relógio. Nessa perspectiva, o território rural demonstrava peculiaridades, diferenças estas mais evidentes se comparadas às características territoriais presentes nas cidades.

Com todas essas particularidades, é comum que o conceito de território aplicado ao campesinato tenha diversas perspectivas. Diante de todos esses tipos de abordagens que existe sobre território, Haesbaert (2016) alerta para a necessidade de se encontrar uma proposta integradora que leve em consideração tanto o espaço material quanto o “imaginário geográfico”, de forma indissociável. Assim, entende-se que o “habitar” não é a parte principal do “territorializar”. Há diversas implicações que regem a organização espacial dos territórios: as aspirações dos que lá habitam, como acontecem as reproduções econômicas e políticas entre distintos territórios e qual o valor material e simbólico da terra para o homem.

É importante perceber também que no meio rural há a existência de territórios que se sobrepujam. Esse fenômeno dá-se mais particularmente com o avanço do capital do agronegócio em território camponês. Sobre essa questão, Santos e Silveira (2013, p. 31) destacam que:

[...] a invenção e difusão das máquinas e a elaboração de formas de organização mais complexas permitiram outros usos do território. Novas geografias desenham- se, sobretudo a partir da utilização de prolongamentos não apenas do corpo do homem, mas do próprio território, constituindo verdadeiras próteses. O período técnico testemunha a emergência do espaço mecanizado. São as lógicas e os tempos humanos impondo-se à natureza, situações em que as possibilidades técnicas presentes denotam conflitos resultantes da emergência de sucessivos meios geográficos, todos incompletamente realizados, todos incompletamente difundidos.

A tecnologia surge, igualmente, pela necessidade de atender à crescente necessidade de consumo da sociedade, o que transforma o modo de vida tradicional, justamente por essa pressa escalar de ocupação do território por parte do capital. Ainda sobre essa questão, Santos e Silveira (2013, p.31) exprimem:

Poderíamos assim reconhecer diversos momentos em um processo de evolução que é permanente. No primeiro podemos falar do território brasileiro como um arquipélago, contendo um subsistema que seria o arquipélago mecanizado, isto é, o conjunto de manchas ou pontos do território onde se realiza uma produção mecanizada. Depois, a própria circulação se mecaniza e a industrialização se manifesta. É somente num terceiro momento que esses pontos e manchas são ligados pelas extensões das ferrovias e pela implantação de rodovias nacionais, criando-se bases para uma integração do mercado e do território. Essa integração revela a heterogeneidade do espaço nacional e de certo modo a agrava, já que as disparidades regionais tendem, assim, a tornar-se estruturais.

Destarte, a industrialização surge como um aparato interligado por uma grande rede que atende à logística da produção, mas aprofunda o abismo entre o “arquipélago mecanizado” e a sociedade que não faz parte desse território.

Nessa relação conflituosa que se instala nos territórios (e no caso particular do campo), a materialidade do território e os anseios da indústria mecanizada e do camponês devem ser mediados pela política. Castro (2006) é bem pontual ao assinalar que há uma inseparabilidade entre o imaginário social, a política e o território, portanto, o espaço geográfico deve ser sinônimo de espaço da política. O território não é somente uma instância onde os indivíduos se instalam e aplicam suas vontades; eles são regidos por uma instância política que deve evitar a fricção entre os territórios. É preciso adotar uma abordagem que considere a indissociabilidade entre política e formação territorial.

Por muitas vezes, entretanto, o agente que move as ações políticas (o Estado) trabalha a serviço da desterritorialização: a política estatal, geralmente, não é uma condição para a territorialização, pois esta já acontecia pela vontade de comunidades pré-capitalistas (como os indígenas, por exemplo). Com a formação das primeiras fronteiras, limites estaduais e municipais, o território é a expressão da soberania do Governo sobre o espaço geográfico.

Nesse quesito, Haesbaert (2016) explica que há, corriqueiramente, o entendimento de que o Estado desterritorializa a partir de divisões administrativas, fundiárias e residenciais. A própria fundação das ações estatais é iniciada pela destruição de territórios desses povos pré-capitalistas, negando-os o direito a terra que estes habitavam muito antes das primeiras incursões capitalistas. O povo tradicional, mesmo após a ocupação do território por forças capitalistas regidas por políticas que promovem a desterritorialização, tem em sua organização uma condição natural a territorializar-se, já que os indivíduos que dependem da terra alimentam-se, vestem-se e habitam-na a partir dos recursos da primeira natureza4.

A situação do campesinato exprime muito bem essa condição de desterritorilização. Com o avanço das formas do capital, as políticas governamentais advogam primeiramente pela expansão da propriedade privada sobre a terra. Sobrinho (2015) comenta que a forma de apropriação tradicional da natureza é barrada pela reprodução capitalista. A retirada de populações tradicionais da sua terra é por muitas vezes baseadas em fraudes (respaldadas pelo Estado) ou por meio da violenta e expulsão.

4 Vários autores da filosofia, como o alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel, solidificaram o conceito de

primeira e segunda natureza, e no campo da Geografia essa discussão considera que a primeira é o espaço natural “intocado” pelo homem, ou seja, a natureza não transformada, sendo a segunda natureza aquela transformada, personificada por construções, vestimentas, enfim, objetos e bens duráveis e não-duráveis postos para satisfazer às modernas necessidades dos indivíduos (UTZ et al, 2010).

Essa massiva territorialização do capital pode ser entendida como uma corrente que visa atender aos anseios de uma economia globalizada que altera o perfil da produção e consumo mundialmente; um produto que outrora não era necessário para o bem-estar social pode ser objetivo de consumo desenfreado de boa parte da população. Becker (2006) pontua que o perfil de consumo reorganiza o mercado, modificando toda a estrutura de trabalho e da sociedade capitalista. A produção em grande escala também é geradora de pessoas que não conseguem se inserir nessas novas territorialidades, já que as formas de gestão trabalhista produzem também uma crescente exclusão dos indivíduos e engrossam as estatísticas de migração campo-cidade. Sobre essa questão, Santos e Silveira (2013, p. 52) expressam:

Uma autonomia relativa entre lugares é substituída por uma interdependência crescente e sobretudo a interdependência “local” entre sociedade regional e natureza, fundada em circuitos locais, é rompida por circuitos mais amplos, em mãos de poucos produtores. Tal evolução é geral, embora a superposição de nexos múltiplos, diferentes segundos os lugares, defina as diversidades regionais. Graças à propaganda, à industrialização, ao crédito e à urbanização, ampliam-se o consumo ao mesmo tempo que há uma transformação mais rápida de valores de uso em valores de troca, acelerada pela especialização territorial da produção, pelo novo patamar de urbanização e pela valorização da terra. É uma fase de nova integração, mas com especialização geográfica da produção material e imaterial. De um tempo lento, diferenciado segundo as regiões, passamos a um tempo rápido, um tempo hegemônico único, influenciado pelo dado internacional: os tempos do Estado e das multinacionais.

É percebido que, com o avanço do capital sobre os territórios, há a mudança do modo de vida tradicional. Essa tradicionalidade baseia-se, sobretudo, em pressupostos divinos ou naturais, que explicam o porquê da ligação de tal comunidade com a terra. A territorialização e o sentimento de pertencimento ao lugar são algo imaterial e não compreendido pelo atual sistema de mercado.

Sobre essa tradicionalidade, Harvey (2011) concorda que a territorialização ditada pelo capitalista e pelo aval das políticas dos Estados nacionais em nada tem a ver com o território do povo tradicional, como o indígena ou o camponês. O lugar da “casa” e a construção de vida em uma comunidade podem ser reconhecidos como uma arte pertencente aos indivíduos e que o capital não consegue replicar. Exemplo disso são as cidades planejadas que necessitam de toda uma infraestrutura para viabilizar a acumulação do capital.

Assim, o significado de território é muito mais profundo para as pessoas que o fazem movidas pela paixão e pelos ideais; seu território tradicional não está em consonância com o mercado de terras e com o sentido de propriedade privada do mundo moderno. Dessa forma, mesmo com a forte ligação das populações tradicionais no meio rural, é possível

afirmar que o maior mérito do avanço capitalista é a recriação de territórios, o que convém chamar de reterritorialização.

Como afirma Harvey (2011), essa drástica reorganização espacial da produção não é tão somente uma aniquilação das tradicionalidades através das décadas: ela pode ser entendida como uma destruição criativa, ao passo em que promove a substituição dos valores simbólicos agregados a terra por valores de especulação do capital. Ou seja: a terra ganha valor de mercado e inicia-se uma especulação sobre as terras que outrora não tinham valor para o capitalismo.

A partir dessas constatações, Harvey (2011, p.157) traz o seguinte questionamento:

Então, nossas cidades são projetadas para as pessoas ou para os lucros? O fato de tal questão ser colocada com tanta frequência nos leva imediatamente para o terreno da grande variedade de lutas sociais e de classe na formação do lugar. Estas são as paisagens em que a vida diária tem de ser vivida, as relações afetivas e solidariedades sociais são estabelecidas e as subjetividades políticas e os significados simbólicos são construídos. Os interesses da classe capitalista e dos desenvolvedores são conscientes dessa dimensão e procuram mobilizá-lo por meio do apoio à comunidade ou à cidade e da promoção deliberada de um sentido de identidade local ou regional, fundamentando-se às vezes com sucesso sobre as sensibilidades populares derivadas das fortes relações com a terra e o lugar.

Ou seja, a reterritorialização gerada pela modernidade que o capitalismo traz transforma até as relações afetivas que a população tem com seu território, impelindo-as a internalizar que as “benesses” da transformação do espaço são o melhor para o crescimento social. No entanto, todo o esforço do capitalista para unir a sociedade no entorno da industrialização e da modernização das cidades tem como objetivo alicerçar a acumulação capitalista.

Essa dicotomia é justamente a que gera questões territoriais conflituosas entre população camponesa tradicional e o modo capitalista de se territorializar / produzir é muito sentida no campo. O camponês, de fato, avançou pelas terras brasileiras não com o intuito de expandir sua produção ou especular sobre os seus domínios. Impelidos pelo simbólico, suas moradias seguiam ou rumo natural (margeando o rio, por exemplo) ou cultivando onde o grande fazendeiro permitia.

Mesmo nas primeiras incursões coloniais, os pequenos roceiros (negros escravos, por exemplo) já se estabeleciam em pequenas vilas levantadas com técnicas passadas de geração para geração. Isso pode ser percebido ao analisarmos as moradas de pequenos

produtores ou negros escravos no período colonial. Até mesmo no século XXI, essa arquitetura mantém-se no meio rural brasileiro.

Em suma, a territorialização camponesa remete ao tradicional modo de vida e sua íntima relação com a terra. Com um tempo não cronometrado, o homem convive na natureza e nela produz para sua subsistência e de sua família. Os conflitos territoriais são gerados justamente pela oposição que a territorialização capitalista faz junto ao camponês. A movimentação da modernização no campo brasileiro é geradora de intensos conflitos (muitas vezes violentos), o que impele o camponês a deixar suas terras e a proletarizar-se. O meio rural sofre um processo de reterritorialização, no qual há a sobreposição, por meio da força, do novo território capitalista.

O que é necessário entender primeiramente é como essas disputas territoriais existentes a partir do avanço do capital sobre as terras camponesas interferem na vida rural, nas condições naturais, na situação social e econômica da sociedade, particularmente no Piauí, foco do estudo.